Teorias, melhor não tê-las; mas sem tê-las, como sabê-lo?

Exerço uma prática que une e confronta as relações entre arte e educação desde 1981, quando comecei a ensinar “arte integrada” na Casa do Ventoforte. Fico feliz de ter sido uma professora dedicada porque escrevia Diários de Bordo e os guardei até hoje. Relendo, descobri um percurso – de início absolutamente ingênuo e empirista – baseado no que podemos chamar, simplesmente, de experiência. A qualidade destas experiências é que se modificou ao longo do tempo: na medida em que a experiência vivida como professora se modificava, minhas aulas ganhavam em criatividade, densidade e reflexividade.

O momento mais evidente da transformação da minha prática aconteceu na graduação em Psicologia: percebi o quanto a didática de Ilo Krugli se aproximava da poética de Gaston Bachelard, da psicologia analítica de Jung e das idéias da dra. Nise da Silveira. Também sua maneira de dirigir e ensinar teatro pincelavam nuances psicanalíticos, valorizando os dados biográficos dos atores, de modo a “resgatarem” suas infâncias.

Mais tarde, meu encontro com a obra de Maurice Merleau-Ponty também ampliou a reflexão sobre a experiência vivida junto a crianças e jovens. Estudar a filosofia merleau-pontiana me deu subsídios para compreender a expressividade e a fala falante; e me abriu portas e janelas para conhecer a fenomenologia da infância, algo que retoma meus primeiros Diários de Bordo, dando nova e rica significação.

Mudou o mundo ou mudei eu?

Certamente o mundo mudou e eu com ele – todos nós, aliás! Daí minha inquietação em meus trabalhos, quando sinto que as coisas estão “atemporais” ou “imutáveis”. Penso que a proximidade com a fenomenologia, filosofia que dialoga com a vida tal como ela se apresenta, a compreensão de que a criança é polimorfa, me deixa certa de que um bom trabalho com crianças precisa ser, ele mesmo, polimorfo, rico, não fixado em representacionalidades ou qualquer forma pré-fixada de antemão. É esse o mote de um ensino de arte que sintonize com a fenomenologia. Que o adulto se permita um mergulho na experiência junto à criança, sem nunca deixar de ser o adulto responsável por aquilo que Winnicott chama de holding. Para dar um bom “holding” a uma criança, para segurá-la na direção da autonomia, é preciso agachar e permancer por perto – mas não tão perto que a limite, nem tão longe que a deixe sem fronteiras.

Teorias, melhor não tê-las: mas sem tê-las, como sabê-lo?

O fato é que trabalhar com crianças prescindindo de teorias sobre elas é retomar um modo de ensinar arte que dá chances à criança para ela ser o que ela é; e esse modo abre portas para o conhecimento antropológico da criança. Quem é ela? O que pensa sobre si, sobre o outro, sobre o mundo? Qual o sentido, por exemplo, de fazer teatro ou música, de seu ponto de vista? Unindo um certo espontaneísmo dos idos anos de 1970 e a observação cuidadosa das maneiras de ser e estar das crianças, construimos uma educação baseada nas culturas da infância: e isso é tudo de bom.

Dramaturgo: você não existe!

Por ocasião da seleção para o Projeto Ademar Guerra, reuni um material de documentação para “tirar DRT de dramaturga”. Parecia chique; parecia plausível; parecia adequado com minha experiência de teatro e pesquisa, de teatro e educação. Juntei o livro “Cacos de infância” (documento vivo do meu mestrado em artes cênicas), pedi um atestado para a Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo e outro para a minha orientadora. Parecia tão certinho, tão “legalista”, aquele material reunido numa pasta fichário!

E então me encaminhei, numa manhã chuvosa de março, para a Delegacia Regional do Trabalho do Estado de São Paulo: Rua Martins Fontes 109. Esta é a maneira de obter o DRT sem pagar taxas sindicais, nem nenhuma outra taxa.

Pego a senha. Subo as escadas. Só duas pessoas na minha frente!! Sou chamada no balcão. O mocinho nunca viu isso. Pede para que eu aguarde — ele precisa ir perguntar… Sua colega se oferece para ir perguntar… Perguntar o que e para quem? Perguntar a algum superior o que fazer diante de um diploma de “Mestre em Artes Cênicas”, cuja possuidora deseja… DRT de Dramaturga!

Resposta final: isso não existe.

Devo voltar para casa e consultar a lista das categorias em artes, em um decreto estadual do ano de 1978: “ta na Internet”, me dizem os mocinhos do balcão.

Volto para casa… mais pobre ou mais rica?

Volto à situação de “overqualified”, que quer dizer, traduzindo: doutora em psicologia da educação com pós-doutorado em artes cênicas!, no entanto ignorante: sem saber agora para qual coluna do xadrez me encaminhar, para obter “DRT”, trabalhar dignamente orientando um grupo de teatro amador no Projeto Ademar Guerra, ganhar algum dinheiro… e dormir em paz. E agora, José?

Humilhados e Ofendidos

Como na canção, "tristeza não tem fim; felicidade sim"

Do lado de lá do tédio!

Este vídeo caseiro de um maestro de três anos de idade é uma resposta para meu próprio post “Deu na Globo”, no qual eu comento as férias das crianças e a inabilidade dos pais de conviverem com elas! No outro polo, está alguém (uma mãe, um pai, um adulto cuidador) que propiciou tal experiência estética ao menino de 3 anos, de modo que ele pudesse performar um maestro. Que delícia!

Precisaria este pequeno menino de “aulas de música”? De “teatro”? e de “corpo”, o que acham?

Penso que muitas vezes as aulas estruturadas de arte embotam um conhecimento cinestésico e proprioceptivo dos pequenos. Precisamos ser muito cuidadosos ao dar aulas de teatro, por exemplo, para crianças muito pequenas, pois seu imaginário está em ação em cada detalhe de suas corporeidades, cabeça, corpo, membros, coração, dedão do pé. O que precisamos ter em vista é a hipótese de propiciar enorme riqueza de experiências, momentos brincantes e instigantes, muitas batutas que podem cair no chão sem que isso signifique “erro” ou “ruptura”. Chamou muito minha atenção o fato do menino perder sua batuta, rir muito de si mesmo e seguir em frente! E o adulto que está filmando, se diverte junto.

Um mestre da performance.

Talvez “mestre” como muitos outros meninos e meninas, que não estão sendo enxergados em suas potencialidades, por quem se exige ficar quieto na roda para ouvir a “atividade de artes” do dia… Algo para a comunidade adulta pensar, forte e urgentemente.

“Deu na Globo”

Nestas quentes férias de verão, “deu na Globo”: mães sofrem de estresse durante o mês de janeiro, na convivência com os filhos. O enfoque da matéria era de que as mães que estressam são “workaholics”, e portanto não “sabem” tirar férias!

Não compartilho desse ponto de vista, ao qual eu chamo “cognitivista”, ou seja, centrado na capacidade do adulto saber ou não saber estar de férias… Prefiro destacar algo mais próximo do afeto e do âmbito da convivência; mães que trabalham muitas horas por dia talvez não incorporaram, em seus imaginários e em seus cotidianos, a dor e a delícia de ter filhos por perto… Ao menos é como eu leio inúmeras situações conflituosas que vejo nas ruas, ponto de ônibus, fila da lotérica ou no metrô de São Paulo: adultos extremamente impacientes com a temporalidade de seus filhos, que não é o do adulto; adultos impacientes com crianças consumistas, que querem comprar coisas, como se os apelos do consumo não fossem exatamente uma maneira de ser da comunidade adulta; adultos impacientes com seus filhos que estão cansados, com sede ou com sono, desinteressados do “passeio” que os pais estão lhe propiciando…

Aliás, o tédio e o desinteresse vividos na infância é uma questão premente e muito pouco pensada pelo adulto comum, ou seja, pelo adulto que não é um teórico da pedagogia e da psicologia. Proponho compreendermos o tédio a partir de um recorte-e-cola do modelo adulto e de seus modos de ser e estar. A própria mãe que não gosta de estar com seus filhos durante as férias escolares já é um exemplo encarnado do tédio e do desinteresse por aquelas pequenas pessoas que ela mesma gerou! Crianças entediadas me parecem não se contentar com a simplicidade da vida, o dia que começa e termina, a felicidade de tomar banho de chuva — modo infantil de quem não tem a dimensão da enchente ou dos riscos de encontrar um rato sujo pelo caminho da enxurrada — ou outras possibilidades prazeirosas que estar vivo e habitar um corpo vivo nos proporciona.

Talvez o dia em que os adultos vivam cotidianamente um tipo de felicidade ordinária, eles possam estar com seus filhos nas férias de uma maneira também simples e ordinária. Estar vivendo a vida corriqueira de um modo feliz, integrado e significativo, morando em seu próprio corpo… me parece a melhor “fórmula anti-tédio” possível. Como torná-la concreta?

Eu quero ser Arrigo Barnabé

Na minha adolescência, final da década de 1970, surgiu na cena musical paulistana o músico-performer Arrigo Barnabé. Quem não conhece sua pessoa e sua obra precisa conhecer! Os discos “Clara Crocodilo” e “Tubarões Voadores” foram hits de uma juventude alegre, “alternativa”, buscando saídas para a geração chamada de “Os Filhos da Ditadura”. (Minha mãe não! Chamava-se Dulce… mas este é outro assunto, que vale outra postagem…)

Arrigo está na rede social que reune músicos, o MySpace. Pesquisando os vídeos postados ali e no You Tube, achei algo que mexeu comigo novamente, tanto quanto o início da canção dos Tubarões Voadores: Fecha a janela, Joãozinho, ou seremos comidos pelos… Tubarões Voadores! O que eu achei foi o Arrigo ao piano, voz e piano, percussão feita na boca, cantando “Filho você quer chorar”. É uma canção do Luís Tatit, cantada por ele e tocada pelo Grupo Rumo e revisitada pelo Arrigo — que a interpreta “à lá Arrigo”… Esse modo de cantar nos leva a um lugar diferente, inusitado: um lugar da não-música, ou ainda, um lugar de um tipo de música que se assemelha aos barulhos e ruídos cotidanos, dentro e fora de nós:

Eu queria ser como o Arrigo ao piano, ter essa intimidade e harmonia-desarmonia com um instrumento, e exercer um tipo de inteligência musical.

Como não podemos nos refazer assim simplesmente, nos reprogramando para ser o que não somos… tentei fazer uma dupla criativa com o Arrigo, mostrando a ele, no início de 2009, minha pesquisa de pós-doutoramento. Meu texto também procura uma anti-arte, ou uma arte de barulhos e ruídos cotidianos e ordinários, ou como está em voga dizer: uma arte não-espetacular. Minha pesquisa foi dramatúrgica e perguntei ao Arrigo se ele não queria fazer algum tipo de trabalho comigo, voltado às crianças (e ao menino que há no homem).

Arrigo disse que sim! Mas precisamos de tempo em comum e algum bom dinheiro.

Enquanto isso… vou brincar de ser outro músico, Itamar Assunção, que cantou assim:

Eu tenho um amigo chamado Arrigo / O resto, depois eu digo.

Des-estudar!

Jonas e Valdir

meditações labirínticas entre pai e filho

Percebo muita gente procurando novos saberes sobre a criança e a infância, embasando-se nos Mil Platôs de Delleuze… é quase-uma-modinha… De minha parte, venho des-estudando Merleau-Ponty; des-elaborando, des-lapidando o anel (de mestrado e doutorado) para preparar a volta ao diamante bruto, à concepção de fenomenologia da infância: que para encontrar-se precisa estar encarnada no gesto e na palavra, não dependente dos livros, das epígrafes, do modo de ser do adulto!

Agachar-me para ir perto do chão, e lá a criança está; afastamento das teorias e aproximação antropológica das experiências infantis, tal como vividas pela criança, inserida nas culturas da infância, cotidiana e ordinariamente.