Se eu morresse amanhã / Postagem 8 para um Grupo de Amizade

Postagem 8 / Grupo de Amizade

 

Para a discussão da oitava postagem do grupo de estudos remoto guardei o tema dos

 

incompossíveis

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Palavra e noção das mais intrigantes… e que me chamou a atenção, pela primeira vez, quando dei com ela no livro O visível e o invisível: um livro confuso, complexo, cheio de entradas e saídas, com muitas e muitas notas ao final – provavelmente por ser um manuscrito de Maurice Merleau-Ponty publicado como livro, postumamente. Um registro de verdadeiro work in process do pensamento e escrita do filósofo, que faleceu antes de terminá-lo; o texto foi organizado por outro filósofo, Claude Lefort, que também escreve um prefácio e um posfácio (textos que valem a pena, para os interessados em aprofundar-se no estudo e pensamento de Merleau-Ponty).

Na segunda página daquele livro lemos:

 

(…) a única maneira de ajustar-se a esses enigmas figurados, a coisa e o mundo, cujo ser e verdade maciços fervilham de pormenores incompossíves.

Pois se é certo que vejo minha mesa, que minha visão termina nela, que ela fixa e detém meu olhar em sua densidade insuperável, como também é certo que eu, sentado diante de minha mesa, ao pensar na ponte da Concórdia, não estou mais em meus pensamentos, mas na ponte da Concórdia; e que, finalmente, no horizonte de todas essas visões ou quase-visões está o próprio mundo que habito, o mundo natural e o mundo histórico, com todos os vestígios humanos de que é feito – é certo também que esta certeza é combatida desde que atento para ela, porquanto se trata de uma visão minha. (…)

 

Fui ao dicionário comum, busca inicial para escrever aqui sobre minha atração pela palavra

incompossível:

incompatível, inconciliável

que não entra em acordo com

 

E, pesquisando por camadas, na Internet, vou percebendo que Leibniz se ocupou da incompossiblidade como noção filosófica, “mundos incompossíveis”… e que Deleuze a retomou. Encontro [em um livro inusitado, chamado Cinema, História e Melancolia] uma citação relativamente mais simples, e rica também:

“Enquanto compossibilidade pressupõe continuidade e convergência de séries em um mundo,

a incompossibilidade se caracterizaria pela inexistência de uma continuidade possível entre as séries por um hiato no continuum, pela quebra de continuidade entre elas

(Carvalho apud Gomes, 2015, p.4-5)

 

Para Leibniz, os incompossíveis revelariam “paralelas que não se tocam”. No mesmo inusitado livro Cinema, História e Melancolia há uma citação de Peter Palbert:

 

as incompossibilidades e os desacordos pertencem ao mesmo mundo”.

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Devagar, vou depurando como e porque a palavra me atraiu… percebo que ela casa demais com o que penso sobre os mundos possíveis, em termos ficcionais… Campo da invenção… Sensação do bebê winnicottiano de que o mundo estava ali para ser descoberto por ele… (e por isso Winnicott nomeia o “espaço potencial” também como “área da ilusão”).

 

Então, retomando o desafio iniciado na Postagem 1, procurando definir “arte”, redesenho:

 

arte é um campo onde as paralelas se encontram, os incompossíveis convivem, espécie de desafio e teimosia brincante de conciliar e acordar termos e hipóteses distantes, bem como descrever, retratar, habitar contextos e situações partidas, quebradas, separadas; aventurar a criação; fugir na presença; forjar ausências; escrever! cartas / diálogos e monólogos / roteiros / cenas / obras enfim que unam tempos, espaços, corpos, mundos, línguas, outros…

 

Agora perto do fim das sete postagens – as postagens que serão afinal nove, pois penso na primeira delas como introdutória (apresentação do fragmento escrito no texto Guerra de maçãs) e a última será uma espécie de fechamento para nosso estudo remoto, marcado pela pandemia e confinamento – me dou conta de como estive desde 1983 me ocupando com a compreensão desse espaço do brincar, que nos termos de Winnicott, se transformam ou se transcriam, na adultícia, em prazer na profissão: seja o cientista, o filósofo, o poeta, o religioso, todo trabalho importa, se há transicionalidade. Transicionalidade é uma palavra dos estudiosos de Winnicott para os fenômenos de troca e transformação que arte, ciência, filosofia, religiosidade humanas proporcionam. Percebo que tentei, durante essas semanas no Agachamento, criar um campo virtual de conhecimento e troca, e que a Internet poderá, cada vez mais, ser “espaço potencial” poderoso, se nos educarmos para ele e com ele, para ela e com ela, por assim dizer.

Voltamos ao campo da educação. (Ah de fato nunca saímos, rs) Muitos professores foram jogados, empurrados, forçados a “virtualizar” seu trabalho, sua força de trabalho, seu campo de conhecimento, seu modo de ensinar, com a quarentena e o distanciamento social impostos pelo Corona Vírus. Vi que, para muitos, isso significou uma espécie de violência: não “aquisição” de novas “ferramentas”, mas necessidade ferrenha de manutenção de suas rendas. A rede pública do estado de Minas Gerais está usando o canal de TV Rede Minas para transmitir aulas… e é tão parecido com o “Telecurso”, educação para adultos pela televisão na minha infância, décadas de 1960-1970! E mesmo prestes a iniciar a terceira década do século XXI, é sabido que o sinal [de televisão aberta!] não chega a todos, e os professores não foram responsáveis, eles mesmos, pela criação do conteúdo – mas precisam obrigatoriamente “dar plantões” on line para que “tirem dúvidas” dos estudantes… de aulas que não deram. Chega num aplicativo o material didático; as crianças e os pais querem imprimir… quem pode, assim o faz, e as escolas vão imprimir para quem não tem como… (Precisaria imprimir? Na lógica da leitura on line, não…)

Talvez o momento seja de viver incompossibilidades: a linha da virtualidade quebrou a regra do paralelismo e veio rabiscando tudo o que foi linearmente construído, inclusive as caixinhas das disciplinas. Pois pensem: é teatro o que o professor está propondo na telinha com vinte cinco, trinta, trinta e cinco meninos on line? Penso que os conservadores responderão rapidamente que não, não é teatro; mas quem estudar filosofia e não apresentar fobia com as tecnologias, poderá semear mais um campo de sua “poética própria”, no caminho que Jorge Dubatti, estudioso argentino, até mesmo já nomeou: o tecnovívio. Um dos mundos possíveis. Para quase todos, algo incompossível no século passado, não?

images-3Assim apareceu outra significação para a atração que a palavra “incompossível” exerce em mim: a incompossibilidade entre estar na UNESP para o pos-doutorado e o confinamento pelo Corona Vírus está permitindo que eu me dedique, de modo cuidadoso e por nove semanas, a um grupo de estudos remoto. Pensando de modo filosófico, artístico-existencial: estou sim na UNESP, e onde mais tenham pessoas clicando em “Se eu morresse amanhã”.

Cantou Belchior: “Ano passado morri / mas esse ano não morro”.

 

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