Aluno copo vazio

Sobre ensinar a mesma aula, cotidianamente

Desde o início do semestre letivo, início tardio desvio à greve dos professores das Universidades Federais, que me sinto “dando a mesma aula”. Explico: trata-se de um recurso didático; ou ainda, do uso de um tipo de discurso: acumulativo e fenomenológico, que pretende ampliar as referências dos alunos sobre um mesmo tema.

Nas aulas da terça-feira, o “tema” é a desconstrução dos modelos estabelecidos, firmes e fortes das fórmulas de aulas de teatro; nas aulas de quarta-feira, o “tema” é o vazio, ou ainda, o esvaziamento de espectativas de ser “professor de teatro”, para conseguir aprender algo com o outro: apreender algo sobre teatralidade e vida, compreender algo sobre as noções extremamente atuais de arte relacional. Alguns alunos fazem as duas disciplinas. Cuido para não ser repetitiva demais, e me defendo (comigo mesma, pois os alunos tem sido extremamente gentis!) argumentando que a repetição é uma estratégia de… des-ensino!

Evoco Gilberto Gil:

imagem de buraco negro

ser buraco negro, enorme concentração de energia

É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar

É sempre bom lembrar,

Guardar de cor

Que o ar vazio de um rosto sombrio

Está cheio de dor.

Como e por que eu gostaria de imprimir vaziuras nos corpos, corações e mentes dos alunos da graduação em Licenciatura em Teatro da UFMG?

Trata-se de cultivar estagiários zen, cujo estado de espírito deixará com que a presença se torne o principal foco das aulas / não-aulas de teatro. Explico: a “não-aula” é um projeto de instalação por exemplo, uma intervenção em um espaço público que converse com os transeuntes de todos os tipos, idades, graus, números e gêneros. Fazer este experimento, agir sem agir de modo dramático, mas antes de modo existencial e invisível, é o princípio do ensinamento do aluno copo vazio. Estarão cheios de ar do espaço ocupado, e do vento provocado por aqueles que visitarem as instalações… sem serem convidados. A presença do aluno criador da espacialidade narrada na instalação deve se tornar ausência, de modo que a presença daquele que usufruirá se destaque, tal como figura-e-fundo. A isso nomearemos cena contemporânea.

imagem do quasar

guarde no copo vazio sua energia quasar

3 comments for “Aluno copo vazio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *