Convido a todos para o lançamento de Fim do infante em BH e SP

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Fim do infante é o título do meu quinto livro, que será lançado neste mês em Belo Horizonte e em São Paulo. Foi editado por Renato Rezende, editor da Circuito, uma editora independente do Rio de Janeiro. Renato é da minha geração e foi aluno do meu ex-marido Valdir Sarubbi, artista que, nas décadas de 1970 e 1980, nos deu aulas na modalidade “atelier livre” — no lugar de trabalho, o artista ensinava crianças, jovens e adultos a desenhar e pintar, por meio especialmente de técnicas expressivas. Um marco da época.

No livro Fim do infante reuni três textos dramatúrgicos. Convidei a Luciana Hartmann para fazer o texto de apresentação; Luciana é antropóloga e estudiosa do teatro, do ensino e da performance.

No lançamento em BH, dia 17, vamos ler um pedaço de um dos textos, na modalidade “leitura dramática”. Estamos preparando isso no MRACO: encontros cuja sigla quer dizer, de modo brincante, Movimento Rumo Ao Agachamento Coletivo.

No lançamento em SP, dia 31, vamos fazer um debate entre Renato, eu e Priscilla Vilas Boas, minha amiga que ensina dança na EMIA/SP e que hoje também trabalha com textos e livros didáticos, sobre o ensino de arte.

Estarei entre amigos nos dois momentos.

Talvez estar entre amigos seja, nessas semanas entre primeiro e segundo turno das eleições, a mais forte estratégia para permanecermos vivos. Preciso me sentir vital, com rigor e vigor no pensamento sobre o teatro e a infância. Quero que a vitalidade possa comunicar algo como um artivismo.

Um outro teatro é possível.

O livro Fim do infante fala sobre isso: um teatro inteligente e sensível para todas as idades. Um aprendizado meu também da década de 1980, a partir da formação na Casa do Ventoforte, lugar do grupo de teatro do mesmo nome e dirigido por Ilo Krugli.

Os textos foram escritos em um intervalo de quase 20 anos. O primeiro é leve e foi feito para ser encenado por crianças da EMIA-SP. Por meio de bilhetes escrevi diálogos não tradicionais, fragmentados, por vezes divertidos e por outras vezes tristes, e demasiadamente humanos… O segundo texto é a dramaturgia criada durante o ano do meu pos-doc supervisionado por Maria Lucia Pupo, em 2009, criado com base na observação de crianças em situações de espera em São Paulo, capital. O terceiro texto é documental, foi encenado onze vezes e para trinta e três espectadores no total, e trata da perda gestacional de meus filhos gêmeos, Evandro e Dimas.

O livro vai custar 30 reais e teve uma tiragem pequena. Considero-o um dos meus cinco trabalhos artísticos e intelectuais mais importantes.

Esperarei pelo leitor do Agachamento — para uma conversa ao vivo, olhos nos olhos, sem medo de ser feliz. Dia 17 de outubro no SESC Palladium (BH) e dia 31 de outubro na Livraria Blooks do Shopping Frei Caneca (SP). Até lá!

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Manifesto para não votarmos em quem apoia Escola sem partido e sem discussão de gênero

Nesse dia 29 de setembro de 2018, dia de manifestações [políticas e de gênero] pelo Brasil inteiro, explicito no Agachamento como é nocivo votar em quem acredita em escola sem partido e sem discussão de gênero entre adultos, crianças e jovens. Propor esses dois silenciamentos é fazer das crianças e dos jovens pessoas fora dos seus tempos, bem como educa-las na base da imposição de assuntos tabu.

Acreditar em uma educação “sem ideologia” em pleno século XXI é acreditar em infâncias e juventudes sem tempo nem espaço. Isso é impossível e faz com que o movimento “sem partido” se mostre uma ideologia ele mesmo, ideologia autoritária e de uma nota só.

Somos feitos pelo tempo e pelo espaço que habitamos; se for negado acompanhar as mudanças dos tempos e espaços aos estudantes, ficarão todos tal qual Peter Pan, congelados em um tempo-espaço de pirlimpimpim: ignorantes e ingênuos, presos em uma noção equivocada de uma pseudo política sem política.

As mudanças mundiais nas culturas relacionais apontam para novas famílias; não poder falar sobre isso, como por exemplo a existência de duas mães ou dois pais criando uma criança, vai gerar estranhamento e segregação. Não conversar abertamente será negar aos filhos das novas famílias o direito à verdade; não conversar com as crianças das famílias tradicionais sobre casamentos entre adultos do mesmo sexo, e a criação de filhos por esses casais, é educa-las na direção da ignorância e da leitura errônea sobre a natureza humana.

A natureza humana é cultural. Política. Transformacional.

A discussão política se inicia antes mesmo de nascermos: parto normal ou cesariana? Leite de peito ou mamadeira? Uma vida banida da política é uma vida apartada.

O teatro, o cinema, a literatura, a poesia estão bem adiante das propostas pedagógicas sem partido e sem discussão de gênero. As questões polêmicas estão na boca de cena, por assim dizer, e as questões amorosas estão nos corpos artistas… Enquanto que o silenciamento e a recusa à conversa desenham, sem arte, pautas retrógradas, cheias de ódio por seus recalcamentos, atrasos e cegueiras.

A natureza humana é paradoxal e recheada de conflitos.

Os conflitos não se resolvem por meio de uma educação conteudista, asséptica e “neutra”. Os conflitos são a própria vida. Os conflitos pulsam e chamam as pessoas para o ringue: o ringue pode e deve ser o próprio fórum de discussão nas escolas.

Crianças criadas para dialogar, negociar, expressar conflitos e compreender direitos e deveres, estarão aptas à vida contemporânea. A escola conteudista, asséptica e “neutra” vai gerar crianças passivas, obedientes e crentes em uma verdade só.

A verdade sobre política e sobre os corpos não é única.

Quem for criado com base em verdade única tenderá a viver de modo único – incomodando-se com a diversidade e com (a alegria das) crianças ativas, questionadoras e criadoras de verdades situadas em suas realidades e contextos (inseridos na lei e na cidadania, sempre).

Quem for criado com base em verdade única, conteudista, asséptica e “neutra” tenderá a reproduzir os modos de vida dos adultos educadores “sem partido”: eles mesmos “neutros” e assépticos… e o mundo será desinteressante, feito de tarefas e meritocracia.

Quem for criado sem diálogo, sem política e sem diversidade de gênero habitará um mundo em branco e preto. E não saberá conversar sobre os assuntos para além da grade curricular tradicional.

As crianças e os jovens têm direito a todas as cores da maior e mais rica caixa de lápis de cor, e direito de aprender sobre seus corpos, sobre escolhas pessoais e grupais, saber conversar e a ser generoso com os outros.

As crianças e jovens eventuais frutos de um sistema educativo sem partido e sem discussão de gênero estarão menos preparados para o convívio democrático. É fácil concluir que a escola sem partido e sem discussão de gênero é antidemocrática – portanto, autoritária.

Toda verdade única é suspeita.

Toda neutralidade é suspeita.

Todo desejo de um único jeito de ser e estar no mundo está, hoje, ultrapassado; as crianças e jovens educados sem discussão política e sem discussão de diversidade sexual estarão antiguinhos. Antigos e menos inteligentes: empoeirados e enrijecidos pela crença totalitária de uma nota só.

Se você não quer um Brasil feito de crianças antiguinhas, empoeiradas e enrijecidas, vote em candidatos progressistas que não acreditam em escola sem partido, que acreditam em fomentar a discussão de gênero em todas as idades, como política pública e em nome de uma sociedade mais saudável, plural e amorosamente feliz.

 

 

 

 

Espelho, espelho meu

Senti vontade de continuar a “rabiscar com Winnicott”… especialmente para que o leitor se interesse pela obra do psicanalista e compreenda como é importante o “brincar livre e criativo”!

Encontrei no livro Limite e Espaço / Uma introdução à obra de Winnicott (livro maravilhoso editado no Brasil em 1982 e que você pode encontrar nas livrarias virtuais) uma citação muito bonita, que nos mostra o modo de ser e de escrever de Winnicott:

… nos momentos tranquilos podemos dizer que não há linha mas apenas uma porção de coisas que eles separam, o céu visto através das árvores, algo que tem a ver com o movimento dos olhos da mãe, passeando ao redor. Alguns carecem de qualquer integração… Isto é uma coisa extremamente valiosa de reter. Carecemos de algo sem isto. Algo a ver com estar calmo, descansado, relaxado e se sentir “em unidade” com as pessoas e as coisas quando não há excitação ao seu redor.

O estado de não integração marca o primórdio da nossa capacidade para estar só (na companhia de alguém). Sim, algo valiosíssimo especialmente nos nossos tempos tecnológicos, nos quais os jovens pais parecem ter dificuldade para estar em contato com seus filhos de modo pleno, carnal e separado da intermediação tecnológica (filmam e fotografam o tempo todo, e deixam seus filhinhos à mercê da Disneylândia compacta que habita os celulares e tablets).

Aos poucos quando o adulto cuidador “nos olha” (de fato e integralmente, quando nos cuida e nos acompanha) nos sentimos olhados por ele, e, como ainda estamos por vezes em estado fusional (como escrevi na postagem anterior) o olhar do outro me proporciona identificação: aos poucos o bebê passa a ter vida psíquica, ter um self e sentir-se real, por sua coleção de experiências de continuidade de ser – um sentimento de existência habita nosso funcionamento corporal, feito de psique-soma (um ego rudimentar, um self em desenvolvimento, um id em continuidade pulsando vida-e-morte).

Em inglês é bonito, como um verso: When I look I am seen, so I exist. (Frase de Winnicott)

Traduzo livremente: Quando percebo que sou visto, eu existo.

O ato de brincar imaginativamente passará a ser possível, nesse entre-espaço e entre-lugar que o “momento tranquilo” proporciona às crianças pequenas. Por isso é tão nociva a “animação” como atitude adulta (adultos propondo coisas e preenchendo o espaço com sua noção de infância equivocada, de não querer correr o risco de perceber silêncio ou tristeza… negativando as possiblidades de estar só e ter ideia, como se diz).

Minha sobrinha neta está na creche e sua mãe compartilhou esta foto:

ester no espelho

ainda que paradoxalmente fotografada em câmara digital e com a foto compartilhada nas redes sociais…

Percebam a bebê e seu reflexo, e como a imagem nos remete a tudo que Winnicott postula sobre ser um eu… Processos de personalização proporcionam a união entre psique e corpo, e há beleza nessa pesquisa do reflexo de si… Os próximos passos se darão pelo uso criativo do mundo, das pessoas e das coisas, e de si mesma.

Os leigos podem estranhar o uso da palavra “objeto” no jargão psicanalítico; as “relações objetais” inauguram a vida interior e íntima, a partir do momento que um outro, um não-eu, me permite a ilusão de tudo aquilo estava ali me esperando – ou ainda, que teria sido eu o criador da paisagem, da musicalidade, da voz e do suor [do adulto que me cuida e me oferece a mão e brinquedos].

Nas relações de maternagem entre adultos e crianças, pelo suporte (holding) e pelo manejo (handling), se desenha o “indivíduo total”, rumo à realização do “eu sou”. Assim, relações objetais na psicanálise significam relações humanas, cujo cerne são amor-e-ódio.

O ódio e a agressividade têm lugar especial na obra de Winnicott; por exemplo, quando falou sobre adoção para leigos, afirmou que os novos pais devem estar prontos para odiar seus filhos adotivos inicialmente. Abrir-se para o sentimento de raiva que nos faz humanos, sem sentimentalismos: isso é também perceber “a experiência total” de ser o que se é.

Minha revisita à obra de Winnicott tem feito muito sentido nesses tempos sombrios: uma fresta de sol para compreender a escuridão da noite, convite a habitar um lugar intermediário no qual brincar é saúde e completude.

Um teórico que busca ser compreendido de modo claro, preciso e poético, tudo junto misturado.

Uma fonte inesgotável de suporte, manejo e apresentação do bom objeto. Saravá!

Winnicott: referência suficientemente boa ontem, hoje e amanhã

Winnicott ontem, hoje, sempre

winnicott em quadrinhos

Por esses acasos do destino – algo que Carl Jung nomearia de sincronicidade – voltei a estudar os escritos de Winnicott. Um grupo chamado MrACO / Movimento Rumo ao Agachamento Coletivo interessou-se pela obra de Winnicott porque uma das participantes encontrou um livro dos mais instigantes: Você é minha mãe? (Um drama em quadrinhos), editado pela Companhia das Letras e escrito-desenhado por Alison Bechdel. Uma obra de quadrinhos para adultos na qual a autora comenta biograficamente seu encontro com a teoria de Winnicott e narra como foi elaborando, a partir de duas análises pessoais, sua relação com a mãe. Muito legal!

Também voltei a ler Winnicott para propor discussões sobre as relações professor-aluno no grupo de professores do curso de teatro da UFMG.

E para completar essa gestalt, ou seja, essa forma-conteúdo que já me habitava (o interesse e a adesão às ideias de Winnicott é antigo), a Revista Cult de agosto traz um dossiê Winnicott. (Vejam lá, nas bancas de revista ou no site deles, ta bem legal).

dossiê winnicott

Winnicott faleceu em 1971. Foi um psicanalista importantíssimo no debate sobre a criança, a infância, e os “processos primários” de todos nós. Por meio de sua prática clínica, observou milhares de crianças – e, especialmente, bebês e suas mães, e assim criou uma obra original sobre nossos primórdios… Fatos, narrativas, dramaturgias inconscientes que retornam, ou ainda, que plasticamente colorem ou embrutecem nossa psique.

Seu modo de dizer, sua capacidade poética e ao mesmo tempo em sintonia com uma simplicidade cotidiana, elucida uma porção de mistérios advindos, por exemplo, da pesquisa da psicanalista de crianças Melanie Klein. Sua obra assusta os leigos com as hipóteses que chama de “posição esquizo-paranoide” e  “posição depressiva”… na mente inicial de todos, ou seja, na formação da psique dos bebês. Winnicott, que foi inicialmente seu discípulo por assim dizer, cria outros termos e faz os conceitos serem acessíveis a todos, especialmente a toda “mãe comum”.

O bebê não se sabe um “eu”. Nasce em um estado tal, que os psicanalistas denominam de fusão: o bebê é a mãe, e a mãe é ele. Nos termos de Winnicott a mãe também vive uma espécie de regressão, de modo que acolhe com certa naturalidade e lida com esse modo de funcionar, especialmente nas primeiras semanas de vida. Quem já teve um bebê sabe, quem já conviveu com mulheres nesse período também imagina com facilidade que é por aí mesmo o que acontece, dia após dia, nos cuidados do recém-nascido: um é o outro, o outro é um. Um momento muito peculiar, cujo estado, no bebê, Winnicott chama de não integração.

Só haverá integração a partir do fluxo e continuidade de tempo para viver os primórdios de sentir-se um “eu”, separado da mãe. É um delicado processo, esse de sentir-se um eu. Quando tudo vai bem, o bebê experiencia momentos de sentimento de ser, sentimento do real (tradução ruim a meu ver para a expressão existencial feeling of real) o que gera a integração (poder ter uma experiência total) e habitar um tipo de capacidade psíquica (para brincar e para estar só, na companhia da mãe).

Quando algo interrompe esse fluxo (morte de um cuidador, depressão da mãe, separação da mãe e do bebê por motivo abrupto, guerra, sequestro, hospitalização e etc) poderá surgir a sensação (terrível) de desintegração – origem, segundo Winnicott, dos transtornos psiquiátricos, das psicoses, e de marcas insconscientes muito profundas, que levam, mais tarde, a criança e o jovem, por exemplo, à tendência anti-social. Não é um diagnóstico: roubar, mentir, machucar-se por querer, agredir, são possíveis condutas anti-sociais.

Quando isso acontece, segundo Winnicott, a criança e o jovem estão em sofrimento e reivindicam, atuando (agindo: acting out é a expressão inglesa) na direção de algo que lhes pertencia… em tese, a boa relação com a mãe (e/ou figuras maternas), com a qual teve um bom começo, interrompido por aquela ruptura vivida como insuportável.

Aliás, “suportar” bem a lida com o bebê e suas fases existenciais é central na obra de Winnicott; ele usa a palavra holding, que foi traduzida por segurar. O colo não deve ser nem frouxo nem muito apertado… O colo é o lugar próprio do holding – é o modo de segurar do adulto cuidador.

No desenvolvimento harmônico, existe um momento importante no qual o bebê se apega a um brinquedo, uma fralda, um belisquinho na orelha da mãe quando mama… é o que Winnicott denomina “fenômeno transicional”. É o começo da capacidade para brincar, de fazer uso de símbolos, e de separar-se de fato da mãe (leia-se “figura materna”, ou seja, qualquer cuidador afetivo e presente em fluxo de continuidade). Um passo para a saúde integral contida na expressão ser um EU.

Há outra beleza na obra de Winnicott: ele inventou a noção de “mãe suficientemente boa”; nem perfeita, nem falha; segundo ele, as mães de quase todos nós (caso contrário não estaríamos aqui, vivendo nossas vidas com certo grau de sentido e significatividade).

Infelizmente as novas gerações de pais tendem a ler tudo isso com certa ansiedade e querem muito receitas ideais. Por exemplo: ninguém deve forçar o uso do ursinho de pelúcia, advogando algo como “isso faz bem pro bebê”… Tudo o que é forçado, pode ser sentido pelo bebê como uma demanda de adequação, o que, na teoria winnicottiana, constrói o que ele nomeia por “falso self”. Bebês muito bonzinhos podem estar nesse caminho, por meio de uma suscetibilidade maior ao que o adulto quer e deseja; molda-se precocemente uma espécie de máscara social, retraindo o gesto espontâneo. Todos precisaremos de máscaras sociais, é claro – e para Winnicott todos temos nossos falsos selves – mas a pressa e a ansiedade dos adultos podem nos levar a esconder, de modo cruel e difícil de acessar, nosso verdadeiro self.

Assim, adoecer psiquicamente, para Winnicott, é um sinal de esperança. (Mais um pressuposto bonito e interessante). As pessoas regridem para um estágio anterior, muito inicial e primário, momento que antecedeu a ruptura – uma espécie de jornada para recuperar algo que ia bem…: “redescobrir o objeto bom e o bom ambiente humano controlador que, por existir originalmente, tornou-a capaz de experimentar impulsos, mesmo os destrutivos”.

A depressão é vista como uma capacidade: conquista de amadurecimento. Preocupar-se com o outro – to concern – é parte do desenvolvimento rumo à independência. Essa possibilidade de perceber-se em não fusão com a mãe é parte da saúde, e carrega uma tristeza, talvez uma saudade… me parece que é o momento para o qual Freud inventou a expressão sentimento oceânico: momento cósmico no qual não diferenciamos “eu” e “outro”.

Cuidado, não se afogue.

 

Ações de não-adoecimento

Namorinho de portão, bem sucedido

Durante o primeiro semestre de 2018, pratiquei o “namorinho de portão” com o professor da FaE Vinícius Lírio. Para os mais novos (que não sabem do que se trata): namorar no portão era uma prática bem comportada e bem vigiada, de relacionamentos entre pessoas jovens nos anos de 1960…

… começamos bem comportados ao criar um elo, pelo desejo de ensinar e experimentar uma disciplina comum a nós dois e a nossos cursos de origem; no entanto, já vivemos logo de cara empecilhos para nosso “caso de amor”: burocracias e dificuldades para lançar, em duas unidades de ensino, a mesma disciplina com dez vagas para cada — e incompreensão acerca do nosso ímpeto interdisciplinar. Teimamos um pouco e geramos um entre-lugar, que consistiu em encontros não semanais nas terças-feiras de tarde.

O nome do curso já não era mais tão bem comportado:

PERFORMAR NA CIDADE

Temos nossos quatro pés na Licenciatura em teatro, e, justamente por isso, quisemos fazer algo bem diferente – tudo junto e misturado.

Dei ideia da ementa ser não apenas aberta mas ser entregue no primeiro dia de aula [quase] como folha de papel em branco.

Também a forma de avaliar se centraria “apenas” na escrita de diários, das semanas e dos encontros, incluindo a descrição densa de por onde andavam os alunos na semana em que não havia encontros….

Sem textos obrigatórios!

Mas com comentários, em roda, sobre

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Todas essas características da disciplina optativa convidavam, fica claro, a uma certa indisciplina dos discentes – e também evocavam o aluno performer, pesquisador “de si”

Do que eu gosto? Qual teatro quero fazer, mediar, inventar, ensinar? E coisas do gênero.

Ao longo das semanas fomos compreendendo como esse jeito, que podemos nomear por antiestrutura (diante do que vivemos na “grade obrigatória”), tinha seus problemas… a ponto de eu chamar o curso, a partir de um momento, de

O CURSO MAIS VAGABUNDO QUE DEI

Mas que rapidamente Vinícius me alertou para a categoria “vagabundo”, e sobre como a academia com seus academicismos está precisando aprender algo sobre

O CACHORRO VIRALATA

e sua fidelidade, e seu modo de abanar o rabo, de procurar por qualquer comida e brincar, com saúde mais forte que os cães de raça e suas botas e petshops.

No último encontro, de antemão anunciado para o comecinho de julho e fora da UFMG, fomos por duas horas passar a tarde de uma terça-feira de julho no Parque Municipal Renné Giannetti.

Foi no último encontro que percebemos quem de fato era o grupo – seis de dez alunos sobreviveram. A percepção da configuração do grupo no último encontro foi também uma característica antiestrutural vagabunda, diga-se de passagem.

Os chamados trabalhos finais surpreenderam. Afinal os seis alunos que toparam passar por toda a experiência tinham sim algo a dizer. E disseram.

Começando por Gefter, que no primeiro encontro anunciou algo como

ODEIO A PERFORMANCE!

Referindo-se, foi ficando claro, a uma modinha entre jovens, de sair dizendo

“eu performo!”

“adoro performance, odeio o teatrão!”

e outras pérolas…

Vejam que interessante seu texto lido ao vivo e a cores naquela tarde de inverno:

gefterBreve relato (de um ator performativo)

Considero a experiência boa, importante para meu crescimento como ator, pensador e pesquisador.

Enfrentei a dificuldade de me despir das influências teatrais, que levam sempre para o lado de uma dramaturgia (historinha) e que resulta nos aplausos.

A performance para mim hoje é igual àquele quiabão que tua mãe diz que você precisa comer primeiro para saber se gosta ou não. Então eu comi o quiabão e confesso que não gostei, mas eu não o odeio mais.

Eu conheço a performance e ela me conheceu, não somos amigos nem inimigos, somos conhecidos, mas ela no canto dela e eu no meu.

Penso que, do ponto de vista de um curso com ementa aberta e rotina bagunçada, essa conclusão é mais que justa, o aluno-pesquisador reviu sua posição de ódio, ou de bipolarização das estéticas, e isso é sempre muito bom.

Não era pra ser mas tornou-se um pequeno roteiro de improviso ou programa performativo o uso de uma cadeirinha amarela que levei de casa:

cadeirinha

Karol trouxe para mostrar um interessante “terço laico” de pano cujas partes eram pequenos retalhos karolde pano com palavras-chave… fez um depoimento que lembrou muito o que se vem denominando “desmontagem”, e assim uniu seu passado na graduação com o futuro almejado na pós-graduação, dizendo algo do “meio”: estar já em disciplina na pós, acabando de cumprir seus créditos na graduação da Licenciatura em teatro, em busca de escrever seu projeto.

tamirisTamiris usou um interessante retrato mais ou menos psicodélico que uma garota fez dela, para também dizer de si – de sua identidade, de como quer ser, de como percebe ser vista, e de como tudo isso pode ser por vezes simples e por outras, complicado. Chamou atenção seu (potente) uso do silêncio.

Kamilla foi contando sobre sua facilidade com a arte espetacular e sua dificuldade com o ato performativo; foi marcante seu dizer

kamilla

 

 

EU NÃO TÔ BEM NESSE LUGAR DE RISCO (mas quero fazer)

No mesmo semestre teve uma experiência de ocupação na Funarte, e os percursos conversaram e se misturaram.

 

 

Janaína retomou o “fazer mapas” e seu mapa-depoimento foi me deixando mais enamorada no portão jana(no portão entre eu e Vinícius Lírio) pois ela comentava cada encontro e eu percebia como sim, havia um curso sendo “dado” e “usufruído”!

Por último Raiane nos leu um poema, que transcrevo aqui:

What’s “happening”?

Ou

(O q tá pegando?)

O que está acontecendo na sala de aula?

Terça-feira quinzenalmente silenciosa…

Alunos passíveis balbuciantes

Proferem achismos, questões e temores

Sobre a arte da performance

Com a palavra, Senhores Doutores

 

Pode ser assim, pode ser assadonani

Sonho todos os dias com o estudante engajado

De volta à realidade

O mais importante é ser atravessado

Por dizeres internos, da rua ou cidade

Leia, experimente, cite, crie subjetividades

 

O que acontece na sala?

O artista está presente?

No espaço-tempo da sala?

Por que a gente se cala?

 

“Eu não sei dizer / nada por dizer / então eu escuto”

 

Fez-se assim o silêncio

Perigoso escudo

 

O que está acontecendo na cidade?

 

Ritos de individualidade coletiva

Com uma porção de E.V.A., vá ver e ser vista

No horizonte-belo da cidade-corpo

É cada um por si, deus contra todos

 

Caminhar, parar

Tocar a matéria relacional viva

Narrativas da rua, de mim

Mapas, desvios, deriva

Paisagem poética urbana

Um coro dissonante possível

“Caminhante, não há caminho”

Res(piro)

O que acontece comigo?

 

Fico feliz, muito feliz com esse poema, e com todos os depoimentos, porque vi e vejo a possibilidade de cursos vagabundos, bem brasileirinhos, rompendo barreiras caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, propondo modos de ser e estar que não adoecem os jovens acadêmicos.

Obrigada por compartilharem! E obrigada Vinícius, meu ex-namoradinho de portão agora noivo (engajados em outros projetos!): bora ser feliz, todo mundo junto e misturado, salve Minas, Bahia e São Paulo!