Porque não fazer parte da Semana Mundial do Brincar

Semana mundial do brincar

Estamos na semana mundial do brincar. Ao mesmo tempo acabei de voltar da conferência das geografias da infância, juventude e famílias como escrevi na postagem anterior. E também estou me empenhando em escrever meu segundo projeto de pos-doutoramento, que irá atualizar as ideias do livro O brinquedo-sucata e a criança. Tudo junto misturado…!

Tanto se diz sobre a criança e o brincar. Quero muito retomar e reconectar com um parágrafo escrito por Walter Benjamin, um importante filósofo alemão do século XX que escreveu coisas muito interessantes sobre a infância. O texto com o qual volto a conversar, não por acaso é a epígrafe que escolhi para a abertura do livro do Brinquedo-sucata, diz assim:

Meditar com pedantismo sobre a produção de objetos – material ilustrado, brinquedos ou livros – que devem servir às crianças é insensato. Desde o Iluminismo isto é uma das mais rançosas especulações dos pedagogos. A sua fixação pela psicologia impede-os de perceber que a Terra está repleta dos mais incomparáveis objetos da atenção e da ação das crianças. Objetos dos mais específicos. É que as crianças são especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atuação sobre as coisas se processa de maneira visível. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos detritos que se originam da construção, do trabalho nojardim ou em casa, da atividade do alfaiate ou do marceneiro. Nesses produtos residuais elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente sobre elas, e somente para elas. Neles, estão menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer entre os mais diferentes materiais, através daquilo que criam em suas brincadeiras, uma relação nova e incoerente. Com isso as crianças formam o seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande.

capa benjaminRetirei o texto da edição mais atual do livro Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação, de Walter Benjamin, agora editado e traduzido com mais cuidado por Editora 34 e Livraria Duas Cidades (São Paulo, 2002; 2009). Imaginem que o trecho foi escrito cem anos atrás! Hoje a indústria cultural voltada para as crianças é vasta, e voraz. E a citação ainda faz sentido…! Pois as crianças estão no mundo, e haveriam de ser deixadas livres para descobri-lo, a seu modo; embora o grau de liberdade hoje se desenha como “liberdade assistida”, pelos temores adultos em relação ao mesmo mundo, gerido por eles mesmos diga-se de passagem…

… Então é assim que tenho retomado meu primeiro livro: em nome do que Winnicott chamou de “brincar livre e criativo”; conexão com as relações entre pessoas, e não com os brinquedos industrializados; um brincar que é de fato uma atitude, na direção do direito a ser o que se é, e na direção de um dever dos adultos em permitir um momento inicial nas vidas no qual se possa brincar imaginativamente – brincar não como componente curricular, mas como ação constitutiva de nosso lastro de subjetividade, criação e pertença.

Por isso não vou aderir à portentosa “Semana Mundial do Brincar” – pois, semelhante ao Dia da Criança, ao Dia da Mulher ou ao Dia do Índio, penso haver uma falácia na data comemorativa. O brincar das crianças deve ser exercido 365 dias ao ano, 366 nos anos bissextos, e não “no dia do brinquedo” nem tampouco “dentro da brinquedoteca”. Brincar é um modo de ser e estar no mundo.

Tem um imã de geladeira que tem escrito duas frases: nós não paramos de brincar porque envelhecemos. Nós envelhecemos porque paramos de brincar. Eu tenho um desses. E você?

4 comments for “Porque não fazer parte da Semana Mundial do Brincar

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