“Deu na Globo”

Nestas quentes férias de verão, “deu na Globo”: mães sofrem de estresse durante o mês de janeiro, na convivência com os filhos. O enfoque da matéria era de que as mães que estressam são “workaholics”, e portanto não “sabem” tirar férias!

Não compartilho desse ponto de vista, ao qual eu chamo “cognitivista”, ou seja, centrado na capacidade do adulto saber ou não saber estar de férias… Prefiro destacar algo mais próximo do afeto e do âmbito da convivência; mães que trabalham muitas horas por dia talvez não incorporaram, em seus imaginários e em seus cotidianos, a dor e a delícia de ter filhos por perto… Ao menos é como eu leio inúmeras situações conflituosas que vejo nas ruas, ponto de ônibus, fila da lotérica ou no metrô de São Paulo: adultos extremamente impacientes com a temporalidade de seus filhos, que não é o do adulto; adultos impacientes com crianças consumistas, que querem comprar coisas, como se os apelos do consumo não fossem exatamente uma maneira de ser da comunidade adulta; adultos impacientes com seus filhos que estão cansados, com sede ou com sono, desinteressados do “passeio” que os pais estão lhe propiciando…

Aliás, o tédio e o desinteresse vividos na infância é uma questão premente e muito pouco pensada pelo adulto comum, ou seja, pelo adulto que não é um teórico da pedagogia e da psicologia. Proponho compreendermos o tédio a partir de um recorte-e-cola do modelo adulto e de seus modos de ser e estar. A própria mãe que não gosta de estar com seus filhos durante as férias escolares já é um exemplo encarnado do tédio e do desinteresse por aquelas pequenas pessoas que ela mesma gerou! Crianças entediadas me parecem não se contentar com a simplicidade da vida, o dia que começa e termina, a felicidade de tomar banho de chuva — modo infantil de quem não tem a dimensão da enchente ou dos riscos de encontrar um rato sujo pelo caminho da enxurrada — ou outras possibilidades prazeirosas que estar vivo e habitar um corpo vivo nos proporciona.

Talvez o dia em que os adultos vivam cotidianamente um tipo de felicidade ordinária, eles possam estar com seus filhos nas férias de uma maneira também simples e ordinária. Estar vivendo a vida corriqueira de um modo feliz, integrado e significativo, morando em seu próprio corpo… me parece a melhor “fórmula anti-tédio” possível. Como torná-la concreta?

Eu quero ser Arrigo Barnabé

Na minha adolescência, final da década de 1970, surgiu na cena musical paulistana o músico-performer Arrigo Barnabé. Quem não conhece sua pessoa e sua obra precisa conhecer! Os discos “Clara Crocodilo” e “Tubarões Voadores” foram hits de uma juventude alegre, “alternativa”, buscando saídas para a geração chamada de “Os Filhos da Ditadura”. (Minha mãe não! Chamava-se Dulce… mas este é outro assunto, que vale outra postagem…)

Arrigo está na rede social que reune músicos, o MySpace. Pesquisando os vídeos postados ali e no You Tube, achei algo que mexeu comigo novamente, tanto quanto o início da canção dos Tubarões Voadores: Fecha a janela, Joãozinho, ou seremos comidos pelos… Tubarões Voadores! O que eu achei foi o Arrigo ao piano, voz e piano, percussão feita na boca, cantando “Filho você quer chorar”. É uma canção do Luís Tatit, cantada por ele e tocada pelo Grupo Rumo e revisitada pelo Arrigo — que a interpreta “à lá Arrigo”… Esse modo de cantar nos leva a um lugar diferente, inusitado: um lugar da não-música, ou ainda, um lugar de um tipo de música que se assemelha aos barulhos e ruídos cotidanos, dentro e fora de nós:

Eu queria ser como o Arrigo ao piano, ter essa intimidade e harmonia-desarmonia com um instrumento, e exercer um tipo de inteligência musical.

Como não podemos nos refazer assim simplesmente, nos reprogramando para ser o que não somos… tentei fazer uma dupla criativa com o Arrigo, mostrando a ele, no início de 2009, minha pesquisa de pós-doutoramento. Meu texto também procura uma anti-arte, ou uma arte de barulhos e ruídos cotidianos e ordinários, ou como está em voga dizer: uma arte não-espetacular. Minha pesquisa foi dramatúrgica e perguntei ao Arrigo se ele não queria fazer algum tipo de trabalho comigo, voltado às crianças (e ao menino que há no homem).

Arrigo disse que sim! Mas precisamos de tempo em comum e algum bom dinheiro.

Enquanto isso… vou brincar de ser outro músico, Itamar Assunção, que cantou assim:

Eu tenho um amigo chamado Arrigo / O resto, depois eu digo.

Des-estudar!

Jonas e Valdir

meditações labirínticas entre pai e filho

Percebo muita gente procurando novos saberes sobre a criança e a infância, embasando-se nos Mil Platôs de Delleuze… é quase-uma-modinha… De minha parte, venho des-estudando Merleau-Ponty; des-elaborando, des-lapidando o anel (de mestrado e doutorado) para preparar a volta ao diamante bruto, à concepção de fenomenologia da infância: que para encontrar-se precisa estar encarnada no gesto e na palavra, não dependente dos livros, das epígrafes, do modo de ser do adulto!

Agachar-me para ir perto do chão, e lá a criança está; afastamento das teorias e aproximação antropológica das experiências infantis, tal como vividas pela criança, inserida nas culturas da infância, cotidiana e ordinariamente.

Biografias e intersubjetividades

As relações entre nossa biografia, o caminho da subjetividade e construção de um “eu” desde a mais tenra infância, e o adulto que somos, são nosso dom e nossa sina. Nosso dom — linguagem, gesto e palavra — para conhecer a nós mesmos, ao outro, ao mundo; nossa sina, a impossibilidade de total afastamento disso: biografia, subjetividade e um “eu”.

Em psicoterapias,  a auto-biografia se faz e se desfaz, infinitamente.

Na ficção, temos a oportunidade de ser o que nunca seríamos… Criando ou mesmo apenas no usufruto da ficção: ler um livro, assistir a um filme, ouvir uma canção.

Para o adulto seria na profissão (ao construir um “papel”, uma “máscara social”) que o dom e a sina do campo da subjetividade poderiam se mesclar; talvez seja isso o que os fenomenólogos gostam de chamar de “intersubjetividade”.