Baticum no quintal da UFMG

Primeira aproximação aos ‘espaços encontrados’

Ontem meu grupo de cinco alunos da UFMG, que farão experimentos teatrais como “estagiários zen” em espaços públicos de Belo Horizonte, aproximaram-se mais concretamente da forma-conteúdo que estou propondo no curso: receberam de mim uma caixa preta (literalmente!) com diferentes materiais não-estruturados dentro, para fazerem uma instalação-cenário de miniaturas, ao redor da árvore que tem no “quintal” da nossa sala de aula. Gosto de dizer, em situações deste tipo: “Me surpreendam!”. Saí, dei a eles cerca de dez minutos para pesquisarem a forma-conteúdo da caixa, e prepararem o que estou nomeando uma dramaturgia do espaço, em relação com os objetos, entre eles e com o mundo circundante.

A caixa continha cacos de brinquedos quebrados em pouca quantidade, palha, palitos de sorvete, alguma sucata de madeira, rolhas, cheiros do Pará, uma fita, um cordão, um dragão pequenininho de E.V.A.… E, quando entrei de volta no quintal da sala, que surpresa boa!

Quem ganhará com isso, com adultos jovens que ensinarão teatro nesta chave, em sintonia com este tipo de sensibilidade?

quintal dos anos 1960

pesquiso tudo isso desde 1963

Do meu ponto de vista, todos ganharão, embora o empregador inicialmente possa achar que “perdeu”, pois nesta lógica o que menos importa é o acontecimento de “apresentação final”. Ganharão as crianças que poderão aprender teatro em sintonia com o brincar de faz de conta, no uso de tempos dilatados, ou seja, com direito ao mergulho na experiência e sem “pressão” para “ir bem”; ganharão os aprendizes de professores, que poderão ser artistas-professores pesquisadores de suas poéticas próprias, bem como poderão estudar arte contemporânea, exercer noções de corporalidade, temporalidade e espacialidade, sentindo-se aptos a criar instalações, ambientações, happenings.

Percebo aos poucos como estes “tempos dilatados” para “espaços encontrados” questionam uma porção de coisas, incluindo a estética Facebook do registro fotográfico a qualquer custo “aqui-agora”. O teatro é feito de imagens também; no entanto, o retrato do acontecimento teatral não é o acontecimento teatral. Por isso também gosto muito dos versos do Chico Buarque: quem tava lá na praia viu / e quem não viu jamais verá – e Chico brinca: mas se você quiser saber / a Warner gravou / e a Globo vai passar! Lembram da canção? (Baticum, parceria com Gilberto Gil, 1989).

 

 

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