Tenhamos uma conversa franca e sincera, olho no olho

Nascimento, vida e morte

Com o término do semestre faremos um ato performativo final da disciplina – agora rebatizada por mim – “Brincar, criar, (des)teatralizar, viver”.

Consternada com casos de suicídio entre jovens na comunidade UFMG, pensei sobre a necessidade de conversa, debate, elaboração do momento brasileiro atual e sobre como ele é desanimador para os jovens, cujo horizonte está de fato sombrio, sem perspectivas. Ou com perspectivas ainda piores que as atuais.

Proponho falar sobre isso: tristeza; luto; desejo de morte; e também, no entanto, e sempre, há possiblidade de renascimento e inventividade dos modos de viver… algo difícil mas com o que precisamos sonhar, pois desistir é muitas vezes um impulso muito forte, poderoso, extremo.

Convidei meu orientando Charles Valadares a trabalhar comigo, retomando algo que fiz em pequena escala nos anos da graduação em Psicologia na PUC-SP: a construção, com caixinhas de fósforo e palitos, de pequenos túmulos.

cemitério blue jeansA morte permanece um tema tabu na contemporaneidade. Mesmo entre artistas, há quem se recuse veementemente a pensar sobre o tema (simples assim).

Pensar, criar algo relacionado a morrer, fazer a criação acerca da morte circular, penso ser curativo.

Curativo no sentido etimológico: curar é cuidar.

Poder conversar, silenciar, perceber que tudo que nasce morre; pensar, sentir e elaborar a morte, a desistência, o luto, por meio das possibilidades artísticas é algo que proponho desde os “Cacos de infância”, meu mestrado (que aconteceu entre 1999-2001).

Aliar um tema tão sério e temeroso (na nossa maneira ocidental de viver) ao brincar penso ser uma brecha, uma proposta liminal, o rabisco de uma antiestrutura.

Também falei sobre brincar em cemitérios em um artigo publicado em 2016, cujo título é paradoxal propositalmente: Um cemitério vivo.

Certamente querer tocar na morte é também o que me aproximou da estética da arte butoh. Eu me lembro de minhas primeiras experiências como espectadora de minha amiga Emilie Sugai; ao final eu a procurava no camarim, e por muitas vezes chorava… mas era um choro de gratidão, pela grandeza de sua dança e do que aquilo me proporcionava. Nem sei até hoje ao certo como colocar em palavras o que é que isso me proporciona. Tem a ver com o silêncio e a solidão; tem a ver com o vazio e com o vazio cheio que a dança pode carregar.

O subtítulo do livro Cacos de infância é “teatro da solidão compartilhada”.

De certo modo quero proporcionar algo na mesma chave para/com meus alunos também. Quero tocar na morte para que possamos voltar, permanecer, e sonhar a vida. Nas suas possiblidades mais possíveis hoje, o que revela saúde mental e psíquica, mas nas possibilidades mais impossíveis, pois faz parte também – como campo do fazer artístico (outra saúde… a saúde profissional, fazer arte como invenção de si, com o outro e no mundo; fazer arte para criar novos mundos; fazer arte para protestar e contestar o velho mundo).

Estes tumulinhos foram um sucesso junto à professora pesquisadora Maria Helena Pereira Franco Bromberg, que dirigia (e entendo que ainda dirige) o LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – na década de 1990 na PUC-SP. Ela disse que era muito difícil achar materiais que propusessem o brincar acerca da morte.

Realmente qual fabricante de brinquedos brasileiro o faria?

a mulher que matouExceto nas culturas onde há festas e ritos que comemoram a morte como passagem, meu amigo o pintorou ainda, nas culturas onde há espaço para um tipo de humor, não vemos objetos da cultura produzida por adultos construídos de tal modo que conversem com as crianças. Destaco duas exceções de peso, na literatura: Clarice Lispector e Lígia Bojunga Nunes, que escreveram, respectivamente: A Mulher que Matou os Peixes e O Meu Amigo Pintor.

São referências importantíssimas. Quando as leio tenho (ainda e sempre) vontade de chorar – mas é um choro de gratidão e pertença, por elas se disporem a falar sobre a morte com crianças e jovens leitores, a seu modo. A Mulher que Matou os Peixes tinha ficado responsável por cuidar do aquário de outra pessoa e não deu conta… O Meu Amigo Pintor é um artista que fez amizade com um menino do mesmo prédio onde morava e mantinha seu ateliê, e se suicida. O livro é construído tal como um diário dos sentimentos e pensamentos do menino, que na história tem cerca de onze anos. No diário ele vai relatando que ninguém quer conversar com ele sobre o que de fato aconteceu. O livro é brilhante por encarnar uma forma-conteúdo: uso da metalinguagem sobre como a morte – e especialmente o suicídio – são temas tabu, principalmente diante das crianças.

Gosto muito do dizer da Françoise Dolto de que as crianças tem direito à verdade.

Que acham disso tudo?

pequeno túmulo

Polimorfismo da maçã ou Convite à leitura do dossiê Performance e Escola

Saiu o dossiê Performance e Escola por esses dias, nos Cadernos Cedes da Unicamp. Uma coletânea de artigos desenhada por Gilberto Icle, que tomou a iniciativa, junto com Mônica Bonatto e Marcelo Pereira, de convidar algumas pessoas que estão estudando/praticando algo relacionado ao tema. Foi um longo processo, que durou quase dois anos: decidiram organizar o dossiê e em seguida procurar por onde publicá-lo (a mensagem de convite para participação chegou via email no dia 5 de maio de 2015).

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Para mim o interessante do “longo processo” foi ter a oportunidade de escrever um texto por camadas; sem pressa; acompanhando a vida mesma, pois, em novembro de 2015, o fenômeno das ocupações das escolas explodiu. Esse acontecimento modificou radicalmente o rumo da escrita e da possível conclusão do texto Guerra de maçãs, que penso ter resultado, em sua forma final, em um ensaio. Curiosamente, por meio deste texto obtive o parecer mais positivo e elogioso ‘desde sempre’ na minha vida acadêmica.

Aconteceu um verdadeiro work-in-process / trabalho em processo na minha escrita. Tenho registros importantes nos meus diários de trabalho, que mantenho como rotina. O ponto de partida foi o pedido para que minha irmã Mônica escrevesse para mim um parágrafo descrevendo uma situação difícil pela qual ela passou como professora do Ensino Fundamental em uma escola paulista de período integral: uma guerra de maçãs na hora do almoço.

No mês de março tive a chance de comunicá-lo parcialmente em São João Del Rei, para os pós-graduandos do Programa de Pós-graduação em Educação, em uma aula inaugural. Percebi como era importante a hermenêutica, isto é, a rede de remetimentos acerca da maçã, e levei dez maçãs para que, em certos momentos demarcados previamente por mim, eu doasse uma maçã por vez a alguém na plateia. Também decidi dar as pausas no texto por meio do instrumento de meditação “Pin”, uma espécie de sino. Isso criou, em ondas, uma atmosfera incrível de silêncio significativo.

E no final, dois comentários/elogios muito bonitos me deixaram feliz. Um rapaz perguntou: Como você consegue escrever tão leve?

E o outro disse: Achei do caralho…(rs), e seguiu dizendo que, para ele, era inédito alguém que de fato bancasse a experiência da corporalidade concomitante à comunicação acadêmica. Ao menos foi como entendi seus dizeres.

Ao primeiro, agradeci, mas disse que consegui porque “ralei”. Sim, como disse tenho registros de todas as etapas da criação do texto Guerra de maçãs. Foi um processo longo, intenso, e cheio de altos e baixos. O texto final não “me veio” simplesmente; ele foi trabalhado como “escrita falante”, ao longo de meses e por meio de diferentes versões.

Ao segundo, expliquei que sim, um dos braços da minha pesquisa acadêmica é comunicar textos performando.

Agora, neste caso especificamente, penso que, por meio da temporalidade dilatada para a escrita, acontece que o próprio texto Guerra de maçãs performa.

Gosto especialmente de dois momentos. Vou citá-los para dar curiosidade no leitor desta postagem em acessar o dossiê.

Num momento, digo o que penso ser o ensino da arte:

Proporei pensar a partir do meu campo de trabalho, o território artístico; inicio com o risco de um caminho existencial e relacional traçado de tal maneira que arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e cohabitarmos o espaço mundo compartilhado; arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações; arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento…

Outro momento, já no final, quando advogo pelo direito à salada de frutas:

Entretecemos tempos, espaços, materiais e interações de modo espiral e brincante no tear de páginas deste texto; por fim reivindicamos como direito de todas as crianças e jovens no Brasil: comer salada de frutas e brincar de frutaria de barro e papel maché; arrumadas em prateleiras ou caídas no chão, lá estarão as maçãs de argila à espera de serem (des)arrumadas por brincadeiras imaginativas. E, do lado de cá, as maçãs para serem comidas; que crianças e jovens – tendo comido bem – cantem expressivamente, corram, saltem, agachem-se, brinquem de estátua (sem nunca perder seu dinamismo e movimento); que envolvam-se nos mais diferentes tipos de dança, escrevam prosa e poesia, ampliem seus referenciais em arte, ciência e humanidade, rumo aos mais diferentes tipos de ocupação: desdobramentos da morada de si, com o outro, no mundo compartilhado.

Por tantos anos estudando o modo de pensar do filósofo Maurice Merleau-Ponty, que nos convida a um tipo de escrita e fala falante – contraposta à fala falada, simplória, objetivista – posso dizer que, por meio da construção de um texto por dois anos, atingi algo inédito no meu processo criativo com a palavra. Agradeço aos organizadores do dossiê pelo convite que se tornou um desfio!

Quero muito que os leitores do Agachamento confiram. E comentem.

Para acessar o dossiê Performance e Escola como um todo, procurem pela edição atual dos Cadernos Cedes.

 

 

 

 

 

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

Vou falar em Florianópolis / CEART – UDESC

No dia 6 de junho, terça-feira, vou falar sobre “arte e infância” no CEART da Universidade Estadual de Santa Catarina. Quando convidada, criei um título e uma sinopse:

 Arte, fenomenologia e infância:

uma via menos percorrida

Sinopse:

Esta conversa introduz os interessados na leitura fenomenológica da infância às noções de “criança performer” e de “abordagem espiral” no ensino de arte, tal como pensadas e propostas por Marina Marcondes Machado. A compreensão da criança como performer nos leva a uma atitude adulta que remete àquilo que a Sociologia nomeia “atores sociais protagonistas” – não se trata da adesão ao conceito de performance nas artes cênicas, o que implicaria em pensar crianças como mini-adultos ou mini-artistas, mas antes, a filiação à performance como modo de ser e estar no mundo. Nesta chave, adultos e crianças são protagonistas em seus mundos de vida; para que isso efetivamente aconteça, o campo da educação pode ser repensado, reproposto, redesenhado, especialmente em seus âmbitos criativos. São eles, na infância: os campos da brincadeira e das artes, da palavra falada e do gesto espontâneo. Nosso ponto de vista terá como lente a abordagem espiral para a re-escritura daquele campo de conhecimento, na qual teatro, artes visuais, música e dança não serão consideradas “linguagens” – e sim “âmbitos artístico-existenciais”.

Penso que os grandes temas de minha fala serão, então: uma noção de infância (contida na expressão “criança performer”); uma noção de arte (contida na expressão “âmbitos artístico-existenciais”); uma noção de arte e educação (contida na expressão “abordagem espiral”). As três noções misturadas, mixadas, hibridizadas, dão caldo para uma ciranda, para uma brincadeira de roda, para uma teatralidade rica em imaginação e faz de conta.

Por “via menos percorrida” quero dizer a Fenomenologia, que pode ser lida e apreciada na obra, por exemplo, de Paulo Freire. Trabalhar arte com crianças muito pequenas é trabalhar a autonomia. Autonomia para ser o que se é. Aprender a falar a fala falante, aquela recheada de expressividade e transformação.

Não gosto de ser considerada “especialista”, mas estou feliz pelo convite para falar das relações entre adultos e crianças, acontecidas pela arte na pequena infância. Também me atrai a possibilidade de falar em público e provocar a audiência no sentido de desnaturalizar a arte definida como “linguagem”. Todos dizem isso tal qual se fala sobre uma obviedade! Como e quando isso aconteceu? Qual o conforto que essa definição traz, para estar assim tão arraigada entre nós?

Não vou desmentir, vou afirmar que arte como linguagem é um dos modos de definir arte.

E proporei outro: imaginem que é próprio da existência dos entes humanos o fazer artístico. E nessa imaginação localizem âmbitos: lugares, modos de habitar. Teatralizar. Espacializar. Corporeificar. Musicalizar. Os verbos desenhados como mapas: lugar das teatralidades; lugar das espacialidades; lugar das corporalidades; lugar das musicalidades. Agora misture os lugares, como se fossem serpentinas que se espiralam. Pronto: você concretizou, por meio das minhas “instruções de jogo”, a abordagem espiral no ensino das artes, concebidas como âmbitos artístico-existenciais.

Agora te proponho que as “instruções de jogo” se tornem “roteiro de improviso”:

Pegue um grupo de crianças entre zero e cinco anos. Peça ajuda a outros adultos… para levarem o grupo ao jardim; ao quintal; ao pátio; a um lugar com céu aberto e visível. Com sol da manhã.

No quentinho do sol converse com eles devagarinho. Solicite que fechem seus olhos, para sentir o amarelo.

Diga que quando menos esperarem podem ficar vermelhos!

De vergonha? De raiva? De amor? De sol forte?

Ao abrirem os olhos vejam o verde! Procurem por ele. Debaixo da árvore. Na blusa do Lucas. No balde da dona Antonia. Na ervilha torta, verdura no prato do almoço?

Em seguida sugira o roxo.

O roxo tem uma irmã gêmea, a lilás. Vamos brincar de esconde-esconde com eles?

No pique estava o azul. Desceu do céu por um instante. Está procurando pelo Branquinho, apelido do filho do músico Egberto Gismonti quando era nenê.

Nessa hora volte em câmara lenta para a sala, e ouça com todos eles o disco Branquinho, de Egberto Gismonti.

Pare de falar. Deixe que a música fale, e toque, e ela própria proponha o imaginar.

No final, na hora de ir embora, peça que cada criança diga em casa como foi que conheceu o branquinho.

Na próxima semana, traga um roteiro de improviso que os introduza a Luiz Melodia: o Negro Gato.

Depois disso, construa um projeto de escuta, fruição e rodas de conversa com o som de artistas brasileiros negros: Itamar Assumpção gravou uma maravilhosa trilogia “Pretobrás”. (Quer algo mais atual que isso?)

Que acha disso tudo?

Quais foram os “conteúdos” trabalhados até aqui?

Você pode dizer que esteve, neste dia, pelos caminhos da educação em favor da mistura étnico-racial própria do Brasil?

Se sim, como e por que?

Se não… comece tudo de novo.

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos…

Por que eu não pensei nisso antes? Postar no Agachamento Itamar Assumpção!

O CEART fica na Av. Madre Benvenuta 2007, o encontro será a partir das

14:00 hs do dia 06/06/2017 no Espaço 1 do Bloco de Artes Cênicas / UDESC

Convite para o Quinto Agacho do AGACHO

Convite ao debate

Agachamento

Desde que o AGACHO é um grupo de pesquisa registrado no CNPq, faço com meus orientandos um encontro semestral aberto ao público para conversar sobre pesquisa em artes, e sobre as pesquisas em andamento sob minha orientação: é o que chamei de Agacho do AGACHO.

O quinto encontro será no dia 2 de junho, pela manhã, com a presença do professor, docente da FaE, pesquisador e artista, Vinícius Lírio. Ele é nosso parceiro no curso de teatro da UFMG, responsável pela orientação de dois estágios da Licenciatura. Penso que podemos ampliar essa parceria, misturando mais os âmbitos Belas Artes / Faculdade de Educação.

Quando o convidei tive uma ideia brincante – convite pra brincar comigo, conosco – e disse: que tal nos entrevistarmos mutuamente? Ele topou.

Depois, tentei inventar três perguntas interessantes e pertinentes, parecidas com os anseios e as angústias dos jovens professores de teatro em formação. São elas:

– Como eu faço para conseguir um resultado processual, que não precisa ser necessariamente espetacular?
– Como eu consigo avaliar o aluno de teatro sem ser apenas dando “notas” e “conceitos”?
– O que falta nas políticas públicas brasileiras em educação para o campo da arte ser realmente compreendido e valorizado?

Do meu ponto de vista, são quase que as “perguntas que não querem calar” nos meus cursos na UFMG, perguntas feitas pelos alunos e/ou imaginadas por mim, a partir da convivência. Muitos já trabalham com o ensino de teatro, em diferentes espaços (escolas, ongs, projetos livres); todos passarão pelos estágios obrigatórios; e, nas aulas, deixo claro que discuto, preferencialmente, “o que deveria ser”. Faço isso propositalmente: é minha metodologia. Metodologia de imaginar melhores dias; melhores situações de trabalho e de vida; projetar, sempre, que o teatro pode ser um meio de ser feliz, e de criar um mundo melhor. Esse seria o maior valor do nosso campo de trabalho. Junto a ser feliz em um mundo melhor, o teatro também é lugar de liberdade para ser triste e encarnar o mundo pior. O pior dos mundos é um possível potente pano de fundo ficcional. Tudo isso revela a substância transformadora e pensadora do teatro, imensa, embora muitos não a aproveitem o suficiente.

Muita gente faz uso do teatro para doutrinar, para adestrar, para moralizar. Podemos dizer que numa das pontas do cabo de guerra está essa força. Deve estar à direita. Na outra ponta, a antiestrutura, a rebeldia, a reflexão – incluindo o questionamento ao ato de doutrinar crianças e jovens, adestramento e moralização propostas por adultos que os dirigem em pecinhas bem feitas, por vezes com figurinos engomados cujo objetivo é cumprir a expectativa adulta de assistir e aplaudir “suas” crianças no palco. Infelizmente ainda é majoritário o pensamento do uso do teatro para dar visibilidade às maneiras de ser e estar no mundo do ponto de vista dos adultos (arte serve para… criança no palco é… etc.) Tenho para mim que a Licenciatura em Teatro em uma universidade pública deve trabalhar na direção de dar visibilidade aos modos de ser e estar no mundo do ponto de vista das crianças e jovens, em diálogo com os adultos, sim, e no mesmo mundo compartilhado. Isso se chama protagonismo. Mas… como fazer isso?

Quem quer debater precisa comparecer!

Vejam como:

QUINTO AGACHO

DO

AGACHO / Laboratório de pedagogias teatrais

No dia 02 de junho de 2017, das 10:00 ao meio-dia, no Espaço Laranja do prédio do Teatro da Escola de Belas Artes, na UFMG – Campus Pampulha, acontecerá o Quinto Agacho do AGACHO: encontro semestral do grupo de pesquisa da professora Marina Marcondes Machado.

Proposta: entrevista mútua entre Marina e Vinícius Lírio, aberta aos participantes.

Tema: o ensino do teatro hoje.

Agachamento

Criação: parâmetros e limites, fronteiras e aberturas

Uma proposta minimalista

 Cada aluno do curso “Brincar, criar, teatralizar, viver” (Escola de Belas Artes, UFMG, prédio do Teatro nas sextas-feiras de tarde) recebeu, na aula do dia 7 de abril, um brinquedo e um brinquedo-sucata. O material é comum a todos, e tem esta cara:

material inicial

Propus prepararem um ato performativo, com duração de apenas um minuto, a partir destes dois elementos. Parto do pressuposto de que será um dizer autobiográfico – sempre é: segundo Saramago e muitos outros artistas… tudo é biográfico!

Será  um “exercício avaliativo” e causou alguma ansiedade, e diferentes tipos de dúvida. Alguns alunos sentem que não poderão ser de fato criativos… consideram que estou dirigindo demais, com um comando que posso resumir aqui em:

Crie um dizer com duração de um minuto

a partir de sua corporalidade

e desses brinquedo e brinquedo-sucata.

Chamo esse tipo de enunciado de roteiro de improviso. Tenho como fio condutor a seguinte frase do psicanalista Winnicott: Em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição. Winnicott amava paradoxos. O paradoxo desse dizer é a conexão entre tradição e inovação.

Qual tradição evoco no enunciado do exercício proposto aos alunos?

A tradição da performance. (Sim, a performance já é um campo cultural estabelecido!)

Há mistura entre brinquedo feito pelo adulto (o pequeno pato) e a hipótese de brincar com as coisas do mundo (um papel alumínio que foi tampa de iogurte).

Há mistura entre ser livre para dizer o que quiser, no entanto com uma moldura comum a todos, e dada, elaborada por mim: os materiais e o tempo de um minuto.

Uma hipótese para o estranhamento do jovem aluno estaria em uma crença de que, para criar, não precisamos – ou ainda, não podemos ter! – nenhum parâmetro, limite ou fronteira. Caso contrário (com parâmetros, limites e fronteiras) não haveria liberdade de criação.

o pato dormiuA crença da não necessidade da presença de um Outro condutor para seguir o caminho criativo é, do meu ponto de vista, ilusória: especialmente no ensino de arte. Se deixarmos tudo aberto, tudo muito à vontade, as zonas de conforto poderão nos tomar de tal modo… que dormimos no colchãozinho (rs). Fazemos o que já sabemos.

Uso o deitar como imagem para uma posição onírica e que não requer ações mais complexas, inusitadas, de risco. Presença acordada… acorda patinho!!

A chave do enigma dessa proposta comum a todos: “usar” os dois objetos para mostrar algo que surpreenda o grupo; o foco é a possibilidade de compartilhar sua ideia, criação, sentimento-pensamento, e perceber o mesmo dos outros… sob o mesmo comando, com os mesmos materiais… dezessete pessoas vão expressar sua relação com a proposta, os dois brinquedos, e com o curso até agora.

Decifrar o enigma é abrir-se para a propositiva, criada por mim. Trata-se de estabelecer uma relação de confiança. Parecido com o jogo de andar por aí vendado com alguém nos conduzindo. Entregar-se e ligar-se noutras possibilidades, que não a da racionalidade ou da liberdade não-situada. Na conexão por nós trabalhada, a liberdade não-situada é uma ilusão de liberdade. A moldura é a possível “aula de artes” – que agora nomeio “ato performativo”.O mote é procurar agir desse mesmo modo no cotidiano como professor:

Ofertar algo ao aluno.

Desafiá-lo a algo enigmático.

Trabalhar a criação com pequenos parâmetros dados por você = professor-artista condutor.

Deixar acontecer. Depois, reuniremos todos os atos performativos de 1 minuto em tempo real. Disse a todos que isso é performance. Simples assim.

Para quem quer saber mais, indico dois autores muito importantes: Allan Kaprow (artista) e Marvin Carlson (estudioso da performance). E como referência brasileira, Eleonora Fabião, sempre. Ela  dialoga com o uso desses roteiros, e os nomeia roteiros de ação – já fazem parte hoje, como disse no início do texto, da tradição performática. Os roteiros performativos são sempre bastante abertos e podem mudar a qualquer momento, por serem relacionais, e dados de fato no acontecimento – não no papel escrito. Procurem via google, gente, ta tudo lá!

Quem vem?

retrato dos alunos

 [Aviso importante: A aula que vai reunir todos os minutos será dia 5 de maio]

 

 

 

Pequena visita ao filósofo Benedito Nunes (1929-2011)

Ainda sobre os elos arte-e-vida

Fui a uma banca de mestrado e, para arguir, retomei a leitura de um livro simples e importante, de Benedito Nunes: Introdução à filosofia da arte. Infelizmente, ao escrever esta postagem, descubro que o livro está esgotado. Ele publicou a primeira edição em 1967; tenho uma edição revista de 1989 (Editora Ática, SP).

bene? na sua casaBenedito Nunes é um filósofo brasileiro nascido no Pará e que estudou Heidegger como ninguém. Foi também um grande estudioso de poesia, escritor e crítico literário. Morreu no ano de 2011. Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente, na década de 1980, pois era praticamente padrinho [intelectual] de meu ex-marido Valdir Sarubbi, também paraense.

Seu livro é extremamente didático sem perder o rigor e a inteligência. Destaco aqui, nesta postagem, citações do texto final – nomeado “Epílogo” – no qual o Bené, como era carinhosamente chamado, procura anunciar o que acontecerá no campo de conhecimento (e vida!) da arte.

Lá ele escreve, conversando com o leitor sobre “abstração”:

Saturado de coisas fabricadas, de mercadorias, de materiais novos, fechado na outras memo?riasarmação das grandes cidades, e aí em contato com a segunda natureza que a técnica em expansão contínua acrescentou ao mundo físico ou natural, submetido à ação de forças anônimas desencadeadas pela produção industrial, o artista necessitou domar as circunstâncias, alargar e ordenar sua experiência, inventar as formas claras que se sobrepusessem à confusão. Demiurgicamente ele delineou a figura do cosmos latente na massa caótica com que se defrontou. A abstração na pintura, na escultura, e até na literatura, não é tanto uma renúncia, como a afirmação do impulso artístico que, em luta contra potências estranhas, objetivas, impessoais, da sociedade moderna, contribui efetivamente para humaniza-las. A arte sempre dispõe daquela força regeneradora, ideal num certo sentido, cujo efeito foi apontado por Schiller nas cartas Sobre a educação estética: o estabelecimento das primeiras relações liberais entre o homem e o universo. (pg 122)

Penso ser um texto extremamente lúcido e elegante que deixa explicitada a posição do autor de que arte é sim um caminho político de mudança e de apreensão de mundo:

o dorso do tigreSe, como exige Herbert Read, o artista deve criar imagens de um novo mundo possível nessa era de transformação científica, a liberdade de criar, que ele conquistou, impõe-lhe uma tremenda responsabilidade, à qual não pode fugir. (pg 123)

E, como estudioso de Heidegger que é, Benedito Nunes associa a arte a um jogo com as possibilidades da existência e do ser. Assim ele nos anuncia a direta relação arte e vida no modo contemporâneo – novamente com lucidez e elegância:

(…) a criação se associa à experiência metafísica do desnudamento, através da linguagem, da situação do homem no mundo.

Trata-se, segundo o filósofo, da procura de uma nova linguagem:

É muito significativo que, atualmente, a poesia, nas suas expressões de vanguarda, mesmo correndo o risco de ficar detida no “grau zero da escrita” – para o qual, segundo Roland Barthes, a literatura tende, em consequência da substancialização das palavras, utilizadas como objetos, com o sacrifício do seu valor transitivo de comunicação – ande à procura de uma nova linguagem.

E segue anunciando que a procura da novidade vai abrir um campo de possibilidades para os “homens do século XX” (expressão do filósofo) cuja pergunta seria:

Esta perspectiva utópica, da arte realizada na vida, não é uma das grandes aspirações do artista contemporâneo? (p.124)

Gosto muito do caminho que o professor vai tomando! O “Epílogo” é um texto pequeno mas denso, cheio de giros hermenêuticos:

Mas, dir-se-á, a arte realizada na vida anula-se como arte. Não haveria mais memoriae (cristais de luz)diferença entre ser e criar, existir e produzir. O trabalho criador não seria mais privilégio dos artistas, mas a condição universal do trabalho humano. O homem encontraria beleza nas coisas úteis que produzisse para satisfazer as suas necessidades primárias, e fruiria da utilidade imediata das coisas belas. Mas isso só poderia ocorrer extinguindo-se a dualidade da práxis, ora produtiva, ora expressiva, para que o homem pudesse expressar-se em tudo quanto produzisse, e nada pudesse produzir que não fosse expressivo.

Benedito Nunes escreveu este “Epílogo” (para seu primeiro livro) no final da década de 1980, como apontado no início desta postagem. É muito interessante ler sua “utopia” para o futuro da arte e do artista. Muito tempo antes do jargão “arte relacional”, por exemplo, ele vai nos levar lá – a um lugar sem fronteira, híbrido, e cujo significado é “transcender a realidade” (suas palavras):

O artista contemporâneo, inquieto, estimulado por tantas modalidades de experiência, do presente e do passado, tendo à sua disposição, para contemplar e aproveitar, as formas artísticas que herdou, continua sendo impulsionado por essa tendência, que sempre conduziu a atividade criadora em todos os tempos. (pgs. 124-25).

Assim chegamos ao ápice de seu texto, ou seja, à sua conclusão própria do que estaria por vir:

Mas, hoje, dada a consciência crítica que conquistou, e que nele se tornou uma práxis lúcida e reflexiva – gerando obras que participam da inteligência racional e que exigem do contemplador, além da simples receptividade emotiva, um esforço de penetração intelectual –, o artista contemporâneo não se contenta apenas com ser o agente da aparência estética que se sobrepõe à realidade. Quer, também, criar uma nova realidade, transformar o possível em real. O Adrian Leverkühn, de O doutor Faustus, de Thomas Mann, traduziu essa aspiração, que define o destino da atividade artística de nossa época:

A arte quer deixar de ser uma aparência e um jogo, quer tornar-se um conhecimento lúcido.

*

Achei das mais interessantes a virada, no texto, do lúdico ao lúcido. Eu penso inúmeras vezes desse modo também, diante de uma espécie de banalização do que é a palavra, e a concretude, e os simbolismos, para “o lúdico”. Especialmente os pedagogos gastaram a potência deste termo. O brincar é também, agora, e já disse isso outras vezes no Agachamento, bandeira para a indústria do sabão em pó (!). Sugiro então que os que tiverem a mesma impressão e estão por aqui agachando que pensem outros modos de dizer… Prefiro a palavra brincante, e também, a criação lúcida. Significaria com luz; com possibilidade de clareza; nos termos heideggerianos, clareira.

Habitar o próprio corpo é brincar, é ser brincante – iluminar e ocupar, de modo lúcido, a espacialidade do mundo circundante. Do “ao redor”. Luz ao redor. Velas, sol, lanterna, fósforos, razão imaginante. Talvez isso mudaria a chave do caminho intelectualista que muitas vezes o artista educador de crianças e jovens tomou… Ou não?

antigos duen?os de las flechas

As imagens desta postagem são todas registros da obra do artista e educador

Valdir Sarubbi (1939-2000)