Teatro Ventoforte

Homenagem ao Teatro Ventoforte: acontecimento ético, estético e político

O Teatro Ventoforte foi um acontecimento muito especial da vida cultural paulistana na década de 80. Penso que, em São Paulo, o Grupo Rumo, Itamar e Arrigo Barnabé na MPB, dentre outros — e o Ventoforte no teatro — aconteciam de modo ‘alternativo’ e levavam muita gente para fora da comodidade de suas casas… Naquele tempo foi fundado o Partido dos Trabalhadores, e um novo Brasil se desenhava, algo que culminou na campanha das “Diretas Já”.

No meu percurso pessoal, a vinda do Grupo Ventoforte para São Paulo significou a chance de fazer o curso de formação de atores para teatro infantil. Na época o Ventoforte funcionava numa casa na rua Tabapuã; tínhamos aulas de segunda a quarta à noite e as propostas eram maravilhosas. Uma turma de alunos foi convidada para realizar o espetáculo “Luzes e Sombras”, no qual o Ilo teatralizava brincadeiras das nossas próprias infâncias, além de colocar em cena depoimentos pessoais dos atores, misturando realidade e ficção, muito antes disso entrar em “moda” no cinema e na literatura.

Durante as noites, saíamos para “vivências” pelas ruas do Itaim Bibi, que não era ainda o bairro chique de agora. Saíamos descalços, levávamos bonecos para passear, conversávamos com transeuntes como personagens… A vida era bela e valia a pena ser vivida.

Curso para atores

Casa do Ventoforte: lugar onde os atores do grupo residiam, davam aulas e onde construíram um teatro no espaço do quintal da casa, com lotação de cerca de 150 lugares. Com apoio da FUNARTE, iniciaram ali diversas atividades: a mais marcante foi o curso de formação para atores de teatro infantil, com aulas nas noites de segunda a quarta-feira, de modo que atores profissionais que eventualmente estivesem em cartaz, de quinta a domingo, pudessem frequentar as aulas.

Entre 1980 e 1982 frequentei esse curso. Lembro intensamente das aulas do Ilo, de Paulo César Brito e de Sônia Piccinin. Abria-se para mim, aos 19 anos de idade, um campo de criação e poiesis cuja dimensão, na minha vida, só percebi alguns anos mais tarde. De fato o curso no Ventoforte foi um divisor de águas na minha vida, marca definitiva para minha concepção de arte, teatro e infância.

As disciplinas do curso criado pelos membros do Ventoforte eram curiosas – cito alguns dos seus títulos: “Sensibilização em volta dos quatro elementos da Natureza”; “Mitos e contos de fada/análises e dramaturgia”; “Máscaras e bonecos”. Fazia também parte do curso participar de dois projetos educacionais da Casa do Ventoforte: “O quintal, espaço esquecido” e “Projeto Interação/Integração Escola-Comunidade”. Nesses projetos encenamos o trabalho interativo “As Quatro Chaves” e ensinamos arte para crianças de uma escola pública do entorno. Tudo isso, muito antes da existência do jargão “contrapartida social”!

Ensino de arte

Iniciei meu trabalho com crianças no âmbito da arte-educação totalmente baseada na empiria vivida nas aulas do curso de formação de atores, com o grupo Ventoforte. Com Ilo aprendi o que é trabalhar criativamente com crianças: sem metodologia explícita, trabalhávamos simplesmente com propostas semelhantes às que vivenciávamos nas aulas de teatro. Algumas davam certo, outras não, mas não havia problema nisso: tudo era processual, tudo era acontecimento.

Visito meu caderno de campo escrito na época e vejo ali um misto de frescor e ingenuidade, palavras de alguém que descobriu o potencial criativo das crianças – bem como suas questões sociais tais como tédio e submissão aos padrões escolares – aos 20 anos de idade.

Era um tempo em que não era pré-requisito estudar faculdade de Pedagogia para ensinar crianças… Era um tempo em que não precisávamos autorização por escrito dos pais para sair pelo quarteirão com os alunos… Noutras palavras, um tempo de muita liberdade e valorização das “metodologias do fazer”! Sou grata aos meus mestres da Casa do Ventoforte por indicarem o caminho oposto ao da arrogância do saber puramente teórico, propondo a trilha auto-biográfica das experiências vividas, uma pedagogia da paciência e da espera da maturação de cada um.

Luzes e Sombras

Luzes e Sombras - Teatro Vento Forte

Penso que todos os jovens atores, ou aspirantes a atores, que passaram pelo Teatro Ventoforte têm lembranças especiais desta forma de aprender e praticar teatro, sob coordenação de Ilo Krugli. Mas sinto que as pessoas da primeira turma de alunos do curso de Formação de Atores, assim que o grupo carioca chegou em São Paulo, terão para sempre memórias fortes e quentes em seus corações e mentes: especialmente aqueles que tiveram o privilégio de participar da primeira montagem realizada por Ilo com seus alunos de São Paulo, o “Luzes e Sombras”.

“Luzes e Sombras” ficou em cartaz por cerca de dois anos e foi grande sucesso de público e de crítica. Lembro também do pioneirismo de Ilo que fazia com que minha criança-personagem perguntasse, em determinado momento do espetáculo: E você? Onde nasceu?, ou ainda, E você? Brincava de que?, surpreendendo algum adulto da platéia do Teatro Ventoforte. Mas também apresentamos esse trabalho em espaços não-convencionais, centros culturais da periferia da cidade, e na FEBEM-Pacaembú: encenação nunca esquecida uma vez que as crianças entraram por dentro dos panos e de lá não saíram… revolucionando a cena: elas queriam nossos colos, nossos corpos perto delas, corpos de adultos brincantes que cantavam e dançavam…!

“Luzes e Sombras” não foi um “teatro infantil” – era um espetáculo teatral para todas as idades que sensibilizou centenas de espectadores adultos para pensarem sobre suas infâncias, casas e quintais, brinquedos e brincadeiras, levando-os para bem perto de seus filhos, que assistiam à  inusitada peça-depoimento junto deles, na improvisada arquibancada da Casa do Ventoforte. No final, todos eram convidados a cantar e brincar de roda no quintal – outra inovação de Ilo: “Luzes e Sombras” era uma espécie de história sem fim contada nos primeiros anos da década de 1980.

Acesse aqui fortuna crítica sobre o espetáculo:


8 comments for “Teatro Ventoforte

  1. márcia fernandes
    31 de maio de 2011 at 22:12

    é isso aí Marina, eu cheguei depois, já em 86. mas trabalhei durante 25 anos com o Vento, o que faço até hoje, com crianças, jovens e velhos(pra mim velho não é pejorativo)aprendi com o Ventoforte.

  2. 14 de dezembro de 2013 at 23:58

    Marina , que emocao ler este artigo. De repente entrei no tunel do tempo… Sim o trabalho do Ilo e a nossa convivencia foram muito importante pra mim. Hoje trabalho aqui na Alemanha como terapeuta infsntil e valorizando sobretudo a criatividade delas.
    “Luzes e sombras” presente e passado se misturam dando um colorido pra vida!

    Abraco amigo

    ignez carvalho

    • agachamento
      15 de dezembro de 2013 at 00:22

      Que bom Ignez! E que incrível vc ter chegado por aqui… agachando comigo! Bjos da Marina

  3. José Marcos
    16 de dezembro de 2013 at 20:01

    Grandes tempos da “casinha” do “quintal o espaço esquecido ” do Teatro Ventoforte que durante muitos anos formou atores e educadores que , ainda hoje, disseminam uma linguagem inovadora por vários cantos do mundo.
    Muito legal, também, Marina ter notícias da Ignez após tanto tempo.

    • agachamento
      16 de dezembro de 2013 at 22:17

      Também é bom te-lo por aqui! Todos que presenciamos e vivemos a poética Ventoforte temos esta… tatuagem! Foi pra nos “dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem”
      um bjo da Marina

  4. isa uehara
    22 de dezembro de 2013 at 16:23

    Marina, sempre intensa, assim como seu relato, é incrível a força dessa foto emblemática publicada na Folha SP. Em mim reverberam os sons, o alaridos das crianças, as imagens dos muitos quintais que se plasmaram gerações afora. Tudo tão vivo e vital…Gratidão eterna ao Ilo, aos nossos mestres e também a você pela generosidade do texto.

  5. isa uehara
    22 de dezembro de 2013 at 16:26

    bjo e abrço forte

    • agachamento
      23 de dezembro de 2013 at 23:12

      oi Isa! um bjo e bom Natal, ótimo 2014
      da Marina

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