Infância e cena contemporânea

Infância e cena contemporânea

No ano de 2009, ganhei a bolsa FAPESP para desenvolver uma pesquisa de pós-doutorado que intitulei “Territórios do brincar”. A pesquisa foi de observação de cenas cotidianas de crianças em situações de espera na cidade de São Paulo, e minha “pergunta”, ou o mote deste momento de criar hipóteses, era: As crianças pequenas esperam, ou estão apenas por ali vivendo suas vidas? Pude constatar que as crianças vivenciam o momento, e se esperam não estão conscientes disso: estão em companhia dos adultos, fazendo algo em uma situação de contenção — pois não podem fazer grandes deslocamentos espaciais, na estação de trem, na rodoviária, no metrô ou no aeroporto… esses os settings de minhas observações. Trabalhei com meus “dados” de modo a criar um texto dramatúrgico; o caminho foi delineado pelas relações adultos-crianças, e trabalhei a escrita de situações e contextos de grande teatralidade. Também escrevi um “texto de posicionamento” sobre a criança como performer, publicado na Revista Educação & Realidade em agosto de 2010.

Esta pesquisa resume anos de questionamento a uma “Psicologia mainstream“, por assim dizer, composta por certezas e categorizações: a Psicologia do Desenvolvimento, com todas as suas correntes, polêmicas e desdobramentos. A Psicologia “alternativa” seria aquela que procura ir às ruas olhar o que as crianças fazem, quem são, como vivem, se brincam ou não brincam… Essa Psicologia é antropológica e pensa a infância, na medida do possível, do ponto de vista da criança mesma. Seu método de observação é fenomenológico e o método de análise do que se viu pode se desdobrar em muitas outras coisas, que não “resultado de pesquisa científica”: no meu caso, meus dados se transformaram em texto dramatúrgico.

Trabalhar neste contexto trouxe para mim a experiência integradora, no sentido existencial, ao ensinar uma disciplina no Pós-graduação em Artes no Centro de Artes Cênicas na ECA-USP, lugar de onde saí em 1981 sem completar a graduação… Trinta anos depois pude ser a professora-condutora de uma disciplina que propôs aos alunos algo relacionado a minha crítica ao “Teatro infantil mainstream“, crítica vivida, pensada e exercida desde a década de 1980 quando fiz parte do Teatro Ventoforte.

Estar titulada como doutora em Psicologia da Educação, com pós-doutorado em Pedagogia do Teatro, também é uma experiência integradora no sentido existencial: agora, inserida no percurso “mainstream“, posso questionar essa mesma maneira de conhecer o mundo, ao tirar meus sapatos quando sou chamada a falar e performar “A Mulher que Vira Lobo”: longe das epígrafes e dos rodapés, perto do coração da criança; longe da possível arrogância que os diplomas podem nos fornecer, perto de onde vem o baião: vem de baixo do barro do chão.

 

 

Infância e cena contemporânea

No ano de 2009, ganhei a bolsa FAPESP para desenvolver uma pesquisa de pós-doutorado que intitulei “Territórios do brincar”. A pesquisa foi de observação de cenas cotidianas de crianças em situações de espera na cidade de São Paulo, e minha “pergunta”, ou o mote deste momento de criar hipóteses, era: As crianças pequenas esperam, ou estão apenas por ali vivendo suas vidas? Pude constatar que as crianças vivenciam o momento, e se esperam não estão conscientes disso: estão em companhia dos adultos, fazendo algo em uma situação de contenção — pois não podem fazer grandes deslocamentos espaciais, na estação de trem, na rodoviária, no metrô ou no aeroporto… esses os settings de minhas observações. Trabalhei com meus “dados” de modo a criar um texto dramatúrgico; o caminho foi delineado pelas relações adultos-crianças, e trabalhei a escrita de situações e contextos de grande teatralidade. Também escrevi um “texto de posicionamento” sobre a criança como performer, publicado na Revista Educação & Realidade em agosto de 2010.

Esta pesquisa resume anos de questionamento a uma “Psicologia mainstream“, por assim dizer, composta por certezas e categorizações: a Psicologia do Desenvolvimento, com todas as suas correntes, polêmicas e desdobramentos. A Psicologia “alternativa” seria aquela que procura ir às ruas olhar o que as crianças fazem, quem são, como vivem, se brincam ou não brincam… Essa Psicologia é antropológica e pensa a infância, na medida do possível, do ponto de vista da criança mesma. Seu método de observação é fenomenológico e o método de análise do que se viu pode se desdobrar em muitas outras coisas, que não “resultado de pesquisa científica”: no meu caso, meus dados se transformaram em texto dramatúrgico.

Trabalhar neste contexto trouxe para mim a experiência integradora, no sentido existencial, ao ensinar uma disciplina no Pós-graduação em Artes no Centro de Artes Cênicas na ECA-USP, lugar de onde saí em 1981 sem completar a graduação… Trinta anos depois pude ser a professora-condutora de uma disciplina que propôs aos alunos algo relacionado a minha crítica ao “Teatro infantil mainstream“, crítica vivida, pensada e exercida desde a década de 1980 quando fiz parte do Teatro Ventoforte.

Estar titulada como doutora em Psicologia da Educação, com pós-doutorado em Pedagogia do Teatro, também é uma experiência integradora no sentido existencial: agora, inserida no percurso “mainstream“, posso questionar essa mesma maneira de conhecer o mundo, ao tirar meus sapatos quando sou chamada a falar e performar “A Mulher que Vira Lobo”: longe das epígrafes e dos rodapés, perto do coração da criança; longe da possível arrogância que os diplomas podem nos fornecer, perto de onde vem o baião: vem de baixo do barro do chão.

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