Ser canhoto e começar pelo meio

O artivismo é uma construção coletiva

carnaval zenChegou o ano novo!

E estou de férias.

Ao olhar para a agenda nova (sim, ainda tenho agenda de papel!), e para o calendário do ano da universidade, me pego imaginando projetos para ter… uma “vida fora da universidade”. Desde que cheguei na UFMG, é bem evidente um tipo de dinâmica dos que mais ou menos “se casam” com a Universidade… ah, uma esposa bem complicada! Rs, esposa-entidade que traz com ela – e nela – co-dependência e, por vezes, cargas pesadas de tristeza e tensão (nunca esqueçam o suicídio do reitor em Santa Catarina, e outros tantos exemplos terríveis de adoecimento). Por essa e por outras não aceitei o pedido de casamento, algumas poucas vezes formulado a mim, por meio de convites e abordagens… implicando mais e mais horas de trabalho.

Não é preguiça – é busca por saúde psíquica.

“Vida fora da universidade” significa também, assim como é para mim a docência, engajamento e artisticidade. Foi assim que nesses primeiros dias do ano criei uma sigla:

MRACO

MOVIMENTO RUMO AO AGACHAMENTO COLETIVO

(Passo zero: convidei quatro pessoas para dançar)

Tenho tentado estudar a noção de “coletivo”— e rapidamente percebo minhas próprias contradições… Os coletivos são típicos de movimentos das periferias… sou funcionária federal e vivo em Belo Horizonte num bairro no centro, concentração de classe média alta; branca; 56 anos; doutora em Psicologia da Educação com pós-doutorado em Pedagogia Teatral.

Ah, mas sempre que me apresentam com pompa, vou tirando acessórios (brincos, um colar, os sapatos…) de modo a me despojar e “ir ao chão, onde a criança está”. Tirar acessórios e buscar essencialidades.

O encontro com a criança no chão, na contemporaneidade, pode ser considerado mais uma das minhas contradições: pois quem disse que ela está lá?

Em meus estudos sobre a infância, e sobre as relações entre infância e cena contemporânea, penso que ela deveria sim estar lá… e aí surge mais uma contradição: como e por que sou eu que digo onde ela deve estar?

É bem interessante trabalhar o pensamento, e o sentimento, por meio da percepção das nossas contradições. É um modo de fazer – uma metodologia. Fica mais rico, mais transparente, mais desafiador. Mas também é algo muitas vezes difícil, e tende a ser frustrante – então, precisamos paciência e compreensão, acerca de nós mesmos,  dos mundos de vida que nos cercam, e busca pela abertura ao Outro. Sempre.

Na gestão da criação do trabalho teatral que fiz com Charles e Raysner no ano passado procurei horizontalidade. Muitas vezes percebia neles uma certa dúvida, e até mesmo angústia: “que raios ela quer?”, algo próximo a esse dizer se mostrava em suas corporalidades… Trabalhamos por um ano: de janeiro a dezembro de 2017; atingimos algo. É esse “algo” que quero cultivar, fazer crescer, para que permaneça em nós como raiz de árvore… agora sintonizando, a partir de 2018, em alguns dos direitos da criança.

Direito a ser o que se é; direito ao brincar (especialmente sem brinquedos); direito aos cuidados e à escuta pela comunidade adulta. E proporei a eles que nossa sintonia seja humorada e teatral: direito a um teatro inteligente, talvez um teatro para todas as idades, como aprendi nos anos 1980 com Ilo Krugli, e direito a aulas de teatro inteligentes, que não possuam o objetivo majoritário de “dar visibilidade” à escola ou à instituição a qual está veiculado, bem como proporei não fazer coro com a espetacularização da “criança no palco”. Protagonismo não é bem isso, nos termos da sociologia(s) da infância(s).

E, na minha cartilha, fazer teatro na infância precisa ter como objetivo principal: ser feliz.

A pesquisa para a qual convidei quatro jovens para estar junto em 2018 será, inicialmente, de modos de dizer coisas para os adultos sobre práticas “naturalizadas” por eles – “é assim”; “eles gostam”; “socializa”; “aprende a ter disciplina”, são dizeres dos mais comuns para falar sobre teatro feito por crianças para plateias de adultos… e faz muito, muito tempo que “é assim”! “Eles gostam”! Não viu como “socializa”? “Aprendem a disciplina” (do ensaio, da personagem, do canto afinado, etc)…

Como e por que eu seria “contra” essas quatro expressões-chave do teatro e educação?

Não é que eu seja “contra”. O que é ruim é o “senso comum” dos dizeres… Para quem é leitor de Foucault, o ruim está na discursividade do “eu sei o que é bom pra você”. Modo de ser, e de dizer, clássico dos adultos frente às crianças. Equivale a mandar a criança “ir brincar”… querer que a criança “seja livre e criativa”… coisas que não vão acontecer por mandos ou por simples quereres dos adultos!

Na arte que acredito e pratico, o caminho da criação e da liberdade (sempre situada, dizem os fenomenólogos, e eu gosto da expressão – liberdade situada) é relacional. Não é técnico, nem ensaiado. É convívio. É feito de um tempo dilatado, e acontece em espaços encontrados.

O tempo da apresentação final e o espaço estabelecido por palco-e-plateia são “marcações”. Posso arriscar um jogo de palavras e dizer: o professor de teatro que se ancora nos ensaios e nas apresentações bem feitas está “marcando bobeira”!

Pois!

Está fazendo marcações bobas enquanto as crianças mesmas teriam um potencial impressionante para o improviso, para a experimentação, para brincar com pequenos roteiros que lembrem o faz de conta, para concretizar ações que corporeifiquem a dor e a delícia de ser criança e não ter compromissos tal como o  adulto…

Mas atenção: o potencial para o improviso na infância não é “natural”, “espontâneo” ou “chega chegando”.

É preciso ambiência. Proporcionar um espaço de tal modo que a criança, inicialmente, acredite que aquilo estava ali para que ela encontrasse – assim é a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Daí ele usar a expressão “espaço de ilusão”. Não a ilusão da crença em papai noel!! Mas a ilusão filosófica: de criar e recriar o mundo e a si mesmo. Só acontecerá se o adulto tiver a crença também: de que, em relação, algo novo acontecerá, e que o novo e a atmosfera criativa serão significativas – e demasiadamente humanas.

Não quero ter uma fala e escrita cheia de certezas.

Quero ter uma escrita que convide o leitor do Agachamento ao “espaço de ilusão”. Entre adultos, significaria estabelecer algum elo para o artivismo, junto. Ensaiar crianças e fazer teatro bem feito pode ser artivismo também: mas mais ao centro ou à direita.

Sejamos canhotos! Vamos escapar pela diagonal para a plateia e para o saguão e para a rua! Sejamos responsáveis pela apresentação do Mundo, vasto mundo, às crianças para quem ensinamos teatro. Isso sim é “cena contemporânea”. E para chegar lá, o artista formado como artista precisa abrir mão de alguns de seus pressupostos também: sair de si, deixar a vaidade de lado, não querer brilhar…

Percebo com clareza como a formação em uma nota só, ou seja, a formação baseada na arte espetacular, estraga o improviso. Gera o “improvisador profissional”, ou o “improvisador de carteirinha” (como vemos em festivais e competições de comediantes/improvisadores “stand up”). Ah, eles tem a técnica! Eficácia! Rigor!

No campo improvisacional,  o rigor estraga o vigor. Gera vícios e gagues, pois termina por se querer “dar certo”, “fazer rir”, “vencer”. (Que chato!)

Sou mais por uma pedagogia do sonho e por um teatro que lide com o fracasso, de modo intimista.

Assim, nas reuniões do “coletivo”, pretendo propor a todos oficinas para desenvolver a timidez. O silêncio. O gosto pelo risco, pelo experimento, pelo “começar pelo meio”, sem necessidade de início ou fim.

 

 

 

Para fazer de 2018 um ano melhor

2018!

Alguns frequentadores do Agachamento podem ter pensado que o ano de 2017 foi “apolítico” para mim – ao menos pelos textos das últimas postagens, nas quais comento meu Teatro de Apartamento. E, se precisasse me defender, eu diria: estive, neste ano, ocupada com ações de micropolítica (e de saúde psíquica).

Mas acredito que não seria necessário me defender na minha própria casa. (Espero!)

A preocupação com a necessidade de defesa vem, concomitantemente, da minha consciência de como podem ser potentes as trocas virtuais – e também da consciência de outra potência: as polêmicas via internet.

Percebi que, em muitos dos textos postados aqui, eu não explicito, em palavras, mil por cento, o viés político que o cuidado com a infância necessita – sempre. Para 2018, quero mudar: serei mais explícita; discutirei algumas questões que acredito centrais para o crescimento das crianças, e quero falar mais sobre as [ricas? ou pobres?] relações entre arte e educação.

A continuidade do trabalho com os atores Raysner e Charles acontecerá por meio de um grupo de estudos, e propus, ao longo do ano, em considerarmos a possibilidade de manter “um canal no Youtube”. Quem sabe?

Sei de algumas questões sobre as quais quero falar; elas podem ser consideradas “bandeiras” – mas quero muito me sentir fazendo política de um outro modo: sem levantar mastros pesados ou remar muito forte contra a correnteza… Seria isso possível?

Cito dois exemplos, para anunciar aos leitores o que vem por aí: o direito da criança à verdade e o direito à expressividade (e ao silêncio). O primeiro mote diz respeito à conversa, ao acolhimento, à inserção no mundo (mas inserção no mesmo mundo! Habitamos, adultos e crianças, um mundo em comum! O que difere são os modos de habitar). O segundo mote diz respeito à minha crença de que crianças não precisam de visibilidade – aliás, está de fato faltando intimidade e privacidade para elas. E silêncio. Silêncio de um tipo específico: algo relacionado ao que o Winnicott chamou de “solidão compartilhada”.

Assim, tenho o desejo de escrever para adultos, por exemplo, sobre a exposição que eles fazem das crianças em imagens e vídeos na internet; e, mais radicalmente, no sentido de raiz mesmo, sobre a exposição vivida por elas em apresentações públicas… no modo palco-e-plateia.

Explico meu pano de fundo: em aulas na Licenciatura em Teatro da UFMG, estou sempre provocando meus alunos para que criem outros modos de trabalhar avaliação e mostras; “outros modos” seriam mais processuais e menos focados no “teatro bem feito” (aliás, estamos trabalhando com não-atores, certo?). A resposta da comunidade de alunos é praticamente invariável: os pais querem; a escola exige. Ao que eu respondo: mas… não dá pra tentar propor algo diferente?

Como seria trabalhar com os adultos a viabilidade e a pertinência outros modos de fazer arte com crianças e jovens?

Por que não podemos tentar mexer em estruturas hoje tão arraigadas, especialmente nas escolas e projetos sociais, por exemplo a da “apresentação final”? O artista educador não tem este poder e arbítrio? Se não tem, como e quando foi que isso aconteceu?

Como remexer com a comunidade adulta propondo bagunçar e redesenhar algo em seus imaginários  infantilizados que não os fazem ter crítica ao Dia do Índio no Show da Xuxa? E como é que muitos até mesmo desejam, ainda, fortemente, participar do Show, que deve continuar / must go on (nos pressupostos daquela estética, claro)?

Uma espécie de batalha de Dom Quixote com o Moínho, eu sei; mas quero propor isso, e por meio da pesquisa em teatralidades: algo novo para as relações entre adultos e crianças, relações renovadas nas quais

 a alegria não mais seria de plástico,

nem moraria em paraísos artificiais.

Feliz ano novo

 

Um teatro que derrama da leiteira a realidade que narra

O ano em que voltei a fazer teatro

Neste ano de 2017, tão difícil para o Brasil e para o mundo, vivi, surpreendentemente, diversas experiências intensas, boas, gratificantes. Aprendi a nadar. Mudei de casa. Deitei, pela terceira temporada, no divã da psicanalista… Mas talvez tenha sido a experiência mais importante de todas: voltar a fazer teatro.

Não que me sentisse distante de “fazer teatro” na docência – por dezesseis anos com as crianças da EMIA-SP, e agora, por cinco anos e meio na Licenciatura em Teatro da UFMG. Mas criar, roteirizar, dirigir-sem-direcionar e mostrar, presencialmente… era, para mim, inédito!

Na minha pesquisa de Mestrado eu não atuei, apenas roteirizei e dirigi. Nas experiências de juventude, nunca roteirizei nem dirigi (adultos): fiz inúmeras pequenas encenações com meus alunos, origem do que hoje nomeio “roteiros de improviso”.

O mais especial deste momento são os companheiros de cena – os jovens atores Raysner e Charles – e a temática biográfica e existencial: a perda gestacional dos meus filhos gêmeos, Evandro e Dimas. Imaginava que seria transformador. E foi.

como contar uma história triste e ficar feliz

como contar uma história triste e ficar feliz

Percebo como expressão potentemente antiestrutural: não termos captado recursos financeiros (os ingressos foram convites, pessoais e delicados; o espaço cênico, meu apartamento…); não existir dramaturgia de diálogos; o tempo de duração ser muito curto, [intensos] vinte minutos; e as roupas que eles vestem são minhas! Uma mágica de tamanhos, no melhor estilo “Alice no país das maravilhas”. O trabalho feito nos uniu de tal modo que agora tenho mesmo filhos gêmeos (rs) vivos e saudáveis. (A foto: meus três filhos).

O teatro teatra (quem disse isso foi um amigo de Jorge Dubatti)  – compreendo essa frase como o teatro ser algo que permite inventar, reviver, ficcionalizar, contar de novo, e também… enfeitar, mentir, fazer de conta, embelezar a verdade mais doída, mais doida.

Por isso mesmo uma das minhas grandes bandeiras na Licenciatura em Teatro é a liberdade para imaginar. Ser imaginativo até mesmo, ou seria melhor dizer inclusive, no campo (auto)biográfico. E percebo como está forte e presente, no caminho de pesquisas contemporâneas, as misturas entre ser-e-não-ser. Teria mudado a pergunta de Hamlet?

Embora os textos permaneçam, as leituras possíveis mudam, os tempos e espaços mudam… Lembro de como fiquei surpresa e instigada por um dizer do professor Guto Pompéia, em aulas, na década de 1990 na PUC-SP, cuja temática eram Fenomenologia e Daseinsanálise (palavra brasileira para a psicoterapia cujo fundo filosófico é heideggeriano); em uma das aulas o professor discutiu o enigma “Conhece a ti mesmo” do texto dramatúrgico Édipo Rei. Ele nos alertava sobre a não existência do “eu psicológico” na temporalidade da Grécia Antiga. Pensar assim muda totalmente a perspectiva da peça!, e se bem corporeificado o conceito, mudariam (ou precisariam mudar) as encenações contemporâneas do texto também…

A única “peça verdadeira” que fiz como atriz foi Luzes e Sombras. Um trabalho pioneiro em teatro para todas as idades roteirizado por Ilo Krugli, mestre do Teatro Ventoforte, que depois foi infinitamente copiado pelo Brasil afora: cantávamos e brincávamos canções e folguedos populares, entremeando depoimentos sobre nossas infâncias – um trabalho provocado por Ilo nas aulas de teatro para atores na sua estética. Não tinha a menor ideia que isso viria a chamar “teatro documentário” (talvez, na Alemanha, já chamasse); tinha dezenove anos e tinha fugido da escola (fiz um ano de graduação em teatro na ECA-USP). O espetáculo ficou em cartaz por dois anos seguidos (1981-1982).

Fiz várias “peças falsas” em trabalhos artísticos criados com pessoas da EMIA-SP: contrapondo, de modo irônico e brincante, o teatro verdadeiro, no sentido do senso comum, definido como aquele que ensaia, cobra ingressos, ocupa um teatro por uma, duas ou três temporadas, e o teatro falso como aquele no qual algumas pessoas se agrupam para inventar um trabalho efêmero para algum evento (talvez, durante os anos 1990, o início do pensamento e da “estética” dos Editais).

Mas todos os teatros dos quais participei foram verdadeiramente significativos.

E o fazer de agora mostra-se o mais… verdadeiro-e-falso; verdadeiro por tratar-se de uma narrativa de um tempo da minha vida, não há máscara nem personagem; falso por ser teatro fora do teatro, sem bilheteria ou programa ou patrocínio. Verdadeiro-e-falso pois teatra. Derrama da leiteira a realidade que narra.

Roteirizei “Quinze momentos para Evandro e Dimas”, primeiro nome que dei ao trabalho (em seguida criei o título que ficou: “Evandro e Dimas, os nomes escolhidos”), a partir de pequenas propostas que rabisquei – e que eu, Raysner e Charles experimentamos, nas segundas-feiras de noite, desde o dia 24 de janeiro deste ano.

Na sala da minha casa.

Neste ínterim mudei de casa e a espacialidade da casa nova foi determinante – um quarto como coxia; a sala como espaço privilegiado do modo de ser e estar em repouso, com diferentes possibilidades de luz; o rico e misterioso espaço de debaixo da mesa redonda – brincar de útero?; a varanda como um entre-lugar (Encubadeira? Limbo onde estão os meninos? Pequeno caixão?); e os chuveiros, local de purificação.

Servimos vodca gelada ao final – ou suco, ou água de coco.

E sempre, invariavelmente, terminamos leves e felizes.

Ah, servimos conversa e silêncio também.

AGENDA para outubro e novembro, 2017

Ainda antes do Natal…

 Já chegou o feriado de 12 de outubro e ainda irei, “antes do Natal”, a dois eventos importantes: o CARTOGRAMA 2017 em Santos, São Paulo; e o Congresso CONFAEB 2017 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Tive grande simpatia pelo CARTOGRAMA desde o início, quando me convidaram a falar, ao perceber que é um evento conjuntamente organizado por gente das artes e da saúde; gosto disso – de participar de algo que, em sua origem, já é interdisciplinar. Faz sentido para mim: pelos anos de estudo de Psicologia, e pelos anos de ensino na graduação em Psicologia, concomitantes com minha prática de artista-professora na EMIA-SP. Minha fala será teórico-prática (um tipo de oficina que mistura práticas e ideias, discussões e fazeres) e dei a ela o seguinte título:

PERCORRER A VIA MENOS PERCORRIDA

Aliás aprendi a usar a expressão “a via menos percorrida” com um aluno da graduação em Psicologia da Uninove, universidade privada onde trabalhei entre 2002-2007. Ele estava lendo um livro com aquele dizer no título (na verdade no livro era “trilha”, não “via”, e tratava-se de uma obra no campo da espiritualidade e autoajuda… fui ver no Google: uma leitura sobre viver bem, e honestamente) e foi meu aluno que fez a associação entre o título com a Fenomenologia, inserida no campo maior da Psicologia. Nada mais próprio: como e por que ocupar-se com uma proposta filosófica que não busca a cura nem promove saúde – mas busca a compreensão da doença psíquica e seus desdobramentos existenciais? Quem se ocupa com isso e dessa maneira está mesmo caminhando pela via menos percorrida.

E de fato, com o passar destes 10 anos, a via fenomenológica na Psicologia ficou cada vez menos percorrida… lugar onde se evita a medicação excessiva e as estratégias que maquiam o sofrimento humano.

Para o Cartograma, meu foco é o olhar fenomenológico para a criança, e as possibilidades que se abrem diante dessa via menos percorrida (pois a via mais percorrida é a desenvolvimentista, ou seja, o olhar para a infância por fases, etapas pré-determinadas a serem superadas… e por preparações para os próximos degraus). Se não olho para a criança por meio das fases, eu positivo a experiência da possibilidade mais possível, vivida aqui-agora; eu enxergo sua inteligência de modo pleno, e admiro suas conquistas sem achar que precisaria mais, ou “ser melhor ainda”. Enfim, trabalhar na chave da fenomenologia da criança seria evitar a maneira de trabalhar por competições e superações (modo que faz foco no que “não se tem” ainda). Podemos chamar o olhar fenomenológico como uma lida que positiva o fenômeno da infância. A temática da edição atual do evento Cartograma é “arte e infância”. Vou procurar discutir que diferença faz tudo isso no campo do convívio entre adultos e crianças, e no ensino da arte.

*

Na CONFAEB minha fala terá o título

INFÂNCIA COMO IMPROVISO /

POR UMA ABORDAGEM ESPIRAL NO ENSINO DE ARTES PARA CRIANÇAS

Neste evento, o Congresso da Federação dos Arte/Educadores do Brasil, participarei de uma mesa redonda – e nos pediram por textos. Escrevi uma reflexão (disponível em breve nos Anais do Congresso) que retoma os princípios da abordagem espiral no ensino de arte. É de extrema importância, pela abertura de espaço dada para mim na Confaeb, poder divulgar as ideias que desenvolvi ao longo do tempo, posso dizer ao longo de mais de uma década, sobre o ensino de arte na chave do hibridismo, ou das misturas entreartes – algo polêmico para aqueles que defendem o purismo de cada arte, e que definem arte como “linguagem”— pois cada linguagem teria sua gramática, sua estética, suas especificidades…

Meu ponto de vista é de que as artes podem habitar outro lugar: o do âmbito artístico-existencial; seria esta minha contribuição original, que não só remexe com certezas, como alerta para o risco da rigidez da via de mão única, e também para os corporativismos no campo de conhecimento ao qual pertenço.

Âmbito é sinônimo de lugar; haveriam lugares no corpo que nos levam ao que se denomina arte – mas que a criança pequena pode viver, se puder ser o que se é, como brincar e ser feliz. Ser feliz por sentir-se plena, habitando seu corpo, expressando-se com liberdade; liberdade situada, diriam os fenomenólogos: liberdade emoldurada pela cultura compartilhada e pelas regras e normas do convívio familiar, social e político.

*

A partir de muitos problemas pelo qual o campo da arte está passando, com perigosa pobreza de espírito das discussões entre apenas duas posições (“estar a favor ou contra”), descubro a potência, novamente, do pensamento de Paulo Freire. Ganhei de aniversário o Dicionário Paulo Freire e estou curtindo, depurando, absorvendo cada verbete… No texto para a Confaeb, fiz foco na noção de inédito-viável (que aliás eu nem conhecia!). Trata-se de um modo de pensar criação, transformação, e propostas que possam ser novas mas de fato possíveis. Sonhar sonhos possíveis! Será que o Brasil ainda comporta / suporta isso?

*

foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

Outro acontecimento importante do mês de outubro, este no “microcosmo”: a ida ao ar (ou à nuvem? Rs) do novo desenho do site-blog Agachamento fará aniversário no dia 27. Durante o ano, foram feitas cerca de 20 mil visitações – e 100 mil acessos a postagens lidas, visitadas, impressas. Fico feliz com isso.

Foram publicadas 350 postagens desde janeiro de 2011, compiladas agora por suas temáticas (algo que o leitor encontra na página de abertura do site-blog à direita da tela).

A via menos percorrida vale a pena, também cava seus espaços, mapas, estradas e pousadas…

Quero falar de uma coisa

Todos temos nossos Arquivos X

Nos meses de outubro e novembro de 2017, acontecerá, na espacialidade de um apartamento em Belo Horizonte, Minas Gerais, um evento teatral. Um rito. Uma pequena obra documental posta em ação.

Em janeiro, comecei a me encontrar com Charles Valadares e Raysner de Paula. Eu os convidei para um trabalho cujos modos de fazer se assemelham ao que está sendo nomeado “teatro documentário”. Eu os chamei para que fossem “meus filhos gêmeos”. (Não para que representassem: para serem).

No ano de 1984 fiquei grávida de gêmeos. Foi uma experiência inicial de muita felicidade e júbilo. No entanto, aos cinco meses e meio de gestação, os meninos (eram dois meninos) morreram.

Dependendo do tempo gestacional, os bebês que morrem na barriga da mãe e nascem são denominados – e registrados em suas certidões de óbito – “natimortos”. Este é um dos (imensos) detalhes desta história, que vamos contar por seis vezes, algumas segundas-feiras de outubro e novembro de 2017: trinta e três anos depois do ocorrido.  Um detalhe imenso e que me fez deixar os originais dos atestados de óbito no fundo de uma pasta de documentos, muito no fundo, durante todos esses anos.

Por meio deste trabalho, eu percebi, ou confirmei, a potência do teatro para a cura.

“Cura” no seu sentido etimológico: cuidado.

Estou cuidando de um luto atemporal, ou antes, longuíssimo, que meus vinte e dois para vinte e três anos (minha idade naquele momento) não deram conta de “elaborar”. Por trinta e três anos seguidos, os meses de julho me deixaram melancólica. Há um certo cheiro, luz e atmosfera do inverno que me levavam, mais uma vez, em trinta e três julhos, à tristeza da ação de parir bebês já mortos — a mais cruel síntese do que é um paradoxo.

No momento vivido, enfermeiras inábeis me chamavam por “mãe”, ou “mamãe”.

Tudo muito errado. Todos os profissionais envolvidos muito incapazes de conversar uma conversa aberta e franca, olhos nos olhos.

De início, o médico do ultrassom, que detectou, no exame, o falecimento dos bebês, fez com que minha mãe, que me acompanhava junto com meu marido, fosse a portadora da notícia do óbito.

Na minha memória quem acertou foi o jovem médico que conduziu o trabalho de parto. Ele percebeu que eu chorava. Me perguntou se sentia dor… Eu disse que era tristeza, não dor exatamente. Ele me respondeu, com simplicidade: “Você ainda vai poder ter muitos outros filhos”.

Outros médicos mais velhos e mais experientes só sabiam afirmar, com secura e objetividade: “A natureza é sábia”. No geral eles acham que quem ouve a frase a compreende “cientificamente” tal como eles, quando enunciam: que perder bebês doentes é melhor do que tê-los.

Quem viveu algo parecido sabe que nada substitui aquelas crianças, na sua existência, nas suas pessoalidades e especificidades.

É sobre isso o meu “teatro de apartamento”: sobre poder falar do assunto, um tipo de “tema tabú”, de modo livre, artístico e poético, e nomear os natimortos das certidões de óbito por Evandro e Dimas – seus nomes escolhidos.

Desde janeiro construimos quinze momentos dramatúrgicos de modo a expurgar isso de mim; em mim. Concluir, e dizer para o céu que enxergo da varanda do meu apartamento recém alugado: eles viveram cinco meses e meio de uma existência feliz. Em determinado momento eu canto, e depois os meninos cantam, um trecho de uma canção de Rita Lee:

Num apartamento / perdido na cidade / alguém está tentando acreditar /

que as coisas vão melhorar / ultimamente…

(Teriam mesmo eles vivido cinco meses e meio de uma existência feliz? A pergunta é, agora, filosófica, e não é para ser respondida).

De início pensei mesmo sobre uma abordagem realista, estudo da neurologia dos fetos, e coisas correlatas. (Eles sentiram dor, quando morreram na barriga?)

A pergunta vai ser performada. Ou, em palavras mais transparentes: a resposta (mais possível, trinta e três anos depois) é a criação, ao lado de Raysner e Charles, junto; dois atores jovens que toparam o desafio, que acolheram meu projeto, em troca do convívio e da aprendizagem deste tipo de teatro e seus procedimentos. Tenho muito a agradecer a eles. Encarnaram Evandro e Dimas, ao longo do ano de 2017, e, ao ver os gêmeos crescidos e saudáveis, por meio da ilusão do teatro, eu pude dizer adeus.

Com este trabalho vou expurgar a dor, a recordação, o cheiro do inverno que mistura também a mancha de sangue vermelho na calcinha durante a recuperação do “aborto espontâneo” (que expressão terrível!) e a nitidez do cheiro, nas narinas, de um tipo de spray cicatrizante que se usava nesses casos, à época.

Eu tomei vacina “anti RH” pois não se pensou sobre isso, durante a internação hospitalar, e não foram verificados os tipos sanguíneos de Evandro e Dimas – eu, sua mãe, era 0 negativo.

No ano de 2012, ao fazer exames para entrar na UFMG, descubro que meu sangue se tornou “0 positivo fraco”. (Aparentemente isso aconteceu por ter tomado a vacina nas duas gravidezes vividas… nos anos de 1984 e 1985).

…Ter mudado de tipo sanguíneo talvez possa, agora, ter sua potência poética, na medida em que decido que vou deixar que Evandro e Dimas, enfim, sejam por mim consideradas vidas de cinco meses e meio (dentro da barriga) bem vividas; dois bebês queridos e desejados, que, posso teatralizar agora, inspirada em palavras de Janusz Korczak: crianças que tiveram o direito de morrer.

Deixo registrado, aqui no Agachamento, a criação deste ato performativo que acontecerá de modo aberto muito em breve, e explicito os “resultados” que pretendo “obter”: a assunção de que tive três filhos, um deles vivo.

É para Jonas, meu filho saudável e vivinho da silva, que dedicarei este expurgo, à sua liberdade de vida e expressão, para que sua mãe deixe estar os irmãos, com quem não brincou e não conheceu:

como disseram os Beatles: let it be

como disseram os Beatles: let it be

que seus primos possam ter tido este papel — e tiveram — e que a sua vida seja homenageada, com sinceridade e sem escrúpulos para saber de seu caminho biográfico; e que você se sinta livre para, sempre que quiser, e puder, acessar esses Arquivos X da sua mãe. De seu pai. E de seus irmãos.

 

 

 

Rolezinho na rampinha

Artivismo, agora praticado

Em uma postagem intitulada “Eu quero ser artivista”, comentei sobre uma oficina / workshop / ato performativo que iria propor para o setor Educativo do Centro Cultural do Banco do Brasil. Este trabalho aconteceu no dia 23 de agosto, última quarta-feira.

Tinha muito o desejo de “ocupar” a rampa na lateral do prédio do Centro Cultural.

Pensava, e penso ainda, que tudo de contemporâneo que o Centro Cultural está propondo, precisa sair dali: ganhar a calçada!

Expandir-se.

Conversar com transeuntes, moradores, e pessoas que não tem o hábito de ir a… museus. Mesmo com entrada gratuita, existe um fenômeno: há alguns grupos sociais que não entram em espaços assim. Assim como? Museológicos, bem cuidados, com cara-de-elite. Sim, é inevitável que o imponente prédio seja visto, lido e vivido como espaço “não para mim” (pessoa comum).

Assim dividi o tempo em três momentos.

Primeiro momento:

dinossaure-se

Eu me apresento junto com os objetos que levo em uma sacola… Sem planejar nem roteirizar, vou criando sentido entre os objetos: nomeio o jacaré de plástico meu filho; dou a ele uma enorme maçã para comer, e ovos. Ele namora uma galinha. Eu sou enciumada. Eu até já o levei a Paris! E assim por diante.

 

Segundo momento:

Cada participante ganha “um kit”. Trata-se de um móbile da fábrica de brinquedos S’ocio, que fechou. Ganhei do meu irmão, criador da fábrica, uma porção desses “kits”, para fazer o que eu quiser… Explico que o “kit” vira um móbile – e que vamos fazer

tudo menos um móbile.

o kitTerceiro momento:

Passear pelo espaço. Perceber que isso que fizemos pode ser chamado de performar a paisagem. Nesse momento eu brinco de ser “O Educativo” do lugar. Falo coisas imaginadas e ao mesmo tempo situadas (Aqui é a Savassi… Aqui é o Parque Municipal… Em Paris!… etc)

E houve um quarto momento, no qual, por cerca de vinte minutos, conversamos, em pé. Aglomerados.

Disse que quem quisesse “reproduzir” o trabalho com crianças deveria ter sua mala ou sacola de objetos. Colecionar coisas é o primeiro passo. O segundo passo é exercitar narrativas imaginativas, brincantes, humoradas – posso chamar isso de doar significações [para os objetos, para o espaço ocupado, para as relações que estão acontecendo no aqui-agora]. Essas narrativas são apenas motes iniciais para acordar as imaginações. As imaginações serão espacializadas, por meio do uso dos materiais distribuídos a seguir.

Obviamente as pessoas não terão os mesmos “kits”, mas podem colher brinquedos-sucata de modo que cada participante ganhe um mesmo inventário. É um exemplo simples: rolhas; tampinhas; galhos; folhas; pedras; brinquedos quebrados; bolas de gude; papeizinhos. E assim por diante.

O importante é perceber que, quando o adulto condutor não diz o que é pra fazer, estou livre para inventar. Mas tristemente há no mundo crianças que, quando não se diz “o que é pra fazer”, se inibem, ou se entediam, ou até mesmo se sentem ameaçadas pela liberdade.

Digo “tristemente” por ser estudiosa da obra do psicanalista inglês Winnicott, que afirma existir um tipo de mandalabrincar “livre e criativo”. Este jeito de brincar não é inato – ou seja, as crianças não nascem imaginando; as crianças aprendem essa maneira de brincar de modo relacional: com os adultos cuidadores, com os pares, com a cultura compartilhada enfim. Trata-se do tão famoso “brincar de faz de conta”. Não preciso de brinquedos ou de regras para que o faz de conta aconteça; preciso de liberdade de expressão e de liberdade de ir e vir: preciso ir ao mundo, ver o que o mundo me oferece; e preciso ter a ilusão de que eu criei o mundo, e que o mundo é meu parceiro – as coisas ali estavam para que eu as descobrisse.

Mas como as crianças pequenas estão, habitualmente, sob as asas do adulto cuidador, o gesto espontâneo de descoberta do mundo precisa ser permitido, provocado, até mesmo induzido; “ir ao mundo” pode significar por exemplo, simplesmente ir ao encontro de uma torneira de água, ou ir até a terra da pracinha.

Como você, leitor do Agachamento, pensa essa situação? Deixar a criança ir e vir na pracinha, e ter contato direto com a terra e com a água?

Também tristemente muitos adultos jovens (tomo pelos meus alunos na graduação de teatro) consideram perigoso ou arriscado ficar livre na pracinha. Estou percebendo que uma porção de lugares e mídias estão tematizando a “infância confinada” entre os brasileiros. As ruas estão perigosas, é fato; mas o que vamos fazer sobre isso?

jacaré1Por isso considerei a breve e pequena ocupação da rampinha ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil um ato político. Uma ação de uma hora e meia de artivismo.

O foco foi o uso criativo dos materiais que todos tinham em comum. Pelas imagens vocês podem notar como foi rico e instigante!

Foi uma proposta de risco. Poderia ter frio e vento, poderia ter interferência da rua ou dos transeuntes de tal modo que os participantes se sentissem inibidos, intimidados, ou abordados de um jeito intromissor. Também os participantes poderiam não aderir aos meus comandos. Ou poderiam se entediar ou se dispersar, sendo que, em meu enunciado, disse que o trabalho pressupunha introspecção e um grau de silêncio.

paisagem2Ao final algumas pessoas deram breves depoimentos sobre o que vivemos. Foi interessante e bem sucedido. Percebo que por vezes os educadores agem como se os coordenadores, diretores e o sistema educacional fosse “Pai” e “Mãe” autoritários, que mandam e nos limitam. Gosto de afirmar que nossa arma-flor (flower power) são os documentos curriculares. Muitos dos municípios brasileiros elaboraram documentos a favor da pequena infância, do brincar, do protagonismo. Se o coordenador, diretor ou supervisor de ensino se aborrece com “nossa bagunça” (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) devemos, em nome das crianças, afirmar que o que estamos propondo está previsto no documento curricular. O brincar é preponderante – não é um momento da sexta-feira no qual trazer brinquedo é permitido… O brincar é uma grande paisagem ou pano de fundo de toda a vida escolar da pequena infância. O brincar é um parangolé a ser vestido, uma chuva para nos molhar, uma bota de sete léguas que nos faz gigantes.

Grande indício de que isso tudo (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) faz parte da energia da criança, foi a visita de dois meninos à nossa ocupação:

gesto espontâneo