Postagem a convite / Alice Vieira comenta o grupo de estudos remoto

Se eu morrer amanhã,

postagem alicediga que eu tinha paixão pelo teatro, que tive outros amores também, mas que o teatro foi especial por nunca desprezar qualquer coisa que eu senti e vi durante a vida. Diga que o teatro é feito de uma vida inteira, mesmo com as durezas do mundo, isso sempre foi um tipo de felicidade para mim. Se eu morrer amanhã, fale que aprendi com os mestres e mestras a olhar dentro dos poros, das camadas das coisas. Diga que pensei os pensamentos deles, tentando buscar em mim coisas importantes de serem ouvidas/ditas e que eu sempre me lembrei de fazer “teatro para ser feliz”. Se eu morrer, não se esqueça de dizer a todos que eu achava que ensaiar pecinhas nas escolas que trabalhei, com prazo apertado para apresentação, não é bem felicidade, que a cada aula a gente inventa uma língua própria e por isso o teatro não cabe nas cartilhas duras. Fale também que escolhendo trabalhar com a imaginação, de alguma forma, se arranja um jeitinho de ser criança por mais tempo. Depois conte, meio sem certeza, que esta pode ter sido a razão do teatro na minha vida. Diga para quem quiser ouvir que, através do teatro, as coisas não foram só coisas para mim, casa não foi só concreto, rua não foi só asfalto, mãe, apesar de muito, não foi só mãe e que um leque pode virar um pássaro ou um lago. Que até lavar várias vezes as próprias mãos para matar um vírus, pode ser teatro se você, pelo menos uma vez, consegue ver o tempo nas pequenas novas rugas ou sentir com atenção a água gelada escorrendo na pele. Se eu morrer amanhã, diga que quando eu era criança eu achava que deveria ser sempre muito prático ser atriz, porque os atores só precisavam levar no ônibus o próprio corpo para o trabalho, sem qualquer maleta com coisas dentro. Então, ria disso e em seguida comente que eu estava um pouco enganada. Comente que eu quis pagar todas as contas com o teatro e não consegui, que tive chance de odiá-lo e não o odiei verdadeiramente. Se eu morrer amanhã, morrerei sem saber como o teatro toca os outros, sem saber se toquei definitivamente alguém com o que fiz até aqui. Espero que até o dia da minha morte eu saiba o que é esta arte para mim. Até lá estarei deitada neste lugar de onde se vê o mundo. Nesta coisa que me deixa tão viva que é o teatro.

Deixo aqui um trecho de um poema do poeta Herberto Helder, que descobri através de outra poeta que admiro:

“Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha?

e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente.”

Alice Vieira

Junho, 2020

 

 

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