Espelho, espelho meu

Senti vontade de continuar a “rabiscar com Winnicott”… especialmente para que o leitor se interesse pela obra do psicanalista e compreenda como é importante o “brincar livre e criativo”!

Encontrei no livro Limite e Espaço / Uma introdução à obra de Winnicott (livro maravilhoso editado no Brasil em 1982 e que você pode encontrar nas livrarias virtuais) uma citação muito bonita, que nos mostra o modo de ser e de escrever de Winnicott:

… nos momentos tranquilos podemos dizer que não há linha mas apenas uma porção de coisas que eles separam, o céu visto através das árvores, algo que tem a ver com o movimento dos olhos da mãe, passeando ao redor. Alguns carecem de qualquer integração… Isto é uma coisa extremamente valiosa de reter. Carecemos de algo sem isto. Algo a ver com estar calmo, descansado, relaxado e se sentir “em unidade” com as pessoas e as coisas quando não há excitação ao seu redor.

O estado de não integração marca o primórdio da nossa capacidade para estar só (na companhia de alguém). Sim, algo valiosíssimo especialmente nos nossos tempos tecnológicos, nos quais os jovens pais parecem ter dificuldade para estar em contato com seus filhos de modo pleno, carnal e separado da intermediação tecnológica (filmam e fotografam o tempo todo, e deixam seus filhinhos à mercê da Disneylândia compacta que habita os celulares e tablets).

Aos poucos quando o adulto cuidador “nos olha” (de fato e integralmente, quando nos cuida e nos acompanha) nos sentimos olhados por ele, e, como ainda estamos por vezes em estado fusional (como escrevi na postagem anterior) o olhar do outro me proporciona identificação: aos poucos o bebê passa a ter vida psíquica, ter um self e sentir-se real, por sua coleção de experiências de continuidade de ser – um sentimento de existência habita nosso funcionamento corporal, feito de psique-soma (um ego rudimentar, um self em desenvolvimento, um id em continuidade pulsando vida-e-morte).

Em inglês é bonito, como um verso: When I look I am seen, so I exist. (Frase de Winnicott)

Traduzo livremente: Quando percebo que sou visto, eu existo.

O ato de brincar imaginativamente passará a ser possível, nesse entre-espaço e entre-lugar que o “momento tranquilo” proporciona às crianças pequenas. Por isso é tão nociva a “animação” como atitude adulta (adultos propondo coisas e preenchendo o espaço com sua noção de infância equivocada, de não querer correr o risco de perceber silêncio ou tristeza… negativando as possiblidades de estar só e ter ideia, como se diz).

Minha sobrinha neta está na creche e sua mãe compartilhou esta foto:

ester no espelho

ainda que paradoxalmente fotografada em câmara digital e com a foto compartilhada nas redes sociais…

Percebam a bebê e seu reflexo, e como a imagem nos remete a tudo que Winnicott postula sobre ser um eu… Processos de personalização proporcionam a união entre psique e corpo, e há beleza nessa pesquisa do reflexo de si… Os próximos passos se darão pelo uso criativo do mundo, das pessoas e das coisas, e de si mesma.

Os leigos podem estranhar o uso da palavra “objeto” no jargão psicanalítico; as “relações objetais” inauguram a vida interior e íntima, a partir do momento que um outro, um não-eu, me permite a ilusão de tudo aquilo estava ali me esperando – ou ainda, que teria sido eu o criador da paisagem, da musicalidade, da voz e do suor [do adulto que me cuida e me oferece a mão e brinquedos].

Nas relações de maternagem entre adultos e crianças, pelo suporte (holding) e pelo manejo (handling), se desenha o “indivíduo total”, rumo à realização do “eu sou”. Assim, relações objetais na psicanálise significam relações humanas, cujo cerne são amor-e-ódio.

O ódio e a agressividade têm lugar especial na obra de Winnicott; por exemplo, quando falou sobre adoção para leigos, afirmou que os novos pais devem estar prontos para odiar seus filhos adotivos inicialmente. Abrir-se para o sentimento de raiva que nos faz humanos, sem sentimentalismos: isso é também perceber “a experiência total” de ser o que se é.

Minha revisita à obra de Winnicott tem feito muito sentido nesses tempos sombrios: uma fresta de sol para compreender a escuridão da noite, convite a habitar um lugar intermediário no qual brincar é saúde e completude.

Um teórico que busca ser compreendido de modo claro, preciso e poético, tudo junto misturado.

Uma fonte inesgotável de suporte, manejo e apresentação do bom objeto. Saravá!

Winnicott: referência suficientemente boa ontem, hoje e amanhã

Winnicott ontem, hoje, sempre

winnicott em quadrinhos

Por esses acasos do destino – algo que Carl Jung nomearia de sincronicidade – voltei a estudar os escritos de Winnicott. Um grupo chamado MrACO / Movimento Rumo ao Agachamento Coletivo interessou-se pela obra de Winnicott porque uma das participantes encontrou um livro dos mais instigantes: Você é minha mãe? (Um drama em quadrinhos), editado pela Companhia das Letras e escrito-desenhado por Alison Bechdel. Uma obra de quadrinhos para adultos na qual a autora comenta biograficamente seu encontro com a teoria de Winnicott e narra como foi elaborando, a partir de duas análises pessoais, sua relação com a mãe. Muito legal!

Também voltei a ler Winnicott para propor discussões sobre as relações professor-aluno no grupo de professores do curso de teatro da UFMG.

E para completar essa gestalt, ou seja, essa forma-conteúdo que já me habitava (o interesse e a adesão às ideias de Winnicott é antigo), a Revista Cult de agosto traz um dossiê Winnicott. (Vejam lá, nas bancas de revista ou no site deles, ta bem legal).

dossiê winnicott

Winnicott faleceu em 1971. Foi um psicanalista importantíssimo no debate sobre a criança, a infância, e os “processos primários” de todos nós. Por meio de sua prática clínica, observou milhares de crianças – e, especialmente, bebês e suas mães, e assim criou uma obra original sobre nossos primórdios… Fatos, narrativas, dramaturgias inconscientes que retornam, ou ainda, que plasticamente colorem ou embrutecem nossa psique.

Seu modo de dizer, sua capacidade poética e ao mesmo tempo em sintonia com uma simplicidade cotidiana, elucida uma porção de mistérios advindos, por exemplo, da pesquisa da psicanalista de crianças Melanie Klein. Sua obra assusta os leigos com as hipóteses que chama de “posição esquizo-paranoide” e  “posição depressiva”… na mente inicial de todos, ou seja, na formação da psique dos bebês. Winnicott, que foi inicialmente seu discípulo por assim dizer, cria outros termos e faz os conceitos serem acessíveis a todos, especialmente a toda “mãe comum”.

O bebê não se sabe um “eu”. Nasce em um estado tal, que os psicanalistas denominam de fusão: o bebê é a mãe, e a mãe é ele. Nos termos de Winnicott a mãe também vive uma espécie de regressão, de modo que acolhe com certa naturalidade e lida com esse modo de funcionar, especialmente nas primeiras semanas de vida. Quem já teve um bebê sabe, quem já conviveu com mulheres nesse período também imagina com facilidade que é por aí mesmo o que acontece, dia após dia, nos cuidados do recém-nascido: um é o outro, o outro é um. Um momento muito peculiar, cujo estado, no bebê, Winnicott chama de não integração.

Só haverá integração a partir do fluxo e continuidade de tempo para viver os primórdios de sentir-se um “eu”, separado da mãe. É um delicado processo, esse de sentir-se um eu. Quando tudo vai bem, o bebê experiencia momentos de sentimento de ser, sentimento do real (tradução ruim a meu ver para a expressão existencial feeling of real) o que gera a integração (poder ter uma experiência total) e habitar um tipo de capacidade psíquica (para brincar e para estar só, na companhia da mãe).

Quando algo interrompe esse fluxo (morte de um cuidador, depressão da mãe, separação da mãe e do bebê por motivo abrupto, guerra, sequestro, hospitalização e etc) poderá surgir a sensação (terrível) de desintegração – origem, segundo Winnicott, dos transtornos psiquiátricos, das psicoses, e de marcas insconscientes muito profundas, que levam, mais tarde, a criança e o jovem, por exemplo, à tendência anti-social. Não é um diagnóstico: roubar, mentir, machucar-se por querer, agredir, são possíveis condutas anti-sociais.

Quando isso acontece, segundo Winnicott, a criança e o jovem estão em sofrimento e reivindicam, atuando (agindo: acting out é a expressão inglesa) na direção de algo que lhes pertencia… em tese, a boa relação com a mãe (e/ou figuras maternas), com a qual teve um bom começo, interrompido por aquela ruptura vivida como insuportável.

Aliás, “suportar” bem a lida com o bebê e suas fases existenciais é central na obra de Winnicott; ele usa a palavra holding, que foi traduzida por segurar. O colo não deve ser nem frouxo nem muito apertado… O colo é o lugar próprio do holding – é o modo de segurar do adulto cuidador.

No desenvolvimento harmônico, existe um momento importante no qual o bebê se apega a um brinquedo, uma fralda, um belisquinho na orelha da mãe quando mama… é o que Winnicott denomina “fenômeno transicional”. É o começo da capacidade para brincar, de fazer uso de símbolos, e de separar-se de fato da mãe (leia-se “figura materna”, ou seja, qualquer cuidador afetivo e presente em fluxo de continuidade). Um passo para a saúde integral contida na expressão ser um EU.

Há outra beleza na obra de Winnicott: ele inventou a noção de “mãe suficientemente boa”; nem perfeita, nem falha; segundo ele, as mães de quase todos nós (caso contrário não estaríamos aqui, vivendo nossas vidas com certo grau de sentido e significatividade).

Infelizmente as novas gerações de pais tendem a ler tudo isso com certa ansiedade e querem muito receitas ideais. Por exemplo: ninguém deve forçar o uso do ursinho de pelúcia, advogando algo como “isso faz bem pro bebê”… Tudo o que é forçado, pode ser sentido pelo bebê como uma demanda de adequação, o que, na teoria winnicottiana, constrói o que ele nomeia por “falso self”. Bebês muito bonzinhos podem estar nesse caminho, por meio de uma suscetibilidade maior ao que o adulto quer e deseja; molda-se precocemente uma espécie de máscara social, retraindo o gesto espontâneo. Todos precisaremos de máscaras sociais, é claro – e para Winnicott todos temos nossos falsos selves – mas a pressa e a ansiedade dos adultos podem nos levar a esconder, de modo cruel e difícil de acessar, nosso verdadeiro self.

Assim, adoecer psiquicamente, para Winnicott, é um sinal de esperança. (Mais um pressuposto bonito e interessante). As pessoas regridem para um estágio anterior, muito inicial e primário, momento que antecedeu a ruptura – uma espécie de jornada para recuperar algo que ia bem…: “redescobrir o objeto bom e o bom ambiente humano controlador que, por existir originalmente, tornou-a capaz de experimentar impulsos, mesmo os destrutivos”.

A depressão é vista como uma capacidade: conquista de amadurecimento. Preocupar-se com o outro – to concern – é parte do desenvolvimento rumo à independência. Essa possibilidade de perceber-se em não fusão com a mãe é parte da saúde, e carrega uma tristeza, talvez uma saudade… me parece que é o momento para o qual Freud inventou a expressão sentimento oceânico: momento cósmico no qual não diferenciamos “eu” e “outro”.

Cuidado, não se afogue.

 

Ações de não-adoecimento

Namorinho de portão, bem sucedido

Durante o primeiro semestre de 2018, pratiquei o “namorinho de portão” com o professor da FaE Vinícius Lírio. Para os mais novos (que não sabem do que se trata): namorar no portão era uma prática bem comportada e bem vigiada, de relacionamentos entre pessoas jovens nos anos de 1960…

… começamos bem comportados ao criar um elo, pelo desejo de ensinar e experimentar uma disciplina comum a nós dois e a nossos cursos de origem; no entanto, já vivemos logo de cara empecilhos para nosso “caso de amor”: burocracias e dificuldades para lançar, em duas unidades de ensino, a mesma disciplina com dez vagas para cada — e incompreensão acerca do nosso ímpeto interdisciplinar. Teimamos um pouco e geramos um entre-lugar, que consistiu em encontros não semanais nas terças-feiras de tarde.

O nome do curso já não era mais tão bem comportado:

PERFORMAR NA CIDADE

Temos nossos quatro pés na Licenciatura em teatro, e, justamente por isso, quisemos fazer algo bem diferente – tudo junto e misturado.

Dei ideia da ementa ser não apenas aberta mas ser entregue no primeiro dia de aula [quase] como folha de papel em branco.

Também a forma de avaliar se centraria “apenas” na escrita de diários, das semanas e dos encontros, incluindo a descrição densa de por onde andavam os alunos na semana em que não havia encontros….

Sem textos obrigatórios!

Mas com comentários, em roda, sobre

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Todas essas características da disciplina optativa convidavam, fica claro, a uma certa indisciplina dos discentes – e também evocavam o aluno performer, pesquisador “de si”

Do que eu gosto? Qual teatro quero fazer, mediar, inventar, ensinar? E coisas do gênero.

Ao longo das semanas fomos compreendendo como esse jeito, que podemos nomear por antiestrutura (diante do que vivemos na “grade obrigatória”), tinha seus problemas… a ponto de eu chamar o curso, a partir de um momento, de

O CURSO MAIS VAGABUNDO QUE DEI

Mas que rapidamente Vinícius me alertou para a categoria “vagabundo”, e sobre como a academia com seus academicismos está precisando aprender algo sobre

O CACHORRO VIRALATA

e sua fidelidade, e seu modo de abanar o rabo, de procurar por qualquer comida e brincar, com saúde mais forte que os cães de raça e suas botas e petshops.

No último encontro, de antemão anunciado para o comecinho de julho e fora da UFMG, fomos por duas horas passar a tarde de uma terça-feira de julho no Parque Municipal Renné Giannetti.

Foi no último encontro que percebemos quem de fato era o grupo – seis de dez alunos sobreviveram. A percepção da configuração do grupo no último encontro foi também uma característica antiestrutural vagabunda, diga-se de passagem.

Os chamados trabalhos finais surpreenderam. Afinal os seis alunos que toparam passar por toda a experiência tinham sim algo a dizer. E disseram.

Começando por Gefter, que no primeiro encontro anunciou algo como

ODEIO A PERFORMANCE!

Referindo-se, foi ficando claro, a uma modinha entre jovens, de sair dizendo

“eu performo!”

“adoro performance, odeio o teatrão!”

e outras pérolas…

Vejam que interessante seu texto lido ao vivo e a cores naquela tarde de inverno:

gefterBreve relato (de um ator performativo)

Considero a experiência boa, importante para meu crescimento como ator, pensador e pesquisador.

Enfrentei a dificuldade de me despir das influências teatrais, que levam sempre para o lado de uma dramaturgia (historinha) e que resulta nos aplausos.

A performance para mim hoje é igual àquele quiabão que tua mãe diz que você precisa comer primeiro para saber se gosta ou não. Então eu comi o quiabão e confesso que não gostei, mas eu não o odeio mais.

Eu conheço a performance e ela me conheceu, não somos amigos nem inimigos, somos conhecidos, mas ela no canto dela e eu no meu.

Penso que, do ponto de vista de um curso com ementa aberta e rotina bagunçada, essa conclusão é mais que justa, o aluno-pesquisador reviu sua posição de ódio, ou de bipolarização das estéticas, e isso é sempre muito bom.

Não era pra ser mas tornou-se um pequeno roteiro de improviso ou programa performativo o uso de uma cadeirinha amarela que levei de casa:

cadeirinha

Karol trouxe para mostrar um interessante “terço laico” de pano cujas partes eram pequenos retalhos karolde pano com palavras-chave… fez um depoimento que lembrou muito o que se vem denominando “desmontagem”, e assim uniu seu passado na graduação com o futuro almejado na pós-graduação, dizendo algo do “meio”: estar já em disciplina na pós, acabando de cumprir seus créditos na graduação da Licenciatura em teatro, em busca de escrever seu projeto.

tamirisTamiris usou um interessante retrato mais ou menos psicodélico que uma garota fez dela, para também dizer de si – de sua identidade, de como quer ser, de como percebe ser vista, e de como tudo isso pode ser por vezes simples e por outras, complicado. Chamou atenção seu (potente) uso do silêncio.

Kamilla foi contando sobre sua facilidade com a arte espetacular e sua dificuldade com o ato performativo; foi marcante seu dizer

kamilla

 

 

EU NÃO TÔ BEM NESSE LUGAR DE RISCO (mas quero fazer)

No mesmo semestre teve uma experiência de ocupação na Funarte, e os percursos conversaram e se misturaram.

 

 

Janaína retomou o “fazer mapas” e seu mapa-depoimento foi me deixando mais enamorada no portão jana(no portão entre eu e Vinícius Lírio) pois ela comentava cada encontro e eu percebia como sim, havia um curso sendo “dado” e “usufruído”!

Por último Raiane nos leu um poema, que transcrevo aqui:

What’s “happening”?

Ou

(O q tá pegando?)

O que está acontecendo na sala de aula?

Terça-feira quinzenalmente silenciosa…

Alunos passíveis balbuciantes

Proferem achismos, questões e temores

Sobre a arte da performance

Com a palavra, Senhores Doutores

 

Pode ser assim, pode ser assadonani

Sonho todos os dias com o estudante engajado

De volta à realidade

O mais importante é ser atravessado

Por dizeres internos, da rua ou cidade

Leia, experimente, cite, crie subjetividades

 

O que acontece na sala?

O artista está presente?

No espaço-tempo da sala?

Por que a gente se cala?

 

“Eu não sei dizer / nada por dizer / então eu escuto”

 

Fez-se assim o silêncio

Perigoso escudo

 

O que está acontecendo na cidade?

 

Ritos de individualidade coletiva

Com uma porção de E.V.A., vá ver e ser vista

No horizonte-belo da cidade-corpo

É cada um por si, deus contra todos

 

Caminhar, parar

Tocar a matéria relacional viva

Narrativas da rua, de mim

Mapas, desvios, deriva

Paisagem poética urbana

Um coro dissonante possível

“Caminhante, não há caminho”

Res(piro)

O que acontece comigo?

 

Fico feliz, muito feliz com esse poema, e com todos os depoimentos, porque vi e vejo a possibilidade de cursos vagabundos, bem brasileirinhos, rompendo barreiras caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, propondo modos de ser e estar que não adoecem os jovens acadêmicos.

Obrigada por compartilharem! E obrigada Vinícius, meu ex-namoradinho de portão agora noivo (engajados em outros projetos!): bora ser feliz, todo mundo junto e misturado, salve Minas, Bahia e São Paulo!

Sobre a solidão compartilhada

Por um acaso, navegando na internet, descobri que no dia 17 de janeiro deste ano foi criado, na Inglaterra, o “Minister for Loneliness”— o Ministério da Solidão. (E não é ficção ou fake news!)

Pesquisas apontaram que 14% da população britânica é sozinha e que, durante o ano de 2017, a partir de uma grande amostragem, 200 mil pessoas declararam não ter conversado com ninguém no último mês [da data da pesquisa]. Uma já ministra acumulará o cargo… ela tem 42 anos de idade e sua nomeação foi bastante ironizada nas redes sociais, por ser pessoa engajada nas políticas neoliberais. A acusação contra ela giraria em torno de como o ministério já nasceu sofrendo de “psicologismo” – minimizando o fator social da solidão, em termos de políticas públicas para os mais pobres.

Uma pesquisadora americana, chamada Amelia Worsley, estuda o conceito de solidão. Disse, em entrevista, que a noção de solidão foi de “sentimento” a “estado mental”. Seria uma palavra do século XVII em diante, e, inicialmente, significava estar em algum lugar perigoso, longe de sua aldeia e povo. Hoje a solidão é vista como um sintoma – do estilo de vida, do modo de ser e estar no século XXI.

Não falaria de solidão no Agachamento sem visitar, mais uma vez (e sempre!) o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (Aliás, sempre penso quando vejo, e leio, notícias da Inglaterra: e se Winnicott estivesse vivo??). Em 1958 Winnicott publicou o ensaio The capacity of being alone (A capacidade de estar só). No texto afirma que estar só é um aspecto saudável de nossa vida psíquica, é algo que revela maturidade do self. Ao afirmar isso, Winnicott positiva o fenômeno de separação da mãe: aprendemos a estar só a partir de nos afastarmos da mãe (ou adulto cuidador). Inicialmente, estou só na presença de alguém que me cuida. (É uma imagem bem bonita, à qual podemos associar a cena contemporânea, quero dizer, ao espaço do “entre-lugar” que a performance habita, preenche, esvazia…) (Bonito também porque Winnicott, em inglês, fala algo sobre “ser olhado” – e em português nós usamos mesmo essa expressão para o cuidar de crianças, não?).

No entanto, cotidianamente, na cidade de Belo Horizonte, observo um fenômeno que negativa o estar só… é o uso do celular e do tablet que os pais fazem, especialmente em almoços de domingo (vejo em um restaurante por quilo que frequento): para conseguirem almoçar (sic), deixam o bebê, e/ou a criança pequena, se entreterem com desenhos animados (e mais tarde, crianças um pouco maiores, jogam games)… Agir assim é não compartilhar o momento presente, da refeição no quilo. É como se a criança não devesse estar alí… e, diante do tablet, ela fica invisível para o jovem casal, mesmo quando a cadeirinha está pousada em cima da mesa do restaurante (é frequente, inclusive, esse gestus). Ou seja, não há situação ou contexto para que a criança esteja só-na-presença-de-alguém, nesses almoços de domingo que observo. E é provável que noutros momentos das mesmas famílias isso se repita: a invisibilidade da criança pequena e seu mergulho no que o celular e o tablet lhe oferecem.

Para Winnicott é a convivência, em sua concretude e em doses constantes, que nos leva à “experiência total”, cujo desdobramento é o “sentir-se real”. São noções muito profundas, que nos humanizam e dão sentido a nossa existência.

Quando as crianças não vivem, ao longo da pequena infância, um tipo de presença-na-ausência — estar só na companhia de alguém — que constitui a solidão como um valor e um modo de ser e estar no mundo, o que frequentemente acontece é ficarem tomados por ansiedade, pelo isolamento, e por uma espécie de imobilidade… E ansiedades e o sentimento de um vazio não compartilhado podem nos levar a uma “necessidade de preenchimento” – a qualquer custo! Obviamente são exemplos de “preenchimentos contemporâneos” o uso de celulares e tablets como “companhia”; comidas e bebidas; compras; brincadeiras mais ou menos compulsivas, etc.

Assim, o modo das relações adulto-criança mediadas por cadeirinhas – muito práticas e seguras, é verdade – mas uma tecnologia desenvolvida para não haver contato físico direto – e mediadas por equipamentos eletrônicos – que possuem grande eficácia de “entretenimento”, sim – mas é  tecnologia por meio da qual não há conversa, contação de histórias, cantigas ou trava-línguas, enfim: falta um adulto que fala comigo, em seu tom de voz próprio e humano. Assim a criança pode acabar se acostumando a isolar-se, sem viver situações de solidão compartilhada.

Minha “tese” aqui não demoniza a tecnologia; o argumento maior está nas relações sem mediações de equipamentos.

Relações encarnadas, com calor, bafo, suor, timbre, luz do olho no olho; e a palavra emitida com significatividade, o que equivale a dizer: ter vontade de conversar, de dizer algo a alguém. Meu argumento leva ao brincar relacional: ter companhia, ter com quem rir e chorar, e muito especialmente, habitar o corpo próprio. Textos meus falam bastante sobre isso.

Mas quero voltar ao fato de uma sociedade europeia e contemporânea ter precisado criar um “Ministério da Solidão”. Uma notícia bem triste, não acham? Penso ser algo conectado ao que estudiosos preconizaram, anunciaram desde os estudos sociais da Escola de Frankfurt, a partir da descoberta do inconsciente, desde a (im)possibilidade de diálogo nas guerras mundiais, e a existência do fenômeno do nazismo em pleno século XX… algo complexo e surpreendentemente perverso. Sim, retorno à psicanálise, de novo e de novo, para poder pensar em como lidar, eu mesma, com os jovens alunos da UFMG que estão se formando para serem professores de teatro.

Outro dia me foi perguntado, assim na lata: Faz quanto tempo que você não dá uma aula de teatro para crianças?

Foi um ataque pontiagudo, mas concordo que a pergunta tem sua razão de ser.

bandeira do loboEu falo de uma infância possível, que acontece no quintal (Quem habita o quintal hoje?). Eu advogo um trabalho no qual fazer teatro é sinônimo de “ser feliz” (Quem quer ver de fato as crianças livres, leves e soltas, sem necessariamente ir ao palco dar visibilidade à escola, ao projeto social, à ong?). Eu acredito em um jeito de ser e estar no mundo no qual os adultos se agacham para conversar com crianças (Quem de fato acha que desde bebê a criança compreende a palavra, a fala falante?).

Sim, estou em crise. Como todos, me parece. Mas minha crise implica em repensar modos e meios de trabalhar na direção de uma infância mais significativa, do ponto de vista da criança mesma.

Por vezes desanimo. Mas depois lembro de minha mãe (ausente porque já morreu, presente porque construímos isso, juntas, o sentimento de “sentir-me real”), e reanimo.

Bora ser feliz, gente! Bora perceber, e suportar, que a criança tenha tristezas também. Mas sempre amparada, pelo adulto, de modo presente-e-ausente – o que equivale a dizer: estaremos lá, se chamados; nos ausentaremos, quando percebermos que a criança já é capaz de estar só.

Mas para que tenhamos agudeza da percepção do modo de ser e estar da criança no mundo… será preciso desligar nossos próprios celulares e tablets, conectando na relação com a criança mesma. Ligação direta, sem intermediários. Simples assim.

Base Nacional Curricular Comum: entre o simplismo e a complexidade

Neste começo de maio, tive tempo para prestar atenção e me debruçar sobre o documento BNCC / Base Nacional Curricular Comum, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (a Base para o Ensino Médio entendo que ainda não foi publicada). Obviamente meu debruçamento (ler, pensar, comentar, criticar) é a partir do meu campo de atuação, estudo e conhecimento: as artes. Em especial o ensino do teatro.

O documento da Educação Infantil escolheu o caminho desenvolvimentista tradicional, e isso me parece um grande problema. Observem lá: é como se a criança até um ano e meio ou dois não imaginasse, não criasse, não fosse “performer de si” ainda… Quase tudo ficou inicialmente na base da imitação – e da dependência dos cuidados do adulto.

No campo do conhecimento das Artes, tal como posto no documento, a coisa toda se desenha a partir dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Impressão inicial: o texto circula entre um certo simplismo (de uma “neutralidade suspeita”) e alguma complexidade, o que parece dificultar e muito a percepção do professor jovem (e em formação) para chegar ao famigerado… “como eu faço?”. Digo isso pois acabo de ler, junto com alunos de uma das disciplinas da Licenciatura em teatro da UFMG, o quadro intitulado “Competências específicas de arte para o ensino fundamental” (p.156 do Documento). São nove itens e ali percebemos o desejo de “ir além” da já tão divulgada e trabalhada Abordagem Triangular para o ensino de arte, cujos verbos, grosso modo, se situariam na tríade fazer (arte), apreciar (arte), compreender historicamente (arte). Vemos grande destaque para as tecnologias, bem como a tentativa de inferir ou emplacar a importância das “artes integradas” (termo polêmico pois os mais experientes consideram que há risco da volta a uma prerrogativa generalista, tal como se viu nos cursos de formação em Educação Artística; as Licenciaturas nas áreas específicas de dança, teatro, artes visuais e música foram um avanço histórico durante o século XX).

Não quero, aqui, agir de modo maniqueísta afirmando que o documento não presta porque foi homologado durante o governo Temer – vejo muita gente fazendo isso. Sei que as coisas estavam já em andamento no governo Dilma. Sei também que o governo Dilma encontrava-se em um caminho já adiantado de construir “parecerias público-privadas” no âmbito da educação, inclusive na discussão sobre currículo (para saber mais acesse o excelente artigo intitulado Base Nacional Curricular Comum: Novas formas de sociabilidade produzindo sentidos para educação, da pesquisadora Elizabeth Macedo / Revista E-curriculum, out/dez 2014).

Quero escrever de modo justo, sincero e coerente com meu pensamento sobre o ensino de arte – lugar que habito desde 1982, quando comecei de modo amador e ingênuo a dar aulas de arte na Casa do Ventoforte. Depois disso trabalhei 16 anos na EMIA-SP (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) e venho publicando textos acadêmicos e postagens por aqui sobre o que penso e como penso os temas relevantes do brincar, do criar, do fazer arte, do ensinar teatro, etc.

Feita a introdução acima… vamos “ao que interessa”!

O que é próprio de uma neutralidade suspeita:

Na intenção de deixar as coisas abertas para as “culturas locais”, ou seja, admitindo que o Brasil é grande e múltiplo, a discursividade tendeu a ser técnica e impessoal. E como falar das possíveis experiências com arte de crianças e jovens na chave da impessoalidade? Por isso, tem vezes que o texto parece fazer parte de um “folder de papel couché” de alguma escola, Ong ou clube!…

O que é interessante e remete a um grau de complexidade:

Gosto especialmente de dizeres introdutórios, nos quais a proposta mostra e constrói “dimensões do conhecimento” em arte (a partir da página 152). São as dimensões propostas: criação / crítica / estesia / expressão / fruição / reflexão. Cada dimensão está lá definida… são filosóficas, por vezes profundas… mas, como um jovem educador as lê?

Teria o estudante das Licenciaturas pelo Brasil afora incorporado em si mesmo essas dimensões?

E como que esse discurso sofisticado transforma-se em aulas, eventos, atos performativos, acontecimentos e instalações? (Um detalhe lá que gosto: a expressão “movimento dançado”!)

Agora qual, por exemplo, a possiblidade concreta de crítica da criança recém-saída da Educação Infantil, ou do seio familiar (se não frequentou a escola até a chegada do Ensino Fundamental)?

Tudo isso certamente desembocará na necessidade da [super famigerada] formação continuada. Ainda assim causa estranheza a discursividade por vezes genérica, daí simplista, versus momentos sofisticados, por vezes complexos e recheados de abstrações, de modo que o artista educador precisará (como sempre foi!) “tirar a bunda da cadeira” para corporeificar a atitude de professor pesquisador. Aí, na concretude da vida, no cotidiano escolar, tudo desembocará não ainda na formação continuada, mas antes no contrato trabalhista: na necessidade de horas dos dias para preparar aula e pesquisar; ficar mais culto; adquirir gosto e estesias!

Assim surgiu em mim, lendo o documento, a imagem da torneira espanada… ou do dilema do ovo-e-da-galinha… Quem pelo Brasil afora está escolhendo cursar as Licenciaturas em arte? Como chegam? As escolhas são interessadas ou interesseiras? (Escolha interessada = querer ensinar arte e conviver nesse meio; escolha interesseira = o curso que minha nota no Sisu deu pra pegar).

Na televisão a propaganda sobre a Base Nacional Curricular Comum quer nos convencer que o mote é o direito de todos à mesma formação, do Oiapoque ao Chuí. (Viram a campanha?) E nas imagens todos invariavelmente vão para a escola felizes e contentes, bem uniformizados e com seus materiais reluzentes.

(Passado o auge das ocupações das escolas secundaristas pelo Brasil afora, o que restou da experiência de autonomia, alteridade e protagonismo vivida pelos estudantes mesmos?)

Que distância entre o documento BNCC, a propaganda da TV, o tempo das ocupações e a realidade mesma das escolas brasileiras!

Por isso que o discurso técnico, eficiente, evolutivo, limpinho, super revisado, não parece fazer parte da paisagem performativa dos mundos de vida da criança e do jovem brasileiros.

Em um momento pequenininho se escreveu, na página 157: “Dessa maneira, é importante que nas quatro linguagens da Arte – integradas pelas seis dimensões do conhecimento artístico – as experiências e vivências artísticas estejam centradas nos interesses das crianças e nas culturas infantis”.

Putz!

Como chegar lá?

O que é para um jovem de seus 20 ou 23 anos, estudante de Licenciatura em teatro, dança, música ou artes visuais, fazer foco nas culturas infantis? Onde residem as concretudes? E como faço para captar os mundos de vida sem ser prescritivo ou pre-conceituoso?

Os dilemas vão se adensando.

Mostro mais um — a definição de o que é teatro (na página 154):

“O Teatro instaura a experiência artística multissensorial de encontro com o outro em performance. Nessa experiência, o corpo é o lócus de criação ficcional de tempos, espaços e sujeitos distintos de si próprios, por meio do verbal, não verbal e da ação física. Os processos de criação teatral passam por situações de criação coletiva e colaborativa, por intermédio de jogos, improvisações, atuações e encenações, caracterizados pela interação entre atuantes e espectadores”.

Putz putz putz!

Como e por que escolher o uso da tão diversa e polêmica palavra anglo saxônica “performance” no parágrafo que irá definir o teatro?

E foi foi foi… e acabou na situação palco-plateia, atuantes-e-espectadores…!

Estaria mesmo nesse modo de dizer o caminho da diversidade, do fim da pecinha bem feita como ícone da aula de teatro, do fim da habilidade corporal e vocal nas primeiras filas (e os “outros” no fundão!?), do fim da máscara de coelho feita de cartolina, do fim do lobo mau agora bonzinho nas versões politicamente corretas das fábulas e das canções tolamente amenizadas?

A tarefa de criar um documento nacional, então, se mostrou inglória.

Quanto mais consultores, revisores e especialistas mexem no tacho, mais abstrações e discursos do não-dito! A saber: qual noção de educação se está veiculando? E de infância e juventude? E o que é a especificidade do ato de ensinar arte para crianças e jovens brasileiros?

Não sei se todos sabem que o empresário e bispo Edir Macedo está levando, nesse exato momento, primeiro semestre do ano de 2018, o longa-metragem sobre sua vida para as pessoas em privação de liberdade (em presídios) de todo o Brasil. Passa o filme e serve pipoca. Também em tribos indígenas no Amazonas, em comunidades ribeirinhas, em estádios de futebol; é o projeto “Cinema Solidário” (sic). Também estão dando ingressos de graça na frente de shopping em Belo Horizonte… Um mega-projeto de formação de espectadores em massa, gratuito e com viés evangélico — em parceria público-privada.

É isso que está acontecendo enquanto se discute, em gabinete, qual a melhor formação para crianças e jovens naquele mesmo país.

1 - #macaco1