Nick Rands nos rabisca

Imagens e vídeos a partir de imagens captadas em Porto Alegre

Clique no link acima para conhecer Nick Rands e sua exposição em Porto Alegre, no Teatro do Museu do Trabalho. Sua obra conversou comigo, de inúmeras maneiras…

No último dia de abril, recebi via internet o convite para a abertura da exposição do artista inglês radicado no Brasil. Será uma exposição de “imagens e vídeos a partir de desenhos”, cujas imagens foram captadas “a cada cem passos de uma caminhada de dois mil passos repetida cem vezes”.

Um dos vídeos que se encontra no site do artista “sou eu”!

É uma daquelas coisas que você sente, obviamente de forma ilusória — e portanto mágica — de que aquilo foi feito para você! É um vídeo que mistura, de maneira linda, a figura humana a rabiscos.

Uso muito a imagem do rabisco no corpo para explicar para alunos que estudam Psicologia comigo como seria a corporalidade da criança pequena. Um bebê seria “pura energia”, que aos poucos se revela “rabiscada”. O contorno vem muito depois, daí a centralidade da primeira infância em nossas vidas. Esse estado de “pura energia” e depois de “ser rabiscado” nunca nos abandona. Não se trata de uma “evolução”; trata-se de maneiras de ser e estar que convivem em nós e em nossas relações com os outros e com o mundo. Quando estamos apaixonados e quando estamos extemamente fragilizados (acidentes, luto, assaltos) esse estado nos toma novamente.

Enxergar na obra de Nick Rands a mim mesma, a perspectiva fenomenológica de olhar para a criança, a possibilidade de fazer arte para mexer com as energias, rabiscos e contorno das pessoas, fez todo o sentido. Seria o que também busco, atingir você com este blog no site Agachamento…

O cachorro é melhor terapeuta que o homem

Um dia, ou melhor, no começo de uma noite, terceiro e último dia das provas de um concurso público do qual participei, surgiu em mim o dizer, que fez com que eu perdesse milhares de pontos: “O cachorro é melhor terapeuta que o homem”.

Hoje, com certo distanciamento, percebo que disse isso, de modo ansiógeno e descontextualizado — quase surreal — por estar sob pressão e me sentindo muito aquém na aula que “performava” diante da banca; para me auto-ironizar, digo que foi um lapso, ato falho freudiano, mas também, uma “arte do meu Erê”. O Erê é o infantil em nós, a espiritualidade criança que nos ronda, para os praticantes do Candomblé.

Escrevo esta postagem para deixar registrado que… sim, o cachorro é melhor terapeuta QUE EU, ao estar diante de uma banca de concurso, uma instituição da Universidade, uma provação para meus conhecimentos e  minhas escolhas, em um percurso feito muitas vezes “às avessas”, se pensado na cronologia “adequada” ou geracional. Tenho amigos, por exemplo, que logo poderão se aposentar; enquanto isso quero começar nova carreira, preciso trabalhar para me sustentar,  sou desassossegada profissionalmente.

Homenagear o cachorro como terapeuta (sendo que “sou dos gatos”!, tenho dois gatos, poderia falar sobre isso noutra postagem) no meu lapso é algo que me remete aos manicômios e às práticas inusitadas da Dra. Nise da Silveira. Ela autorizou que cachorros fizessem parte do cenário do Hospital Psiquiátrico; e constatou que pacientes graves tinham grande apego e forte comunicação afetiva, não verbal e pré-reflexiva com os cachorros dali.

O cachorro certamente conversa melhor com aspectos infantis de cada um de nós; ele late, ele baba, ele balança seu rabo; ele costuma obedecer fielmente àquele que lhe alimenta; ele acompanha, como nenhum humano, todos os errantes, andarilhos e sem teto.

O cachorro é primo do lobo: possui forte simbologia, conecta-nos com aspectos agressivos e vorazes, destrutivos e malvados. O cachorro roi o osso duro de roer. O cachorro espera a morte do seu dono, fazendo guarda na porta do quarto. O cachorro sabe tudo sobre o cio.

Sim, penso em ter um vira-lata quando ficar idosa. Me parece mesmo parte de um “sistema de crenças”, de que melhor ter um cachorro terapeuta do que um geriatra especialista em formas de não envelhecimento. E provavelmente foi isso que a banca daquele concurso detectou: que eu estava, cansada pelos três dias exaustivos de dedicação ao concurso, revelando perigosas crenças não-científicas em bruxas e lobos.

Seria coerente, não fosse o meu cansaço e constrangimento, depois de proferida minha auto-sentença:

“O cachorro é melhor terapeuta que o homem”.

A coerência estaria no tema do qual minha aula tratava: as relações inter-geracionais e Psicologia. “Quem pode ficar com a vovó quando ela sair do hospital?” Au Au Au…

Sobre ser top model aos 4 anos

Lendo a página do UOL outro dia descubro que uma sobrinha de Gisele Bundchen “virou modelo” aos quatro anos. Vou no google. Digito: “sobrinha de gisele bundchen é modelo”; encontrados 63.200 resultados. Na primeira página dos resultados… precisamos fuçar para descobrir que “a sobrinha de gisele” tem nome próprio, se chama Duda. Diz um blog: “a mais nova contratada da grife XXX”, e mais: “até um advogado foi escalado” para o time.

Enfim, do meu ponto de vista, esta é uma notícia quase tão triste quanto a morte dos adolescentes pelo atirador psicótico, acontecida no Rio de Janeiro nesta semana que termina. É triste porque revela uma ação adulta que traveste uma criança de “star”; é triste porque disfarça, por trás dos mais belos cachinhos dourados, uma indústria poderosíssima e interessada em vendas, lucros, budgets, banners, royalties, outdoors e indoors… whatever! Daí obviamente a necessidade de escalar de antemão “um advogado”. (E paro por aqui de modo que ele não queira me processar por calúnia e difamação).

Paro de falar de Duda para falar de toda e qualquer menina de quatro anos no Brasil. Veja esta linda foto da sobrinha da minha amiga Clarice; e leia com atenção minha legenda para ela:

Sobrinha de Clarice

Sobrinha de Clarice não trabalha: brinca de ser modelo na passarela de terra

Em nome da minha profissão, de minhas crenças como psicóloga, professora de teatro para crianças e jovens, formadora de adultos que pretendem ensinar teatro para crianças, digo: não façam crianças de quatro anos trabalhar. Deixem-nas viver suas existências infantis, longe de tudo que é lucro da mundaneidade adulta; criem nelas e para elas a ilusão das passarelas, pois todas são as mais lindas e especiais meninas de quatro anos!, mas criar a ilusão da passarela é simplesmente deixar brincar, é fazer passarela no chão de terra, é deixar que o capim seja a varinha de condão! Para depois tomar banho e dormir — e não ser exposta no Outdoor da Visibilidade.

Em nome de um mundo melhor para todas as crianças de quatro anos, digo: que as crianças sejam preservadas, nos anos iniciais de suas vidas, de tudo que leva à necessidade material do desnecessário, e que assim a maquiagem seja de terracota, que o batom seja enxergado na boca suja de brigadeiro ou suco, que o blush seja o calor do corpo que brinca expresso nas bochechas, de cada um e de todos.

Em nome de meninas crescidas saudáveis e aptas a descobrir seus corpos com a dor e a delícia de cada etapa da vida, peço: reflexão da comunidade adulta sobre a possível perversão e inversão de códigos de ética e estética no campo do consumo infantil. Aproveito e digo, registro por escrito um dos meus lemas: brincar prescinde de brinquedos.

Sobre Peixe Grande (Tim Burton, 2003)

No último final de semana assisti pela primeira vez e na televisão o filme Peixe Grande, que Tim Burton lançou no ano de 2003… oito anos atrás! E já fazem oito anos que uma grande amiga e meu filho insistiam para que eu visse esse filme. Quem não viu, agora sou eu mesma que recomendo.

Ed é um interessante personagem, um contador de histórias; Will é seu filho, que, quando adulto, se irrita fortemente com a fabulação do pai e se afasta dele. Ficam três anos sem se falar. O filho volta à casa do pai, com sua esposa grávida do primeiro filho, pois o pai está morrendo.

Soube que o roteiro advém de um livro chamado “Big Fish: A Novel of Mythic Proportions”, de Daniel Wallace. Gostei muito deste subtítulo: novela de proporções míticas. Pois o personagem Ed é um grande criador se sua própria mitologia. Curioso pensar como isso irrita o filho… No filme, o filho diz algo um tanto impregnado de chavão: de que sua raiva tinha a ver com o fato do pai “nunca falar a verdade”.

Lentamente o filho reconstitui aquela mitologia, e, por força e por amor à linguagem do cinema, Tim Burton nos faz mergulhar nas histórias… e enxergá-las em seu valor auto-biográfico e mitopoético, diriam os estudiosos de Bachelard. É assim que o filho “perdoa” o pai e lhe conta uma história final em seu leito de morte — essa a imagem mais tocante e reconciliadora. Resenhas do filme argumentam que a personagem da mãe é a responsável por essa reconciliação. Penso que não exatamente; a reconciliação se dá pelo fato do filho estar prestes a tornar-se, ele mesmo, pai. Tanto que no final da história, com o recurso do tipo “três anos depois”…, vemos Will fabular com e para seu filho. Ou, fabular a si e ao mundo, no filho, com o filho.

Meu próprio filho querer  muito que eu assistisse a este filme, desde 2003!, também me diz algo mítico-poético bem como biográfico: conta de minha profissão,  de minha convivência com ele, meus modos de ser e estar no mundo.

Que eu fabule demais ou de menos,  meu filho que me perdoe, no exato momento em que carregar seu primeiro bebê no colo.

Amém.

Teorias, melhor não tê-las; mas sem tê-las, como sabê-lo?

Exerço uma prática que une e confronta as relações entre arte e educação desde 1981, quando comecei a ensinar “arte integrada” na Casa do Ventoforte. Fico feliz de ter sido uma professora dedicada porque escrevia Diários de Bordo e os guardei até hoje. Relendo, descobri um percurso – de início absolutamente ingênuo e empirista – baseado no que podemos chamar, simplesmente, de experiência. A qualidade destas experiências é que se modificou ao longo do tempo: na medida em que a experiência vivida como professora se modificava, minhas aulas ganhavam em criatividade, densidade e reflexividade.

O momento mais evidente da transformação da minha prática aconteceu na graduação em Psicologia: percebi o quanto a didática de Ilo Krugli se aproximava da poética de Gaston Bachelard, da psicologia analítica de Jung e das idéias da dra. Nise da Silveira. Também sua maneira de dirigir e ensinar teatro pincelavam nuances psicanalíticos, valorizando os dados biográficos dos atores, de modo a “resgatarem” suas infâncias.

Mais tarde, meu encontro com a obra de Maurice Merleau-Ponty também ampliou a reflexão sobre a experiência vivida junto a crianças e jovens. Estudar a filosofia merleau-pontiana me deu subsídios para compreender a expressividade e a fala falante; e me abriu portas e janelas para conhecer a fenomenologia da infância, algo que retoma meus primeiros Diários de Bordo, dando nova e rica significação.

Mudou o mundo ou mudei eu?

Certamente o mundo mudou e eu com ele – todos nós, aliás! Daí minha inquietação em meus trabalhos, quando sinto que as coisas estão “atemporais” ou “imutáveis”. Penso que a proximidade com a fenomenologia, filosofia que dialoga com a vida tal como ela se apresenta, a compreensão de que a criança é polimorfa, me deixa certa de que um bom trabalho com crianças precisa ser, ele mesmo, polimorfo, rico, não fixado em representacionalidades ou qualquer forma pré-fixada de antemão. É esse o mote de um ensino de arte que sintonize com a fenomenologia. Que o adulto se permita um mergulho na experiência junto à criança, sem nunca deixar de ser o adulto responsável por aquilo que Winnicott chama de holding. Para dar um bom “holding” a uma criança, para segurá-la na direção da autonomia, é preciso agachar e permancer por perto – mas não tão perto que a limite, nem tão longe que a deixe sem fronteiras.

Teorias, melhor não tê-las: mas sem tê-las, como sabê-lo?

O fato é que trabalhar com crianças prescindindo de teorias sobre elas é retomar um modo de ensinar arte que dá chances à criança para ela ser o que ela é; e esse modo abre portas para o conhecimento antropológico da criança. Quem é ela? O que pensa sobre si, sobre o outro, sobre o mundo? Qual o sentido, por exemplo, de fazer teatro ou música, de seu ponto de vista? Unindo um certo espontaneísmo dos idos anos de 1970 e a observação cuidadosa das maneiras de ser e estar das crianças, construimos uma educação baseada nas culturas da infância: e isso é tudo de bom.

Dramaturgo: você não existe!

Por ocasião da seleção para o Projeto Ademar Guerra, reuni um material de documentação para “tirar DRT de dramaturga”. Parecia chique; parecia plausível; parecia adequado com minha experiência de teatro e pesquisa, de teatro e educação. Juntei o livro “Cacos de infância” (documento vivo do meu mestrado em artes cênicas), pedi um atestado para a Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo e outro para a minha orientadora. Parecia tão certinho, tão “legalista”, aquele material reunido numa pasta fichário!

E então me encaminhei, numa manhã chuvosa de março, para a Delegacia Regional do Trabalho do Estado de São Paulo: Rua Martins Fontes 109. Esta é a maneira de obter o DRT sem pagar taxas sindicais, nem nenhuma outra taxa.

Pego a senha. Subo as escadas. Só duas pessoas na minha frente!! Sou chamada no balcão. O mocinho nunca viu isso. Pede para que eu aguarde — ele precisa ir perguntar… Sua colega se oferece para ir perguntar… Perguntar o que e para quem? Perguntar a algum superior o que fazer diante de um diploma de “Mestre em Artes Cênicas”, cuja possuidora deseja… DRT de Dramaturga!

Resposta final: isso não existe.

Devo voltar para casa e consultar a lista das categorias em artes, em um decreto estadual do ano de 1978: “ta na Internet”, me dizem os mocinhos do balcão.

Volto para casa… mais pobre ou mais rica?

Volto à situação de “overqualified”, que quer dizer, traduzindo: doutora em psicologia da educação com pós-doutorado em artes cênicas!, no entanto ignorante: sem saber agora para qual coluna do xadrez me encaminhar, para obter “DRT”, trabalhar dignamente orientando um grupo de teatro amador no Projeto Ademar Guerra, ganhar algum dinheiro… e dormir em paz. E agora, José?

Humilhados e Ofendidos

Como na canção, "tristeza não tem fim; felicidade sim"