Verão

Pensamento-ação de Artaud no ato de doar teatralidades… que me lembram Clarice

Foi um comentário deixado no Agachamento por uma aluna da UFMG, a Raísa, que  me fez relembrar como Artaud e suas formas-conteúdo conversam com o que venho pensando sobre novos modos de fazer circular a linguagem teatral: para fora do prédio chamado Teatro, para fora da assim chamada (e famigerada) Sala de Aula.

Em suas novas formas, o acontecimento teatral também não está no dizer autoral do ator, nem do diretor, nem do dramaturgo: o acontecimento é relacional, seu foco é o Outro; este Outro poderia ser chamado de espectador, mas ele é também o outro ator, o outro em mim – ou todos os outros possíveis que não sou, e os impossíveis que crio e convivo, no âmbito ficcional: o não-eu, enfim.

No nosso experimento teatral, que acontecerá já no ano novo!, o Outro será aquele que usufruirá das nossas Dramaturgias do Espaço. Esta ideia vem também do apego que tenho à noção de arte relacional. De fato penso que encontrar as ideias de Nicolas Bourriaud, reunidas num pequeno-grande livro, Estética Relacional, fechou uma gestalt em mim: a que desenha, tal como numa mandala, a união dos meus interesses, de profissão e de vida; entre a psicologia e o teatro, entre a psicanálise e o ensino de arte. E portanto também me levou a um campo híbrido, das áreas de conhecimento bem como da materialidade do meu trabalho desde… 1982, quando me iniciei como artista educadora, sob supervisão do Ilo Krugli (Casa do Ventoforte, São Paulo). Naquele ano deixei a graduação em Teatro na Escola de Comunicações e Artes da USP em nome de um “empirismo radical”; em nome da liberdade de criar, mas também em nome do início da minha vida adulta junto a um companheiro, artista, bem mais velho do que eu e que advogava nas leis do Atelier Livre.

Trinta anos depois me vejo convivendo com os jovens graduandos em teatro, agora em Belo Horizonte, e na posição de professora-doutora! É esta espécie de virada, ou novo ciclo, que registro aqui, na última postagem deste ano, fechando o segundo ano de existência do site-blog Agachamento.

Foi aquela significação existencial que deixou a mudança de cidade e de vida mais leve, que me faz ter muita vontade de ensinar e pesquisar, que me deixa numa situação paradoxal de me sentir com 51 anos cronológicos e 19 anos de alma – idade que tinha quando desisti da faculdade de teatro, projeto talvez agora retomado, do lado de lá da mesa, como se diz.

Retrato de Clarice Lispector por Carlos Scliar

Clarice por Carlos Scliar

 

 

Termino agradecendo meus alunos que na convivência me rejuvenesceram e termino o ano ao som de Clarice Lispector, que disse em entrevista:

Eu não sei porque escrevo. A gente escreve, como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que escreve. Escrever é um ato solitário, solitário de um modo diferente de solidão.

 

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