Boyhood & Motherhood

Boyhood & Motherhood [Meninice e maternagem]

Assisti ontem o filme “Boyhood” (direção de Richard Linklater, lançado em 2014); tinha uma expectativa imensa: sabia que foi um filme feito ao longo de doze anos, com os mesmos atores profissionais, e não-atores também, em um tipo de narrativa work-in-process / trabalho em processo onde as crianças crescem e os pais se casam, separam, arrumam novos trabalhos, precisam mudar de cidade… Misto de documentário e ficção: há um roteiro, mas o documentário se faz pelas transformações das pessoas e dos modos de vida, simples assim:

Ator de boyhood crescendo

entretecimento vida e arte

A experiência de ver o filme superou a expectativa! Um filme longo onde “não acontece nada” (impressão de pessoas algumas poltronas prá lá) – e o bilheteiro avisou, ao comprarmos ingresso: “o filme tem três horas de duração”… Ví até senhorinhas precisando de distração em determinados momentos e consultando seus smartphones… Também li comentários bem entediados no Youtube.

No entanto, para mim – meu perfil, meus gostos por um tipo de cinema e arte – este filme é um presente. Quase o filme-da-minha-vida, ou o filme que conversa comigo, o tempo todo. É algo tão forte assisti-lo, que ele permanece em nós. Tenho três razões para tamanha empatia: é o tipo de cinema que eu gostaria de fazer; também vivi uma maternagem contemporânea, por assim dizer; e também me reconheço nas crianças – na inevitabilidade de ser criança e estar imerso na vida dos adultos cuidadores, suas decisões e maneiras de ser.

Talvez especialmente para aqueles que tem filhos adolescentes ou adultos jovens, o modo narrativo faz todo o sentido. É como se víssemos nossas vidas e nossas escolhas acontecendo!, como que em “mundos paralelos” ao do filme, ao longo de mais de uma década do filme: nas situações cotidianas, diálogos intergeracionais, desejos adultos que não combinam com os das crianças…

Em depoimento o ator diz que esqueceu muito da filmagem, que suas memórias iniciam-se da metade em diante. Os atores crianças não assistiam às imagens produzidas, e Ellar diz que foi melhor assim, que nem imagina como seria assistir quando estava com treze anos, por exemplo. Disse que sua família ficou surpresa e confusa ao assisti-lo, e comenta que pode imaginar como e porque, uma vez que sua infância ficou preservada na tela do cinema, mas foi embora na vida real… Comenta que se reconhece naquele menino, e percebe que pouco dele mudou: ele já ali estava. Isso é muito bonito, penso que é o que Winnicott chamava de “cerne do self”: nossa identidade mais autêntica e profunda, algo que não deve jamais ser violado. E nesse sentido o cineasta foi extremamente cuidadoso: o roteiro aos poucos incorporava maneiras de ser dos meninos, de modo coloquial.

Ellar Coltrane: ator ou performer de si?

 

 

 

5 comments for “Boyhood & Motherhood

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *