Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

Vou falar em Florianópolis / CEART – UDESC

No dia 6 de junho, terça-feira, vou falar sobre “arte e infância” no CEART da Universidade Estadual de Santa Catarina. Quando convidada, criei um título e uma sinopse:

 Arte, fenomenologia e infância:

uma via menos percorrida

Sinopse:

Esta conversa introduz os interessados na leitura fenomenológica da infância às noções de “criança performer” e de “abordagem espiral” no ensino de arte, tal como pensadas e propostas por Marina Marcondes Machado. A compreensão da criança como performer nos leva a uma atitude adulta que remete àquilo que a Sociologia nomeia “atores sociais protagonistas” – não se trata da adesão ao conceito de performance nas artes cênicas, o que implicaria em pensar crianças como mini-adultos ou mini-artistas, mas antes, a filiação à performance como modo de ser e estar no mundo. Nesta chave, adultos e crianças são protagonistas em seus mundos de vida; para que isso efetivamente aconteça, o campo da educação pode ser repensado, reproposto, redesenhado, especialmente em seus âmbitos criativos. São eles, na infância: os campos da brincadeira e das artes, da palavra falada e do gesto espontâneo. Nosso ponto de vista terá como lente a abordagem espiral para a re-escritura daquele campo de conhecimento, na qual teatro, artes visuais, música e dança não serão consideradas “linguagens” – e sim “âmbitos artístico-existenciais”.

Penso que os grandes temas de minha fala serão, então: uma noção de infância (contida na expressão “criança performer”); uma noção de arte (contida na expressão “âmbitos artístico-existenciais”); uma noção de arte e educação (contida na expressão “abordagem espiral”). As três noções misturadas, mixadas, hibridizadas, dão caldo para uma ciranda, para uma brincadeira de roda, para uma teatralidade rica em imaginação e faz de conta.

Por “via menos percorrida” quero dizer a Fenomenologia, que pode ser lida e apreciada na obra, por exemplo, de Paulo Freire. Trabalhar arte com crianças muito pequenas é trabalhar a autonomia. Autonomia para ser o que se é. Aprender a falar a fala falante, aquela recheada de expressividade e transformação.

Não gosto de ser considerada “especialista”, mas estou feliz pelo convite para falar das relações entre adultos e crianças, acontecidas pela arte na pequena infância. Também me atrai a possibilidade de falar em público e provocar a audiência no sentido de desnaturalizar a arte definida como “linguagem”. Todos dizem isso tal qual se fala sobre uma obviedade! Como e quando isso aconteceu? Qual o conforto que essa definição traz, para estar assim tão arraigada entre nós?

Não vou desmentir, vou afirmar que arte como linguagem é um dos modos de definir arte.

E proporei outro: imaginem que é próprio da existência dos entes humanos o fazer artístico. E nessa imaginação localizem âmbitos: lugares, modos de habitar. Teatralizar. Espacializar. Corporeificar. Musicalizar. Os verbos desenhados como mapas: lugar das teatralidades; lugar das espacialidades; lugar das corporalidades; lugar das musicalidades. Agora misture os lugares, como se fossem serpentinas que se espiralam. Pronto: você concretizou, por meio das minhas “instruções de jogo”, a abordagem espiral no ensino das artes, concebidas como âmbitos artístico-existenciais.

Agora te proponho que as “instruções de jogo” se tornem “roteiro de improviso”:

Pegue um grupo de crianças entre zero e cinco anos. Peça ajuda a outros adultos… para levarem o grupo ao jardim; ao quintal; ao pátio; a um lugar com céu aberto e visível. Com sol da manhã.

No quentinho do sol converse com eles devagarinho. Solicite que fechem seus olhos, para sentir o amarelo.

Diga que quando menos esperarem podem ficar vermelhos!

De vergonha? De raiva? De amor? De sol forte?

Ao abrirem os olhos vejam o verde! Procurem por ele. Debaixo da árvore. Na blusa do Lucas. No balde da dona Antonia. Na ervilha torta, verdura no prato do almoço?

Em seguida sugira o roxo.

O roxo tem uma irmã gêmea, a lilás. Vamos brincar de esconde-esconde com eles?

No pique estava o azul. Desceu do céu por um instante. Está procurando pelo Branquinho, apelido do filho do músico Egberto Gismonti quando era nenê.

Nessa hora volte em câmara lenta para a sala, e ouça com todos eles o disco Branquinho, de Egberto Gismonti.

Pare de falar. Deixe que a música fale, e toque, e ela própria proponha o imaginar.

No final, na hora de ir embora, peça que cada criança diga em casa como foi que conheceu o branquinho.

Na próxima semana, traga um roteiro de improviso que os introduza a Luiz Melodia: o Negro Gato.

Depois disso, construa um projeto de escuta, fruição e rodas de conversa com o som de artistas brasileiros negros: Itamar Assumpção gravou uma maravilhosa trilogia “Pretobrás”. (Quer algo mais atual que isso?)

Que acha disso tudo?

Quais foram os “conteúdos” trabalhados até aqui?

Você pode dizer que esteve, neste dia, pelos caminhos da educação em favor da mistura étnico-racial própria do Brasil?

Se sim, como e por que?

Se não… comece tudo de novo.

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos…

Por que eu não pensei nisso antes? Postar no Agachamento Itamar Assumpção!

O CEART fica na Av. Madre Benvenuta 2007, o encontro será a partir das

14:00 hs do dia 06/06/2017 no Espaço 1 do Bloco de Artes Cênicas / UDESC

Convite para o Quinto Agacho do AGACHO

Convite ao debate

Agachamento

Desde que o AGACHO é um grupo de pesquisa registrado no CNPq, faço com meus orientandos um encontro semestral aberto ao público para conversar sobre pesquisa em artes, e sobre as pesquisas em andamento sob minha orientação: é o que chamei de Agacho do AGACHO.

O quinto encontro será no dia 2 de junho, pela manhã, com a presença do professor, docente da FaE, pesquisador e artista, Vinícius Lírio. Ele é nosso parceiro no curso de teatro da UFMG, responsável pela orientação de dois estágios da Licenciatura. Penso que podemos ampliar essa parceria, misturando mais os âmbitos Belas Artes / Faculdade de Educação.

Quando o convidei tive uma ideia brincante – convite pra brincar comigo, conosco – e disse: que tal nos entrevistarmos mutuamente? Ele topou.

Depois, tentei inventar três perguntas interessantes e pertinentes, parecidas com os anseios e as angústias dos jovens professores de teatro em formação. São elas:

– Como eu faço para conseguir um resultado processual, que não precisa ser necessariamente espetacular?
– Como eu consigo avaliar o aluno de teatro sem ser apenas dando “notas” e “conceitos”?
– O que falta nas políticas públicas brasileiras em educação para o campo da arte ser realmente compreendido e valorizado?

Do meu ponto de vista, são quase que as “perguntas que não querem calar” nos meus cursos na UFMG, perguntas feitas pelos alunos e/ou imaginadas por mim, a partir da convivência. Muitos já trabalham com o ensino de teatro, em diferentes espaços (escolas, ongs, projetos livres); todos passarão pelos estágios obrigatórios; e, nas aulas, deixo claro que discuto, preferencialmente, “o que deveria ser”. Faço isso propositalmente: é minha metodologia. Metodologia de imaginar melhores dias; melhores situações de trabalho e de vida; projetar, sempre, que o teatro pode ser um meio de ser feliz, e de criar um mundo melhor. Esse seria o maior valor do nosso campo de trabalho. Junto a ser feliz em um mundo melhor, o teatro também é lugar de liberdade para ser triste e encarnar o mundo pior. O pior dos mundos é um possível potente pano de fundo ficcional. Tudo isso revela a substância transformadora e pensadora do teatro, imensa, embora muitos não a aproveitem o suficiente.

Muita gente faz uso do teatro para doutrinar, para adestrar, para moralizar. Podemos dizer que numa das pontas do cabo de guerra está essa força. Deve estar à direita. Na outra ponta, a antiestrutura, a rebeldia, a reflexão – incluindo o questionamento ao ato de doutrinar crianças e jovens, adestramento e moralização propostas por adultos que os dirigem em pecinhas bem feitas, por vezes com figurinos engomados cujo objetivo é cumprir a expectativa adulta de assistir e aplaudir “suas” crianças no palco. Infelizmente ainda é majoritário o pensamento do uso do teatro para dar visibilidade às maneiras de ser e estar no mundo do ponto de vista dos adultos (arte serve para… criança no palco é… etc.) Tenho para mim que a Licenciatura em Teatro em uma universidade pública deve trabalhar na direção de dar visibilidade aos modos de ser e estar no mundo do ponto de vista das crianças e jovens, em diálogo com os adultos, sim, e no mesmo mundo compartilhado. Isso se chama protagonismo. Mas… como fazer isso?

Quem quer debater precisa comparecer!

Vejam como:

QUINTO AGACHO

DO

AGACHO / Laboratório de pedagogias teatrais

No dia 02 de junho de 2017, das 10:00 ao meio-dia, no Espaço Laranja do prédio do Teatro da Escola de Belas Artes, na UFMG – Campus Pampulha, acontecerá o Quinto Agacho do AGACHO: encontro semestral do grupo de pesquisa da professora Marina Marcondes Machado.

Proposta: entrevista mútua entre Marina e Vinícius Lírio, aberta aos participantes.

Tema: o ensino do teatro hoje.

Agachamento

Criação: parâmetros e limites, fronteiras e aberturas

Uma proposta minimalista

 Cada aluno do curso “Brincar, criar, teatralizar, viver” (Escola de Belas Artes, UFMG, prédio do Teatro nas sextas-feiras de tarde) recebeu, na aula do dia 7 de abril, um brinquedo e um brinquedo-sucata. O material é comum a todos, e tem esta cara:

material inicial

Propus prepararem um ato performativo, com duração de apenas um minuto, a partir destes dois elementos. Parto do pressuposto de que será um dizer autobiográfico – sempre é: segundo Saramago e muitos outros artistas… tudo é biográfico!

Será  um “exercício avaliativo” e causou alguma ansiedade, e diferentes tipos de dúvida. Alguns alunos sentem que não poderão ser de fato criativos… consideram que estou dirigindo demais, com um comando que posso resumir aqui em:

Crie um dizer com duração de um minuto

a partir de sua corporalidade

e desses brinquedo e brinquedo-sucata.

Chamo esse tipo de enunciado de roteiro de improviso. Tenho como fio condutor a seguinte frase do psicanalista Winnicott: Em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição. Winnicott amava paradoxos. O paradoxo desse dizer é a conexão entre tradição e inovação.

Qual tradição evoco no enunciado do exercício proposto aos alunos?

A tradição da performance. (Sim, a performance já é um campo cultural estabelecido!)

Há mistura entre brinquedo feito pelo adulto (o pequeno pato) e a hipótese de brincar com as coisas do mundo (um papel alumínio que foi tampa de iogurte).

Há mistura entre ser livre para dizer o que quiser, no entanto com uma moldura comum a todos, e dada, elaborada por mim: os materiais e o tempo de um minuto.

Uma hipótese para o estranhamento do jovem aluno estaria em uma crença de que, para criar, não precisamos – ou ainda, não podemos ter! – nenhum parâmetro, limite ou fronteira. Caso contrário (com parâmetros, limites e fronteiras) não haveria liberdade de criação.

o pato dormiuA crença da não necessidade da presença de um Outro condutor para seguir o caminho criativo é, do meu ponto de vista, ilusória: especialmente no ensino de arte. Se deixarmos tudo aberto, tudo muito à vontade, as zonas de conforto poderão nos tomar de tal modo… que dormimos no colchãozinho (rs). Fazemos o que já sabemos.

Uso o deitar como imagem para uma posição onírica e que não requer ações mais complexas, inusitadas, de risco. Presença acordada… acorda patinho!!

A chave do enigma dessa proposta comum a todos: “usar” os dois objetos para mostrar algo que surpreenda o grupo; o foco é a possibilidade de compartilhar sua ideia, criação, sentimento-pensamento, e perceber o mesmo dos outros… sob o mesmo comando, com os mesmos materiais… dezessete pessoas vão expressar sua relação com a proposta, os dois brinquedos, e com o curso até agora.

Decifrar o enigma é abrir-se para a propositiva, criada por mim. Trata-se de estabelecer uma relação de confiança. Parecido com o jogo de andar por aí vendado com alguém nos conduzindo. Entregar-se e ligar-se noutras possibilidades, que não a da racionalidade ou da liberdade não-situada. Na conexão por nós trabalhada, a liberdade não-situada é uma ilusão de liberdade. A moldura é a possível “aula de artes” – que agora nomeio “ato performativo”.O mote é procurar agir desse mesmo modo no cotidiano como professor:

Ofertar algo ao aluno.

Desafiá-lo a algo enigmático.

Trabalhar a criação com pequenos parâmetros dados por você = professor-artista condutor.

Deixar acontecer. Depois, reuniremos todos os atos performativos de 1 minuto em tempo real. Disse a todos que isso é performance. Simples assim.

Para quem quer saber mais, indico dois autores muito importantes: Allan Kaprow (artista) e Marvin Carlson (estudioso da performance). E como referência brasileira, Eleonora Fabião, sempre. Ela  dialoga com o uso desses roteiros, e os nomeia roteiros de ação – já fazem parte hoje, como disse no início do texto, da tradição performática. Os roteiros performativos são sempre bastante abertos e podem mudar a qualquer momento, por serem relacionais, e dados de fato no acontecimento – não no papel escrito. Procurem via google, gente, ta tudo lá!

Quem vem?

retrato dos alunos

 [Aviso importante: A aula que vai reunir todos os minutos será dia 5 de maio]

 

 

 

Pequena visita ao filósofo Benedito Nunes (1929-2011)

Ainda sobre os elos arte-e-vida

Fui a uma banca de mestrado e, para arguir, retomei a leitura de um livro simples e importante, de Benedito Nunes: Introdução à filosofia da arte. Infelizmente, ao escrever esta postagem, descubro que o livro está esgotado. Ele publicou a primeira edição em 1967; tenho uma edição revista de 1989 (Editora Ática, SP).

bene? na sua casaBenedito Nunes é um filósofo brasileiro nascido no Pará e que estudou Heidegger como ninguém. Foi também um grande estudioso de poesia, escritor e crítico literário. Morreu no ano de 2011. Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente, na década de 1980, pois era praticamente padrinho [intelectual] de meu ex-marido Valdir Sarubbi, também paraense.

Seu livro é extremamente didático sem perder o rigor e a inteligência. Destaco aqui, nesta postagem, citações do texto final – nomeado “Epílogo” – no qual o Bené, como era carinhosamente chamado, procura anunciar o que acontecerá no campo de conhecimento (e vida!) da arte.

Lá ele escreve, conversando com o leitor sobre “abstração”:

Saturado de coisas fabricadas, de mercadorias, de materiais novos, fechado na outras memo?riasarmação das grandes cidades, e aí em contato com a segunda natureza que a técnica em expansão contínua acrescentou ao mundo físico ou natural, submetido à ação de forças anônimas desencadeadas pela produção industrial, o artista necessitou domar as circunstâncias, alargar e ordenar sua experiência, inventar as formas claras que se sobrepusessem à confusão. Demiurgicamente ele delineou a figura do cosmos latente na massa caótica com que se defrontou. A abstração na pintura, na escultura, e até na literatura, não é tanto uma renúncia, como a afirmação do impulso artístico que, em luta contra potências estranhas, objetivas, impessoais, da sociedade moderna, contribui efetivamente para humaniza-las. A arte sempre dispõe daquela força regeneradora, ideal num certo sentido, cujo efeito foi apontado por Schiller nas cartas Sobre a educação estética: o estabelecimento das primeiras relações liberais entre o homem e o universo. (pg 122)

Penso ser um texto extremamente lúcido e elegante que deixa explicitada a posição do autor de que arte é sim um caminho político de mudança e de apreensão de mundo:

o dorso do tigreSe, como exige Herbert Read, o artista deve criar imagens de um novo mundo possível nessa era de transformação científica, a liberdade de criar, que ele conquistou, impõe-lhe uma tremenda responsabilidade, à qual não pode fugir. (pg 123)

E, como estudioso de Heidegger que é, Benedito Nunes associa a arte a um jogo com as possibilidades da existência e do ser. Assim ele nos anuncia a direta relação arte e vida no modo contemporâneo – novamente com lucidez e elegância:

(…) a criação se associa à experiência metafísica do desnudamento, através da linguagem, da situação do homem no mundo.

Trata-se, segundo o filósofo, da procura de uma nova linguagem:

É muito significativo que, atualmente, a poesia, nas suas expressões de vanguarda, mesmo correndo o risco de ficar detida no “grau zero da escrita” – para o qual, segundo Roland Barthes, a literatura tende, em consequência da substancialização das palavras, utilizadas como objetos, com o sacrifício do seu valor transitivo de comunicação – ande à procura de uma nova linguagem.

E segue anunciando que a procura da novidade vai abrir um campo de possibilidades para os “homens do século XX” (expressão do filósofo) cuja pergunta seria:

Esta perspectiva utópica, da arte realizada na vida, não é uma das grandes aspirações do artista contemporâneo? (p.124)

Gosto muito do caminho que o professor vai tomando! O “Epílogo” é um texto pequeno mas denso, cheio de giros hermenêuticos:

Mas, dir-se-á, a arte realizada na vida anula-se como arte. Não haveria mais memoriae (cristais de luz)diferença entre ser e criar, existir e produzir. O trabalho criador não seria mais privilégio dos artistas, mas a condição universal do trabalho humano. O homem encontraria beleza nas coisas úteis que produzisse para satisfazer as suas necessidades primárias, e fruiria da utilidade imediata das coisas belas. Mas isso só poderia ocorrer extinguindo-se a dualidade da práxis, ora produtiva, ora expressiva, para que o homem pudesse expressar-se em tudo quanto produzisse, e nada pudesse produzir que não fosse expressivo.

Benedito Nunes escreveu este “Epílogo” (para seu primeiro livro) no final da década de 1980, como apontado no início desta postagem. É muito interessante ler sua “utopia” para o futuro da arte e do artista. Muito tempo antes do jargão “arte relacional”, por exemplo, ele vai nos levar lá – a um lugar sem fronteira, híbrido, e cujo significado é “transcender a realidade” (suas palavras):

O artista contemporâneo, inquieto, estimulado por tantas modalidades de experiência, do presente e do passado, tendo à sua disposição, para contemplar e aproveitar, as formas artísticas que herdou, continua sendo impulsionado por essa tendência, que sempre conduziu a atividade criadora em todos os tempos. (pgs. 124-25).

Assim chegamos ao ápice de seu texto, ou seja, à sua conclusão própria do que estaria por vir:

Mas, hoje, dada a consciência crítica que conquistou, e que nele se tornou uma práxis lúcida e reflexiva – gerando obras que participam da inteligência racional e que exigem do contemplador, além da simples receptividade emotiva, um esforço de penetração intelectual –, o artista contemporâneo não se contenta apenas com ser o agente da aparência estética que se sobrepõe à realidade. Quer, também, criar uma nova realidade, transformar o possível em real. O Adrian Leverkühn, de O doutor Faustus, de Thomas Mann, traduziu essa aspiração, que define o destino da atividade artística de nossa época:

A arte quer deixar de ser uma aparência e um jogo, quer tornar-se um conhecimento lúcido.

*

Achei das mais interessantes a virada, no texto, do lúdico ao lúcido. Eu penso inúmeras vezes desse modo também, diante de uma espécie de banalização do que é a palavra, e a concretude, e os simbolismos, para “o lúdico”. Especialmente os pedagogos gastaram a potência deste termo. O brincar é também, agora, e já disse isso outras vezes no Agachamento, bandeira para a indústria do sabão em pó (!). Sugiro então que os que tiverem a mesma impressão e estão por aqui agachando que pensem outros modos de dizer… Prefiro a palavra brincante, e também, a criação lúcida. Significaria com luz; com possibilidade de clareza; nos termos heideggerianos, clareira.

Habitar o próprio corpo é brincar, é ser brincante – iluminar e ocupar, de modo lúcido, a espacialidade do mundo circundante. Do “ao redor”. Luz ao redor. Velas, sol, lanterna, fósforos, razão imaginante. Talvez isso mudaria a chave do caminho intelectualista que muitas vezes o artista educador de crianças e jovens tomou… Ou não?

antigos duen?os de las flechas

As imagens desta postagem são todas registros da obra do artista e educador

Valdir Sarubbi (1939-2000)

Arte e vazio

 Aproximação arte-e-vida, em todas as idades, com todos os seres viventes

cantoSe o Agachamento tem uma bandeira, ela é a recusa da divisão da vida humana por etapas, idades, especialidades…

Por vezes chamei essa recusa de “não-desenvolvimentismo”.

Depois percebi como não era interessante negativar o “outro modo”, e passei a usar palavras mais potentes. Uma delas é liminaridade. A vida é liminal. As relações acontecem sem fronteiras definidas, e a maturidade da criança, por exemplo, por vezes é surpreendente – bem como a criança se manifesta, toda a vida, no adulto, por meio da ingenuidade ou pouca experiência em diferentes situações.

Por “liminaridade” os sociólogos que pensaram a performance definiam um lugar entre; uma fenda; uma brecha; um risco de fronteira… uma intersecção entre fronteiras… É interessante pensar assim pois é uma noção análoga ao espaço potencial de Winnicott (lugar virtual e relacional entre a mãe e seu bebê), e é algo que conversa com um conceito japonês de espaço, [MA]: vazio; espaço intervalar; algo – não uma substância nem uma concretude – a ser preenchido e ocupado por pessoas; silêncio entre as palavras; distância entre objetos, e entre tempos.

Estou estudando a espacialidade [MA] que se tornará uma espécie de véu, nuvem ou subtexto para uma encenação que estou preparando com dois ex-alunos. O tema desta encenação é a morte de bebês durante suas vidas intra-uterinas. Um tema dificílimo; um tema tabu; um tema ele mesmo liminar: imagine, para a gestante que carregava vida, passar a carregar morte – e pari-la. Eu vivi isso em meu corpo, trinta anos atrás. Essa experiência me fez uma boa espectadora da arte butoh: um caminho de criação que certamente pode ser designado por liminal.

Também a liminaridade é uma palavra dita, escrita para as fronteiras entre viver e fazer arte. Haveria um interstício, um tempo-espaço feito de lacuna e silêncio, no qual a existência (feita de nascimento, vida e morte) é/coincide com a experiência estética.

Gosto muito do seguinte escrito de Kazuo Ohno:

De maneira nenhuma pode-se dizer que não haja nada em um palco vazio, num palco que se pise de improviso. Pelo contrário, existe ali um mundo transbordante de coisas. Ou melhor, é como se do nada surgisse uma infinidade de coisas e de acontecimentos, sem que se saiba como e quando.

Tenho pensado muito no vazio e nos intervalos. (Isso é maturidade?)

Senti, ao longo de anos de trabalho em formações para professores, que quase todo educador da primeira infância tem medo de espaços vazios. Consideram que o espaço vazio convida ao caos e a um tipo de corporalidade de briga e conflito… Eles acreditam que “as coisas” no espaço são suas intencionalidades (uma palavra filosófica bastante deturpada no discurso pedagógico corrente), e que o adulto tem que ter propostas eficazes e objetivas… No âmbito da arte, pensar assim mata a liminaridade, o risco, o imprevisto. Nega a potência improvisacional da relação da criança com espaços vazios, a serem preenchidos pelos corpos próprios em movimento, vividos: caminhadas pelo espaço; instalações; pequenas cenas de encontros e trombadas; etc. Trombadas! (É o que as professoras temem…rs)

Tenho pensado em fazer um projeto voltado à pequena infância e às professoras… tematizando o vazio. Escrever sobre possibilidades de criação, quando há brechas, incompletude, fazer convites à criança para que ela “ligue os pontos”… no vazio!, que é a cheiura de possiblidades que o espaço vazio pode conter. Isso significará, no meu ponto de vista, um grande, bonito e denso trabalho corporal e imaginativo, ao mesmo tempo: imaginação performada; invenção / intervenções sutis no espaço feitas pelo adulto, para o “achado” da criança. Espacializar imaginações. Imaginar espacialidades. Criar um livro (anti) didático que remeta à vida mesma, como convite a atos performativos entre adultos e crianças. Um livro que converse com os adultos na direção da sustentabilidade e da possibilidade contida no vazio; low profile, slow profile… lentidão propositiva.

A proximidade arte-e-vida já acontece, quando os adultos são ‘suficientemente bons’, e deixam seus filhos nuvemexplorarem a praça, o ponto de ônibus, o corredor do quintal do vovô. Usar os cantinhos! O que não é sinônimo (por favor!) para a pedagogia dos cantos (arrumados pelo adulto, com bases e estruturas cognitivas tão sólidas que se desmancham no ar… E ai se uma criança quiser ir de um canto ao outro com coisas na mão e “misturar”—já vi esse filme!, as educadoras piram e consideram bagunça improdutiva). Bagunça há que ser uma enorme palavra-chave para experimentar arte. Não há criação nem ato performativo sem desorganização: ir de um certo caos para outra forma, (des)arrumar o faz de conta, misturar tintas na medida… o que certamente antes passa pelo exagero daquele grande marrom ou roxo que as crianças pequenas atingem, quando deixadas livres para a mistura. (Alguém ta deixando?)

Bagunça pode sim combinar com intencionalidade – não no sentido banal, que é similar a intento e objetivo – mas no sentido filosófico, que implica numa consciência que se lança. Lançar-se a um projeto; projetar-se.

A intencionalidade é relacional. Sempre. Quero propor a bebês modos de perceber que o corpo engatinha. Nunca conseguiria obriga-los a sair engatinhando! Eu proponho… eu infiro… eu brinco… eu mostro sendo eu mesma leopardo e tatu. Eu evito o gatinho e o miau (diminutivos e simplificações): eu amplio e encarno no corpo uma mesinha e suas quatro pernas palito. Intencionalidade criativa é isso: fluxo. Fruição. Jogo. Riso.

Excesso de pranto ri, excesso de riso chora (tradução de um verso de William Blake).

E para que haja “um clima de engatinho” eu penso em objetos e rolinhos de tecido; eu pesquiso o que outros educadores fizeram nessa direção; eu tenho paciência – e espero.

Ter paciência e esperar parecem ser as qualidades do espaço [MA].

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Estou no início deste estudo; parti da importância de perceber a riqueza do vazio… debaixo da ponte, no buraco, dentro do túnel; duas cadeiras viradas uma para a outra. Espacialidades propõem um modo de relação. Sempre. No mundo da educação o vazio não será sinônimo de falta ou pobreza.

 

 

O vazio seria lacunar, para que se achem coisas inusitadas e invisíveis: adultos e crianças.

O vazio é menos plasticoso e mais buraco na areia. (Mesmo que [provavelmente] feito com pá de plástico).

O vazio constata a solidão compartilhada. Expressividade em gesto e palavra. E silêncio.

Estar. Ser. Para depois fazer. Fazer algo com os achados. Dar um perdido. Deitar na rede. Olhar as nuvens. Cantar…

Se os adultos não agirem nesse sentido, não conectarem, a criança não adere, não imita, não procura mimesis. Não tem como ter ideia, sem um ambiente rico, propício, generoso para o uso criativo dele mesmo… Mais um ensinamento do Winnicott: proporcionar às crianças um ambiente facilitador.

O que não é sinônimo de facilitação.

Muitas das premissas de Winnicott eu enxergo como orientalistas. Ele sempre valorizou processos e dizia que vamos da dependência  total rumo à independência. Caminhos. Trilhas. Maneiras de tocar, andar ao lado, dar as mãos e continuar. No entanto sabemos que nunca chegaremos lá – nem deveríamos (a independência total não existe).

A continuidade das relações para Winnicott são essenciais. O adulto sobreviver, permanecer no mundo, mesmo depois do mais terrível ataque de ira da criança pequena. Isso gera confiança. Isso provoca o concern: capacidade de compreender o outro; comoção; comiseração.

O cinema tem tematizado isso, recentemente. Viram Eu, Daniel Blake? Viram A garota desconhecida? São filmes distintos mas que possuem um elo: retomada de uma simplicidade, de escuta e de acolhimento ao outro. E da possibilidade de consertar as coisas.

outonoO verão vai acabar; o outono sempre me deixou otimista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A fenomenologia não é uma pedagogia

O Havaí é aqui

vou ao mundo

Tenho recebido algumas mensagens, por e-mail, de educadoras – jovens mães, bem como estudantes de Pedagogia – que estão frequentando o site-blog Agachamento com alguma frequência. Fico feliz! Feliz por fazer do Agachamento um lugar trankilo e favorável (rs): um espaço para ler, discutir, refletir, e, especialmente, meditar sobre as relações adulto-criança na contemporaneidade.

Em alguns dos e-mails, percebo o desejo de fazer do pensamento aqui veiculado (a Fenomenologia a partir de Maurice Merleau-Ponty, algumas noções da Psicanálise inglesa, e meus estudos próprios) uma prerrogativa pedagógica. Daí a escrita desta postagem aqui, agora.

Como diz o título escolhido… a fenomenologia não é uma pedagogia. (Soa estranho dizer o que não é… pois é próprio da fenomenologia afirmar, positivar o fenômeno observado, vivido, estudado, relatado… Chegarei lá, ao “que é”, mais adiante no texto). Quem melhor levou princípios fenomenológicos para um lugar pedagógico foi Paulo Freire. De minha parte, procuro trabalhar com os princípios da fenomenologia no ensino do teatro, mas o teatro é feito de tradição e experimentação em um campo de conhecimento, inserido na cultura educacional e artística brasileira, em diálogo com pessoas de teatro.

A expectativa das jovens mães é grande, por um modo de fazer, de ser e de estar, que deixe suas crianças… bem, saudáveis, felizes.

A fenomenologia não é uma cenoura ralada nem um chocolate caseiro! Rs

Estar agachada, perto da criança mesma, procurando que ela seja o que ela é, não garantirá saúde psíquica nem ausência de dor e conflitos.

Desse modo, o maior e melhor conselho que tenho para as mamães: não pretendam ser perfeitas!

É o que nos ensinou Winnicott, com sua obra de uma vida – atendimento de milhares de duplas de mães-e-bebês em hospital público, atendimento de centenas de crianças e de adultos em consultório de psicanálise, e muitas contribuições para políticas públicas inglesas, incluindo um programa de rádio na BBC de Londres, cujo público ouvinte eram as mães comuns (ordinary mothers). Winnicott criou a expressão the good enough mother, cuja tradução é meio bobinha…: a mãe suficientemente boa. Mas o cerne deste conceito ou desta maneira de ser não é nada boba: significa não querer ser perfeita (atenção, a perfeição é nociva!) nem ser desastrosa ou ausente…

O que é encorajador é que, para Winnicott, a maioria das mães comuns mostram-se, ao longo do tempo de dois e? umconvivência, suficientemente boas. Ele inclusive aconselha que as mães não leiam teoria (!!) durante o primeiro ano de vida de seus filhos. Isso porque o estado de fusão inicial entre a mãe e seu filho é muito semelhante ao estado de psicose. União na qual dois é um. Ficar lendo teoria poderia atrapalhar essa maluquice toda! Que tem hora pra acabar.

Bom, apenas com fins didáticos… vou incorrer novamente no erro de discorrer sobre o que agachar-se (como noção fenomenológica) não é:

• Não é presença em excesso

• Não é deixar brincar tal qual galinhas no quintal (uma vida “natural”)

• Não é extensão da fusão e da situação de amamentação durante a primeira infância inteira ou ad infinitum

• Não é fazer tudo que a criança quer (chamo isso de “queremismo”)

• Não é relação horizontal estrito senso (o adulto é racional, tem que cuidar, tem que zelar, e o bebê precisa disso, da racionalidade adulta, para ser e ter um “eu”)

Agora seguirei o raciocínio, então, na direção de o que é, ir ao chão onde a criança está:

Trata-se de uma atitude. Uma atitude inicialmente filosófica, pois a fenomenologia é um método filosófico – ou seja, um modo de pensar. Pensar as crianças como pessoas; e como pessoas que já são. Isso quer dizer que a infância não será considerada um tempo de preparação para outra etapa, fase ou maturação…

Trata-se também de uma qualidade para a atitude, que aproximo ao que Winnicott resumiu por “estar presente mo?bilee ausente” (daí ser nocivo estar presente acudindo a tudo e a todo momento). A saúde psíquica na infância estaria pautada em uma espécie de ilusão – ilusão de que sou eu que crio o mundo! (A isso a psicanálise clássica chama de onipotência). Daí a não horizontalidade: pois o adulto sabe que não, que o mundo já pré-existia… e o adulto faz intervenções nesse mundo; coloca o móbile no teto do quarto, faz a caixinha de música tocar, canta e murmura palavras de amor… Mas é importante que o bebê descubra a seu modo o móbile e tudo o mais; a seu modo e em seu tempo. E também é preciso deixa-lo não se interessar pelo móbile, pois isso pode acontecer.

A pressa e a vontade de “fazer acontecer” do adulto cuidador é ansiógena. Os bebês precisam de quietude e solidão. E do direito a ser lento. E a ser e não-ser também, por vezes.

Trata-se de uma solidão compartilhada. Estar no berço acordado, ouvindo os ruídos da casa: e não necessariamente ser pego no colo no primeiro minuto em que se acorda.

Estar brincando ao lado da mãe que lê um livro.

Ser e estar brincante. E ir se afastando – com o fio de Ariadne nas mãos (fio da mitologia, dado ao herói para que não se perca no labirinto…). Aliás, fios e cordinhas são brinquedos-sucata que atraem e agradam os bebês; Winnicott diz que o cordão tem um papel protetor e imaginativo: lembrança (ao mesmo tempo, concreta e imaginativa) da existência da mãe.

Agachar-se é atitude que favorece a solidão compartilhada.

É algo relacional.

É cultivar uma espacialidade que não invade a criança com o “ter que” – pois muitos acham que “tem que brincar”, e que “não tem que chorar”.

Chorar, para Winnicott, é vida! É exercício de pulmões! É exercício vital e expressivo.

(Muitos “xingam” Winnicott de otimista – rs).

me preparoO adulto que se agacha sabe sair. Ir embora, para deixar acontecer. Mas ele faz isso sem (muita) culpa e sem (tanta) tristeza – embora o bebê por vezes chore um choro triste, melancólico, e de luto. Luto pela separação, pelo fim daquele estado que significou “dois é um”. Lentamente o bebê percebe seu contorno; surge um envelope para o corpo; engatinhar e andar é muito significativo nesse processo: afastar-se. Ir para longe… e voltar. Repetidas vezes. Jogar brinquedos e coisas longe (para o adulto catar!) é também parte do mesmo caminho. Para Merleau-Ponty é uma pesquisa entre “espaço corpo próprio” e “espaço mundo compartilhado”.

O adulto que se agacha não tem escrúpulos em ser Tradicional. Antigo. Autoridade. Isso aprendemos com Hannah Arendt – que a educação é algo velho, e a criança é o novo, em um mundo velho, antigo, já dado. Transformá-lo, rejuvenesce-lo, é obra de jovens. Estaremos ultrapassados, em breve. Muito em breve. Agachar-se é saber sair e envelhecer. Morrer um pouco, para que o outro viva sem nós. Uma espécie de sabedoria zen. E atenção: agachar-se não é permanecer criança, nem “chamar sua criança interior”.

Agachar-se é ser suficientemente adulto para saber que a vida escolar é parte da cultura humana, especialmente da cultura humana urbana. Percebo que algumas mães desavisadas consideram a escola nociva ou “castradora”. Do ponto de vista deste site-blog, educar é castrar! Não no sentido veterinário! No sentido psicanalítico. O que significa que a educação de crianças não é simplesmente feita de “sim”. Agachar-se é saber dizer “não” – um dizer amoroso, contextualizado, e adulto. Não se pode subir numa janela sem rede de proteção no oitavo andar. Simples assim!

Mas “ele quer”!

Pois é!

Que bom que ele quer conhecer o mundo pela janela, e que bom que alguém está por perto para impedir o impulso de saltar pela janela – pois ele existe: o impulso é real, como é também devaneio; é por vezes desejo de voar, ser super-herói, ou ainda, para alguns, pesquisa sobre o Doutor Morte.

Agachar-se é permitir que Doutor Morte apareça, também nas brincadeiras de faz de conta. Muitos querem crianças docinhas e coloridinhas que brincam com flores e frutas, que não tenham contato com espadas de plástico nem arminhas de brinquedo. Falei sobre isso em meu texto anterior (ao comentar sobre brincar de violência).

Poder brincar de morrer, brincar de guerra, brincar de terrorismo, não é morrer, guerrear ou praticar terrorismo. É este um outro ensinamento muito precioso de Winnicott: valorar positivamente a capacidade de fantasiar.

Agachar-se é propor espacialidades ricas em imaginações. Para além do móbile de brinquedo em cima do me contam o mundoberço. Agachar-se é saber contar histórias, é ser o narrador para os bebês que ainda não falam. Narrar o mundo! Mas sempre e invariavelmente deixando lacunas. Espaços vazios. Intervalos. Para que nesses espaços haja solidão compartilhada. (In)completude. O copo vazio cheio de ar. O bebê e seu pouco tempo de vida, visto como uma pessoa com um tipo de sabedoria. Sabedoria sensório-motora para os piagetianos. Sabedoria polimorfa, não representacional e onírica, para os que, como eu, estudam a noção de infância proposta pelo fenomenólogo Merleau-Ponty.

Mas permanecer na corporalidade polimorfa, não representacional e onírica, na nossa cultura, é ser considerado idiota ou louco. Amadurecer é adquirir pontos de vista. Escolher formas: a forma mais possível nos momentos vividos. O onirismo há que se tornar… arte, pintura, desenho, modelagem, poesia, filosofia, religião… ciência criativa. Existe lugar para isso – o lugar que Winnicott nomeou “espaço potencial”. Um lugar entre. Um modo de funcionamento criativo que inventa o mundo – mas que compreende (finalmente, isso é tornar-se adulto!) que os outros e as coisas alí estavam, antes de por aqui chegarmos. Essa compreensão é o amadurecimento. Amor / Humor.

Um lugar plástico e polimorfo – outro nome para o espaço potencial é área de ilusão. Winnicott também o chamou de área de conforto. Lugar onde posso, novamente, fazer de dois, um. Mas isso feito eu sei voltar – pois agora eu era; já sei brincar.

O brincar imaginativo não é inato. Não se nasce sabendo. Preciso… de agachos! Preciso poder pirar na maionese. Na companhia do adulto, que me diz, que me conta, que barra / narra as mais possíveis possibilidades para meu corpo de bebê. É isso que significa deixar a criança ser o que ela é.bento onc?a

 

Não é cristal.

Nem plástico, nem argila.

É existência.

 

 

 

agradeço ao pais de Bento Goulart Mourão pela cessão de imagem do seu filho nesta postagem