Postagem a convite / Luciana Cezário comenta o grupo de estudos remoto

[Sem nome]

ou

10 fragmentos a um grupo de amizade

 

1

– Morto!

– Vivo!

– Morto!

– Morto!

– Vivo!

–  Tem também caixão, professora.

– Morto!

– Vivo!

– Caixão!

[me empolguei]

– Morto!

– Caixão!

– Vivo!

– Zumbi!

– Múmia!

– Caveira!

– Lobisomem

– Fantasma!

[André se deitou no chão, se contorceu. Propôs: Morto-André]

– Vivo!

– Caixão!

– Morto André!

[Aos poucos, as crianças criaram outros motes para o jogo}

– Morto! 1 - Otavio2

– Vivo!

– Passarinho!

– Gato!

– Onça brava!

– Coelho!

– Árvore!

– Gato Bravo!

– Bailarina!

– Amendoim!

– Foguete!

– Baú!

– Rainha!

– Borboleta!

– Coração!

– Pipoca!

– Curupira!

– Moeda!

– Relógio!

– Vivo!

– Vivo!

– Vivo!

– Vivo!

[Vivo]

2

Ao dar aulas de teatro para um grupo de 30 crianças que tinham entre 06 e 10 anos em uma escola da rede particular de Contagem, na região metropolitana de BH, em condições de trabalho não muito boas, tive que, literalmente, reinventar a roda! Explico-me: minhas aulas geralmente começam em roda – a roda e o chão como dois elementos que fundam uma experiência teatral. Com esse grupo de crianças eu não conseguia fazer roda! Tampouco conseguia dar aulas. Já refleti muito se as dificuldades de se fazer roda tinham a ver com questões relacionadas à classe social. Por mais que eu já tivesse trabalhado em contextos com diversos tipos de dificuldades, eu sempre havia conseguido fazer roda. Parecia um conhecimento básico e, no entanto, aquelas crianças não conseguiam.

(…)

O ato de fazer roda é eminentemente coletivo. Preciso olhar em volta, perceber o movimento do grupo, me deslocar, ter consciência de quem está do meu lado esquerdo, direito. Mesmo que eu não tenha consciência sobre o que é esquerda e direita, fazer roda é um ato político!

Tive dificuldade de abrir mão da roda, mas percebi que uma professora não pode ser afeita à rigidez – correndo o risco de se tornar uma caveira. Sei que brincar de morto-vivo para começar a aula de teatro [e conseguir inaugurar uma relação coletiva com as espacialidades, temporalidades, corporalidades e inventar modos de estar e de criar juntos] tem conotações comportamentalistas. Que os deuses do teatro me perdoem; que Paulo Freire me queira bem: foi onde achei uma brecha.

3

Além do jogo Morto-Vivo que se desdobrou em múltiplas possibilidades, não consegui realizar muitas coisas com aquela turma. Pedi demissão pouco depois.

4

Como professoras e professores ficamos muito contentes em compartilhar processos quando eles “dão certo”. Sonho com o dia em que consigamos construir espaços seguros para compartilhar nossos fracassos e fragilidades.

5

A solidão da morte é também a solidão da vida: a solidão da docência. A docência é uma ação coletiva solitária.

6

Na docência é preciso cultivar a sabedoria de não ter o que dizer: a coragem de não-saber. Acolher o silêncio. Deixar espaço nas frestas. Permitir arejar as perguntas.

7

Para viver a docência é preciso suportar as lacunas. É preciso morar nas lacunas. Esses interstícios incompossíveis: onde o novo pode habitar. Por um lado, há que se suportar o intangível da docência – que Freud chamou de profissão do impossível. Por outro, a surpresa da relação desvela inéditos possíveis: Viva Paulo Freire!

8

Segure entre os braços um tecido. Macio. Fino. Devagar, passe o tecido por toda a extensão do seu corpo. Você pode começar da cabeça e, suavemente sentir a textura do tecido em cada poro, em toda a pele. Agora, ajeite esse pedaço de pano:

Como se fosse neném

Como se criasse barriga

Como se ainda feto

Como se virasse teto

Como se fizesse corcunda

Como se apertasse o cinto

Como se pulasse corda

Como se movesse cobra

Como se sofresse touro

Como se voasse varal

Como se fluísse Rio

Como se quisesse mar

Como se caísse chuva

Como se tivesse praia

Como se pudesse abraço

Escolha trilha sonora

Como se houvesse

Dança

9

Como se pudesse abraço

Mande uma música cantada por você

Via áudio do WhatsApp

10

Foucault e Marina.

Marina e Foucault.

Aceito os convites.

Não há contradição.

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