Charles se agacha

Seguindo com a ideia de fazer publicações de postagens escritas por outras pessoas… vejam aqui como o ator e pesquisador Charles Valadares viveu a experiência do teatro de apartamento “Evandro e Dimas / Os nomes escolhidos”. Charles era Dimas. Charles é agora um filho meu…

Para entrar com o “pé esquerdo” no quintal

Fui convidado pela Marina para escrever um texto para o Agachamento.  Muito antes desse convite veio outro: mergulhar em um processo criativo-afetivo a partir da experiência de perda gestacional dos seus filhos gêmeos, ocorrida há 33 anos. Assim, ao longo de 9 meses do ano de 2017, de janeiro a setembro, “gestamos” (Marina, Raysner e eu) nosso Teatro de Apartamento. De outubro a dezembro compartilhamos, com pessoas queridas, os frutos do processo. E, após um ano frequentando o seu apartamento (espaço que abrigou conversas, reuniões, improvisações e público), sou convidado a entrar e brincar de escrever em seu “quintal”.

Para mim, menino-homem crescido na pequena Raposos, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, que tem ares de interior, o quintal é uma das melhores e mais importantes partes de uma casa. 

Para Manoel de Barros, poeta pelo qual nutro um grande afeto, quintal é lugar “maior do que o mundo”. Sendo assim, para entrar com o “pé esquerdo” no quintal do Agachamento e iniciar uma prosa-brincadeira (que talvez dure mais que uma postagem) vou falar um pouco de mim.

Para começo de conversa: me chamo Charles Valadares. Minha cidade de origem já contei. Foi lá que vivi até os 18 anos, quando mudei para Belo Horizonte para cursar a graduação em Teatro na UFMG (onde, mais tarde, fiz a opção pela habilitação em Licenciatura). A escolha pela graduação foi resultado de uma experiência de curso livre de teatro feito em Belo Horizonte, somada ao desejo de ser ator, nutrido na minha infância, alimentado por certo fascínio pela produção televisiva, primeira referência da arte de representar que me chegava, já que em Raposos não existia a oferta de experiências ligadas ao teatro (cursos livres, apresentações de espetáculos, nada).

Ao longo da graduação, convivendo no mundo e com o “mundo dentro do mundo” que é o espaço da Universidade, veio o amadurecimento acerca da profissão. Mudei meu modo de pensar, de ver a vida. Aquilo, que na meninice era um fascínio, desejo em ser “ator de TV”, na mocidade começou a não fazer mais sentido. No processo de crescer os sonhos também amadurecem, e, assim, o teatro ganhou outros contornos e novos sentidos em minha vida.

Os sonhos-crescidos também costumam vir acompanhados de pessoas, e assim os meus trouxeram Raysner, Helaine, Vânia e Fabrício, com quem formei o “Mamãe tá na plateia grupo de teatro”, lugar onde comecei a rabiscar meus desejos artísticos. Foi “teatrando” de forma independente, com eles, que pude compreender aos poucos o teatro como espaço potente de elaboração inventiva da vida, lugar de criação coletiva, de compartilhamento ideias, práticas, gostos, afetos e anseios. Nossa união brotou da afinidade.

Paralelo a esse encontro conheci a Marina: primeiro como autora de referência para pensar as relações entre o teatro e infância, a partir de um projeto de extensão que participei (2011-2012), coordenado pelo professor Ricardo Carvalho de Figueiredo; depois, como professora da graduação em Teatro na UFMG (2013-2014) e orientadora do meu Trabalho de Conclusão de Curso; em seguida como orientadora de mestrado (2017-2018) – e, a partir da experiência criativa-afetiva de “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, o convívio ganhou fronteiras mais pessoais e artísticas.

Essa união também brotou da afinidade, do meu desejo, somado ao do Raysner, de empreender uma criação artística junto à Marina, e também da brincadeira iniciada por ela ao nos apelidar de “gêmeos”.

Assim, durante o ano de 2017, vivenciei outro modo de pensar e fazer teatro, diferente das noções experimentadas até então. O projeto artístico imaginado pela Marina era uma via que eu ainda não havia percorrido: teatro sem marcações fechadas, nem direção ou ensaios longos e exaustivos; sem compromisso com “acertar” ou cumprir as “expectativas da direção” (apesar da carga pessoal e biográfica dela, havia uma busca pela horizontalidade no processo). 

Diria que foi um “teatro sem expectativas de dar certo”, mais próximo do coração. Trilhamos um caminho existencial, pessoal e conectado com a vida (nossa e da Marina). Ah, ela diria: conectado com a vida e com a morte.

Sobre isso escrevi em meu diário de bordo da apresentação feita no dia 11 de dezembro de 2017: “um teatro que não termina quando acaba. Resvala para além do espaço de cena e tromba na vida. Nosso “teatro de apartamento” não tem só 20 minutos. Vai para além da estrutura que decidimos compartilhar. Dura até sairmos pela porta do apartamento. Aliás, vai além. Aqui não tem patrocínio, não temos obrigações, só desejo. Para mim esse é o dom do trabalho”.

Um teatro movido pelo desejo me enche o peito de alegria.

Em conversas constantes com Raysner falávamos sobre a leveza, o prazer desse encontro, a importância de ser assim, principalmente no sombrio ano de 2017, que politicamente mexeu muito com nossas vidas, mentes e corações.

Só assimilei ao longo do compartilhamento com o público, o convite, feito pela Marina, de “atuar sem atuar”, uma busca não por representar os gêmeos, mas sim se-los de modo encarnado, simbólico e afetivo. 

 Hoje, refletindo sobre o processo vivido, Identifico duas noções-chave do nosso experimento: convívio e corporalidade.

Gosto do pensamento de Jorge Dubatti, estudioso da filosofia do teatro, acerca da noção de convívio: encontro entre pessoas, de corpos presentes, delimitado num tempo-espaço em comum, podendo acontecer nos mais distintos lugares (sala, rua, casa, bar, etc).  Elaborar artisticamente a experiência de júbilo e dor vividas pela Marina, a partir da espacialidade de sua casa, lugar que abriga intimidade, objetos de valor afetivo, conectados a sua biografia, foi valioso.

 A experiência convivial não pode ser capturada, sua existência está conectada ao momento em que ocorre, é efêmera e singular.  E foi assim que a vivemos. Optamos por não realizar registros fotográficos ou fílmicos, apenas escrever em nossos diários de bordo. A cada apresentação realizada (foram 10) vivemos distintos encontros, enriquecidos pela percepção, sensibilidade e biografia de cada convidado, revelando a potência do teatro enquanto acontecimento.

Dubatti pensa o teatro como acontecimento em uma noção que compreende a experiência teatral para além artifícios técnicos bem executados, ou meio de comunicar algo a alguém.  Amplia nossa compreensão do teatro para o âmbito existencial, lugar de afetar e ser afetado, espaço de provocar os sentidos, pensamentos, memórias e a subjetividade – do ator/pesquisador e dos outros, espectadores/testemunhas.  

Outra dimensão do convívio que atravessou a criação, mais pessoal do que teatral, diz respeito aos laços afetivos que estreitamos ao longo de 2017, a princípio, a partir dos nossos encontros quinzenais (que em meados do segundo semestre viraram semanais), no qual íamos, Raysner e eu, nos aproximando aos poucos dos detalhes da experiência vivida pela Marina, por meio de sua narrativa e exposição de documentos (diário com cartas para seu filho Jonas, os atestados de óbitos, receitas médicas, fotografias, etc). Alguns encontros acabavam em pizza e cerveja! Ou melhor, numa deliciosa pizzaria próxima ao apartamento.  Lá compartilhávamos, além dó desejo de estar juntos criativamente, pensamentos, sentimentos e visões de mundo.

O que vivemos em nossa corporalidade e presença conversa com princípios que Marina discute em seu livro Merleau-Ponty e a Educação (2010) ao falar do espaço corpo próprio – noção da filosofia fenomenológica de Merleau-Ponty . Para exemplificar, escolho um aspecto do nosso experimento: a busca não por mimetizar ou representar algo que não somos (fetos em período gestacional ou crianças). 

Durante o processo de criação trabalhamos a partir de estímulos imagéticos (corpo meleca, corpo sem ossos, ambiente aquoso, por exemplo); verbos para ações (brincar, contorcer, aglutinar, expandir, diluir e formar) e sonoridades (batidas de coração, sons uterinos e silêncio). Ao experienciarmos tais elementos colocávamos nossos corpos de adulto em situação para viver (não representar!) climas e atmosferas e sermos afetados pelos estímulos, entremeados por nossa capacidade inventiva, imaginativa e memória. Compreendi nosso corpo como espaço de fala, rico em carga existencial e autobiográfica: narrador de si.

Tais compreensões só processei posteriormente ao vivido.  

 E assim, sigo, em 2018 e ainda elaborando o que vivi, refletindo sobre como continuar: como alinhar aquilo que eu era antes com aquilo que sou agora? Como afinar (ou seria desafinar?) as noções de teatro vividas?

Penso que não vou jogar fora tudo o que vivi antes do Teatro de Apartamento, pois somos o que está inscrito em nosso corpo, memórias, em nossos modos de ser e estar no mundo. Desejo na verdade assimilar caminhos, novas possibilidades e desvios, para criar de forma autoral trajetos… rumo ao risco da (re) invenção.

Como continuar pesquisando “aquilo que ainda não sei?” Assim, curioso e instigado, sigo brincando!

Vamos também?

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Para ler na volta às aulas

Compartilho aqui com os leitores do Agachamento um texto meu que achei em arquivos do laptop antigo, para a seleção de emprego em uma importante editora em São Paulo, escrito em 2010.

Vejam se não é próprio para a volta às aulas no Brasil de 2018:

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Uma escola que apresente às crianças alegria e exercícios férteis para seu crescimento e desenvolvimento não significa uma escola literalmente colorida e preenchida por figuras e personagens em suas paredes… Uma escola que apresenta alegria e fertilidade é a escola que admite, congrega, elabora a dor e a angústia de crescer; tristeza de separar-se dos pais, temor de enfrentar desafios e embates… entre ser grande e ser pequeno. Essa escola conversaria com a tristeza e a melancolia advinda dos climas e atmosferas vividas por seus alunos, dentro e fora de casa. Como estar feliz e repleto de energia vital se meu avô está no Chile, onde aconteceu um terrível terremoto? Como ser destemido diante de todo o alarde mediante a gripe H1-N1? Como ser criativo em uma cidade como São Paulo, no início do período escolar, se as ruas alagam e meus pais temem, a cada dia, que a perua escolar não consiga chegar em casa?

A escola que acolhe os temores das crianças é uma escola que faz pensar; é uma instituição que lê os jornais para as crianças, com as crianças, e, mais tarde, as torna capaz de escrever seu próprio jornal-mural. A escola que conversa com a melancolia e a tristeza de quem perdeu o avô, de quem tem medo de enchente, de quem fica com insônia por medo da “gripe suína”, é a mesma escola que mediatiza essas experiências de tal maneira que todos crescem e se transformam, por meio da capacidade de pensar e de agir, em direção à aquisição de um tipo de saúde. Saúde mental, física, psíquica, social, cultural; saúde que compreende a doença como um dos momentos da vida, e que surge dos campos educacionais de intersecção: entre a criança e ela mesma, entre as diversas crianças, entre a criança e a comunidade adulta, entre a criança e o mundo.

A escola que lida com “retratos em branco em preto” ouve Elis Regina junto com seus alunos e trabalha cada momento histórico na chave compreensiva. A escola que força a alegria colorida do animador cultural é um equívoco – gera crianças ansiosas e artificialmente contentes. A escola que lida com “retratos em branco e preto” mostra a seus alunos que existem diferentes possibilidades: inúmeros jeitos de fotografar. A escola que conversa com o difícil momento que vivemos, integra melancolia e tristeza como uma das formas de uma criança se expressar. Permitindo esta integração, admite as dificuldades, veicula novas referências, deixa a criança “ser o que ela é”, ensina tolerância e superação. 

A escola que ouve as canções de Vinícius também sabe que “fazer samba não é contar piada”, e que “sem tristeza não se faz um samba não”. E se essa escola também trabalhar com seus alunos a cultura do jazz e do rock’n roll, fazendo noutro momento música de câmera e depois ouvindo sinfonias, sem nunca esquecer do enorme valor do silêncio, será uma escola propositiva que ouve, faz e cria com seus alunos todos os tipos de música, em busca da experiência multicultural, que enriquecerá a vida e o imaginário das crianças, tornando-as cidadãs capazes de pensar, expressar, sentir e transformar as condições de vida de sua pessoa, família, cidade e país. Penso ser essa a comunhão a qual Paulo Freire se referia quando escreveu que “aprendemos em comunhão, mediatizados pelo mundo”; disse Vinícius de Moraes: “fazer samba é uma forma de oração”.

(Passei na seleção mas não aceitei o trabalho, pois percebi como teríamos de nos moldar, cruelmente, ao mercado editorial da publicação de livros didáticos)

 

 

Ser canhoto e começar pelo meio

O artivismo é uma construção coletiva

carnaval zenChegou o ano novo!

E estou de férias.

Ao olhar para a agenda nova (sim, ainda tenho agenda de papel!), e para o calendário do ano da universidade, me pego imaginando projetos para ter… uma “vida fora da universidade”. Desde que cheguei na UFMG, é bem evidente um tipo de dinâmica dos que mais ou menos “se casam” com a Universidade… ah, uma esposa bem complicada! Rs, esposa-entidade que traz com ela – e nela – co-dependência e, por vezes, cargas pesadas de tristeza e tensão (nunca esqueçam o suicídio do reitor em Santa Catarina, e outros tantos exemplos terríveis de adoecimento). Por essa e por outras não aceitei o pedido de casamento, algumas poucas vezes formulado a mim, por meio de convites e abordagens… implicando mais e mais horas de trabalho.

Não é preguiça – é busca por saúde psíquica.

“Vida fora da universidade” significa também, assim como é para mim a docência, engajamento e artisticidade. Foi assim que nesses primeiros dias do ano criei uma sigla:

MRACO

MOVIMENTO RUMO AO AGACHAMENTO COLETIVO

(Passo zero: convidei quatro pessoas para dançar)

Tenho tentado estudar a noção de “coletivo”— e rapidamente percebo minhas próprias contradições… Os coletivos são típicos de movimentos das periferias… sou funcionária federal e vivo em Belo Horizonte num bairro no centro, concentração de classe média alta; branca; 56 anos; doutora em Psicologia da Educação com pós-doutorado em Pedagogia Teatral.

Ah, mas sempre que me apresentam com pompa, vou tirando acessórios (brincos, um colar, os sapatos…) de modo a me despojar e “ir ao chão, onde a criança está”. Tirar acessórios e buscar essencialidades.

O encontro com a criança no chão, na contemporaneidade, pode ser considerado mais uma das minhas contradições: pois quem disse que ela está lá?

Em meus estudos sobre a infância, e sobre as relações entre infância e cena contemporânea, penso que ela deveria sim estar lá… e aí surge mais uma contradição: como e por que sou eu que digo onde ela deve estar?

É bem interessante trabalhar o pensamento, e o sentimento, por meio da percepção das nossas contradições. É um modo de fazer – uma metodologia. Fica mais rico, mais transparente, mais desafiador. Mas também é algo muitas vezes difícil, e tende a ser frustrante – então, precisamos paciência e compreensão, acerca de nós mesmos,  dos mundos de vida que nos cercam, e busca pela abertura ao Outro. Sempre.

Na gestão da criação do trabalho teatral que fiz com Charles e Raysner no ano passado procurei horizontalidade. Muitas vezes percebia neles uma certa dúvida, e até mesmo angústia: “que raios ela quer?”, algo próximo a esse dizer se mostrava em suas corporalidades… Trabalhamos por um ano: de janeiro a dezembro de 2017; atingimos algo. É esse “algo” que quero cultivar, fazer crescer, para que permaneça em nós como raiz de árvore… agora sintonizando, a partir de 2018, em alguns dos direitos da criança.

Direito a ser o que se é; direito ao brincar (especialmente sem brinquedos); direito aos cuidados e à escuta pela comunidade adulta. E proporei a eles que nossa sintonia seja humorada e teatral: direito a um teatro inteligente, talvez um teatro para todas as idades, como aprendi nos anos 1980 com Ilo Krugli, e direito a aulas de teatro inteligentes, que não possuam o objetivo majoritário de “dar visibilidade” à escola ou à instituição a qual está veiculado, bem como proporei não fazer coro com a espetacularização da “criança no palco”. Protagonismo não é bem isso, nos termos da sociologia(s) da infância(s).

E, na minha cartilha, fazer teatro na infância precisa ter como objetivo principal: ser feliz.

A pesquisa para a qual convidei quatro jovens para estar junto em 2018 será, inicialmente, de modos de dizer coisas para os adultos sobre práticas “naturalizadas” por eles – “é assim”; “eles gostam”; “socializa”; “aprende a ter disciplina”, são dizeres dos mais comuns para falar sobre teatro feito por crianças para plateias de adultos… e faz muito, muito tempo que “é assim”! “Eles gostam”! Não viu como “socializa”? “Aprendem a disciplina” (do ensaio, da personagem, do canto afinado, etc)…

Como e por que eu seria “contra” essas quatro expressões-chave do teatro e educação?

Não é que eu seja “contra”. O que é ruim é o “senso comum” dos dizeres… Para quem é leitor de Foucault, o ruim está na discursividade do “eu sei o que é bom pra você”. Modo de ser, e de dizer, clássico dos adultos frente às crianças. Equivale a mandar a criança “ir brincar”… querer que a criança “seja livre e criativa”… coisas que não vão acontecer por mandos ou por simples quereres dos adultos!

Na arte que acredito e pratico, o caminho da criação e da liberdade (sempre situada, dizem os fenomenólogos, e eu gosto da expressão – liberdade situada) é relacional. Não é técnico, nem ensaiado. É convívio. É feito de um tempo dilatado, e acontece em espaços encontrados.

O tempo da apresentação final e o espaço estabelecido por palco-e-plateia são “marcações”. Posso arriscar um jogo de palavras e dizer: o professor de teatro que se ancora nos ensaios e nas apresentações bem feitas está “marcando bobeira”!

Pois!

Está fazendo marcações bobas enquanto as crianças mesmas teriam um potencial impressionante para o improviso, para a experimentação, para brincar com pequenos roteiros que lembrem o faz de conta, para concretizar ações que corporeifiquem a dor e a delícia de ser criança e não ter compromissos tal como o  adulto…

Mas atenção: o potencial para o improviso na infância não é “natural”, “espontâneo” ou “chega chegando”.

É preciso ambiência. Proporcionar um espaço de tal modo que a criança, inicialmente, acredite que aquilo estava ali para que ela encontrasse – assim é a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Daí ele usar a expressão “espaço de ilusão”. Não a ilusão da crença em papai noel!! Mas a ilusão filosófica: de criar e recriar o mundo e a si mesmo. Só acontecerá se o adulto tiver a crença também: de que, em relação, algo novo acontecerá, e que o novo e a atmosfera criativa serão significativas – e demasiadamente humanas.

Não quero ter uma fala e escrita cheia de certezas.

Quero ter uma escrita que convide o leitor do Agachamento ao “espaço de ilusão”. Entre adultos, significaria estabelecer algum elo para o artivismo, junto. Ensaiar crianças e fazer teatro bem feito pode ser artivismo também: mas mais ao centro ou à direita.

Sejamos canhotos! Vamos escapar pela diagonal para a plateia e para o saguão e para a rua! Sejamos responsáveis pela apresentação do Mundo, vasto mundo, às crianças para quem ensinamos teatro. Isso sim é “cena contemporânea”. E para chegar lá, o artista formado como artista precisa abrir mão de alguns de seus pressupostos também: sair de si, deixar a vaidade de lado, não querer brilhar…

Percebo com clareza como a formação em uma nota só, ou seja, a formação baseada na arte espetacular, estraga o improviso. Gera o “improvisador profissional”, ou o “improvisador de carteirinha” (como vemos em festivais e competições de comediantes/improvisadores “stand up”). Ah, eles tem a técnica! Eficácia! Rigor!

No campo improvisacional,  o rigor estraga o vigor. Gera vícios e gagues, pois termina por se querer “dar certo”, “fazer rir”, “vencer”. (Que chato!)

Sou mais por uma pedagogia do sonho e por um teatro que lide com o fracasso, de modo intimista.

Assim, nas reuniões do “coletivo”, pretendo propor a todos oficinas para desenvolver a timidez. O silêncio. O gosto pelo risco, pelo experimento, pelo “começar pelo meio”, sem necessidade de início ou fim.

 

 

 

Para fazer de 2018 um ano melhor

2018!

Alguns frequentadores do Agachamento podem ter pensado que o ano de 2017 foi “apolítico” para mim – ao menos pelos textos das últimas postagens, nas quais comento meu Teatro de Apartamento. E, se precisasse me defender, eu diria: estive, neste ano, ocupada com ações de micropolítica (e de saúde psíquica).

Mas acredito que não seria necessário me defender na minha própria casa. (Espero!)

A preocupação com a necessidade de defesa vem, concomitantemente, da minha consciência de como podem ser potentes as trocas virtuais – e também da consciência de outra potência: as polêmicas via internet.

Percebi que, em muitos dos textos postados aqui, eu não explicito, em palavras, mil por cento, o viés político que o cuidado com a infância necessita – sempre. Para 2018, quero mudar: serei mais explícita; discutirei algumas questões que acredito centrais para o crescimento das crianças, e quero falar mais sobre as [ricas? ou pobres?] relações entre arte e educação.

A continuidade do trabalho com os atores Raysner e Charles acontecerá por meio de um grupo de estudos, e propus, ao longo do ano, em considerarmos a possibilidade de manter “um canal no Youtube”. Quem sabe?

Sei de algumas questões sobre as quais quero falar; elas podem ser consideradas “bandeiras” – mas quero muito me sentir fazendo política de um outro modo: sem levantar mastros pesados ou remar muito forte contra a correnteza… Seria isso possível?

Cito dois exemplos, para anunciar aos leitores o que vem por aí: o direito da criança à verdade e o direito à expressividade (e ao silêncio). O primeiro mote diz respeito à conversa, ao acolhimento, à inserção no mundo (mas inserção no mesmo mundo! Habitamos, adultos e crianças, um mundo em comum! O que difere são os modos de habitar). O segundo mote diz respeito à minha crença de que crianças não precisam de visibilidade – aliás, está de fato faltando intimidade e privacidade para elas. E silêncio. Silêncio de um tipo específico: algo relacionado ao que o Winnicott chamou de “solidão compartilhada”.

Assim, tenho o desejo de escrever para adultos, por exemplo, sobre a exposição que eles fazem das crianças em imagens e vídeos na internet; e, mais radicalmente, no sentido de raiz mesmo, sobre a exposição vivida por elas em apresentações públicas… no modo palco-e-plateia.

Explico meu pano de fundo: em aulas na Licenciatura em Teatro da UFMG, estou sempre provocando meus alunos para que criem outros modos de trabalhar avaliação e mostras; “outros modos” seriam mais processuais e menos focados no “teatro bem feito” (aliás, estamos trabalhando com não-atores, certo?). A resposta da comunidade de alunos é praticamente invariável: os pais querem; a escola exige. Ao que eu respondo: mas… não dá pra tentar propor algo diferente?

Como seria trabalhar com os adultos a viabilidade e a pertinência outros modos de fazer arte com crianças e jovens?

Por que não podemos tentar mexer em estruturas hoje tão arraigadas, especialmente nas escolas e projetos sociais, por exemplo a da “apresentação final”? O artista educador não tem este poder e arbítrio? Se não tem, como e quando foi que isso aconteceu?

Como remexer com a comunidade adulta propondo bagunçar e redesenhar algo em seus imaginários  infantilizados que não os fazem ter crítica ao Dia do Índio no Show da Xuxa? E como é que muitos até mesmo desejam, ainda, fortemente, participar do Show, que deve continuar / must go on (nos pressupostos daquela estética, claro)?

Uma espécie de batalha de Dom Quixote com o Moínho, eu sei; mas quero propor isso, e por meio da pesquisa em teatralidades: algo novo para as relações entre adultos e crianças, relações renovadas nas quais

 a alegria não mais seria de plástico,

nem moraria em paraísos artificiais.

Feliz ano novo

 

Um teatro que derrama da leiteira a realidade que narra

O ano em que voltei a fazer teatro

Neste ano de 2017, tão difícil para o Brasil e para o mundo, vivi, surpreendentemente, diversas experiências intensas, boas, gratificantes. Aprendi a nadar. Mudei de casa. Deitei, pela terceira temporada, no divã da psicanalista… Mas talvez tenha sido a experiência mais importante de todas: voltar a fazer teatro.

Não que me sentisse distante de “fazer teatro” na docência – por dezesseis anos com as crianças da EMIA-SP, e agora, por cinco anos e meio na Licenciatura em Teatro da UFMG. Mas criar, roteirizar, dirigir-sem-direcionar e mostrar, presencialmente… era, para mim, inédito!

Na minha pesquisa de Mestrado eu não atuei, apenas roteirizei e dirigi. Nas experiências de juventude, nunca roteirizei nem dirigi (adultos): fiz inúmeras pequenas encenações com meus alunos, origem do que hoje nomeio “roteiros de improviso”.

O mais especial deste momento são os companheiros de cena – os jovens atores Raysner e Charles – e a temática biográfica e existencial: a perda gestacional dos meus filhos gêmeos, Evandro e Dimas. Imaginava que seria transformador. E foi.

como contar uma história triste e ficar feliz

como contar uma história triste e ficar feliz

Percebo como expressão potentemente antiestrutural: não termos captado recursos financeiros (os ingressos foram convites, pessoais e delicados; o espaço cênico, meu apartamento…); não existir dramaturgia de diálogos; o tempo de duração ser muito curto, [intensos] vinte minutos; e as roupas que eles vestem são minhas! Uma mágica de tamanhos, no melhor estilo “Alice no país das maravilhas”. O trabalho feito nos uniu de tal modo que agora tenho mesmo filhos gêmeos (rs) vivos e saudáveis. (A foto: meus três filhos).

O teatro teatra (quem disse isso foi um amigo de Jorge Dubatti)  – compreendo essa frase como o teatro ser algo que permite inventar, reviver, ficcionalizar, contar de novo, e também… enfeitar, mentir, fazer de conta, embelezar a verdade mais doída, mais doida.

Por isso mesmo uma das minhas grandes bandeiras na Licenciatura em Teatro é a liberdade para imaginar. Ser imaginativo até mesmo, ou seria melhor dizer inclusive, no campo (auto)biográfico. E percebo como está forte e presente, no caminho de pesquisas contemporâneas, as misturas entre ser-e-não-ser. Teria mudado a pergunta de Hamlet?

Embora os textos permaneçam, as leituras possíveis mudam, os tempos e espaços mudam… Lembro de como fiquei surpresa e instigada por um dizer do professor Guto Pompéia, em aulas, na década de 1990 na PUC-SP, cuja temática eram Fenomenologia e Daseinsanálise (palavra brasileira para a psicoterapia cujo fundo filosófico é heideggeriano); em uma das aulas o professor discutiu o enigma “Conhece a ti mesmo” do texto dramatúrgico Édipo Rei. Ele nos alertava sobre a não existência do “eu psicológico” na temporalidade da Grécia Antiga. Pensar assim muda totalmente a perspectiva da peça!, e se bem corporeificado o conceito, mudariam (ou precisariam mudar) as encenações contemporâneas do texto também…

A única “peça verdadeira” que fiz como atriz foi Luzes e Sombras. Um trabalho pioneiro em teatro para todas as idades roteirizado por Ilo Krugli, mestre do Teatro Ventoforte, que depois foi infinitamente copiado pelo Brasil afora: cantávamos e brincávamos canções e folguedos populares, entremeando depoimentos sobre nossas infâncias – um trabalho provocado por Ilo nas aulas de teatro para atores na sua estética. Não tinha a menor ideia que isso viria a chamar “teatro documentário” (talvez, na Alemanha, já chamasse); tinha dezenove anos e tinha fugido da escola (fiz um ano de graduação em teatro na ECA-USP). O espetáculo ficou em cartaz por dois anos seguidos (1981-1982).

Fiz várias “peças falsas” em trabalhos artísticos criados com pessoas da EMIA-SP: contrapondo, de modo irônico e brincante, o teatro verdadeiro, no sentido do senso comum, definido como aquele que ensaia, cobra ingressos, ocupa um teatro por uma, duas ou três temporadas, e o teatro falso como aquele no qual algumas pessoas se agrupam para inventar um trabalho efêmero para algum evento (talvez, durante os anos 1990, o início do pensamento e da “estética” dos Editais).

Mas todos os teatros dos quais participei foram verdadeiramente significativos.

E o fazer de agora mostra-se o mais… verdadeiro-e-falso; verdadeiro por tratar-se de uma narrativa de um tempo da minha vida, não há máscara nem personagem; falso por ser teatro fora do teatro, sem bilheteria ou programa ou patrocínio. Verdadeiro-e-falso pois teatra. Derrama da leiteira a realidade que narra.

Roteirizei “Quinze momentos para Evandro e Dimas”, primeiro nome que dei ao trabalho (em seguida criei o título que ficou: “Evandro e Dimas, os nomes escolhidos”), a partir de pequenas propostas que rabisquei – e que eu, Raysner e Charles experimentamos, nas segundas-feiras de noite, desde o dia 24 de janeiro deste ano.

Na sala da minha casa.

Neste ínterim mudei de casa e a espacialidade da casa nova foi determinante – um quarto como coxia; a sala como espaço privilegiado do modo de ser e estar em repouso, com diferentes possibilidades de luz; o rico e misterioso espaço de debaixo da mesa redonda – brincar de útero?; a varanda como um entre-lugar (Encubadeira? Limbo onde estão os meninos? Pequeno caixão?); e os chuveiros, local de purificação.

Servimos vodca gelada ao final – ou suco, ou água de coco.

E sempre, invariavelmente, terminamos leves e felizes.

Ah, servimos conversa e silêncio também.

AGENDA para outubro e novembro, 2017

Ainda antes do Natal…

 Já chegou o feriado de 12 de outubro e ainda irei, “antes do Natal”, a dois eventos importantes: o CARTOGRAMA 2017 em Santos, São Paulo; e o Congresso CONFAEB 2017 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Tive grande simpatia pelo CARTOGRAMA desde o início, quando me convidaram a falar, ao perceber que é um evento conjuntamente organizado por gente das artes e da saúde; gosto disso – de participar de algo que, em sua origem, já é interdisciplinar. Faz sentido para mim: pelos anos de estudo de Psicologia, e pelos anos de ensino na graduação em Psicologia, concomitantes com minha prática de artista-professora na EMIA-SP. Minha fala será teórico-prática (um tipo de oficina que mistura práticas e ideias, discussões e fazeres) e dei a ela o seguinte título:

PERCORRER A VIA MENOS PERCORRIDA

Aliás aprendi a usar a expressão “a via menos percorrida” com um aluno da graduação em Psicologia da Uninove, universidade privada onde trabalhei entre 2002-2007. Ele estava lendo um livro com aquele dizer no título (na verdade no livro era “trilha”, não “via”, e tratava-se de uma obra no campo da espiritualidade e autoajuda… fui ver no Google: uma leitura sobre viver bem, e honestamente) e foi meu aluno que fez a associação entre o título com a Fenomenologia, inserida no campo maior da Psicologia. Nada mais próprio: como e por que ocupar-se com uma proposta filosófica que não busca a cura nem promove saúde – mas busca a compreensão da doença psíquica e seus desdobramentos existenciais? Quem se ocupa com isso e dessa maneira está mesmo caminhando pela via menos percorrida.

E de fato, com o passar destes 10 anos, a via fenomenológica na Psicologia ficou cada vez menos percorrida… lugar onde se evita a medicação excessiva e as estratégias que maquiam o sofrimento humano.

Para o Cartograma, meu foco é o olhar fenomenológico para a criança, e as possibilidades que se abrem diante dessa via menos percorrida (pois a via mais percorrida é a desenvolvimentista, ou seja, o olhar para a infância por fases, etapas pré-determinadas a serem superadas… e por preparações para os próximos degraus). Se não olho para a criança por meio das fases, eu positivo a experiência da possibilidade mais possível, vivida aqui-agora; eu enxergo sua inteligência de modo pleno, e admiro suas conquistas sem achar que precisaria mais, ou “ser melhor ainda”. Enfim, trabalhar na chave da fenomenologia da criança seria evitar a maneira de trabalhar por competições e superações (modo que faz foco no que “não se tem” ainda). Podemos chamar o olhar fenomenológico como uma lida que positiva o fenômeno da infância. A temática da edição atual do evento Cartograma é “arte e infância”. Vou procurar discutir que diferença faz tudo isso no campo do convívio entre adultos e crianças, e no ensino da arte.

*

Na CONFAEB minha fala terá o título

INFÂNCIA COMO IMPROVISO /

POR UMA ABORDAGEM ESPIRAL NO ENSINO DE ARTES PARA CRIANÇAS

Neste evento, o Congresso da Federação dos Arte/Educadores do Brasil, participarei de uma mesa redonda – e nos pediram por textos. Escrevi uma reflexão (disponível em breve nos Anais do Congresso) que retoma os princípios da abordagem espiral no ensino de arte. É de extrema importância, pela abertura de espaço dada para mim na Confaeb, poder divulgar as ideias que desenvolvi ao longo do tempo, posso dizer ao longo de mais de uma década, sobre o ensino de arte na chave do hibridismo, ou das misturas entreartes – algo polêmico para aqueles que defendem o purismo de cada arte, e que definem arte como “linguagem”— pois cada linguagem teria sua gramática, sua estética, suas especificidades…

Meu ponto de vista é de que as artes podem habitar outro lugar: o do âmbito artístico-existencial; seria esta minha contribuição original, que não só remexe com certezas, como alerta para o risco da rigidez da via de mão única, e também para os corporativismos no campo de conhecimento ao qual pertenço.

Âmbito é sinônimo de lugar; haveriam lugares no corpo que nos levam ao que se denomina arte – mas que a criança pequena pode viver, se puder ser o que se é, como brincar e ser feliz. Ser feliz por sentir-se plena, habitando seu corpo, expressando-se com liberdade; liberdade situada, diriam os fenomenólogos: liberdade emoldurada pela cultura compartilhada e pelas regras e normas do convívio familiar, social e político.

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A partir de muitos problemas pelo qual o campo da arte está passando, com perigosa pobreza de espírito das discussões entre apenas duas posições (“estar a favor ou contra”), descubro a potência, novamente, do pensamento de Paulo Freire. Ganhei de aniversário o Dicionário Paulo Freire e estou curtindo, depurando, absorvendo cada verbete… No texto para a Confaeb, fiz foco na noção de inédito-viável (que aliás eu nem conhecia!). Trata-se de um modo de pensar criação, transformação, e propostas que possam ser novas mas de fato possíveis. Sonhar sonhos possíveis! Será que o Brasil ainda comporta / suporta isso?

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foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

Outro acontecimento importante do mês de outubro, este no “microcosmo”: a ida ao ar (ou à nuvem? Rs) do novo desenho do site-blog Agachamento fará aniversário no dia 27. Durante o ano, foram feitas cerca de 20 mil visitações – e 100 mil acessos a postagens lidas, visitadas, impressas. Fico feliz com isso.

Foram publicadas 350 postagens desde janeiro de 2011, compiladas agora por suas temáticas (algo que o leitor encontra na página de abertura do site-blog à direita da tela).

A via menos percorrida vale a pena, também cava seus espaços, mapas, estradas e pousadas…