Menino Carne Viva

Ontem estive em um Colóquio para os profissionais do Projeto de Iniciação Artística, o assim chamado PIÁ, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Depois de um exercício de escuta da paisagem sonora pelo centro da cidade, proposto por Moacir Carnelos, e outras intervenções e conversas… Li o seguinte texto, escrito por mim alguns anos atrás:

Menino Carne Viva

Um dia, do alto do outeiro desceu um tristonho menino.Vinha triste porque riam do seu terno-e-gravata: só por que tinha seis anos não podia brincar de adulto? Trocou de roupa, e riram mais ainda — vestido de anjo de presépio, os outros, até os adultos, atiraram laranjas podres e bitucas de cigarros. Ao chegar no terreiro, no pé da montanha, procurando por um jeito de não ser risível, descascou sua pele e tornou-se o Menino Carne Viva. Ninguém riu, ninguém chorou; ganhou lugar no circo, que na noite seguinte mudou de cidade, e eu nunca mais soube dele.

Era meu irmão mais velho.

Mandou um cheque para minha mãe, dez anos mais tarde.

Desconhecia qual seria o efeito, a “eficácia simbólica” desta leitura. Foi surpreendente. Consegui mobilizar adultos educadores para pensar e sentir algo em carne viva… sobre a possível tristeza e sofrimento da condição de ser criança, e visitamos, de modo único, lugares e tempos do brincar de faz de conta, ser zoado, trabalhar em condições inumanas. Não é por acaso que um dos meus cult movies é O Homem Elefante, de David Lynch. Filme que merece diversas postagens!

Paciência zen

São muitos os momentos da nossa vida que requerem uma espécie de “paciência zen“… Hoje me peguei lembrando de um deles, acontecido quase 25 anos atrás.

Meu filho tinha um ano e pouquinho, mal falava. Foi um bebê saudável, tomava leite de peito, comia de guloseima apenas bolachas Maizena (!!) e foi introduzido às sopas e comidinhas mais sólidas da melhor maneira possível… Tudo ia bem até que ele passou cerca de quarenta dias sem comer comida.

Quarenta dias sem comer comida! Por uma espécie de recusa monástica: pois o que lhe restava era leite, frutas e bolachas Maizena. Simples assim.

Todos os quarenta dias eu colocava a mesa e seu pratinho — de comida fresca, aliás. E nada. Ele fazia um gesto com a mão, afastando o prato. Almoço e jantar, almoço e jantar, almoço e jantar.

Lembro que depois de mais ou menos uma semana eu estava meio descrente; depois de quinze dias, achava que aquilo era quase uma tragédia; em trinta dias, a tragédia repetia-se como farsa! E seguia fielmente as instruções do pediatra: deixa, ele vai voltar a comer… O importante era não brigar nem forçar nada guela a baixo.

E um belo dia, dito e feito: com a maior naturalidade do mundo, pegou sua colher e comeu!

(Quantos mistérios habitam a corporalidade de uma criança que “já é gente” mas mal fala?)

Hoje contei esta “parábola” para o mesmo menino, passados 25 anos. Ele mais ou menos disse: “Que difícil!” E eu, orgulhosa de minha paciência zen: “Já pensou se acontece com você como pai?”

Será que a pediatria hoje concede esse favor às crianças, de esperar de maneira pacienciosa seu apetite voltar? Como diria meu amigo português… a ver vamos.

O estagiário zen

Trabalhei em um Centro Universitário em São Paulo por cinco anos, por um ou dois fui bastante feliz, pois eram os anos de abertura da graduação em Psicologia. Participei da elaboração do ementário, e a Psicologia Fenomenológica tinha um ótimo espaço de atuação.

Nesses anos mais felizes, elaborei uma proposta de estágio bastante diferente, onde o estagiário ia para um lugar público procurar “colher desenhos”. Dei uma pasta de elástico (sem personagens desenhados ou decalcados!!) para cada aluno, contendo uma caixa de giz de cera dentro e folhas sulfite. O aluno recebia também um “folheto de instruções de uso”, que transcrevo aqui:

Parabéns! Hoje você ganhou o seu “Kit do estagiário zen”.

Neste texto vamos falar brevemente como usá-lo – e como não usá-lo também!

Primeiramente, vamos comentar como não usá-lo.

Não se encha de expectativas em relação a resultados. O modo fenomenológico é processual, e caso sua experiência com o desenho de uma criança “fracasse”, também é uma experiência possível para ser descrita.

Não se encha de noções a priori sobre o experimento, como por exemplo pensando: “Não vai dar certo…”; ou ainda: “Que mãe deixaria seu filho pequeno aproximar-se de um estranho?”

Abra sua pasta, e tire de dentro dela os papéis e os lápis cera.

Observe se alguma criança relaciona-se com a sua ação, se presta atenção em você ou não, se as cores do lápis cera e os papéis em branco chamam a atenção…

Observe como as crianças brincam, e também, observe se há crianças que não brincam.

Não chame a criança para desenhar: deixe que a ação de preparar a abertura da pasta e dos lápis cera falem por si só. Deixe que a criança mesma se aproxime, e a observe de maneira “esvaziada”: esvaziada de expectativa e de noções do que é uma criança. Esvazie-se do desejo de “ir bem no Estágio Básico”, e volte-se para “a coisa mesma”: a criança e sua relação com os papéis e os lápis cera. A criança e sua relação com você. A criança no mundo. Como ela inicia contato? Como ela desenha? Qual a sua atitude corporal? Fala,canta, ri ou chora?

Esvazie-se de sua própria infância para tomar contato com a infância vivida hoje. Encha-se da experiência de olhar a criança e seu contato com o papel em branco e lápis coloridos. Procure falar bem pouco, procure receber a criança de um modo “pré-reflexivo”, antes da palavra explicativa.

O que os alunos fizeram com isso, variou bastante; mas deixo registrado aqui que isso tudo um dia aconteceu, com alunos de uma grande máquina universitária, em uma proposta na qual foram convidados a deixar a coisa acontecer: um caminho não-intervencionista nem tampouco “promotor de saúde”. Anos depois a Psicologia Fenomenológica foi banida do currículo; com a massificação do curso, não cabia mais ser zen no mundo da racionalidade pragmática. Simples assim.

Cooper, o gato fotógrafo

Nesta manhã de outono “deu no UOL”:

Gato Cooper de cinco anos tira fotos do cotidiano com câmera no pescoço

Trata-se de um gato laranja (meus preferidos!) cujos donos teriam feito “um experimento geográfico” para pesquisar as necessidades e o dia a dia do gato. Posso certamente dizer: Cooper, o gato fenomenólogo! E este post será irmão de um outro, veja lá: “O cachorro é melhor terapeuta que o homem”…

Brincadeiras a parte, penso que o mérito do experimento com Cooper é mostrar a visão do gato, cerca de 30 cm do chão; pensando na fenomenologia da criança, seria algo muito interessante para se fazer um paralelo, uma vez que poucos adultos se preocupam com a espacialidade do bebê e da criança muito pequena: penso que é algo muito pouco tematizado, enquanto outros assuntos, tanto do âmbito biológico quanto do âmbito cultural, seriam campeões de audiência: sono, trato intestinal, soluço, arroto… roupas confortáveis e brinquedos estimulantes… Mas qual o melhor espaço, do ponto de vista do próprio bebê? Ou ainda, como o bebê experiencia a gênese da noção de espacialidade, especialmente no que diz respeito a ter um “eu” e discernir o outro e as coisas do mundo?

Voltando ao possível paralelo entre gatos e crianças, o gosto pelo colo parece algo em comum, ao menos para os filhotes. Depois… o chão e o céu! A terra e o ar: poder pular, lançar-se, escalar, descer, subir novamente… Sair de casa e conhecer novos ambientes, atmosferas, cenários para brincar e conhecer onde se vive.

Um casal francês na década de 1990 tentou fazer fotografias “do ponto de vista da criança”. Está editado em livro: A criança no mundo dos adultos (São Paulo: Editora Augustus, 1996). Escolas de Educação Infantil também estão dando nas mãos de crianças bem pequenas câmeras digitais para que fotografem… Já vi resultados muito interessantes. De todo modo, entre adultos e crianças haverá sempre o dom do gesto e da palavra, para criarmos interlocuções entre pontos de vista: educação dialógica que semeará saberes éticos, estéticos e políticos, como gostam de nomear os estudiosos de Delleuze.

Nick Rands nos rabisca

Imagens e vídeos a partir de imagens captadas em Porto Alegre

Clique no link acima para conhecer Nick Rands e sua exposição em Porto Alegre, no Teatro do Museu do Trabalho. Sua obra conversou comigo, de inúmeras maneiras…

No último dia de abril, recebi via internet o convite para a abertura da exposição do artista inglês radicado no Brasil. Será uma exposição de “imagens e vídeos a partir de desenhos”, cujas imagens foram captadas “a cada cem passos de uma caminhada de dois mil passos repetida cem vezes”.

Um dos vídeos que se encontra no site do artista “sou eu”!

É uma daquelas coisas que você sente, obviamente de forma ilusória — e portanto mágica — de que aquilo foi feito para você! É um vídeo que mistura, de maneira linda, a figura humana a rabiscos.

Uso muito a imagem do rabisco no corpo para explicar para alunos que estudam Psicologia comigo como seria a corporalidade da criança pequena. Um bebê seria “pura energia”, que aos poucos se revela “rabiscada”. O contorno vem muito depois, daí a centralidade da primeira infância em nossas vidas. Esse estado de “pura energia” e depois de “ser rabiscado” nunca nos abandona. Não se trata de uma “evolução”; trata-se de maneiras de ser e estar que convivem em nós e em nossas relações com os outros e com o mundo. Quando estamos apaixonados e quando estamos extemamente fragilizados (acidentes, luto, assaltos) esse estado nos toma novamente.

Enxergar na obra de Nick Rands a mim mesma, a perspectiva fenomenológica de olhar para a criança, a possibilidade de fazer arte para mexer com as energias, rabiscos e contorno das pessoas, fez todo o sentido. Seria o que também busco, atingir você com este blog no site Agachamento…

O cachorro é melhor terapeuta que o homem

Um dia, ou melhor, no começo de uma noite, terceiro e último dia das provas de um concurso público do qual participei, surgiu em mim o dizer, que fez com que eu perdesse milhares de pontos: “O cachorro é melhor terapeuta que o homem”.

Hoje, com certo distanciamento, percebo que disse isso, de modo ansiógeno e descontextualizado — quase surreal — por estar sob pressão e me sentindo muito aquém na aula que “performava” diante da banca; para me auto-ironizar, digo que foi um lapso, ato falho freudiano, mas também, uma “arte do meu Erê”. O Erê é o infantil em nós, a espiritualidade criança que nos ronda, para os praticantes do Candomblé.

Escrevo esta postagem para deixar registrado que… sim, o cachorro é melhor terapeuta QUE EU, ao estar diante de uma banca de concurso, uma instituição da Universidade, uma provação para meus conhecimentos e  minhas escolhas, em um percurso feito muitas vezes “às avessas”, se pensado na cronologia “adequada” ou geracional. Tenho amigos, por exemplo, que logo poderão se aposentar; enquanto isso quero começar nova carreira, preciso trabalhar para me sustentar,  sou desassossegada profissionalmente.

Homenagear o cachorro como terapeuta (sendo que “sou dos gatos”!, tenho dois gatos, poderia falar sobre isso noutra postagem) no meu lapso é algo que me remete aos manicômios e às práticas inusitadas da Dra. Nise da Silveira. Ela autorizou que cachorros fizessem parte do cenário do Hospital Psiquiátrico; e constatou que pacientes graves tinham grande apego e forte comunicação afetiva, não verbal e pré-reflexiva com os cachorros dali.

O cachorro certamente conversa melhor com aspectos infantis de cada um de nós; ele late, ele baba, ele balança seu rabo; ele costuma obedecer fielmente àquele que lhe alimenta; ele acompanha, como nenhum humano, todos os errantes, andarilhos e sem teto.

O cachorro é primo do lobo: possui forte simbologia, conecta-nos com aspectos agressivos e vorazes, destrutivos e malvados. O cachorro roi o osso duro de roer. O cachorro espera a morte do seu dono, fazendo guarda na porta do quarto. O cachorro sabe tudo sobre o cio.

Sim, penso em ter um vira-lata quando ficar idosa. Me parece mesmo parte de um “sistema de crenças”, de que melhor ter um cachorro terapeuta do que um geriatra especialista em formas de não envelhecimento. E provavelmente foi isso que a banca daquele concurso detectou: que eu estava, cansada pelos três dias exaustivos de dedicação ao concurso, revelando perigosas crenças não-científicas em bruxas e lobos.

Seria coerente, não fosse o meu cansaço e constrangimento, depois de proferida minha auto-sentença:

“O cachorro é melhor terapeuta que o homem”.

A coerência estaria no tema do qual minha aula tratava: as relações inter-geracionais e Psicologia. “Quem pode ficar com a vovó quando ela sair do hospital?” Au Au Au…