Sobre jogar fora seu pet no Ribeirão Arrudas

Muitos que frequentam o Agachamento sabem que faço cotidianamente um “exercício antropológico” diante da TV aberta… Tenho visto matérias sobre pessoas que cansam de seus animais de estimação e os jogam fora: aqui em Belo Horizonte, acontecimento visto no Ribeirão Arrudas, cujo acesso é fácil e simples na cidade – está logo ali. Alguns caem por acidente, mas muitos são vítimas de seus donos, incapazes da posse responsável.

Ribeirão: maior que um regato e um riacho, menor que um rio. No geral, os animais que não morrem ficam presos entre os muros de contenção do ribeirão.

A expansão da cidade de Belo Horizonte foi acontecendo por cima de diferentes cursos d’água existentes… isso aumentou a temperatura da cidade, gerou problemas graves: esgoto sem tratamento, lixo e enchentes. Vemos na TV aberta que muita, muita gente mesmo joga lixo no Ribeirão. [ Outro dia jogaram uma mulher!!! ] Mas, hoje, quero falar sobre jogar fora seu animal de estimação.

Como se pode descartar um animal que pegou para cuidar, em primeiro lugar?

Remeto a outra mensagem na qual fiz uma distinção entre “pet” e “animal de estimação”. Tenho pra mim que o animal de estimação é testemunha viva da gente – do momento em que o adotamos em diante, trilhamos, juntos, um caminho existencial e convivial: intenso, precioso, importante.

O animal não é uma garrafa pet (rs, jogo de palavras pobrinho) que jogamos fora – aliás as garrafas pet devem ser descartadas de modo correto para serem recicladas.

Jogar nossa testemunha viva no Ribeirão parece um ato suicida.

Um tipo de desespero, de desesperança.

Uma tortura, uma maldade que coisifica o animal vivo.

Tentando compreender esse ato, penso: somos convidados a rever nossas despesas, nesses tempos sombrios de pandemia, desemprego, corte de salários, isolamento. Alguém pensa então: o cachorro ou o gato são gastos extras…

Jogar, livrar, descartar, abandonar, por de lado, enjeitar um ser vivo pelo qual teríamos nos responsabilizado a cuidar. Amar. Acolher. Alimentar. Acompanhar.

Jogar fora uma parte de você.

Um gasto extra.

Uma companhia que dá trabalho.

Uma demanda “a menos” de atenção e carinho.

Por mais que procure elos e nexos de significação para aquilo, em nome de um tipo de olhar compreensivo, não consigo. Porque é um ato de violência. Me contamino. Fico triste. Me sinto descartada junto.

Tenho muita vontade de doar algum dinheiro para uma ONG [Resgate Animal Rio Arrudas, estão no Facebook e Instagram] que desde 2012 faz, voluntariamente, o resgate desses animais – especificamente no Ribeirão Arrudas. Criada por um marceneiro de profissão, chamado Miltinho – na foto com o cão Dimas:

Sim, a toda ação corresponde uma reação (Terceira Lei de Newton)

Pessoas na mesma cidade de Belo Horizonte trabalham, em rede, para resgatar os animais, para salvar suas vidas e dar condições para que possam ser adotados novamente.

Correto mesmo seria as cidades possuírem uma rede pública e ampliada voltada para a questão; o Corpo de Bombeiros teria um serviço de veterinária, bem como as Câmaras e Assembleias criariam leis e ações para acabar com criadores clandestinos, punição severa para maus tratos e para comércio ilegal, campanhas em fluxo contínuo de castração animal. Há um disque denúncia para maus tratos: 181. Mas além disso pouco se faz oficialmente em prol dos animais. E da saúde mental de seus donos.

O ato de jogar fora o pet pode ser considerado uma insanidade mental e psíquica.

Dia 26 de agosto foi o “dia mundial do melhor amigo do homem”.

Nos outros 364 dias do ano, o homem deveria zelar pelo amigo… e não tornar-se seu pior inimigo.

Junto com lavar as mãos, usar máscaras e ficar a cerca de dois metros uns dos outros, todos deveriam ser educados para considerar o planeta e os seres viventes parte de seu próprio equilíbrio.

O cachorro é melhor terapeuta que o homem…

Projeto: construir uma dramaturgia do ponto de vista dos gatos e cachorros, de modo a fazer algo sobre tudo isso a partir da minha profissão, do melhor que sei fazer – escrever. Em um trabalho criativo, artivismo dizendo algo às crianças sobre responsividade – aprendizagem do cuidar. Vamos ser parceiros?

p.s.: Há um artivismo, arte e pensamento, sobre as águas de um belo horizonte… A artista Isabela Prado ganhou um incentivo pela Lei Municipal em 2018 e, no ano seguinte, instalou junto às placas de rua outras placas – que revelam os rios canalizados da cidade, a cada esquina que se vira: se essa rua fosse um rio… e é. (Quem mora em BH está reparando nessas placas?)

Postagem a convite / Charles Valadares comenta o grupo de estudos remoto

Este pequeno texto traz reverberações da experiência de Grupo de Estudos Remoto vivida no início da segunda década do século XXI, em um site-blog chamado “Agachamento”, em paralelo à crise de saúde pública que afetou o mundo.  Na época, a humanidade teve os rumos da sua história, mais uma vez, transformados.  A partir de uma plataforma virtual, pessoas de distintas partes do Brasil se encontraram para: trocar ideias e sonhos possíveis; espacializar suas imaginações; criar espaço para continuarem vivas criativamente; elaborar planos de futuro e inventar desejos de revolução. Tudo isso a partir de convívio virtual e mediados por leituras acerca de Educação, Arte, Vida e Morte:

charles 1

Em algum lugar do futuro ou “E se eu não morrer amanhã?”

Queridas pessoas que habitam o mundo,   

Bom dia, boa tarde ou boa noite. O convite que me traz aqui é ao mesmo tempo instigante e pavoroso. A princípio pensei em recusar ao compreender a tamanha responsabilidade que é tratar de tema tão caro para nossa humanidade. O que faremos aqui é um ato histórico que será legado às próximas gerações e poderá mudar o rumo do mundo e das coisas do mundo. Quem poderia imaginar que depois de anos de vida mergulhado nas múltiplas experiências de confinamento o tal do “novo mundo” nos traria essa possibilidade: a elaboração do Livro Universal das Definições-Indefinidas do Mundo (LUDIM). Este novo patrimônio da humanidade servirá de inspiração para criação de Políticas Públicas Universais em Educação e Cultura a serem adotadas por cada país-membro desse movimento de unificação global, respeitando as diversidades culturais de cada lugar, os modos de existência e especificidades próprias dos povos.  Sinto-me honrado por ser uma das várias mãos que contribuirá no LUDIM com a definição-indefinida de “Arte”. Espero inspirar revoluções:

Arte é lugar

Arte é acontecimento

Arte é depoimento

Arte é conhecimento

Arte é relação

Arte é invenção

Arte é beleza

Arte é espanto

Arte é espaço “entre”

Arte é espaço para tristeza

Arte é espaço para alegria

Arte é espaço para o nada

Arte é espaço para o vazio

Arte é espaço para o inútil

Arte é espaço para liberdade

Arte é espacialidade

Arte é profissão

Arte é reflexão

Arte é política

Arte é revolução

Arte é fruto do seu tempo

Arte é desejo

Arte é vida-e-morte

Arte é morte-e-vida

Arte é morte

Arte é vida

Arte é respiro e falta de ar (tudojuntoemisturado)

Arte é caminho de elaboração de sentimentalidades

Arte é um prego de veludo fincado em prato de angu mole

Arte é reconhecimento de uma parte de si que está no outro

Arte é direito de toda e qualquer pessoa humana habitante do planeta terra

Arte é, foi e sempre será intangível, indefinível por um só prisma e intraduzível em uma só língua.

 

charles 2

Charles Valadares

 

Sobre fazer 59 anos

 

BALDE

59

 

 

Feche os olhos e imagine um balde de antigamente, daqueles feitos de metal acinzentado. Faça barulho com ele. Observe bem de perto sua vaziúra. Sinta também sua textura.

 

 

Imagine agora um bebê que vai tomar banho de balde. Deixe ele agachadinho dentro do balde, enquanto você joga nele água morna. Lave o bebê com sabão de coco, carinhosamente.

Seque o bebê com uma toalha macia.

Abra os olhos e realize que aquele bebê é você mesmo.

Sorria um sorriso de banho de balde.

Lembre isso hoje à noite, na hora de dormir.

rumo aos 60

 

 

 

 

 

hoje eu faço 59 anos

 

 

 

 

Um pós-doutorado de faz de conta existe?

  Pós-doutorado sobre isso:

barbies na redeSim, meu pós-doutorado é sobre “bonecas na rede”. Ou ainda, “bonecas deitadas na rede feita de Máscara Covid”. Ou então: “bonecas em rede”. Talvez melhor assim: “bonecas e bonecos, uni-vos!”. Acho que pode ser: “Macunaíma somos todos nós”. Pensei melhor: “network das bonecas”. Não! Mude para: “bonecas em home office”…

Desde o último dia de março, até o penúltimo dia de dezembro, estou afastada das funções regulares de docente universitária, para escrever um livro. Aconteceu deste período pós-doutoral, na minha linha do tempo, coincidir com a pandemia e as quarentenas. A universidade que está me acolhendo é a UNESP e a supervisora é a Carminda André. Remotamente…

Fiquei sem chão por um período. Criei aqui no Agachamento o “grupo de estudos remoto”, com nove postagens entrelaçadas, sobre arte e ensino de arte, sobre hibridismo e arte como um lugar, sobre a possibilidade da abordagem espiral. O livro que estou criando é sobre tudo isso também.

Mas há um tema específico. Algo muito caro na minha obra, em meu percurso. É o brincar imaginativo – o brincar invisível, o brincar que se mostra em uma atitude corporal, em sons do faz de conta, olhos que fecham e abrem e reinventam o mundo.

Não é algo apenas próprio das crianças. Mas precisa ser cultivado na infância. E quem cultiva precisa ter um saber, um saber relacionado à dança da chuva. À poeira cósmica. A bolas de fogo. A bonecas que dormem na rede. A camas de ursinhos que vão passear na floresta. Ao espaço do chão. A objetos que “querem” ser outra coisa… Era uma vez um pano que não queria ser pano.

Por vezes acho que estou trancada na bolha dessa escrita. Depois olho para os lados e vejo todos nas bolhas. Depois penso em um dia que um aluno do curso de teatro me pediu para ensinar a brincar de faz de conta… em uma “optativa”. Na hora estranhei demais. Hoje vejo que muitos atores jovens de fato não brincaram imaginativamente em suas infâncias de século XXI.

Por vezes me sinto com cinco anos de idade. Depois olho para quem fala comigo por telefone (sim, “O telefone voltou!” disse um médico das antigas) e vejo todos, em momentos de crise e sensibilidade, com idades entre quatro a cinco anos, embora sejam adultos em termos cronológicos…

Por vezes me sinto parada no tempo. Depois vejo na Netflix a série Feito em Casa (Homemade) e encontro pares! Outros adultos confinados criando, em suas molduras profissionais. O relógio volta a funcionar.

Minha moldura profissional é o brincar que não é a aprendizagem da Brinquedoteca. A moldura é oca, não tem figura, o quadro será o que se quer e se pode imaginar… Imagine você!

Estou escrevendo exercícios de agachamento poético. Ler e praticar vai deixar suas imaginações fortes, com músculos apropriados: ossos e sangue, suor e lágrimas. Tive leitores do processo. Percebi que rompi a bolha e consegui dizer o que queria dizer desde muito tempo atrás, quando uma menina na aula de teatro, aos cinco ou seis anos, viu-se impedida de fazer uma aula de teatro de bonecos na qual tematizamos um diálogo entre o Anjo e o Diabo. O anjo era uma boneca de papel cartão azul; o diabo era um ancinho de jardinagem com capa de papel de seda. Depois da aula a criança ouviu em casa que não era para, nunca!, colocar a mão no diabo. O adulto encheu a criança de literalidade e esvaziou sua imaginação. Em meus escritos chamo a isso por “realismo estrito senso”—algo que faz mal para a saúde dos artistas e de todos aqueles que querem ser criadores.

O trabalho que estou maturando deve ser publicado no ano que vem. Ficarei feliz se os leitores do Agachamento se encherem de curiosidade e de esperança com a capacidade para imaginar.

Será imaginando que sairemos dessa… Imaginar é uma abertura para a transformação. Para novos mundos possíveis.

Meu pós-doutorado é sobre isso: imaginar como modo de ser e estar protagonista.

Querem um aperitivo? Lá vai:

Biblioteca

Feche os olhos e se transporte para uma imensa biblioteca – daquelas que vemos em filmes: é um grande salão, com uma escada para acessar os livros em prateleiras mais altas.

Imagine-se subindo a escada e passando pelas estantes de livros… observe suas cores, tamanhos, texturas…

Lá no topo tire um livro da prateleira para trazer com você, ao abrir os olhos.

Abra os olhos.

Crie o título do livro imaginado.

Pense no mundo dos livros.

Seja um personagem principal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Postagem a convite / Luciana Cezário comenta o grupo de estudos remoto

[Sem nome]

ou

10 fragmentos a um grupo de amizade

 

1

– Morto!

– Vivo!

– Morto!

– Morto!

– Vivo!

–  Tem também caixão, professora.

– Morto!

– Vivo!

– Caixão!

[me empolguei]

– Morto!

– Caixão!

– Vivo!

– Zumbi!

– Múmia!

– Caveira!

– Lobisomem

– Fantasma!

[André se deitou no chão, se contorceu. Propôs: Morto-André]

– Vivo!

– Caixão!

– Morto André!

[Aos poucos, as crianças criaram outros motes para o jogo}

– Morto! 1 - Otavio2

– Vivo!

– Passarinho!

– Gato!

– Onça brava!

– Coelho!

– Árvore!

– Gato Bravo!

– Bailarina!

– Amendoim!

– Foguete!

– Baú!

– Rainha!

– Borboleta!

– Coração!

– Pipoca!

– Curupira!

– Moeda!

– Relógio!

– Vivo!

– Vivo!

– Vivo!

– Vivo!

[Vivo]

2

Ao dar aulas de teatro para um grupo de 30 crianças que tinham entre 06 e 10 anos em uma escola da rede particular de Contagem, na região metropolitana de BH, em condições de trabalho não muito boas, tive que, literalmente, reinventar a roda! Explico-me: minhas aulas geralmente começam em roda – a roda e o chão como dois elementos que fundam uma experiência teatral. Com esse grupo de crianças eu não conseguia fazer roda! Tampouco conseguia dar aulas. Já refleti muito se as dificuldades de se fazer roda tinham a ver com questões relacionadas à classe social. Por mais que eu já tivesse trabalhado em contextos com diversos tipos de dificuldades, eu sempre havia conseguido fazer roda. Parecia um conhecimento básico e, no entanto, aquelas crianças não conseguiam.

(…)

O ato de fazer roda é eminentemente coletivo. Preciso olhar em volta, perceber o movimento do grupo, me deslocar, ter consciência de quem está do meu lado esquerdo, direito. Mesmo que eu não tenha consciência sobre o que é esquerda e direita, fazer roda é um ato político!

Tive dificuldade de abrir mão da roda, mas percebi que uma professora não pode ser afeita à rigidez – correndo o risco de se tornar uma caveira. Sei que brincar de morto-vivo para começar a aula de teatro [e conseguir inaugurar uma relação coletiva com as espacialidades, temporalidades, corporalidades e inventar modos de estar e de criar juntos] tem conotações comportamentalistas. Que os deuses do teatro me perdoem; que Paulo Freire me queira bem: foi onde achei uma brecha.

3

Além do jogo Morto-Vivo que se desdobrou em múltiplas possibilidades, não consegui realizar muitas coisas com aquela turma. Pedi demissão pouco depois.

4

Como professoras e professores ficamos muito contentes em compartilhar processos quando eles “dão certo”. Sonho com o dia em que consigamos construir espaços seguros para compartilhar nossos fracassos e fragilidades.

5

A solidão da morte é também a solidão da vida: a solidão da docência. A docência é uma ação coletiva solitária.

6

Na docência é preciso cultivar a sabedoria de não ter o que dizer: a coragem de não-saber. Acolher o silêncio. Deixar espaço nas frestas. Permitir arejar as perguntas.

7

Para viver a docência é preciso suportar as lacunas. É preciso morar nas lacunas. Esses interstícios incompossíveis: onde o novo pode habitar. Por um lado, há que se suportar o intangível da docência – que Freud chamou de profissão do impossível. Por outro, a surpresa da relação desvela inéditos possíveis: Viva Paulo Freire!

8

Segure entre os braços um tecido. Macio. Fino. Devagar, passe o tecido por toda a extensão do seu corpo. Você pode começar da cabeça e, suavemente sentir a textura do tecido em cada poro, em toda a pele. Agora, ajeite esse pedaço de pano:

Como se fosse neném

Como se criasse barriga

Como se ainda feto

Como se virasse teto

Como se fizesse corcunda

Como se apertasse o cinto

Como se pulasse corda

Como se movesse cobra

Como se sofresse touro

Como se voasse varal

Como se fluísse Rio

Como se quisesse mar

Como se caísse chuva

Como se tivesse praia

Como se pudesse abraço

Escolha trilha sonora

Como se houvesse

Dança

9

Como se pudesse abraço

Mande uma música cantada por você

Via áudio do WhatsApp

10

Foucault e Marina.

Marina e Foucault.

Aceito os convites.

Não há contradição.

Postagem a convite / Alice Vieira comenta o grupo de estudos remoto

Se eu morrer amanhã,

postagem alicediga que eu tinha paixão pelo teatro, que tive outros amores também, mas que o teatro foi especial por nunca desprezar qualquer coisa que eu senti e vi durante a vida. Diga que o teatro é feito de uma vida inteira, mesmo com as durezas do mundo, isso sempre foi um tipo de felicidade para mim. Se eu morrer amanhã, fale que aprendi com os mestres e mestras a olhar dentro dos poros, das camadas das coisas. Diga que pensei os pensamentos deles, tentando buscar em mim coisas importantes de serem ouvidas/ditas e que eu sempre me lembrei de fazer “teatro para ser feliz”. Se eu morrer, não se esqueça de dizer a todos que eu achava que ensaiar pecinhas nas escolas que trabalhei, com prazo apertado para apresentação, não é bem felicidade, que a cada aula a gente inventa uma língua própria e por isso o teatro não cabe nas cartilhas duras. Fale também que escolhendo trabalhar com a imaginação, de alguma forma, se arranja um jeitinho de ser criança por mais tempo. Depois conte, meio sem certeza, que esta pode ter sido a razão do teatro na minha vida. Diga para quem quiser ouvir que, através do teatro, as coisas não foram só coisas para mim, casa não foi só concreto, rua não foi só asfalto, mãe, apesar de muito, não foi só mãe e que um leque pode virar um pássaro ou um lago. Que até lavar várias vezes as próprias mãos para matar um vírus, pode ser teatro se você, pelo menos uma vez, consegue ver o tempo nas pequenas novas rugas ou sentir com atenção a água gelada escorrendo na pele. Se eu morrer amanhã, diga que quando eu era criança eu achava que deveria ser sempre muito prático ser atriz, porque os atores só precisavam levar no ônibus o próprio corpo para o trabalho, sem qualquer maleta com coisas dentro. Então, ria disso e em seguida comente que eu estava um pouco enganada. Comente que eu quis pagar todas as contas com o teatro e não consegui, que tive chance de odiá-lo e não o odiei verdadeiramente. Se eu morrer amanhã, morrerei sem saber como o teatro toca os outros, sem saber se toquei definitivamente alguém com o que fiz até aqui. Espero que até o dia da minha morte eu saiba o que é esta arte para mim. Até lá estarei deitada neste lugar de onde se vê o mundo. Nesta coisa que me deixa tão viva que é o teatro.

Deixo aqui um trecho de um poema do poeta Herberto Helder, que descobri através de outra poeta que admiro:

“Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha?

e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente.”

Alice Vieira

Junho, 2020