Porque não fazer parte da Semana Mundial do Brincar

Semana mundial do brincar

Estamos na semana mundial do brincar. Ao mesmo tempo acabei de voltar da conferência das geografias da infância, juventude e famílias como escrevi na postagem anterior. E também estou me empenhando em escrever meu segundo projeto de pos-doutoramento, que irá atualizar as ideias do livro O brinquedo-sucata e a criança. Tudo junto misturado…!

Tanto se diz sobre a criança e o brincar. Quero muito retomar e reconectar com um parágrafo escrito por Walter Benjamin, um importante filósofo alemão do século XX que escreveu coisas muito interessantes sobre a infância. O texto com o qual volto a conversar, não por acaso é a epígrafe que escolhi para a abertura do livro do Brinquedo-sucata, diz assim:

Meditar com pedantismo sobre a produção de objetos – material ilustrado, brinquedos ou livros – que devem servir às crianças é insensato. Desde o Iluminismo isto é uma das mais rançosas especulações dos pedagogos. A sua fixação pela psicologia impede-os de perceber que a Terra está repleta dos mais incomparáveis objetos da atenção e da ação das crianças. Objetos dos mais específicos. É que as crianças são especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atuação sobre as coisas se processa de maneira visível. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos detritos que se originam da construção, do trabalho nojardim ou em casa, da atividade do alfaiate ou do marceneiro. Nesses produtos residuais elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente sobre elas, e somente para elas. Neles, estão menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer entre os mais diferentes materiais, através daquilo que criam em suas brincadeiras, uma relação nova e incoerente. Com isso as crianças formam o seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande.

capa benjaminRetirei o texto da edição mais atual do livro Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação, de Walter Benjamin, agora editado e traduzido com mais cuidado por Editora 34 e Livraria Duas Cidades (São Paulo, 2002; 2009). Imaginem que o trecho foi escrito cem anos atrás! Hoje a indústria cultural voltada para as crianças é vasta, e voraz. E a citação ainda faz sentido…! Pois as crianças estão no mundo, e haveriam de ser deixadas livres para descobri-lo, a seu modo; embora o grau de liberdade hoje se desenha como “liberdade assistida”, pelos temores adultos em relação ao mesmo mundo, gerido por eles mesmos diga-se de passagem…

… Então é assim que tenho retomado meu primeiro livro: em nome do que Winnicott chamou de “brincar livre e criativo”; conexão com as relações entre pessoas, e não com os brinquedos industrializados; um brincar que é de fato uma atitude, na direção do direito a ser o que se é, e na direção de um dever dos adultos em permitir um momento inicial nas vidas no qual se possa brincar imaginativamente – brincar não como componente curricular, mas como ação constitutiva de nosso lastro de subjetividade, criação e pertença.

Por isso não vou aderir à portentosa “Semana Mundial do Brincar” – pois, semelhante ao Dia da Criança, ao Dia da Mulher ou ao Dia do Índio, penso haver uma falácia na data comemorativa. O brincar das crianças deve ser exercido 365 dias ao ano, 366 nos anos bissextos, e não “no dia do brinquedo” nem tampouco “dentro da brinquedoteca”. Brincar é um modo de ser e estar no mundo.

Tem um imã de geladeira que tem escrito duas frases: nós não paramos de brincar porque envelhecemos. Nós envelhecemos porque paramos de brincar. Eu tenho um desses. E você?

Ventos de maio

Em maio vão acontecer dois eventos interessantes, que de fato valem a pena. Um evento local, menorzinho, aconchegante; um evento internacional de uma tribo diferente: os geógrafos da infância.

Evento local em Brasília, evento internacional na UNICAMP em São Paulo.

A cena e seus saberes

divulgação brasília

O evento local em Brasília é organizado pela Luciana Hartmann e pela Taís Ferreira, parceiras de um tempo pra cá, conjuntamente com Arlene Von Sohsten, Luênia Guedes e Melissa Ferreira. Estou gostando demais desse envento porque foi pensado e produzido como antiestrutura: autogestão, sem financiamentos. Ali vou lançar meu livro Fim do infante / Três processos dramatúrgicos: no final da tarde do último dia, 10 de maio.

Confira a programação completa no link do Facebook: https://www.facebook.com/events/404643980318072/

6th International Conference on the Geographies of Children, Youth and Families

(Sexta Conferência Internacional de Geografias das Infâncias, Juventudes e Famílias)

O evento internacional acontecerá pela primeira vez no Brasil e soube da existência dessa tribo, “geografias da(s) infância(s)”, e divulgação da conferência, justamente por meio da amiga Luciana Hartmann – que me contou a tempo, e assim inscrevi um trabalho inusitado ou diferente: um paper que relata o filme Vai virar prazer na profissão (com pitadas de luto), curta de vinte minutos realizado por mim com minha parceira de trabalho na EMIA-SP e fora dela, Priscilla Vilas Boas, e o cineasta Luiz Eduardo Cotrim. Estamos ainda discutindo em qual plataforma vamos subir o vídeo para exibição on line. Obviamente postarei por aqui no Agachamento quando isso acontecer. O mote do filme é apresentar meus cinco livros e também a possibilidade da abordagem espiral no ensino de arte, contribuição original minha que penso, hoje, ser desdobramento da noção de criança performer e a Flor da vida, propositivas que me levaram, desde 2010, a recusar a definição de arte como linguagem: arte é âmbito artístico-existencial. Quer saber mais sobre isso? Navegue por aqui no Agachamento, use a ferramenta de busca, vá no menu “artigos”, escolha e construa sua leitura…

Ainda é possível inscrever-se como ouvinte no evento que será na UNICAMP, em Campinas, São Paulo: https://www.fe.unicamp.br/icgcyf2019/pt-br

agachinhos

Procurar por pares e por diferentes, por lugares de fala e escuta, sem dualidades maniqueístas nem ataques bélicos, me parece a única saída para os tempos atuais, nos quais especialmente a área de artes como campo de trabalho e conhecimento encontra-se mais invisível do que nunca… No entanto talvez a invisibilidade, em momentos hostis, traz algo a seu favor: vamos tocando nossas vidas, nossas ideias, pensamentos, sentimentos… Procurando por brechas, frestas, respiros… Ventos de maio nos conduzindo para lugares de acolhimento e compreensão: de si, com o outro, no mundo. Espero que sim.

Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 3)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 3: APRESENTO UMA BREVE DESCRIÇÃO DA ATITUDE DE AGACHAMENTO QUE A ABORDAGEM ESPIRAL PROPÕE

E como trabalhar na chave da Abordagem espiral?

A resposta me parece ser, ao mesmo tempo, simples e complexa. Para trabalhar nessa chave, precisamos nos dispor a uma escuta aguçada para criar proposições que potencializem os processos criativos das crianças e se afinem com seus interesses. Para tanto, precisamos estar presentes no tempo e espaço do encontro com as crianças, de modo atento aos seus dizeres e às condições do entorno como um todo. A isso Marina chama de “agachamento”.

No ano de 2018, em uma aula com um grupo de crianças de 9 e 10 anos que tem a presença de quatro professores em sala, chovia muito. A chuva era contínua e o som que as gotas grossas provocavam ao cair, era muito alto. De repente, pareceu noite. Eu e os demais professores da turma, já havíamos programado aquela aula e certamente o assunto não se aproximava de questões relacionadas à agua e muito menos à chuva. Porém, reconhecemos que não seria possível ignorar aquele fenômeno e então o convidamos para participar do encontro. Apagamos a luz branca e forte e iluminamos a sala com um refletor de luz amarela pouco intensa. Reproduzimos uma música do grupo Cordel do Fogo Encantado que narra uma experiência com a chuva e chama-se “Preta” e esta, em composição com o som que invadia a sala, tornou-se parte da trilha sonora da experiência. A proposta era clara: Seríamos a chuva! Seríamos as gotas de água e choveríamos juntos pela sala em intensidades distintas. Todos nós, adultos professores e crianças, ocupamos os espaços da sala com movimentos que iam para o chão, na direção que a chuva cai. Evaporamos depois, devagar, até chegar às nuvens… e caímos novamente algumas vezes. Formamos também gotas bem grossas compostas por vários corpos juntos. Experimentamos quedas em velocidades diferentes.

Essa experiência inicial deixou nossos corpos atentos, sensíveis e com uma qualidade de movimento leve e líquida. A partir daí nos deixamos levar pelo som da chuva e da música. Os comandos já não eram dados pela fala dos professores, mas sim, por seus movimentos, gestos e olhares atentos, compartilhados com as crianças. Os corpos-chuva interagiam entre si e com o espaço e já não caíam mais apenas em direção ao chão: saltavam, giravam, respingavam em todas as direções, faziam trajetórias no espaço de maneira lenta e rápida¸ revelando gestos e olhares inteiros e intensos, cheios de vida e simbologias diversas. Assim, chovendo juntos, nos conectamos uns aos outros, com o som da chuva sendo um canal de relação entre nós. No pensamento de Marina, esse tipo de procedimento pode ser chamado de “roteiro de improviso”.

Quando a música já havia tocado pelos menos umas cinco vezes seguidas em looping, nós, os adultos professores, começamos a nos movimentar para transformar a proposta, quando fomos surpreendidos por Natália que, percebendo nossa movimentação, nos perguntou: “O que vocês vão fazer?”. Respondemos algo que demonstrava que transformaríamos a proposta; e ela logo nos alertou: “Não está na hora!”. Respondemos algo como: “Mas a música já tocou umas cinco vezes!”. Natália: “Não tem problema. Estamos adorando a música. Olhem para a sala, olhem como as pessoas estão concentradas e felizes!”

Naquele instante, Natália ampliou os olhares dos professores adultos. De fato, ela tinha razão. Todas as crianças estavam envolvidas de tal modo que aquele espaço estava preenchido de sentimento, de expressividade, de formas simbólicas individuais e coletivas, de respeito mútuo, de acolhimento, de vida pulsante. Percebemos então que, mesmo nos desafiando a permanecer com os sentidos abertos durante todo tempo, em algumas situações agimos a partir de preconcepções (impregnadas ao longo do tempo) e que, por vezes, nos auxiliam na organização, senso de responsabilidade e estruturação das pesquisas com as crianças, mas, por outras, podem limitar situações potentes. Que bom que Natália nos alertou, que nós a escutamos, para fortalecer e alargar ainda mais aquele espaço-tempo de descobertas e compartilhamento de formas de ser e viver no mundo.

A música então tocou muitas vezes mais, até que percebemos que as crianças foram se deitando no chão, pouco a pouco, sem que o comando viesse dos professores, e sim, das suas próprias vontades: de recolherem-se e descansar. Naquele dia, a chuva modificou nossos planos e uma criança acalmou nossa ansiedade, aguçando nossa percepção adulta para o espaço, o tempo e às expressividades e interesses de outras crianças.

Assim, penso que umas das maneiras de nos aproximarmos da Abordagem espiral é mantermos uma atitude agachada – abertura e disposição para nos relacionarmos de forma densa conosco, com os outros e com o espaço-tempo que ocupamos; como diz Marina, a partir da fenomenologia: eu-com-o-outro-no-mundo. Esse modo de pensar, ser e estar no mundo certamente influencia nossos modos de propor processos criativos artísticos com crianças, nos espaços de educação formais e informais, bem como influencia nossos modos de viver nossos cotidianos e nossas relações com as pessoas, com os espaços e tempos que compartilhamos. Saravá!

2 - Imagem Ifim da postagem a convite

 

todas as fotos das três partes da postagem escrita por Priscilla Vilas Boas fazem parte do filme curta-metragem Vai virar prazer na profissão (com pitadas de luto) a ser lançado muito em breve — criação e execução em parceria com Priscilla Vilas Boas e Luiz Eduardo Cotrim.

Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 2)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 2: DIGO COMO VEJO A “ABORDAGEM ESPIRAL” PARA O ENSINO DE ARTE

Gosto muito do texto Fazer surgir antiestruturas: abordagem espiral para pensar um currículo em Arte no qual Marina inicia seus dizeres e reflexões em diálogo com o que a pesquisadora Ana Mae Barbosa apresenta como Abordagem triangular para o ensino de arte.

Esse texto nos diz que, se na Abordagem triangular, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são definidos como linguagens artísticas, na Abordagem espiral as artes são pensadas como âmbitos artístico-existenciais e nomeadas por espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades. Se a Abordagem triangular, grosso modo, estabelece-se a partir da tríade contextualização histórica, experimentação e apreciação, na Abordagem espiral a experiência artística está centrada nas crianças mesmas e na dedicação dos professores em potencializar a exploração de seus próprios modos de ser e estar no mundo, a partir do contato com as espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades próprias, dos outros e do espaço que ocupam no mundo. Na Abordagem espiral, o termo âmbito no lugar de linguagem procura incluir nos processos de ensino da arte, a experiência estética vivida por todas as pessoas em suas vidas cotidianas, acolhendo seus modos de ser, mover e conviver no mundo. Âmbito significa lugar. Para Marina, o termo linguagem sugeriria a necessidade de aprender pressupostos específicos das áreas artísticas (que seriam do domínio adulto e provavelmente técnico) — e pensar assim pode distanciar as pessoas de reconhecer as ações performativas presentes em suas próprias vidas, bem como atrela a experiência artística aos experts.

No modo espiral de viver processos criativos em arte, as referências são também importantes, mas são apresentadas à medida em que dialogam com os caminhos de pesquisa, apontados por todos. Assim, a Abordagem espiral propõe uma forma íntima de promover experiências de aprendizagem artística: processual e estreitamente conectada com os modos de ser e interesses dos sujeitos envolvidos, adultos e crianças, juntos.

Minha intenção aqui não é fazer contraposição a Ana Mae Barbosa, por quem tenho admiração devido a sua contribuição para a valorização do pensamento sobre educação em arte no país. Sua pesquisa e obra estimularam o reconhecimento da Arte como área de conhecimento humano e são um relevante eixo norteador para o aprimoramento das políticas públicas relacionadas à experiência artística de crianças e jovens.

expressividade das costasAssim, esse meu texto-depoimento/ declaração de amor à abordagem espiral (rs), não tem o intuito de invalidar outros modos de ver e de ensinar arte, mas, antes, sublinha uma maneira conectada estreitamente com meu modo de ser, habitar e ver o mundo.

No meu ponto de vista, na Abordagem espiral não há saberes previamente estabelecidos a serem ensinados e sim, a busca das relações de maneira intensa: dos sujeitos consigo mesmos, com os outros, com o espaço no mundo; com as referências que lhes são apresentadas e com o modo como desenvolvem pensamento-e-sentimento sobre sua própria construção de saberes, de maneira individual e coletiva. Os professores, que são artistas e pesquisadores atentos aos dizeres das crianças lançam mão das referências artísticas, filosóficas, históricas e geográficas que poderão enriquecer muito a experiência de aprendizagem e a qualidade do diálogo estabelecido.

Penso que essa maneira de ver a experiência artística e seu (des) ensino liberta professores e crianças de padrões estabelecidos pelos currículos obrigatórios, alarga os contornos, expande as possibilidades de interação das crianças consigo mesmas, com seus saberes, com os saberes de seus professores, delas mesmas com outras crianças, com o espaço e com o mundo em que vivem – e ainda, disponibiliza mais espaço para que professores e estudantes investiguem formas de expressão ancoradas em seus interesses e modos de ser e estar no mundo.

Fim da parte 2

 

Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 1)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 1: APRESENTO QUEM SOU

Me chamo Priscilla Vilas Boas e sou professora, artista e pesquisadora em dança, graduada e mestre em Educação pela UNICAMP. Atuo como professora de dança na EMIA (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) desde 2007. A EMIA é uma escola pública, ligada à Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo, em que crianças de 5 a 12 anos têm aulas de arte com dois ou mais professores nos chamados “cursos regulares” da escola. Dos cinco aos 8 anos, os grupos de crianças têm dois professores em sala, com estudos em áreas artísticas distintas. Entre 9 e 10 anos, os grupos de alunos têm quatro professores: um de artes visuais, um de dança, um de música e um de teatro. E na maioria dos grupos com alunos com idades entre 11 e 12 anos há dois professores com estudos em uma das áreas artísticas citadas. Ainda há cursos optativos, em que as crianças podem escolher ir um dia a mais à escola para praticar um instrumento musical, ou frequentar cursos com foco nas artes visuais, na dança, na música ou no teatro. O ingresso das crianças à escola é feito por sorteio público e a vaga é garantida a cada ano pela presença em aulas.

SÃO PAULO,SP,09.02.2017:EMIA-FIM-CONTRATO-PROFESSORES - Fachada da Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA), situada no Parque Lina e Paulo Raia, no bairro do Jabaquara, Zona Sul de São Paulo (SP), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, na manhã desta quinta-feira (9). A escola não renovou os contratos com os professores por conta do congelamento de verbas feita pela Prefeitura de São Paulo, atrasando o Espacialidade é tudo! (Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Espacialidade é tudo!
(Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Minha pesquisa própria flerta com as abordagens somáticas do movimento, que formam um campo de conhecimento interdisciplinar (saúde, arte, educação) cujos pressupostos divergem de uma visão mecanicista do corpo. Os procedimentos de pesquisa que dialogam com esse campo de conhecimento buscam conexões entre os aspectos cognitivos e sensoriais das pessoas durante seus processos de pesquisa e de vida. Dessa forma, novos padrões de movimentos podem ser investigados a todo momento, e novas formas de relação das pessoas consigo, com os outros e o espaço-tempo podem ser experimentadas.

Professora de crianças desde 2003, procuro encontrar formas de propor processos criativos de aprendizagem artística que se aproximam de seus modos de ser e de seus interesses. Além disso, nos últimos anos, eu também me dediquei a escrever livros didáticos de Arte e participei das discussões de documentos curriculares nacionais. Procuro integrar meus fazeres de modo que sejam condizentes com os pensamentos com os quais dialogo, ou seja, procuro maneiras de fazer com que minha atuação como professora e a atuação na elaboração de pensamento crítico e reflexivo, condigam com a forma como pesquiso a arte e me expresso por meio dela.

No campo da educação com crianças, está presente em meu caminho a Abordagem espiral para o ensino de arte proposta por Marina Marcondes Machado. Quando era bem jovem, trabalhei com Marina na EMIA-SP com turmas de crianças com idades entre 5 e 7 anos. Aos poucos, fui compreendendo como ela nos desafiava (a mim e a ela própria) a desenvolver formas performativas que incentivassem as crianças à investigação de maneiras expressivas e de expor seus modos de ser e estar no mundo, em diálogo conosco e com as outras crianças. Durante esse tempo, costumávamos organizar o espaço da sala com o intuito de fazer com que todos se sentissem confiantes e seguros para explorar desafios, descobrir diferentes maneiras de ser quem se é, imaginar modos de existir, descobrir muitas formas possíveis de se comunicar com os outros e com o mundo, brincar.

professoras de teatro e de dança que sabem brincar (foto: Luiz Eduardo Cotrim)

professoras de teatro e de dança que sabem brincar
(foto: Luiz Eduardo Cotrim)

Cuidávamos da iluminação da sala, dispúnhamos os móveis ali presentes de uma maneira diferente a cada novo encontro, disponibilizávamos materiais como tecidos, papéis, materiais recicláveis, objetos de uso cotidiano, entre outros, que poderiam ser ressignificados. Assim, o diálogo entre todos ocorria por meio de palavras, olhares, gestos e silêncios. A cada novo encontro, elaborávamos ações performativas – ao mesmo tempo em que convidávamos as crianças a dialogar conosco e entre elas, criando assim, suas próprias ações performativas conectadas a interesses e desejos seus. Segundo Marina, os atos performativos são ações reveladoras do modo como as pessoas são e se relacionam com o mundo compartilhado. Para os adultos professores, são ações que podem ser pensadas para potencializar as experiências estéticas das crianças. Podem ser motes para iniciar o diálogo e podem, ainda, estar presentes durante seu acontecimento.

Aquele nosso tempo juntas foi muito importante para a professora, artista e pesquisadora que sou. Hoje não me vejo obrigada a vislumbrar objetivos a serem alcançados pelas crianças em um processo de construção de conhecimentos em dança, pois, incentivando-as a vivenciarem suas próprias pesquisas sobre si mesmas e seus modos de mover e se expressar, em diálogo com outras crianças e com as professoras, elas mostram saberes conectados aos seus próprios interesses e desafios. Esse modo de atuação abre espaço para que emerjam experiências de pesquisa que não podem ser imaginadas de antemão apenas pelos professores: dependem da participação de todos os envolvidos no processo. Os professores, a partir de seus próprios saberes e com foco em seus campos de atuação e pesquisa, apresentam propostas às crianças e permanecem abertos a dialogar com seus modos de se relacionarem com tais propositivas e acontecimentos, refletindo e reavaliando cada novo passo do processo.

Há um artigo de Marina que pode ser consultado para esclarecer ainda mais alguns termos usados nesse texto. Ele se chama “Só rodapés” e pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.seer.ufu.br/index.php/rascunhos/issue/view/1281

fim da parte 1

Realities com crianças?

Reality show com crianças: um sofrimento desnecessário

doce é pra comerQuero conversar com os leitores e frequentadores do Agachamento sobre o fenômeno “reality show” feito com participantes crianças. Me remeto ao episódio de estreia de Junior Bake Off Brasil em sua segunda temporada, que aconteceu ontem de noite no SBT (dia 16 de fevereiro de 2019), como disparador desta postagem.

Assistir ao episódio me deixou um tanto desassossegada…

Então, hoje cedo fui ao site oficial, e percebi que simplesmente 15 mil adultos, ou 15 mil famílias brasileiras, se dispuseram a inscrever seus filhos – dos quais foram, segundo o site, selecionados os 10 participantes desse primeiro episódio. São meninos e meninas entre 7 e 12 anos de idade. Os adultos que conduzem o reality são Nadja Haddad (considerada “apresentadora”), Olivier Anquier e Beca Milano (considerados “jurados”). Todos os participantes já “amam” esses adultos… pois são, eles mesmos, espectadores afoitos e fãs da primeira temporada, e talvez (e provavelmente até) dos Bake Off Brasil com adultos, amadores e profissionais.

Quem quiser se aprofundar sobre todas as pessoas envolvidas no programa atual, recomendo que entrem no site oficial do programa: https://www.sbt.com.br/bakeoffbrasil/

Aqui, vou falar como pessoa de teatro e psicóloga formada. Quero procurar por uma abordagem mais filosófica e existencial do que vi ontem… Pois me espantei, poderia até mesmo dizer, me senti mal pelas duas crianças “desclassificadas” (que, na edição, choraram bastante…: imagine no estúdio mesmo!).

Não me espanta o choro ou a desilusão, mas antes, o fato de que as crianças foram selecionadas a partir de 15 mil inscritos. Fica claro o olhar da produção & marketing do programa: escolheram “tipologias”. Entrem nos perfis que estão no site oficial, e verão… Há quem seja apresentado como “uma verdadeira princesinha” e também como “um verdadeiro ‘lobinho’”. Ah, e uma menina que é “um docinho”.

O programa é definido por uma “disputa de confeiteiros amadores” e é recomendado para “todas as idades”.

No entanto que vi foi de grande crueldade! Digo crueldade dos adultos que inscreveram suas crianças para “disputar”. A crueldade está no fato de que, quando diante de câmeras e de desafios que implicam em um tempo-espaço determinado e de receitas dadas pela produção do programa, o grau de estresse foi inimaginável – especialmente para as crianças entre 7 e 8 anos. Ao menos dessas crianças específicas (selecionadas entre 15 mil!).

Todos sabem que a perspectiva adotada por mim no Agachamento não é de fixação em faixas etárias ou em adoção de aspectos teóricos e fixos do desenvolvimento humano; minha perspectiva é existencial. Ou seja: penso no grau de estresse quando imagino que uma criança de sete anos, sete anos atrás era um bebê. Sete anos depois… como e por que um pai e ou uma mãe querem que “seus bebês” enfrentem uma competição desse porte?

Há muito pouco tempo, questão de dias, meninos morreram queimados em um alojamento de treinamento juvenil ( “categorias de base”) para a profissão de jogador de futebol. Faço a analogia porque esses dez participantes do Junior Bake Off Brasil estariam, eles mesmos, sendo treinados para a profissão que no Brasil se chama “confeiteiro”. E a analogia vale também para trazer o grau de dramaticidade do que vi na tela de minha TV na noite de ontem.

biscoito caveira

 

Vale? Dez anos de infância (que não voltam mais) com foco no futuro?

Que futuro?

Da fama e do dinheiro, talvez; e para poucos.

O tempo presente foi de estresse desnecessário, ao menos para mim, espectadora de 57 anos de idade e muito longe desse “sonho”: de um filho confeiteiro, cheio de dinheiro.

(Ou sou eu que estou sendo cruel?)

Ficou evidente a situação de estresse pela atitude dos adultos, apresentadora e jurados, querendo “positivar o fenômeno” da desclassificação; querendo escolher palavras de mérito para algo que, mesmo aos 7 anos de idade, se sabe que não tem valor positivo – dada a lógica competitiva do programa e tudo o mais daquela moldura.

Podemos apenas imaginar o que está por trás de pais que inscrevem seus filhos e se encontram, por assim dizer, nas coxias da fama mirim… Pois é como se, para o espectador comum, eles (os participantes) fossem pessoas autônomas, uma vez que os pais não estão sendo filmados e entrevistados estrito senso.

Papel dos pais: treinar o filho e assinar a cessão de imagem. E com certeza uma porção de outras concessões. E treinamentos.

Faz parte da produção e execução do reality a crença na autonomia das crianças… mas nada sabemos sobre como é o convívio estrito senso, uma vez que o que assistimos foi cuidadosamente editado. Faz parte do show, que não pode parar.

No entanto, mesmo cuidadosamente editado, foi ficando claro que alguns dos participantes foram se fragilizando demais no decorrer do tempo-espaço do programa, chegando, antes mesmo da desclassificação, às lágrimas – e a confusões mentais e psíquicas. Exemplos dessas confusões (as que a produção quis nos mostrar): um menino não sabia como medir o potinho de água, e colocou a água com o pote inteiro no recipiente, sendo, em seguida, “pacientemente” ajudado pela apresentadora que mostrou seu “engano”; outros dois ‘perderam’ no freezer suas formas de doce e diziam algo como “alguém pegou minha gelatina”!

Nos primórdios dos estudos psicanalíticos sobre a infância, Melanie Klein formulou como conceito a “posição bebê persecutorioesquizo-paranóide”: um estado psíquico, grosso modo, de fragilidade inicial no qual nos vemos entre a sensação irreal de que criamos o mundo, e o comandamos, e o sentimento persecutório (de que estão programando nos fazer mal, nos trair, nos machucar…). São momentos constitutivos da pequena infância de todos, e que cabe ao adulto cuidador sua modelagem, ou seja, a compreensão desses abismos e pequenos grandes desesperos, que, a partir de muita conversa e contenção afetiva (atitude de “holding”, segundo outro psicanalista, Winnicott) podem dar lugar a um jeito de ser mais maduro, com maior flexibilidade e capacidade para lidar com o conflito e com o Outro.

O que vi diante dos meus olhos de espectadora sênior do Junior Bake Off Brasil foram momentos muito difíceis do ponto de vista da criança, e reações muito despreparadas do ponto de vista dos adultos (e relembrando: são imagens editadas!).

Portanto, todos se encontravam infantilizados. Tal qual o participante de sete anos que tem um bicho de pelúcia seu “ajudante de cozinha”.

Mudou o mundo ou mudei eu?

Ok, jovens agachados, sei que estou envelhecendo.

Mas é uma posição interessante e importante – acenar para os mais alegrinhos que não se enganem, estamos “dominados” por mercados e nichos… E pela potente indústria cultural. Simples assim.

industria cultural