13 razões para assistirmos a um seriado americano

imagesMuitas e muitas pessoas me falavam do seriado “Thirteen reasons why” (“Os treze porquês”, em português), produzido pela Netflix, neste ano de 2017. Quando “todo mundo” está falando… tenho certa preguiça de aderir (rs) – mas agora confesso que, neste caso, foi puro preconceito.

No último final de semana de julho, pude começar a assistir a tão falada série. A temática é polêmica, bem como seu modo dramatúrgico: falar sobre o suicídio, do ponto de vista da garota suicida (que grava fitas cassete, para seus colegas de high school ouvirem, sobre as (13) razões para tirar a vida, por assim dizer).

Pela minha faixa etária, profissão, geração… minha atenção – e tensão – fez foco nos modos de ser e estar da comunidade adulta. Assim minha emoção, comoção, identificação se ligou aos personagens dos pais, professores, terapeutas e gestores da escola… Ficam transparentes os conflitos de geração, e de que aquela boa e velha receita “tenhamos uma conversa sincera olhos nos olhos”, por inúmeras vezes, é impossível de ser seguida. Todo o tempo os episódios apontam para isso.

E, junto daquilo, a solidão, ou o tipo de solidão da personagem suicida: ausência de diálogo, de amizade, de copertença, de solidariedade… o que, para os americanos (na vida real e nos roteiros de seriados, literatura, auto-ajuda, psicoterapias e etc) possui o par complementar dos comportamentos de bullying. (É que não gosto de adotar esta palavra. Sempre digo para os alunos: podemos pensar, em português, sobre: maltratos; maldades; sacanagens; crueldades; relações de poder).

Nos treze episódios a tensão vai acumulando, e a tristeza, o isolamento; e seguem um rumo que, no início de alguns episódios, já haverá um “warning”/ aviso de que haverão cenas fortes – penso que muito bem elaboradas, dirigidas, atuadas. Os temas de maltratos e crueldades se expandem para violência e estupro. Há contexto; delicadeza por um lado; veracidade por outro, que, num dizer no “extra” pos-treze episódios, os atores nos explicam: o modo explícito homenageia os vivos. O realismo da dor é um modo de honrar a dor dos que ficaram vivos, quando o jovem suicida passa ao ato. A encenação verosímil, para eles, é a escolha que faz jus ao que amigos e familiares experienciaram suicídios de jovens.

*

Passei recentemente pela experiência de assistir por dias apenas a TV aberta. Estava sem internet, por ter mudado de casa. Como a programação da televisão brasileira está ruim, e ideologizada! (seja pela espetacularização, seja pela religião comercializada, seja pela ausência de “pontos de vista”). Então, ao assistir a série das treze razões do porque Hanna Baker se matou, fiquei paradoxalmente feliz – depois, igual quando acordamos de um sonho – feliz porque existe no mundo este objeto da cultura.

Uso há bastante tempo esta expressão, emprestando a definição do psicanalista Roberto Barberena Graña: “Os objetos da cultura são (…) produtos refinados do exercício da criatividade (…) que contribuem cumulativamente na sedimentação do patrimônio de realizações e experiências humanas. A experiência cultural criativa propicia uma totalização do sentimento de ser; é não só a de quem escreve como a de quem emocionalmente lê, não só a de quem pinta como a de quem emocionalmente identificdo contempla, não só a de quem compõe como a de quem se deixa inebriadamente envolver pela melodia, enfim, a de quem consegue, sem esquivar-se às exigências e responsabilidades que a vida e a realidade (…) impõem, preservar em si a possibilidade de surpresa, de encantamento e de ilusão.” (no livro Donald W. Winnicott/Estudos).

Pois então existe um objeto da cultura que tematiza o suicídio, sem estereótipos nem maniqueísmos. Existe um seriado americano inteligente, em pleno mundo de vida Trump-trash.

Existe a possibilidade de criar algo de modo a levar a discussão do tema tabu do suicídio, bem como dos maltratos e crueldades, incluindo o crime de estupro, por meio da linguagem já instaurada das séries de TV.

Existe a possiblidade de fazer televisão e cultura de massa de modo cuidadoso, sensível, e respeitoso com uma obra (a série é transcriação de um livro); com os atores jovens; com o público.

Enfim, penso que todos aqueles que tiverem a oportunidade de assistir, devem fazê-lo. Especialmente educadores que, como eu, enfrentam os temas nos subtextos das criações dos jovens alunos universitários que estudam teatro; e se não enfrentam os subtextos em seu cotidiano de trabalho, podem enfrentar em outras formas: no silêncio e na dor do jovem que se sente mal, não pertencente, por vezes alvo de crueldades…

Também vejo na construção dramatúrgica algo que vale a pena, próprio do texto contemporâneo – os episódios tem seu sentido próprio, mas a trama se faz em fragmentos e por camadas; o roteiro é trabalhado por meio de “pontos de vista”, mesclando o ponto de vista da narradora (já morta), e os tempos passado e presente. No tempo presente ficcional, ouvimos versões das personagens. No tempo presente do que é editado no final dos treze momentos, ouvimos os produtores, os atores, a diretora…

No modo de roteirizar, há busca por não terminar em relativismos: ao final, haverá o compartilhamento de dor, segredos, solidão, e possibilidade de denúncia e, talvez, reparação.

A morte de um filho nunca é reparada.

Vemos muitos pais trabalharem sua dor politizando a vida cotidiana, como fez por exemplo a mãe do cantor Cazuza. (Talvez algo assim possa acontecer na segunda temporada da série, que estão preparando).

Eu mesma estou nesse caminho: criando uma encenação para comunicar meu luto, que hoje percebo como foi extremamente estendido, pela perda de filhos gêmeos, no quinto mês de gestação.

Percebo que a adaptação do roteiro em “13 reasons why”, e a atuação, direção, etc quer nos conduzir pelo caminho da autorreflexão: e por isso termino falando de mim. Eu estou ali.

Minha juventude também está ali, de algum modo, pois fui estudante de intercâmbio em uma pequena cidade do estado de Michigan, em 1977.

Ao voltar para o Brasil, de 1978 em diante, descobri o teatro.

A morte pode não ser reparada, mas poderá ser retratada, tornada “objeto da cultura”.

Tornada “objeto da cultura”, está pronta para ser compartilhada, discutida, antropofagizada que seja.

“13 reasons why”, para mim, é uma obra de artivismo. (Ver postagem anterior)

Talvez por isso fez tanto sentido assisti-la neste momento.

*

Não “sou” do Facebook, portanto, não estou acompanhando os comentários e a polêmica sobre esta série…… mas, para aqueles que pensam que estão “convidando jovens ao suicídio”, só tenho a dizer, citando Bachelard: “todo realista é avarento”.

Encarar esse trabalho de maneira realista estrito senso é simplesmente avaro, estreito e simplório. Seria igonorar a capacidade humana para a ficcionalidade — e o lugar terapêutico, ou curativo (curar no sentido do “cuidado”) que a ficção pode ter.

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Te dou então treze razões para assistir ao seriado: encarar de frente um tema tabu; perceber a riqueza do roteiro em fragmentos; abrir portas e janelas para o diálogo sobre o suicídio, a solidão, os maltratos e crueldades sofridas por jovens; acompanhar jovens atores e seus personagens desenvolvendo-se; compreender o que é próprio da cultura americana; aprender o valor da ficcionalidade na vida humana; entender como até mesmo a cultura de massa pode ter traços de artivismo; abrir mão do realismo estrito senso, deixando de ser avarento; desenvolver empatia; perceber as relações de poder da vida humana; espelhar-se nas situações e crescer como pessoa; pensar em formas de solidariedade e companherismo na vida cotidiana; compreender a complexidade do início da vida sexual ativa dos seres humanos.

Eu quero ser artivista

Por vezes me sinto fora do tempo.

A vida correndo, nossas escolhas, preocupações e projetos, tudo nos toma – e de repente senti uma urgência, de entrar no tempo, não mais a temporalidade que mescla subjetividade e objetividade, mas o tempo do relógio. Isso aconteceu depois da experiência do congresso do IFTR (ver postagem anterior).

No meu caso, entrar no tempo do relógio é, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, procurar um caminho da maturidade que leve meu trabalho a um lugar político estrito senso.

Que o lugar político estrito senso de minha dedicação à infância seja, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, trabalhar na chave de um início de vida (digamos os dez primeiros anos) de alguma felicidade. De encontro. De descoberta e sedimentação.

Dez anos da possibilidade mais possível para as crianças do Brasil.

Como fazê-lo?

Vou começar agora.

Vai ser numa reunião que terei no Centro Cultural do Banco do Brasil em Belo Horizonte, no final de julho. Pretendo, na reunião, conseguir desmanchar o que se projeta em mim (Professora Doutora e etc), para construir algo junto, e para falar da criança tal qual ela se apresenta, em nós, para nós, no dia para o qual estou sendo convidada a falar.

A criança hoje tem nome e sobrenome, tem data de nascimento, tem contexto afetivo, social e político; a criança de hoje não é “a criança interior” de cada um. E a criança de hoje não é a criança das teorias do desenvolvimento humano!

Pretendo falar dessa criança na chave artivista, no meu caminho já iniciado e trilhado: partir de um brincar originário. Lembrar os presentes da felicidade de descobrir o mundo, o eu e o outro, a partir de situações relativamente organizadas pelos adultos, mas nas quais “eu me vejo o criador”. As coisas lá estariam para que eu as descobrisse. Sem estresse, sem pressa, sem “ter que”.

Em algum momento, na UFMG (onde cheguei em junho de 2012, para ensinar a ensinar teatro) eu tive a ideia, ou talvez uma epifania, que reuniu palavras da seguinte maneira:

tempos dilatados para espaços encontrados.

Gosto demais dessa expressão; dessa síntese; maneira de re-nomear algo antigo: o brincar “livre e criativo”, tal como discute o psicanalista inglês Winnicott.

Para que a criança pequena se veja livre e criativa, há que enfrentar um paradoxo: os adultos precisam estar alí, de modo a propiciar o que Winnicott chama de ambiente facilitador. Também precisamos, adultos que somos, ser capazes de holding – que, em tradução literal, significa sermos capazes de “segurar”. Na gíria isso fica mais claro: segurar a onda. Acolher. Deixar ser (e só então propor o fazer).

Alguns interpretaram esse modo winnicottiano como “deixar rolar”. Não penso ser esta a melhor expressão, pois por vezes as crianças gostam de coisas estranhas, perigosas, e perversas. Por isso os adultos precisam estar por alí.

No entanto a educação se daria como tempo de espera. Que a maturação viesse aparentemente sozinha – ou, pelo esforço da criança mesma – mas a partir de um ambiente seguro, cujos perigos são apresentados como desafios, que a maturação aconteça (andar, falar, correr, pular, imaginar, brincar!) com seu espaço e seu tempo afinados com a espacialidade (relação criança-espaço) e com a temporalidade (relação criança-tempo).

Trata-se de praticar uma espécie de arte zen. Estar alí, mas saber ausentar-se, para que a solidão surja como modo positivo de sentir-se humano.

Sentir-se humano significaria, aqui, agora, e a partir de hoje, sempre, saber da finitude.

Que nos dez anos iniciais de nossas vidas possamos experienciar uma corporalidade (relação criança-corpo) sagrada – não no sentido religioso, mas sim no sentido poético e artístico, tratando daquilo que é um sopro de vida… e seu fluxo de continuidade.

Saber da continuidade de si, do outro e do mundo, é saber também que tudo que nasce, morre. Penso ser interessante propor, como artivismo, o direito do tempo dilatado e dos espaços encontrados, durante a primeira década de vida. Dez anos de boas experiências de continuidade nos daria força para enfrentar as (inevitáveis) rupturas que a vida humana traz.

A solidão compartilhada é uma das noções mais bonitas e interessantes da obra de Winnicott, que faleceu em 1971. Penso que o “auge” do seu pensamento é muito conectado com os movimentos inovadores da década de 1960. Paz e amor. Arte e vida. Criatividade e presença (e ausência, concomitantes).

Vou propor, na reunião que terei no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte, não ser conferencista. Não usar microfone. Não falar em situação palco/plateia, em auditório.

Eu quero ser artivista.

Vou propor uma bagunça em uma área externa do (imponente) CCBB-BH. Por bagunça entendo vida, movimento, surpresa. Por bagunça quero dizer busca de antiestruturas, no sentido sociológico.

Eu quero uma casa no campo (…) / a esperança de óculos / meu filho de cuca legal.

Todos os educadores da pequena infância querem crianças de cuca legal – quase todos reclamam de crianças problemáticas, inquietas ou não psiquicamente saudáveis… mas, o que estão fazendo sobre isso?

Penso que é necessária uma reviralvolta no discurso, e na ação, dos adultos.

Essa reviravolta pode ser proposta pelos artistas que trabalham com educação e infância.

Brincar!

A oficialização do brincar, vivida por muitos na educativa e organizada Brinquedoteca (nada contra, mas vejo coisas de arrepiar os cabelos em algumas dessas maneiras organizacionais), abafou algumas das possibilidades existentes para semear a saúde mental, existente no brincar “livre e criativo”.

Vejo entre intelectuais que muitos debocham dessa expressão.

Eu homenageio essa expressão, a cada convite que me é feito para falar sobre arte e infância. Os que debocham dizem que liberdade e criatividade são ilusões, ou “conceitos datados”. Mas outra coisa bonita e especial que a obra de Winnicott propõe é o modo como nos relacionarmos com a ilusão:

A ilusão encontra-se em um espaço próprio, que é o entre: entre a mãe e o bebê, entre o adulto e a criança, entre natureza e cultura… A ilusão é positiva, necessária, amorosa. A ilusão move montanhas. O espaço de ilusão nos humaniza – é onde eu acredito que criei o mundo! Apesar de muitas vezes desconfiar que tudo aquilo alí já estava… A ilusão acolhe a fantasia, o devaneio, o desejo.

A ilusão é fundante.

A ilusão nos leva, na vida adulta, à arte, à ciência, à filosofia e poesia, ao prazer de gostar do nosso campo profissional. Nessa chave, a ilusão é o que nos move, rumo à independência.

O espaço de ilusão também é chamado, por Winnicott, de área do consolo.

Do que você acha que a criança se consola, por meio do brincar?

Para Winnicott, seria da constatação do “self”; e concomitante àquela constatação, outra: a separação da mãe (ou figura materna, quem nos cuidou).

Como e por que eu precisaria ser consolado disso?

É porque eu acreditava ser um oceano.

Mas sou uma pessoa humana.

E como pessoa humana, eu te proponho: plante amigos e livros, e nada mais.

A ilusão da casa no campo, tão intensa na voz de Elis Regina… que tinha suas angústias e questões, que morreu precocemente…

A dura realidade da morte da artista desfez a ilusão da canção?

Zé Rodrix, compositor da música, muito tempo depois, em 2014, disse que escreveu a letra de modo despretensioso… pensa ser retrato de uma geração… e que a música é perigosa. (Entendo que pelo desejo de fuga).

Falar sobre perigo é muito importante para conseguir mudança nos modos de educar crianças. Muitos não querem as crianças na rua, e preferem que fiquem vendo televisão ou jogando no tablet. Muitos não percebem como é fundante a corporalidade em movimento – o desafio, e o enfrentamento do perigo. Muitos consideram crianças gordinhas e paradas na frente da televisão, ou sentadas com seus tablets, sinônimo de segurança.

Sei dos tiros na rua, sei da maldade humana, sei da existência de tráfico de órgãos e rapto de crianças – e sei que tudo isso não é contos de fada ou literatura!

Mas o que vou fazer sobre isso?

Artivismo.

colher

Por onde andei esses dias

Entre os dias 10 e 14 de julho participei do congresso da IFTR que aconteceu no campus da USP, em São Paulo, majoritariamente nas salas e auditórios da ECA. IFTR é a sigla para International Federation of Theater Research, ou, em português, Federação Internacional de Pesquisa em Teatro. Este evento é mundial e anual, com organização e origem anglo-saxã. Isso significa que a “língua oficial” do evento, no Brasil, seria o inglês.

Desse modo, desde que me inscrevi, em janeiro deste ano, estive pre-ocupada: era necessário escrever um paper em inglês e preparar-me para comunicar, expressar, me virar… em inglês: paradoxalmente, na minha cidade de origem…

processo 1

Foi bastante intensa a preparação – e por vezes tensa.

Quando chegou o momento, deu uma certa preguiça, obviamente associada a alguma ansiedade… mas junto com a parceira Luciana Hartmann, lá fomos nós, enfrentar o moinho anglo-saxão. Eu e ela estávamos no mesmo working group (grupo de trabalho), intitulado “Performance as Research” (Performance como Pesquisa).

Primeiro dia

Em mensagem por email, teria sabido que o encontro seria no

tbc

estranho!

Como e por que um evento co-organizado pela ECA-USP escolheria o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia)??

Tento confirmar, a organizadora do grupo de trabalho diz: yes, tbc.

Já tinha visto no Google Maps. O TBC é hoje um lugar fechado, abandonado.

Penso: podem estar querendo trabalhar em ruínas…

Vou pra lá.

Pego um ônibus e depois ando ando ando.

Ao chegar, mistério. Tudo mesmo fechado, estranhamente desabitado.

Vou na lojinha em frente. Pergunto. A moça me diz que se eu bater na porta, um vigia virá me atender.

Atravesso.

Bato na porta.

Vem o vigia.

Pergunto se ali está tendo algum evento ligado à USP…

Ele diz, aqui não tem nada. Ta abandonado.

Ainda me preocupo com “os estrangeiros”, que chegariam ali e encontrariam o abandono e o nada. Falo isso para ele.

Ando ando ando. Páro e envio, pelo celular, email para a organizadora do grupo de trabalho, alertando que não há nada no TBC.

Resolvo almoçar, bater perna, para depois ir para a cerimônia de abertura do Congresso na USP.

Ao chegar ainda reclamo com alguns meninos voluntários…

E o mistério só é desvendado quando encontro de fato a organizadora do WG (GT):

tbc = to be confirmed

Fico muuuuito sem graça. Constrangida. Me sinto infantilmente enganada. Em poucos minutos aquilo tudo se torna piada, folclore, ou ainda, para ficar chique: uma prova da existência das epistemologias do sul.

Segundo dia

Agora já sei, cresci, e me concentro para chegar na hora e no lugar certos.

Chego.

Surpresa: os encontros são de práticas. Se tira o sapato. Quando o pé esquenta, se tira a meia… e se tira também o peso do academicismo (ainda mais se falado em inglês por brasileiros! Rs).

Realmente as propostas foram simples, leves, bem legais. A proposta tematizou o “dentro” e o “fora”, de uma maneira fisicalizada e performativa.

Neste segundo dia, em um momento de Auditório, Ileana Diéguez fez uma comunicação muito forte sobre performance e política no México.  É uma felicidade ouvi-la.

Terceiro dia

Em um movimento crescendo, o espaço do congresso se torna espaço de convivialidade. Isso foi incrível. O passo mais importante nesta direção foi a permissão para falar português do Brasil! Algumas pesquisadoras falavam tanto inglês como português fluente; assim, o sub-grupo ao qual pertenciam criou um jeito de dar os comandos do workshop de maneira bilíngue. O tema deste momento foram memórias, que contávamos uns para os outros ao mesmo tempo em que construíamos teias de fios pelo espaço… Antes disso experimentamos alguns jogos de Augusto Boal; no último momento, alguém performava uma das nossas memórias, sem o uso da palavra. Foi muito emocionante para mim pois uma pesquisadora fez no corpo aquilo que tinha contado a ela: ser posta para esquiar na neve, sem ter nenhuma experiência (aconteceu comigo ao chegar nos Estados Unidos em 1977, no ano em que fiz intercâmbio).

De tarde foi a vez do meu subgrupo conduzir uma proposta.

Gostei pois pude usar o material de uma parte daquilo que teria preparado individualmente para comunicar, caso acontecesse um momento desse tipo: imagens do Parque Municipal de Belo Horizonte, dos burrinhos, da dramaturgia do espaço.

Preparação

Pusemos, em envelopes, duas figurinhas e um papel dobrado (página do bloquinho do evento).

Por vezes escolhíamos figurinhas repetidas. Fizemos isso de modo rápido e aleatório. Eu tinha preparado em Belo Horizonte as figurinhas e o evelope.

Eu e a parceira Chloé criamos uma sequência de três momentos:

path / frame / perfoming the landscape

caminho / moldura / performando a paisagem

Eram comandos simples e aos poucos levamos os participantes a um alto grau de silêncio.

Path / Caminho

Em quatro grupos compartilhar as figurinhas e criar com elas um caminho

veja que construção interessante de um dos grupos!

veja que construção interessante de um dos grupos!

Frame / Moldura

Escolher, dentro da sala ou fora, uma moldura – um recorte de algo, tal como uma janela, uma grade, um desenho no chão… que pudessem servir como uma moldura para o olhar – olhar simplesmente, imaginar, deixar-se levar: e fazer apontamentos na folha de papel que estava no envelope

Performing the landscape / Performar a paisagem

Ir para fora e escolher um lugar, de modo a especializar o que se imaginou; podendo usar as figurinhas ou não, devendo usar o envelope

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Cada momento teve seus vinte minutos de duração e muito mais tempo ‘subjetivo’… revelado pelo grau de envolvimento e presença dos participantes.

O “fechamento” foi coletivamente visitar alguns dos espaços imaginados materializados no pátio do CAC – Centro de Artes Cênicas da ECA-USP.

A parte em Auditório deste dia foi uma fala do pesquisador Sérgio Carvalho.

Quarto dia

Um dia livre para o Grupo de Trabalho, dentro da agenda dos cinco dias – algumas coisas acontecendo, como comunicações temáticas.

Quinto dia

Três membros do Working Group foram selecionados de antemão e tiveram tempo para comunicações de suas pesquisas estrito senso. Foi interessante e fez sentido esse modo de organização. Entre eles a pesquisadora Ciane Fernandes, que fez, em auditório, uma proposta performativa com todos que quisessem participar, e de um modo centrado no evento, e não nela nem na pesquisa autoral de modo literal.

Em seguida tivemos o último workshop, este mais polêmico, pois a proposta partia de recortes de citações de todos os papers do grupo… Me diverti bastante, por ter entendido que seria uma possibilidade de brincar de (anti)academicismo. No entanto não era para ser nem cômico nem paródia – mas foi. Interessante pensar isso: uma certa recusa à tradição da citação – algo que eu estava valorizando, mas as proponentes estavam pensando noutro sentido completamente diverso…

Os sentidos completamente diversos surgiram novamente!

TBC ou tbc?

Eis a questão.

De tarde haveria o fechamento, com uma última roda de conversa do GT e uma fala da Eleonora Fabião, que provavelmente foi bem interessante (não fiquei).

Valeu muito a pena o desafio. É extremamente cansativo operar noutra língua por horas seguidas – mas a possiblidade criativa nos workshops nos levavam para um lugar de jogo, partilha, convivialidade. Posso dizer que foi um dos “eventos acadêmicos” de minha vida que mais conversou comigo, com minha pesquisa, e com meus desejos de futuro.

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

Tenhamos uma conversa franca e sincera, olho no olho

Nascimento, vida e morte

Com o término do semestre faremos um ato performativo final da disciplina – agora rebatizada por mim – “Brincar, criar, (des)teatralizar, viver”.

Consternada com casos de suicídio entre jovens na comunidade UFMG, pensei sobre a necessidade de conversa, debate, elaboração do momento brasileiro atual e sobre como ele é desanimador para os jovens, cujo horizonte está de fato sombrio, sem perspectivas. Ou com perspectivas ainda piores que as atuais.

Proponho falar sobre isso: tristeza; luto; desejo de morte; e também, no entanto, e sempre, há possiblidade de renascimento e inventividade dos modos de viver… algo difícil mas com o que precisamos sonhar, pois desistir é muitas vezes um impulso muito forte, poderoso, extremo.

Convidei meu orientando Charles Valadares a trabalhar comigo, retomando algo que fiz em pequena escala nos anos da graduação em Psicologia na PUC-SP: a construção, com caixinhas de fósforo e palitos, de pequenos túmulos.

cemitério blue jeansA morte permanece um tema tabu na contemporaneidade. Mesmo entre artistas, há quem se recuse veementemente a pensar sobre o tema (simples assim).

Pensar, criar algo relacionado a morrer, fazer a criação acerca da morte circular, penso ser curativo.

Curativo no sentido etimológico: curar é cuidar.

Poder conversar, silenciar, perceber que tudo que nasce morre; pensar, sentir e elaborar a morte, a desistência, o luto, por meio das possibilidades artísticas é algo que proponho desde os “Cacos de infância”, meu mestrado (que aconteceu entre 1999-2001).

Aliar um tema tão sério e temeroso (na nossa maneira ocidental de viver) ao brincar penso ser uma brecha, uma proposta liminal, o rabisco de uma antiestrutura.

Também falei sobre brincar em cemitérios em um artigo publicado em 2016, cujo título é paradoxal propositalmente: Um cemitério vivo.

Certamente querer tocar na morte é também o que me aproximou da estética da arte butoh. Eu me lembro de minhas primeiras experiências como espectadora de minha amiga Emilie Sugai; ao final eu a procurava no camarim, e por muitas vezes chorava… mas era um choro de gratidão, pela grandeza de sua dança e do que aquilo me proporcionava. Nem sei até hoje ao certo como colocar em palavras o que é que isso me proporciona. Tem a ver com o silêncio e a solidão; tem a ver com o vazio e com o vazio cheio que a dança pode carregar.

O subtítulo do livro Cacos de infância é “teatro da solidão compartilhada”.

De certo modo quero proporcionar algo na mesma chave para/com meus alunos também. Quero tocar na morte para que possamos voltar, permanecer, e sonhar a vida. Nas suas possiblidades mais possíveis hoje, o que revela saúde mental e psíquica, mas nas possibilidades mais impossíveis, pois faz parte também – como campo do fazer artístico (outra saúde… a saúde profissional, fazer arte como invenção de si, com o outro e no mundo; fazer arte para criar novos mundos; fazer arte para protestar e contestar o velho mundo).

Estes tumulinhos foram um sucesso junto à professora pesquisadora Maria Helena Pereira Franco Bromberg, que dirigia (e entendo que ainda dirige) o LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – na década de 1990 na PUC-SP. Ela disse que era muito difícil achar materiais que propusessem o brincar acerca da morte.

Realmente qual fabricante de brinquedos brasileiro o faria?

a mulher que matouExceto nas culturas onde há festas e ritos que comemoram a morte como passagem, meu amigo o pintorou ainda, nas culturas onde há espaço para um tipo de humor, não vemos objetos da cultura produzida por adultos construídos de tal modo que conversem com as crianças. Destaco duas exceções de peso, na literatura: Clarice Lispector e Lígia Bojunga Nunes, que escreveram, respectivamente: A Mulher que Matou os Peixes e O Meu Amigo Pintor.

São referências importantíssimas. Quando as leio tenho (ainda e sempre) vontade de chorar – mas é um choro de gratidão e pertença, por elas se disporem a falar sobre a morte com crianças e jovens leitores, a seu modo. A Mulher que Matou os Peixes tinha ficado responsável por cuidar do aquário de outra pessoa e não deu conta… O Meu Amigo Pintor é um artista que fez amizade com um menino do mesmo prédio onde morava e mantinha seu ateliê, e se suicida. O livro é construído tal como um diário dos sentimentos e pensamentos do menino, que na história tem cerca de onze anos. No diário ele vai relatando que ninguém quer conversar com ele sobre o que de fato aconteceu. O livro é brilhante por encarnar uma forma-conteúdo: uso da metalinguagem sobre como a morte – e especialmente o suicídio – são temas tabu, principalmente diante das crianças.

Gosto muito do dizer da Françoise Dolto de que as crianças tem direito à verdade.

Que acham disso tudo?

pequeno túmulo

Polimorfismo da maçã ou Convite à leitura do dossiê Performance e Escola

Saiu o dossiê Performance e Escola por esses dias, nos Cadernos Cedes da Unicamp. Uma coletânea de artigos desenhada por Gilberto Icle, que tomou a iniciativa, junto com Mônica Bonatto e Marcelo Pereira, de convidar algumas pessoas que estão estudando/praticando algo relacionado ao tema. Foi um longo processo, que durou quase dois anos: decidiram organizar o dossiê e em seguida procurar por onde publicá-lo (a mensagem de convite para participação chegou via email no dia 5 de maio de 2015).

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Para mim o interessante do “longo processo” foi ter a oportunidade de escrever um texto por camadas; sem pressa; acompanhando a vida mesma, pois, em novembro de 2015, o fenômeno das ocupações das escolas explodiu. Esse acontecimento modificou radicalmente o rumo da escrita e da possível conclusão do texto Guerra de maçãs, que penso ter resultado, em sua forma final, em um ensaio. Curiosamente, por meio deste texto obtive o parecer mais positivo e elogioso ‘desde sempre’ na minha vida acadêmica.

Aconteceu um verdadeiro work-in-process / trabalho em processo na minha escrita. Tenho registros importantes nos meus diários de trabalho, que mantenho como rotina. O ponto de partida foi o pedido para que minha irmã Mônica escrevesse para mim um parágrafo descrevendo uma situação difícil pela qual ela passou como professora do Ensino Fundamental em uma escola paulista de período integral: uma guerra de maçãs na hora do almoço.

No mês de março tive a chance de comunicá-lo parcialmente em São João Del Rei, para os pós-graduandos do Programa de Pós-graduação em Educação, em uma aula inaugural. Percebi como era importante a hermenêutica, isto é, a rede de remetimentos acerca da maçã, e levei dez maçãs para que, em certos momentos demarcados previamente por mim, eu doasse uma maçã por vez a alguém na plateia. Também decidi dar as pausas no texto por meio do instrumento de meditação “Pin”, uma espécie de sino. Isso criou, em ondas, uma atmosfera incrível de silêncio significativo.

E no final, dois comentários/elogios muito bonitos me deixaram feliz. Um rapaz perguntou: Como você consegue escrever tão leve?

E o outro disse: Achei do caralho…(rs), e seguiu dizendo que, para ele, era inédito alguém que de fato bancasse a experiência da corporalidade concomitante à comunicação acadêmica. Ao menos foi como entendi seus dizeres.

Ao primeiro, agradeci, mas disse que consegui porque “ralei”. Sim, como disse tenho registros de todas as etapas da criação do texto Guerra de maçãs. Foi um processo longo, intenso, e cheio de altos e baixos. O texto final não “me veio” simplesmente; ele foi trabalhado como “escrita falante”, ao longo de meses e por meio de diferentes versões.

Ao segundo, expliquei que sim, um dos braços da minha pesquisa acadêmica é comunicar textos performando.

Agora, neste caso especificamente, penso que, por meio da temporalidade dilatada para a escrita, acontece que o próprio texto Guerra de maçãs performa.

Gosto especialmente de dois momentos. Vou citá-los para dar curiosidade no leitor desta postagem em acessar o dossiê.

Num momento, digo o que penso ser o ensino da arte:

Proporei pensar a partir do meu campo de trabalho, o território artístico; inicio com o risco de um caminho existencial e relacional traçado de tal maneira que arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e cohabitarmos o espaço mundo compartilhado; arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações; arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento…

Outro momento, já no final, quando advogo pelo direito à salada de frutas:

Entretecemos tempos, espaços, materiais e interações de modo espiral e brincante no tear de páginas deste texto; por fim reivindicamos como direito de todas as crianças e jovens no Brasil: comer salada de frutas e brincar de frutaria de barro e papel maché; arrumadas em prateleiras ou caídas no chão, lá estarão as maçãs de argila à espera de serem (des)arrumadas por brincadeiras imaginativas. E, do lado de cá, as maçãs para serem comidas; que crianças e jovens – tendo comido bem – cantem expressivamente, corram, saltem, agachem-se, brinquem de estátua (sem nunca perder seu dinamismo e movimento); que envolvam-se nos mais diferentes tipos de dança, escrevam prosa e poesia, ampliem seus referenciais em arte, ciência e humanidade, rumo aos mais diferentes tipos de ocupação: desdobramentos da morada de si, com o outro, no mundo compartilhado.

Por tantos anos estudando o modo de pensar do filósofo Maurice Merleau-Ponty, que nos convida a um tipo de escrita e fala falante – contraposta à fala falada, simplória, objetivista – posso dizer que, por meio da construção de um texto por dois anos, atingi algo inédito no meu processo criativo com a palavra. Agradeço aos organizadores do dossiê pelo convite que se tornou um desfio!

Quero muito que os leitores do Agachamento confiram. E comentem.

Para acessar o dossiê Performance e Escola como um todo, procurem pela edição atual dos Cadernos Cedes.

 

 

 

 

 

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

Vou falar em Florianópolis / CEART – UDESC

No dia 6 de junho, terça-feira, vou falar sobre “arte e infância” no CEART da Universidade Estadual de Santa Catarina. Quando convidada, criei um título e uma sinopse:

 Arte, fenomenologia e infância:

uma via menos percorrida

Sinopse:

Esta conversa introduz os interessados na leitura fenomenológica da infância às noções de “criança performer” e de “abordagem espiral” no ensino de arte, tal como pensadas e propostas por Marina Marcondes Machado. A compreensão da criança como performer nos leva a uma atitude adulta que remete àquilo que a Sociologia nomeia “atores sociais protagonistas” – não se trata da adesão ao conceito de performance nas artes cênicas, o que implicaria em pensar crianças como mini-adultos ou mini-artistas, mas antes, a filiação à performance como modo de ser e estar no mundo. Nesta chave, adultos e crianças são protagonistas em seus mundos de vida; para que isso efetivamente aconteça, o campo da educação pode ser repensado, reproposto, redesenhado, especialmente em seus âmbitos criativos. São eles, na infância: os campos da brincadeira e das artes, da palavra falada e do gesto espontâneo. Nosso ponto de vista terá como lente a abordagem espiral para a re-escritura daquele campo de conhecimento, na qual teatro, artes visuais, música e dança não serão consideradas “linguagens” – e sim “âmbitos artístico-existenciais”.

Penso que os grandes temas de minha fala serão, então: uma noção de infância (contida na expressão “criança performer”); uma noção de arte (contida na expressão “âmbitos artístico-existenciais”); uma noção de arte e educação (contida na expressão “abordagem espiral”). As três noções misturadas, mixadas, hibridizadas, dão caldo para uma ciranda, para uma brincadeira de roda, para uma teatralidade rica em imaginação e faz de conta.

Por “via menos percorrida” quero dizer a Fenomenologia, que pode ser lida e apreciada na obra, por exemplo, de Paulo Freire. Trabalhar arte com crianças muito pequenas é trabalhar a autonomia. Autonomia para ser o que se é. Aprender a falar a fala falante, aquela recheada de expressividade e transformação.

Não gosto de ser considerada “especialista”, mas estou feliz pelo convite para falar das relações entre adultos e crianças, acontecidas pela arte na pequena infância. Também me atrai a possibilidade de falar em público e provocar a audiência no sentido de desnaturalizar a arte definida como “linguagem”. Todos dizem isso tal qual se fala sobre uma obviedade! Como e quando isso aconteceu? Qual o conforto que essa definição traz, para estar assim tão arraigada entre nós?

Não vou desmentir, vou afirmar que arte como linguagem é um dos modos de definir arte.

E proporei outro: imaginem que é próprio da existência dos entes humanos o fazer artístico. E nessa imaginação localizem âmbitos: lugares, modos de habitar. Teatralizar. Espacializar. Corporeificar. Musicalizar. Os verbos desenhados como mapas: lugar das teatralidades; lugar das espacialidades; lugar das corporalidades; lugar das musicalidades. Agora misture os lugares, como se fossem serpentinas que se espiralam. Pronto: você concretizou, por meio das minhas “instruções de jogo”, a abordagem espiral no ensino das artes, concebidas como âmbitos artístico-existenciais.

Agora te proponho que as “instruções de jogo” se tornem “roteiro de improviso”:

Pegue um grupo de crianças entre zero e cinco anos. Peça ajuda a outros adultos… para levarem o grupo ao jardim; ao quintal; ao pátio; a um lugar com céu aberto e visível. Com sol da manhã.

No quentinho do sol converse com eles devagarinho. Solicite que fechem seus olhos, para sentir o amarelo.

Diga que quando menos esperarem podem ficar vermelhos!

De vergonha? De raiva? De amor? De sol forte?

Ao abrirem os olhos vejam o verde! Procurem por ele. Debaixo da árvore. Na blusa do Lucas. No balde da dona Antonia. Na ervilha torta, verdura no prato do almoço?

Em seguida sugira o roxo.

O roxo tem uma irmã gêmea, a lilás. Vamos brincar de esconde-esconde com eles?

No pique estava o azul. Desceu do céu por um instante. Está procurando pelo Branquinho, apelido do filho do músico Egberto Gismonti quando era nenê.

Nessa hora volte em câmara lenta para a sala, e ouça com todos eles o disco Branquinho, de Egberto Gismonti.

Pare de falar. Deixe que a música fale, e toque, e ela própria proponha o imaginar.

No final, na hora de ir embora, peça que cada criança diga em casa como foi que conheceu o branquinho.

Na próxima semana, traga um roteiro de improviso que os introduza a Luiz Melodia: o Negro Gato.

Depois disso, construa um projeto de escuta, fruição e rodas de conversa com o som de artistas brasileiros negros: Itamar Assumpção gravou uma maravilhosa trilogia “Pretobrás”. (Quer algo mais atual que isso?)

Que acha disso tudo?

Quais foram os “conteúdos” trabalhados até aqui?

Você pode dizer que esteve, neste dia, pelos caminhos da educação em favor da mistura étnico-racial própria do Brasil?

Se sim, como e por que?

Se não… comece tudo de novo.

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos…

Por que eu não pensei nisso antes? Postar no Agachamento Itamar Assumpção!

O CEART fica na Av. Madre Benvenuta 2007, o encontro será a partir das

14:00 hs do dia 06/06/2017 no Espaço 1 do Bloco de Artes Cênicas / UDESC