Arte e vazio

 Aproximação arte-e-vida, em todas as idades, com todos os seres viventes

cantoSe o Agachamento tem uma bandeira, ela é a recusa da divisão da vida humana por etapas, idades, especialidades…

Por vezes chamei essa recusa de “não-desenvolvimentismo”.

Depois percebi como não era interessante negativar o “outro modo”, e passei a usar palavras mais potentes. Uma delas é liminaridade. A vida é liminal. As relações acontecem sem fronteiras definidas, e a maturidade da criança, por exemplo, por vezes é surpreendente – bem como a criança se manifesta, toda a vida, no adulto, por meio da ingenuidade ou pouca experiência em diferentes situações.

Por “liminaridade” os sociólogos que pensaram a performance definiam um lugar entre; uma fenda; uma brecha; um risco de fronteira… uma intersecção entre fronteiras… É interessante pensar assim pois é uma noção análoga ao espaço potencial de Winnicott (lugar virtual e relacional entre a mãe e seu bebê), e é algo que conversa com um conceito japonês de espaço, [MA]: vazio; espaço intervalar; algo – não uma substância nem uma concretude – a ser preenchido e ocupado por pessoas; silêncio entre as palavras; distância entre objetos, e entre tempos.

Estou estudando a espacialidade [MA] que se tornará uma espécie de véu, nuvem ou subtexto para uma encenação que estou preparando com dois ex-alunos. O tema desta encenação é a morte de bebês durante suas vidas intra-uterinas. Um tema dificílimo; um tema tabu; um tema ele mesmo liminar: imagine, para a gestante que carregava vida, passar a carregar morte – e pari-la. Eu vivi isso em meu corpo, trinta anos atrás. Essa experiência me fez uma boa espectadora da arte butoh: um caminho de criação que certamente pode ser designado por liminal.

Também a liminaridade é uma palavra dita, escrita para as fronteiras entre viver e fazer arte. Haveria um interstício, um tempo-espaço feito de lacuna e silêncio, no qual a existência (feita de nascimento, vida e morte) é/coincide com a experiência estética.

Gosto muito do seguinte escrito de Kazuo Ohno:

De maneira nenhuma pode-se dizer que não haja nada em um palco vazio, num palco que se pise de improviso. Pelo contrário, existe ali um mundo transbordante de coisas. Ou melhor, é como se do nada surgisse uma infinidade de coisas e de acontecimentos, sem que se saiba como e quando.

Tenho pensado muito no vazio e nos intervalos. (Isso é maturidade?)

Senti, ao longo de anos de trabalho em formações para professores, que quase todo educador da primeira infância tem medo de espaços vazios. Consideram que o espaço vazio convida ao caos e a um tipo de corporalidade de briga e conflito… Eles acreditam que “as coisas” no espaço são suas intencionalidades (uma palavra filosófica bastante deturpada no discurso pedagógico corrente), e que o adulto tem que ter propostas eficazes e objetivas… No âmbito da arte, pensar assim mata a liminaridade, o risco, o imprevisto. Nega a potência improvisacional da relação da criança com espaços vazios, a serem preenchidos pelos corpos próprios em movimento, vividos: caminhadas pelo espaço; instalações; pequenas cenas de encontros e trombadas; etc. Trombadas! (É o que as professoras temem…rs)

Tenho pensado em fazer um projeto voltado à pequena infância e às professoras… tematizando o vazio. Escrever sobre possibilidades de criação, quando há brechas, incompletude, fazer convites à criança para que ela “ligue os pontos”… no vazio!, que é a cheiura de possiblidades que o espaço vazio pode conter. Isso significará, no meu ponto de vista, um grande, bonito e denso trabalho corporal e imaginativo, ao mesmo tempo: imaginação performada; invenção / intervenções sutis no espaço feitas pelo adulto, para o “achado” da criança. Espacializar imaginações. Imaginar espacialidades. Criar um livro (anti) didático que remeta à vida mesma, como convite a atos performativos entre adultos e crianças. Um livro que converse com os adultos na direção da sustentabilidade e da possibilidade contida no vazio; low profile, slow profile… lentidão propositiva.

A proximidade arte-e-vida já acontece, quando os adultos são ‘suficientemente bons’, e deixam seus filhos nuvemexplorarem a praça, o ponto de ônibus, o corredor do quintal do vovô. Usar os cantinhos! O que não é sinônimo (por favor!) para a pedagogia dos cantos (arrumados pelo adulto, com bases e estruturas cognitivas tão sólidas que se desmancham no ar… E ai se uma criança quiser ir de um canto ao outro com coisas na mão e “misturar”—já vi esse filme!, as educadoras piram e consideram bagunça improdutiva). Bagunça há que ser uma enorme palavra-chave para experimentar arte. Não há criação nem ato performativo sem desorganização: ir de um certo caos para outra forma, (des)arrumar o faz de conta, misturar tintas na medida… o que certamente antes passa pelo exagero daquele grande marrom ou roxo que as crianças pequenas atingem, quando deixadas livres para a mistura. (Alguém ta deixando?)

Bagunça pode sim combinar com intencionalidade – não no sentido banal, que é similar a intento e objetivo – mas no sentido filosófico, que implica numa consciência que se lança. Lançar-se a um projeto; projetar-se.

A intencionalidade é relacional. Sempre. Quero propor a bebês modos de perceber que o corpo engatinha. Nunca conseguiria obriga-los a sair engatinhando! Eu proponho… eu infiro… eu brinco… eu mostro sendo eu mesma leopardo e tatu. Eu evito o gatinho e o miau (diminutivos e simplificações): eu amplio e encarno no corpo uma mesinha e suas quatro pernas palito. Intencionalidade criativa é isso: fluxo. Fruição. Jogo. Riso.

Excesso de pranto ri, excesso de riso chora (tradução de um verso de William Blake).

E para que haja “um clima de engatinho” eu penso em objetos e rolinhos de tecido; eu pesquiso o que outros educadores fizeram nessa direção; eu tenho paciência – e espero.

Ter paciência e esperar parecem ser as qualidades do espaço [MA].

DSC_0172

Estou no início deste estudo; parti da importância de perceber a riqueza do vazio… debaixo da ponte, no buraco, dentro do túnel; duas cadeiras viradas uma para a outra. Espacialidades propõem um modo de relação. Sempre. No mundo da educação o vazio não será sinônimo de falta ou pobreza.

 

 

O vazio seria lacunar, para que se achem coisas inusitadas e invisíveis: adultos e crianças.

O vazio é menos plasticoso e mais buraco na areia. (Mesmo que [provavelmente] feito com pá de plástico).

O vazio constata a solidão compartilhada. Expressividade em gesto e palavra. E silêncio.

Estar. Ser. Para depois fazer. Fazer algo com os achados. Dar um perdido. Deitar na rede. Olhar as nuvens. Cantar…

Se os adultos não agirem nesse sentido, não conectarem, a criança não adere, não imita, não procura mimesis. Não tem como ter ideia, sem um ambiente rico, propício, generoso para o uso criativo dele mesmo… Mais um ensinamento do Winnicott: proporcionar às crianças um ambiente facilitador.

O que não é sinônimo de facilitação.

Muitas das premissas de Winnicott eu enxergo como orientalistas. Ele sempre valorizou processos e dizia que vamos da dependência  total rumo à independência. Caminhos. Trilhas. Maneiras de tocar, andar ao lado, dar as mãos e continuar. No entanto sabemos que nunca chegaremos lá – nem deveríamos (a independência total não existe).

A continuidade das relações para Winnicott são essenciais. O adulto sobreviver, permanecer no mundo, mesmo depois do mais terrível ataque de ira da criança pequena. Isso gera confiança. Isso provoca o concern: capacidade de compreender o outro; comoção; comiseração.

O cinema tem tematizado isso, recentemente. Viram Eu, Daniel Blake? Viram A garota desconhecida? São filmes distintos mas que possuem um elo: retomada de uma simplicidade, de escuta e de acolhimento ao outro. E da possibilidade de consertar as coisas.

outonoO verão vai acabar; o outono sempre me deixou otimista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A fenomenologia não é uma pedagogia

O Havaí é aqui

vou ao mundo

Tenho recebido algumas mensagens, por e-mail, de educadoras – jovens mães, bem como estudantes de Pedagogia – que estão frequentando o site-blog Agachamento com alguma frequência. Fico feliz! Feliz por fazer do Agachamento um lugar trankilo e favorável (rs): um espaço para ler, discutir, refletir, e, especialmente, meditar sobre as relações adulto-criança na contemporaneidade.

Em alguns dos e-mails, percebo o desejo de fazer do pensamento aqui veiculado (a Fenomenologia a partir de Maurice Merleau-Ponty, algumas noções da Psicanálise inglesa, e meus estudos próprios) uma prerrogativa pedagógica. Daí a escrita desta postagem aqui, agora.

Como diz o título escolhido… a fenomenologia não é uma pedagogia. (Soa estranho dizer o que não é… pois é próprio da fenomenologia afirmar, positivar o fenômeno observado, vivido, estudado, relatado… Chegarei lá, ao “que é”, mais adiante no texto). Quem melhor levou princípios fenomenológicos para um lugar pedagógico foi Paulo Freire. De minha parte, procuro trabalhar com os princípios da fenomenologia no ensino do teatro, mas o teatro é feito de tradição e experimentação em um campo de conhecimento, inserido na cultura educacional e artística brasileira, em diálogo com pessoas de teatro.

A expectativa das jovens mães é grande, por um modo de fazer, de ser e de estar, que deixe suas crianças… bem, saudáveis, felizes.

A fenomenologia não é uma cenoura ralada nem um chocolate caseiro! Rs

Estar agachada, perto da criança mesma, procurando que ela seja o que ela é, não garantirá saúde psíquica nem ausência de dor e conflitos.

Desse modo, o maior e melhor conselho que tenho para as mamães: não pretendam ser perfeitas!

É o que nos ensinou Winnicott, com sua obra de uma vida – atendimento de milhares de duplas de mães-e-bebês em hospital público, atendimento de centenas de crianças e de adultos em consultório de psicanálise, e muitas contribuições para políticas públicas inglesas, incluindo um programa de rádio na BBC de Londres, cujo público ouvinte eram as mães comuns (ordinary mothers). Winnicott criou a expressão the good enough mother, cuja tradução é meio bobinha…: a mãe suficientemente boa. Mas o cerne deste conceito ou desta maneira de ser não é nada boba: significa não querer ser perfeita (atenção, a perfeição é nociva!) nem ser desastrosa ou ausente…

O que é encorajador é que, para Winnicott, a maioria das mães comuns mostram-se, ao longo do tempo de dois e? umconvivência, suficientemente boas. Ele inclusive aconselha que as mães não leiam teoria (!!) durante o primeiro ano de vida de seus filhos. Isso porque o estado de fusão inicial entre a mãe e seu filho é muito semelhante ao estado de psicose. União na qual dois é um. Ficar lendo teoria poderia atrapalhar essa maluquice toda! Que tem hora pra acabar.

Bom, apenas com fins didáticos… vou incorrer novamente no erro de discorrer sobre o que agachar-se (como noção fenomenológica) não é:

• Não é presença em excesso

• Não é deixar brincar tal qual galinhas no quintal (uma vida “natural”)

• Não é extensão da fusão e da situação de amamentação durante a primeira infância inteira ou ad infinitum

• Não é fazer tudo que a criança quer (chamo isso de “queremismo”)

• Não é relação horizontal estrito senso (o adulto é racional, tem que cuidar, tem que zelar, e o bebê precisa disso, da racionalidade adulta, para ser e ter um “eu”)

Agora seguirei o raciocínio, então, na direção de o que é, ir ao chão onde a criança está:

Trata-se de uma atitude. Uma atitude inicialmente filosófica, pois a fenomenologia é um método filosófico – ou seja, um modo de pensar. Pensar as crianças como pessoas; e como pessoas que já são. Isso quer dizer que a infância não será considerada um tempo de preparação para outra etapa, fase ou maturação…

Trata-se também de uma qualidade para a atitude, que aproximo ao que Winnicott resumiu por “estar presente mo?bilee ausente” (daí ser nocivo estar presente acudindo a tudo e a todo momento). A saúde psíquica na infância estaria pautada em uma espécie de ilusão – ilusão de que sou eu que crio o mundo! (A isso a psicanálise clássica chama de onipotência). Daí a não horizontalidade: pois o adulto sabe que não, que o mundo já pré-existia… e o adulto faz intervenções nesse mundo; coloca o móbile no teto do quarto, faz a caixinha de música tocar, canta e murmura palavras de amor… Mas é importante que o bebê descubra a seu modo o móbile e tudo o mais; a seu modo e em seu tempo. E também é preciso deixa-lo não se interessar pelo móbile, pois isso pode acontecer.

A pressa e a vontade de “fazer acontecer” do adulto cuidador é ansiógena. Os bebês precisam de quietude e solidão. E do direito a ser lento. E a ser e não-ser também, por vezes.

Trata-se de uma solidão compartilhada. Estar no berço acordado, ouvindo os ruídos da casa: e não necessariamente ser pego no colo no primeiro minuto em que se acorda.

Estar brincando ao lado da mãe que lê um livro.

Ser e estar brincante. E ir se afastando – com o fio de Ariadne nas mãos (fio da mitologia, dado ao herói para que não se perca no labirinto…). Aliás, fios e cordinhas são brinquedos-sucata que atraem e agradam os bebês; Winnicott diz que o cordão tem um papel protetor e imaginativo: lembrança (ao mesmo tempo, concreta e imaginativa) da existência da mãe.

Agachar-se é atitude que favorece a solidão compartilhada.

É algo relacional.

É cultivar uma espacialidade que não invade a criança com o “ter que” – pois muitos acham que “tem que brincar”, e que “não tem que chorar”.

Chorar, para Winnicott, é vida! É exercício de pulmões! É exercício vital e expressivo.

(Muitos “xingam” Winnicott de otimista – rs).

me preparoO adulto que se agacha sabe sair. Ir embora, para deixar acontecer. Mas ele faz isso sem (muita) culpa e sem (tanta) tristeza – embora o bebê por vezes chore um choro triste, melancólico, e de luto. Luto pela separação, pelo fim daquele estado que significou “dois é um”. Lentamente o bebê percebe seu contorno; surge um envelope para o corpo; engatinhar e andar é muito significativo nesse processo: afastar-se. Ir para longe… e voltar. Repetidas vezes. Jogar brinquedos e coisas longe (para o adulto catar!) é também parte do mesmo caminho. Para Merleau-Ponty é uma pesquisa entre “espaço corpo próprio” e “espaço mundo compartilhado”.

O adulto que se agacha não tem escrúpulos em ser Tradicional. Antigo. Autoridade. Isso aprendemos com Hannah Arendt – que a educação é algo velho, e a criança é o novo, em um mundo velho, antigo, já dado. Transformá-lo, rejuvenesce-lo, é obra de jovens. Estaremos ultrapassados, em breve. Muito em breve. Agachar-se é saber sair e envelhecer. Morrer um pouco, para que o outro viva sem nós. Uma espécie de sabedoria zen. E atenção: agachar-se não é permanecer criança, nem “chamar sua criança interior”.

Agachar-se é ser suficientemente adulto para saber que a vida escolar é parte da cultura humana, especialmente da cultura humana urbana. Percebo que algumas mães desavisadas consideram a escola nociva ou “castradora”. Do ponto de vista deste site-blog, educar é castrar! Não no sentido veterinário! No sentido psicanalítico. O que significa que a educação de crianças não é simplesmente feita de “sim”. Agachar-se é saber dizer “não” – um dizer amoroso, contextualizado, e adulto. Não se pode subir numa janela sem rede de proteção no oitavo andar. Simples assim!

Mas “ele quer”!

Pois é!

Que bom que ele quer conhecer o mundo pela janela, e que bom que alguém está por perto para impedir o impulso de saltar pela janela – pois ele existe: o impulso é real, como é também devaneio; é por vezes desejo de voar, ser super-herói, ou ainda, para alguns, pesquisa sobre o Doutor Morte.

Agachar-se é permitir que Doutor Morte apareça, também nas brincadeiras de faz de conta. Muitos querem crianças docinhas e coloridinhas que brincam com flores e frutas, que não tenham contato com espadas de plástico nem arminhas de brinquedo. Falei sobre isso em meu texto anterior (ao comentar sobre brincar de violência).

Poder brincar de morrer, brincar de guerra, brincar de terrorismo, não é morrer, guerrear ou praticar terrorismo. É este um outro ensinamento muito precioso de Winnicott: valorar positivamente a capacidade de fantasiar.

Agachar-se é propor espacialidades ricas em imaginações. Para além do móbile de brinquedo em cima do me contam o mundoberço. Agachar-se é saber contar histórias, é ser o narrador para os bebês que ainda não falam. Narrar o mundo! Mas sempre e invariavelmente deixando lacunas. Espaços vazios. Intervalos. Para que nesses espaços haja solidão compartilhada. (In)completude. O copo vazio cheio de ar. O bebê e seu pouco tempo de vida, visto como uma pessoa com um tipo de sabedoria. Sabedoria sensório-motora para os piagetianos. Sabedoria polimorfa, não representacional e onírica, para os que, como eu, estudam a noção de infância proposta pelo fenomenólogo Merleau-Ponty.

Mas permanecer na corporalidade polimorfa, não representacional e onírica, na nossa cultura, é ser considerado idiota ou louco. Amadurecer é adquirir pontos de vista. Escolher formas: a forma mais possível nos momentos vividos. O onirismo há que se tornar… arte, pintura, desenho, modelagem, poesia, filosofia, religião… ciência criativa. Existe lugar para isso – o lugar que Winnicott nomeou “espaço potencial”. Um lugar entre. Um modo de funcionamento criativo que inventa o mundo – mas que compreende (finalmente, isso é tornar-se adulto!) que os outros e as coisas alí estavam, antes de por aqui chegarmos. Essa compreensão é o amadurecimento. Amor / Humor.

Um lugar plástico e polimorfo – outro nome para o espaço potencial é área de ilusão. Winnicott também o chamou de área de conforto. Lugar onde posso, novamente, fazer de dois, um. Mas isso feito eu sei voltar – pois agora eu era; já sei brincar.

O brincar imaginativo não é inato. Não se nasce sabendo. Preciso… de agachos! Preciso poder pirar na maionese. Na companhia do adulto, que me diz, que me conta, que barra / narra as mais possíveis possibilidades para meu corpo de bebê. É isso que significa deixar a criança ser o que ela é.bento onc?a

 

Não é cristal.

Nem plástico, nem argila.

É existência.

 

 

 

agradeço ao pais de Bento Goulart Mourão pela cessão de imagem do seu filho nesta postagem

Te chamo para brincar

Nunca é tarde para retomar o faz de conta

Em janeiro de 2017 todos os professores e alunos da UFMG enfrentaram a reposição das aulas que foram paralisadas por um mês, na greve por tempo determinado contra as medidas da PEC 55. Da minha parte decidi fazer um “bem bolado” – duas reposições via internet, e uma aula presencial. Na aula presencial, levei três imagens: fotografias que tirei de túmulos no Cemitério do Redemptor, em janeiro mesmo. Foi um modo de “levar” meus alunos a São Paulo, à minha infância e idade adulta, a um lugar de morte que para mim tem vida. Sim, o cenário do texto Um cemitério vivo.

Tinha como “missão”: trabalhar, em apenas uma aula, tudo sobre o teatro pós-dramático, como forma dramatúrgica em um curso, e como forma de ensinar teatro para crianças e jovens no outro.

Minha “estratégia”: compor devagar e paulatinamente, no chão da sala, um cenário, uma paisagem, uma possível dramaturgia do espaço… de modo a levar os alunos, no geral jovens de 20 ou 25 anos de idade, para suas infâncias.

Suas infâncias deveriam encontrar a minha infância.

Daí o recurso das três imagens do Cemitério Vivo. Meu gosto por paradoxos… cemitério vivo, roteiro de improviso, mulher de 55 anos brinca de faz de conta em uma aula na Universidade Federal…

Desde minha chegada na graduação em Teatro, em 2012, que percebo que os jovens alunos, futuros atores e/ou professores de teatro, brincaram pouco até então. Os alunos da graduação de teatro no geral parecem ter tido uma infância pouco estimulada na imaginação – na imaginação do brincar livre e criativo, do faz de conta, das propostas do agora eu era… muito tempo atrás, muito longe daqui… Isso se reflete também na dificuldade para ser narrador: narrar histórias, contar causos, usar a palavra falante – que é o modo de dizer que convida o outro à transformação e à ida para lugares fantásticos, terríveis, utópicos…

É como se a comunidade adulta, pais e professores dos primeiros anos, pensasse que está “trabalhando o brincar” fornecendo brinquedos.

O “trabalhar o brincar imaginativo” não está no objeto brinquedo; está na relação entre seres viventes. Está em algo naquele que me conta; que me canta. Está, portanto, no gosto do outro em contar histórias para aqueles que ainda não falam. Está na possibilidade de ouvir, de apurar a escuta de uma voz que cuida, provoca, propõe… que espacializa imaginações, em gesto e palavra. Está na permissão para mentir, pois há um pacto ficcional que leva a essa liberdade: sou o ladrão no brincar de mocinho-e-bandido – isso não é treino para roubar na idade adulta nem tampouco é tornar-se o que se combinou no faz de conta!

Tristemente fui vendo que os adultos acham que sim, que brincar de violência é sinônimo de gosto para a violência.

Quem tem alguma cultura em psicologia e psicanálise de crianças sabe que o brincar violentamente, desenhar, pintar coisas feias e terríveis, bater na argila, beliscar a massa de modelar, são ações de elaboração de um núcleo de vida-e-morte, amor-e-ódio, é expressão de começo, meio ou fim de ciclos de alegria e luto (modo de dizer da psicanalista Françoise Dolto). E Winnicott nos mostra que esse brincar ativo, corporeificado, é o cerne da vida cultural humana, pois desemboca em filosofar, praticar religião, ser artista, poeta, cientista… Na adultice amar a profissão, e encontrar um lugar imaginativo nela. Amor, vida compartilhada, e habitar o trabalho são metas de saúde psíquica… (Quem chegou lá, de fato?)

Por isso tudo trabalhei durante quase dezesseis anos ensinando teatro baseada no faz de conta; por essa e por outras criei a disciplina optativa “Brincar, criar, teatralizar, viver”. Em tese eu desejava que os alunos da graduação em teatro já tivessem repertório, trouxessem um bom repositório de bagagem imaginativa de faz de conta… mas, se isso não acontece, acredito que posso semear, ainda, nos corações e mentes, nos corpos próprios, esse dom: brincar. Pra que serve? Pra ser feliz.

Alguns ex-alunos meus que estão no “mercado de trabalho” já sabem explicar para as crianças e para o jovens: fazer teatro serve para ser feliz. Simples assim. E é uma profissão.

Ser feliz é ser pleno, na dor e na delícia de ser o que se é. Não é entreter – é entretecer: os fios da meada, da conversa, das relações, num tear de faz de conta, que não necessita de materialidade realista. Faça seu tear numa caixa de papelão. Ou nem isso: brinque com os fios invisíveis que tecem um cachecol no ar…

Vou agora propor três roteiros de improviso a partir das três fotografias que tirei no Cemitério do Redemptor. Será como se eu estivesse postando, aqui, o “gabarito” das avaliações finais dos meus cursos!

tu?mulo-a?rvore de natal

 

 

Imagine os presentes que estiveram nesta árvore de Natal. Procure ser um dos entes que recebeu um dos presente: Espírito? Fantasma? Coveiro? Formiga? Minhoca? Flor? Quem é você? Como e por que você passou o Natal no Cemitério do Redemptor? Sem pressa, crie um modo de dançar no seu corpo que mostre isso tudo.

 

 

    tu?mulo-crianc?a

 

 

Seja a menina deitada de barriga para baixo no túmulo. Perceba se isso é lúgubre ou não. Leia o livro. Imagine a história, e entre, e saia dela, por diversas vezes, de diferentes formas. Ao fechar o livro faça um som que te leve de volta para a sua vida do dia a dia.

 

 

 

 

tu?mulo-cavalinho

 

 

 

Uma criança de dois anos morreu e ganhou um túmulo de cavalinho. Quem era ela? O que você é dela? Brinque com o cavalinho e conte para a menina de dois anos um segredo. Depois vá embora, sem fazer barulho nem alarde.

 

 

 

Percebam que meus roteiros são uma espécie de meditação. Eu gosto de um teatro da quietude. Penso que a não-ação tal como proposta por alguns encenadores contemporâneos é rica em imaginações… Winnicott advogou por uma solidão compartilhada. Gosto de ir ao teatro e sentir isso, nalgum momento, quando sou plateia. Gostava de propor coisas introspectivas para meus alunos da EMIA, que aos poucos de fato se silenciavam. Um silêncio cheio de significatividade. Sinônimo de pertença. Alguns, em dias que as aulas usavam objetos, faziam partituras vocais-corporais que eu nomeei “o som do faz de conta”. Winnicott chama a isso “fenômeno transicional” – um momento no qual a criança, mesmo um bebê, se transporta para a terceira margem do rio. Entre realidade e fantasia, entre o mundo compartilhado e o devaneio. Alí habita o faz de conta. Ali mora uma coisa, a qual eu quero revisitar, cotidianamente. Eu escolhi ser professora de teatro.

Estarei oferecendo a disciplina “Brincar, criar, teatralizar, viver” no primeiro semestre letivo de 2017.

 

 

 

Publicação de um texto escrito a seis mãos / revista Estudos da Presença

Sobre uma escrita a seis mãos

Por algumas semanas durante o ano de 2016, escrevemos um texto a seis mãos: Taís Ferreira, Luciana Hartmann e eu. Respondíamos ao chamamento da Revista Estudos da Presença, cuja temática foi “Dramaturgias do Corpo”. Lembro de que quem lançou o desafio foi a Luciana; logo me entusiasmei porque em 2015 tinha ganho o prêmio com o texto que registrava o trabalho desenvolvido na UFMG por três semestres, na disciplina de dramaturgia para a Licenciatura em teatro.

Foi interessante e bonito nosso processo coletivo… Partimos de apontamentos muito soltos e individuais… O texto começou a ganhar maior densidade quando pensamos em desenvolver a noção de

dramaturgia encarnada.

 Veja como discutimos o que é isso no texto a seis mãos:

Vamos nos referir a dramaturgias como um modo de trabalhar com crianças e jovens heterodoxo, híbrido, fenomênico e indiviso, cujo cerne é a não dicotomia entre textualidade e corporalidade, ou seja, conectamos em narrativas experienciadas por meio dos fazeres mesmo: das experiências corporais, jogos e brincadeiras, inventividade no uso dos objetos do cotidiano e extracotidanos. Enfim, trata-se de uma dramaturgia que surge a partir de um verdadeiro work-in-progress (Cohen, 1998) no qual a experiência vivida em jogos e convivialidade materializa o que Machado (2004; 2015) nomeou como roteiros de improviso, revelados por possíveis textos, partituras corporais, storyboards e imagens.

Luciana mora em Brasília e trabalha na UnB, eu moro em Belo Horizonte e trabalho na UFMG e Taís mora em Pelotas e trabalha na UfPEL, mas em 2016 estava na Itália, fazendo seu doutoramento na Universidade de Bologna; então, trabalhamos a maior parte do tempo pelo e-mail e poucos encontros pelo skype. Para mim a felicidade foi ter parceiras, encontrar interlocução, e tornar concreto um pequeno projeto de escrita coletiva. Parecia difícil ou complicado, por sermos diferentes, em termos de idade, cultura universitária e formação. Mas depois de dado o passo zero – o convite da Luciana – e em seguida o primeiro passo, pequenos bilhetes por e-mail, a coisa tomou forma e nossos conteúdos se mixaram, de um jeito fácil e harmonioso.

Nosso texto questiona a formação dos professores de teatro na universidade – somos três docentes em três diferentes licenciaturas brasileiras – e aponta nossa percepção de que a “aula teórica” para pensar o ensino do teatro para crianças e jovens pode ser entediante e falha: especialmente se for para ler os clássicos, muitos deles americanos e europeus, cuja discursividade está longe da realidade das crianças e dos jovens daqui, bem como da realidade dos alunos dos nossos cursos. Eu amo, por exemplo, o livro do Ryngaert, editado no Brasil pela Cosac Naify, intitulado Jogar, Representar (Corram e comprem, é um livro esgotado, tem bem poucos exemplares disponíveis por aí!). Mas vejo como parece difícil para o estudante, professor em formação, transpor o livro para sua realidade cotidiana, para seus planejamentos e propostas em estágios, ou mesmo em avaliações que faço, propondo reflexão sobre “estudos de caso”.

Trabalhar a partir de “estudos de caso” imaginários revelou-se um bom jeito de provocar no aluno da licenciatura em teatro para a “transposição” da teoria para a prática cotidiana; os casos fazem pensar,  para criar soluções para a questão posta por mim no enunciado. Transcrevo uma dessas avaliações:

Ana Maria está criando um projeto para um curso de teatro para crianças em um Centro Cultural de Belo Horizonte, com duração de um ano, e quer muito trabalhar de acordo com a noção de infância que concebe a criança ator social protagonista. Com base neste princípio, por meio de suas leituras e partindo das reflexões que fizemos em aula, responda:

  1. Como Ana Maria pode organizar o planejamento de suas aulas, do aquecimento aos exercícios teatrais, terminando com uma roda de avaliação dos acontecimentos do dia? Noutras palavras, no que influenciará sua prática como professora de teatro trabalhar cada aula e diferentes sequências de aulas, ao sintonizar com a noção “ator social protagonista”?
  2. Um dos grupos com os quais Ana Maria vai trabalhar é de crianças entre 4 e 5 anos de idade. Como você sugere que ela organize a “apresentação final”, tendo por base tudo que foi estudado e discutido em sala de aula até o momento? Como Ana Maria poderia trabalhar a ansiedade dos pais diante da expectativa de assistir a uma “apresentação final” como espetáculo estruturado na situação palco-plateia?

Sim, os textos de referência do curso em questão eram teóricos, especialmente o texto de minha autoria A criança é performer. Mas, se você ler o ensaio, as respostas para as perguntas “práticas”, da vida cotidiana de um professor de teatro, não estão lá… O que fazer?

É preciso pensar, criar, fazer correlações e entretecimentos entre vida e arte, entre cotidiano e teoria, entre biografia (como aluno de teatro, especialmente, e conversando com a criança e o jovem que você foi) e os mundos de vida das crianças e jovens hoje. Isso não se ensina – os entretecimentos – isso se pratica!, a longo prazo durante toda formação de um artista professor.

Por vezes imagino fazer um pequeno livro com essas avaliações e seus “gabaritos”, criando respostas eu mesma, contando também com a colaboração de alunos e ex-alunos; mas temo que, quando publicado, seja visto e usado como um livro de receitas!

Eis a questão: como conversar sobre o ensino do teatro com o jovem licenciando, sem manuais? Como estimular a criação, se o aluno não possui repertório anterior (pois ensinar se aprende ensinando, ou não?)?

O aluno no início da licenciatura inúmeras vezes só foi aluno, e não tem ideias sobre como trabalhar numa sintonia contemporânea com crianças e jovens.

Voltando ao texto escrito a seis mãos, ele foi pensado para ser de fato lido (rs), e lido pelos nossos alunos, pelos alunos uma das outras, pelos alunos das licenciaturas em geral, e por aí vai. O texto foi publicado também em inglês (norma da revista Estudos da Presença), significando um aumento do espectro de leitores: os de língua portuguesa e os de língua inglesa.

Gosto especialmente do roteiro sobre a pata de dinossauro – um roteiro de improviso que criei para nosso texto conjunto:

Todos ficaremos em meia lua de frente para o tapete. Cada um terá seu “momento dinossauro”. Procure roteirizar de antemão sua entrada no tapete: como vai vestir a pata e transformar-se em dinossauro; seja o dinossauro, a seu modo; após alguns minutos, tire a pata, de modo a tornar-se gente novamente – e saia do tapete. É a entrada no tapete que te levará, aos poucos, para o mundo dinossauro. Procure criar especialmente o resto do corpo do dinossauro em você, a partir da vestimenta da pata. Concentre-se na transformação: na ida / na permanência / e na volta; do estado humano ao estado dinossauro, retornando depois, com este segredo guardado em você.

Desde 2012 quando cheguei para ensinar o ensino do teatro na UFMG, fui praticando a escrita de enunciados que provocassem o professor jovem e inexperiente, para que ele visualize, de modo imaginativo, como trabalhar criativamente e com foco em seu gesto e palavra (privilegiar sua “poética própria” e não a teoria!) – a palavra falante, como propõe Merleau-Ponty: a palavra que surpreende, transforma, causa estranhamento.

Os comandos de experiências teatrais propostas para crianças e jovens precisam ser suficientemente abertos, por vezes divertidos, por outras racionalmente incompreensíveis de propósito… de modo a não intelectualizar a experiência do aluno, e levá-lo para um campo relacional e intersubjetivo: gesto-e-palavra, dramaturgia no corpo encarnado.

Fazia isso de certo modo intuitivamente com meus alunos da EMIA em São Paulo; passei a sistematizar minhas práticas, antes mais livres e caóticas, a partir da entrada no mestrado, em 1999,  sempre dedicada ao registro da criação das crianças mesmas, de lá e até hoje; a criação das crianças será a resposta ao roteiro de improviso proposto pelo adulto. Ou seja, há sempre pensamento-sentimento adulto como pano de fundo nas aulas de teatro. (A isso costumam chamar “planejamento”).

Convido então o leitor do Agachamento a se dinossaurizar comigo, com Taís e Luciana, e acessar o texto por aqui: http://seer.ufrgs.br/index.php/presenca/article/view/63579

E… boa leitura!

Aguardo comentários!

 

 

Fica comigo

Para pessoas em crise

2016 não nos mereceu.

Um ano das maiores dificuldades; um ano de tanta coisa impensável sendo pensada; um ano de “paródias”: eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, golpes e mais golpes nos brasileiros depois da entrada de Michel Temer no poder, violência e destruição pelo Estado Islâmico, crianças refugiadas morrendo afogadas, ou de fome, um avião inteiro caindo com atletas do bem enquanto os do mal estão conquistando prisão-domiciliar-com-tornozeleira, e tantas outras notícias na beirada do inverossímil acontecendo, encarnando, encorporando diante dos nossos olhos.

Minha “defesa” tem sido sonhar.

Alguns sonhos:

Escrevi um texto, o mesmo texto [chamado “Guerra de Maçãs”] durante mais que um ano; reformei o site-blog Agachamento; decidi voltar a dirigir teatro e escrever um novo livro que tematizará meu pos-doc Territórios do Brincar; vou aos poucos lapidando o projeto de segundo pos-doutoramento, para o qual retomarei meus estudos e propostas para a pequena infância, no campo da arte.

Para esse projeto estou retomando minha juventude, minha “raiz” no Teatro Ventoforte, os anos vividos no início da década de 1980.

(Possuo outra “defesa”: assinei o Netflix… mas isso mereceria uma postagem à parte; penso ser uma defesa ambígua, um tipo de sonho de bebê parado agora já adulto rs) (Também comprei uma cama nova, jogando fora tempos e corporalidades passadas, rs)

O livro A poética do brincar escrevi durante o tempo difícil e doloroso de tratamento do câncer de minha mãe. Metodologia: levava livros de poesia para ler nas salas de espera e no quarto do hospital quando era meu plantão de acompanhante.

Durante a escrita do mestrado [que tornou-se o livro Cacos de Infância] meu ex-marido faleceu e tive que cuidar, em nome de meu filho, de uma porção de coisas na combinação de luto e tristeza demoradas…

E na escrita do livro Merleau-Ponty & a Educação, transformação da tese de doutorado em um texto mais leve e palatável, penso que estava também lidando com defesas psíquicas: em nome de uma discursividade menos pontiaguda, em nome de publicar algo que fizesse diferença na vida cotidiana das crianças…

… Ou seja, essa tem sido a minha militância: a escrita.

 

*

2017 precisa nos merecer!

Estou gestando uma segunda pesquisa de pos-doutoramento na qual vou retomar minha biografia artística, para falar sobre ações numa (anti)metodologia de educação estética para pequenos. A retomada nasce bebendo de novo na fonte de Ilo Krugli: diretor do grupo Ventoforte de teatro, Casa na qual me formei, para dentro da qual fugi da universidade, de modo a habitar um tipo de fazer teatral. Quero fazer juz a esses dois anos e meio de formação, entre 1980 e 1983. Por vezes penso onde estive na década de 1980? Tenho memórias fortes e enraizadas desses anos – dos dezenove aos vinte e um, quando a maioridade ainda era 21 anos – entrada na vida adulta de pés descalços experienciando algo único no curso para atores de teatro infantil que Ilo criou com três atores-artistas de seu grupo (Paulo César Brito, Sônia Piccinin e Márcia Correia).

Quero muito conseguir unir peças, cacos, nacos, pedaços de mim entre 1980 e 2020… pois de quarenta em quarenta anos é que todas as ideias se repetem! (disse Zé Rodrix, quem se lembra?)

A dica para pessoas em crise se traduz na retomada de quem somos.

Para onde vamos?

*

 

Havia um exercício no curso de teatro do Ventoforte que consistia em fazer a pergunta, repetidas vezes e em duplas, um para o outro:

O que fazem suas mãos, por onde andam seus pés?

 Devíamos ir perguntando isso mais ou menos rápido e em looping, de modo que acontecesse um fluxo entre as duas pessoas, entre dois imaginários.. Hoje entendo como um “procedimento surrealista”.

.. Fluxo que estou propondo aqui ao leitor do Agachamento. Venha comigo, ande nesse caminho: de um tipo de simplicidade – nada menos que tudo – e de habitar o lugar mais possível de nossas biografias. Algo que para ser atingido, ou até exercido, precisa sim pautar-se na ilusão de que

o melhor lugar do mundo é aqui / e agora

 Para chegar nisso: esvaziar-se de expectativas e de qualquer dizer do tipo “e se…” (só os humanos pensam nesses termos: se eu tivesse dito isso, se eu tivesse agido de tal modo… e se John Lennon estivesse vivo (rs)… enfim, pensamos rotas do passado e imaginamos outras vidas possíveis…) Convido a todos a pensar como os hectapods (veja a postagem anterior, sobre o filme A Chegada) – deixar misturar os tempos passado, presente e futuro, em nome de uma conexão diferente, não-linear; mais plasticidade e menos racionalidade, mais organicidade e menos parcialidade, mais entrega e menos encomenda.

É mais ou menos assim que estou, que me sinto nesse dia 24 de dezembro de 2016. É mais ou menos por essa estrada que vou, de agora em diante. Quem vem?

 

*

“A gente não quer só comida”

“A gente quer comida, diversão e arte”

Pode ser que os leitores do Agachamento estranhem que, neste momento tão confuso, de fato triste e melancólico que estamos vivendo no Brasil (e não estou falando do time de futebol inteiro que morreu no acidente – triste também – mas antes, da tragédia anunciada: a votação da PEC e consequente destruição de políticas construídas a longo prazo que poderiam fazer a diferença, em termos de saúde e educação públicas) que eu vá falar aqui de cinema. E de cinema mainstream.

Mas é que o filme Arrival / A Chegada (Denis Villeneuve, 2016) foi uma experiência estética tão interessante que vivi, em uma sala de cinema de shopping center, ou seja em um espaço dito “comercial”, no final de semana que passou, que considerei que merecia a escrita de uma espécie de crônica. A narrativa do filme conversou comigo de modo poético e intenso, e o filme termina com uma mensagem de paz, e de superioridade… dos povos alienígenas!

Doze naves simplesmente aparecem em doze lugares do planeta Terra. Sim, começa aí a diferença desse filme de ficção científica que, como outros, vai tematizar o encontro humano com E.T.s: não há invasão, aterrisagem, ou linearidade temporal; as naves surgem. E flutuam:

naveUm dos grandes temas do filme é nos trazer um outro conceito de tempo; na minha compreensão, seria o modo de viver o tempo dos E.T.s, como uma inteligência superior à nossa. Achei isso muito diferente, filosófico, existencial, e rico. Uma grande sacada de roteiro e de modo de contar uma história: um modo contemporâneo; se diria em teatro: não-aristotélico.

manchasO filme é baseado inicialmente em um conto de Ted Chiang, “Story of your life”; o nome para as criaturas é mantido como no conto: heptapods. Os aliens são aparentados a polvos, e o criador da arte (Peter Konig) os desenha evitando que tenham costas ou frente. Eles soltam uma espécie de tinta. Em comunicação intermediada pela personagem linguista, eles falam conosco (o espectador do filme!). A tinta que soltam se dissolve como mancha, mas, a partir da interação com os humanos, vai ganhando forma-conteúdo, ao longo dos encontros entre dois heptapods e dois pesquisadores.

Finalmente agora os E.T.s falam!

E falam por meio de mandalas (assim vi, percebi, compreendi).

Possuem uma linguagem visual que vai ganhando forma, e força, durante o filme. E são “interpretados”. Nos doze pontos, nos doze países, nos doze modos de tradução/traição (arma ou ferramenta?).

mandala1O filme tem seus mistérios, que não quero revelar aqui, para que os leitores tenham curiosidade de assisti-lo, e façam sua interpretação própria – mais um aspecto extremamente contemporâneo do filme: as lacunas que ele deixa para o espectador completar. Exige um espectador ativo, atento, o que penso ser também um desafio inovador para o “cinema comercial”.

Um filme bonito, plástico, cheio de uma atmosfera – sem necessidade de muita trilha sonora ou barulho… – trazendo também vazios oníricos, no modo de filmar, na narrativa fragmentada da biografia da personagem linguista.

Estreou no Festival de Veneza em 1º de setembro deste ano e entrou para o ranking dos dez melhores filmes.

Gosto de uma espécie de simplicidade (que no entanto custou à produção 47 milhões de dólares, rs). Gosto especialmente de como o filme mostra o “mundo interno” (memórias, emoções, sentimentos) da personagem linguista.

(Gosto de brincar de crítica de cinema! A meu modo.)

Costumo chamar de “rede de remetimentos” a capacidade que temos de interpretar o mundo compartilhado, seus fenômenos, e os outros. Tentarei armar essa rede agora neste texto. Ela também é biográfica; fui casada por dez anos com o artista Valdir Sarubbi, fui sua aluna em ateliê, e ele propunha aos alunos iniciantes o uso de manchas de nanquim em papel molhado… Era uma forma de des-racionalizar o aluno que pensa que “não sabe desenhar”. As manchas depois de secas podiam ser completadas por nós, com lápis de cor ou colagem, para ganhar nossa forma própria, para além do acaso. No filme, as manchas de tinta esfumaçadas em um grande vidro que separa os E.T.s dos humanos, tal como uma vitrine, ganham formas sofisticadas ao longo de encontros entre os heptapods e os pesquisadores, que depois se debruçam em programas de computador que buscam semelhanças e diferenças entre as mandalas, entre outras grafias, entre outras linguagens possíveis, que não a do alfabeto convencional.

mandala2Aos poucos, provavelmente na tentativa de eu mesma “interpretar” tudo que o filme propõe ao espectador, vieram para mim as palavras chave da fenomenologia de Merleau-Ponty ao definir a experiência da criança pequena: polimorfismo / onirismo / não-representacionalidade. Em meus escritos e aulas tenho associado essas características à cena teatral contemporânea. Vou comentar aqui essas características tal como surgiram, para mim, nesse filme incrível – nesse filme onírico. Nessa linguagem fílmica que considerei inovadora, por ser introspectiva e misteriosa, e ao mesmo tempo “para todas as idades”.

 

Polimorfismo

Nos ensinamentos de Merleau-Ponty sobre a criança pequena, ele nos diz que ela é aparentemente dispersa ou inconstante, do ponto de vista do adulto; porém, ela possui um outro modo de ser e estar no mundo, uma espécie de pensamento cheio de plasticidade e passível de mudança, e de uma concentração plural – ela é polimorfa. Ela é aberta, flexível, daí mudar de ideia e de posição o tempo todo.

 

Onirismo

A criança pequena habita uma zona intermediária, entre sonho e vigília, entre devaneio e realidade compartilhada – é próprio da sua apreensão de si, do outro e do mundo, este modo que o adulto só percebe no sonho e no pesadelo… Ela está muito mais próxima dos processos inconscientes do que imaginamos; ela está além e aquém da facticidade jornalística, por assim dizer.

 

Não-representacionalidade

A criança pequena não necessita de representacionalidades: ela é. Ela habita o mundo, ela mora em seu território onírico bem como em sua casa e rua e cotidiano compartilhado. Ela vive de tal modo mergulhada em suas experiências que não haveria como distanciar-se do mundo para “representa-lo”.

 

modo-de-comunicar2

Enfim, o filme, em meu ponto de vista, trabalha as possibilidades do fazer cinema naquelas três chaves, enriquecendo a experiência do espectador, levando-o para um grande campo onírico. A fotografia; as mudanças de cor e de ritmo; o uso e o não uso do silêncio… O fato das naves terem “surgido” (e depois o modo como se dá o desfecho, para onde vão, como vão) tudo isso é muito diferente do usual dos filmes que tematizaram a chegada de extra-terrestres até então.  O filme também é polimorfo, no sentido de se completar (ou não!) no final da narrativa, nos trazendo outra compreensão do ponto de vista da protagonista, a personagem linguista, e sua experiência do “contato imediato do terceiro grau”. E o modo dos hectapods se comunicarem, pelas imagens das mandalas, é para mim um ícone do que seria uma linguagem que não representa, que é (o que a visualidade propõe). A sofisticação da emissão das manchas, e a necessidade de outro modo de pensar (e portanto outro modo de ser e estar no mundo) leva ao estudo das imagens para outro paradigma, “nunca dantes experienciado”. E ao final do filme.

Assim, espero que o leitor do Agachamento compartilhe meu encantamento por esta pequena obra prima, porque… certamente você também quer comida, diversão e arte. Ou não?