Por onde andei esses dias

Entre os dias 10 e 14 de julho participei do congresso da IFTR que aconteceu no campus da USP, em São Paulo, majoritariamente nas salas e auditórios da ECA. IFTR é a sigla para International Federation of Theater Research, ou, em português, Federação Internacional de Pesquisa em Teatro. Este evento é mundial e anual, com organização e origem anglo-saxã. Isso significa que a “língua oficial” do evento, no Brasil, seria o inglês.

Desse modo, desde que me inscrevi, em janeiro deste ano, estive pre-ocupada: era necessário escrever um paper em inglês e preparar-me para comunicar, expressar, me virar… em inglês: paradoxalmente, na minha cidade de origem…

processo 1

Foi bastante intensa a preparação – e por vezes tensa.

Quando chegou o momento, deu uma certa preguiça, obviamente associada a alguma ansiedade… mas junto com a parceira Luciana Hartmann, lá fomos nós, enfrentar o moinho anglo-saxão. Eu e ela estávamos no mesmo working group (grupo de trabalho), intitulado “Performance as Research” (Performance como Pesquisa).

Primeiro dia

Em mensagem por email, teria sabido que o encontro seria no

tbc

estranho!

Como e por que um evento co-organizado pela ECA-USP escolheria o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia)??

Tento confirmar, a organizadora do grupo de trabalho diz: yes, tbc.

Já tinha visto no Google Maps. O TBC é hoje um lugar fechado, abandonado.

Penso: podem estar querendo trabalhar em ruínas…

Vou pra lá.

Pego um ônibus e depois ando ando ando.

Ao chegar, mistério. Tudo mesmo fechado, estranhamente desabitado.

Vou na lojinha em frente. Pergunto. A moça me diz que se eu bater na porta, um vigia virá me atender.

Atravesso.

Bato na porta.

Vem o vigia.

Pergunto se ali está tendo algum evento ligado à USP…

Ele diz, aqui não tem nada. Ta abandonado.

Ainda me preocupo com “os estrangeiros”, que chegariam ali e encontrariam o abandono e o nada. Falo isso para ele.

Ando ando ando. Páro e envio, pelo celular, email para a organizadora do grupo de trabalho, alertando que não há nada no TBC.

Resolvo almoçar, bater perna, para depois ir para a cerimônia de abertura do Congresso na USP.

Ao chegar ainda reclamo com alguns meninos voluntários…

E o mistério só é desvendado quando encontro de fato a organizadora do WG (GT):

tbc = to be confirmed

Fico muuuuito sem graça. Constrangida. Me sinto infantilmente enganada. Em poucos minutos aquilo tudo se torna piada, folclore, ou ainda, para ficar chique: uma prova da existência das epistemologias do sul.

Segundo dia

Agora já sei, cresci, e me concentro para chegar na hora e no lugar certos.

Chego.

Surpresa: os encontros são de práticas. Se tira o sapato. Quando o pé esquenta, se tira a meia… e se tira também o peso do academicismo (ainda mais se falado em inglês por brasileiros! Rs).

Realmente as propostas foram simples, leves, bem legais. A proposta tematizou o “dentro” e o “fora”, de uma maneira fisicalizada e performativa.

Neste segundo dia, em um momento de Auditório, Ileana Diéguez fez uma comunicação muito forte sobre performance e política no México.  É uma felicidade ouvi-la.

Terceiro dia

Em um movimento crescendo, o espaço do congresso se torna espaço de convivialidade. Isso foi incrível. O passo mais importante nesta direção foi a permissão para falar português do Brasil! Algumas pesquisadoras falavam tanto inglês como português fluente; assim, o sub-grupo ao qual pertenciam criou um jeito de dar os comandos do workshop de maneira bilíngue. O tema deste momento foram memórias, que contávamos uns para os outros ao mesmo tempo em que construíamos teias de fios pelo espaço… Antes disso experimentamos alguns jogos de Augusto Boal; no último momento, alguém performava uma das nossas memórias, sem o uso da palavra. Foi muito emocionante para mim pois uma pesquisadora fez no corpo aquilo que tinha contado a ela: ser posta para esquiar na neve, sem ter nenhuma experiência (aconteceu comigo ao chegar nos Estados Unidos em 1977, no ano em que fiz intercâmbio).

De tarde foi a vez do meu subgrupo conduzir uma proposta.

Gostei pois pude usar o material de uma parte daquilo que teria preparado individualmente para comunicar, caso acontecesse um momento desse tipo: imagens do Parque Municipal de Belo Horizonte, dos burrinhos, da dramaturgia do espaço.

Preparação

Pusemos, em envelopes, duas figurinhas e um papel dobrado (página do bloquinho do evento).

Por vezes escolhíamos figurinhas repetidas. Fizemos isso de modo rápido e aleatório. Eu tinha preparado em Belo Horizonte as figurinhas e o evelope.

Eu e a parceira Chloé criamos uma sequência de três momentos:

path / frame / perfoming the landscape

caminho / moldura / performando a paisagem

Eram comandos simples e aos poucos levamos os participantes a um alto grau de silêncio.

Path / Caminho

Em quatro grupos compartilhar as figurinhas e criar com elas um caminho

veja que construção interessante de um dos grupos!

veja que construção interessante de um dos grupos!

Frame / Moldura

Escolher, dentro da sala ou fora, uma moldura – um recorte de algo, tal como uma janela, uma grade, um desenho no chão… que pudessem servir como uma moldura para o olhar – olhar simplesmente, imaginar, deixar-se levar: e fazer apontamentos na folha de papel que estava no envelope

Performing the landscape / Performar a paisagem

Ir para fora e escolher um lugar, de modo a especializar o que se imaginou; podendo usar as figurinhas ou não, devendo usar o envelope

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Cada momento teve seus vinte minutos de duração e muito mais tempo ‘subjetivo’… revelado pelo grau de envolvimento e presença dos participantes.

O “fechamento” foi coletivamente visitar alguns dos espaços imaginados materializados no pátio do CAC – Centro de Artes Cênicas da ECA-USP.

A parte em Auditório deste dia foi uma fala do pesquisador Sérgio Carvalho.

Quarto dia

Um dia livre para o Grupo de Trabalho, dentro da agenda dos cinco dias – algumas coisas acontecendo, como comunicações temáticas.

Quinto dia

Três membros do Working Group foram selecionados de antemão e tiveram tempo para comunicações de suas pesquisas estrito senso. Foi interessante e fez sentido esse modo de organização. Entre eles a pesquisadora Ciane Fernandes, que fez, em auditório, uma proposta performativa com todos que quisessem participar, e de um modo centrado no evento, e não nela nem na pesquisa autoral de modo literal.

Em seguida tivemos o último workshop, este mais polêmico, pois a proposta partia de recortes de citações de todos os papers do grupo… Me diverti bastante, por ter entendido que seria uma possibilidade de brincar de (anti)academicismo. No entanto não era para ser nem cômico nem paródia – mas foi. Interessante pensar isso: uma certa recusa à tradição da citação – algo que eu estava valorizando, mas as proponentes estavam pensando noutro sentido completamente diverso…

Os sentidos completamente diversos surgiram novamente!

TBC ou tbc?

Eis a questão.

De tarde haveria o fechamento, com uma última roda de conversa do GT e uma fala da Eleonora Fabião, que provavelmente foi bem interessante (não fiquei).

Valeu muito a pena o desafio. É extremamente cansativo operar noutra língua por horas seguidas – mas a possiblidade criativa nos workshops nos levavam para um lugar de jogo, partilha, convivialidade. Posso dizer que foi um dos “eventos acadêmicos” de minha vida que mais conversou comigo, com minha pesquisa, e com meus desejos de futuro.

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

Tenhamos uma conversa franca e sincera, olho no olho

Nascimento, vida e morte

Com o término do semestre faremos um ato performativo final da disciplina – agora rebatizada por mim – “Brincar, criar, (des)teatralizar, viver”.

Consternada com casos de suicídio entre jovens na comunidade UFMG, pensei sobre a necessidade de conversa, debate, elaboração do momento brasileiro atual e sobre como ele é desanimador para os jovens, cujo horizonte está de fato sombrio, sem perspectivas. Ou com perspectivas ainda piores que as atuais.

Proponho falar sobre isso: tristeza; luto; desejo de morte; e também, no entanto, e sempre, há possiblidade de renascimento e inventividade dos modos de viver… algo difícil mas com o que precisamos sonhar, pois desistir é muitas vezes um impulso muito forte, poderoso, extremo.

Convidei meu orientando Charles Valadares a trabalhar comigo, retomando algo que fiz em pequena escala nos anos da graduação em Psicologia na PUC-SP: a construção, com caixinhas de fósforo e palitos, de pequenos túmulos.

cemitério blue jeansA morte permanece um tema tabu na contemporaneidade. Mesmo entre artistas, há quem se recuse veementemente a pensar sobre o tema (simples assim).

Pensar, criar algo relacionado a morrer, fazer a criação acerca da morte circular, penso ser curativo.

Curativo no sentido etimológico: curar é cuidar.

Poder conversar, silenciar, perceber que tudo que nasce morre; pensar, sentir e elaborar a morte, a desistência, o luto, por meio das possibilidades artísticas é algo que proponho desde os “Cacos de infância”, meu mestrado (que aconteceu entre 1999-2001).

Aliar um tema tão sério e temeroso (na nossa maneira ocidental de viver) ao brincar penso ser uma brecha, uma proposta liminal, o rabisco de uma antiestrutura.

Também falei sobre brincar em cemitérios em um artigo publicado em 2016, cujo título é paradoxal propositalmente: Um cemitério vivo.

Certamente querer tocar na morte é também o que me aproximou da estética da arte butoh. Eu me lembro de minhas primeiras experiências como espectadora de minha amiga Emilie Sugai; ao final eu a procurava no camarim, e por muitas vezes chorava… mas era um choro de gratidão, pela grandeza de sua dança e do que aquilo me proporcionava. Nem sei até hoje ao certo como colocar em palavras o que é que isso me proporciona. Tem a ver com o silêncio e a solidão; tem a ver com o vazio e com o vazio cheio que a dança pode carregar.

O subtítulo do livro Cacos de infância é “teatro da solidão compartilhada”.

De certo modo quero proporcionar algo na mesma chave para/com meus alunos também. Quero tocar na morte para que possamos voltar, permanecer, e sonhar a vida. Nas suas possiblidades mais possíveis hoje, o que revela saúde mental e psíquica, mas nas possibilidades mais impossíveis, pois faz parte também – como campo do fazer artístico (outra saúde… a saúde profissional, fazer arte como invenção de si, com o outro e no mundo; fazer arte para criar novos mundos; fazer arte para protestar e contestar o velho mundo).

Estes tumulinhos foram um sucesso junto à professora pesquisadora Maria Helena Pereira Franco Bromberg, que dirigia (e entendo que ainda dirige) o LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – na década de 1990 na PUC-SP. Ela disse que era muito difícil achar materiais que propusessem o brincar acerca da morte.

Realmente qual fabricante de brinquedos brasileiro o faria?

a mulher que matouExceto nas culturas onde há festas e ritos que comemoram a morte como passagem, meu amigo o pintorou ainda, nas culturas onde há espaço para um tipo de humor, não vemos objetos da cultura produzida por adultos construídos de tal modo que conversem com as crianças. Destaco duas exceções de peso, na literatura: Clarice Lispector e Lígia Bojunga Nunes, que escreveram, respectivamente: A Mulher que Matou os Peixes e O Meu Amigo Pintor.

São referências importantíssimas. Quando as leio tenho (ainda e sempre) vontade de chorar – mas é um choro de gratidão e pertença, por elas se disporem a falar sobre a morte com crianças e jovens leitores, a seu modo. A Mulher que Matou os Peixes tinha ficado responsável por cuidar do aquário de outra pessoa e não deu conta… O Meu Amigo Pintor é um artista que fez amizade com um menino do mesmo prédio onde morava e mantinha seu ateliê, e se suicida. O livro é construído tal como um diário dos sentimentos e pensamentos do menino, que na história tem cerca de onze anos. No diário ele vai relatando que ninguém quer conversar com ele sobre o que de fato aconteceu. O livro é brilhante por encarnar uma forma-conteúdo: uso da metalinguagem sobre como a morte – e especialmente o suicídio – são temas tabu, principalmente diante das crianças.

Gosto muito do dizer da Françoise Dolto de que as crianças tem direito à verdade.

Que acham disso tudo?

pequeno túmulo

Polimorfismo da maçã ou Convite à leitura do dossiê Performance e Escola

Saiu o dossiê Performance e Escola por esses dias, nos Cadernos Cedes da Unicamp. Uma coletânea de artigos desenhada por Gilberto Icle, que tomou a iniciativa, junto com Mônica Bonatto e Marcelo Pereira, de convidar algumas pessoas que estão estudando/praticando algo relacionado ao tema. Foi um longo processo, que durou quase dois anos: decidiram organizar o dossiê e em seguida procurar por onde publicá-lo (a mensagem de convite para participação chegou via email no dia 5 de maio de 2015).

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Para mim o interessante do “longo processo” foi ter a oportunidade de escrever um texto por camadas; sem pressa; acompanhando a vida mesma, pois, em novembro de 2015, o fenômeno das ocupações das escolas explodiu. Esse acontecimento modificou radicalmente o rumo da escrita e da possível conclusão do texto Guerra de maçãs, que penso ter resultado, em sua forma final, em um ensaio. Curiosamente, por meio deste texto obtive o parecer mais positivo e elogioso ‘desde sempre’ na minha vida acadêmica.

Aconteceu um verdadeiro work-in-process / trabalho em processo na minha escrita. Tenho registros importantes nos meus diários de trabalho, que mantenho como rotina. O ponto de partida foi o pedido para que minha irmã Mônica escrevesse para mim um parágrafo descrevendo uma situação difícil pela qual ela passou como professora do Ensino Fundamental em uma escola paulista de período integral: uma guerra de maçãs na hora do almoço.

No mês de março tive a chance de comunicá-lo parcialmente em São João Del Rei, para os pós-graduandos do Programa de Pós-graduação em Educação, em uma aula inaugural. Percebi como era importante a hermenêutica, isto é, a rede de remetimentos acerca da maçã, e levei dez maçãs para que, em certos momentos demarcados previamente por mim, eu doasse uma maçã por vez a alguém na plateia. Também decidi dar as pausas no texto por meio do instrumento de meditação “Pin”, uma espécie de sino. Isso criou, em ondas, uma atmosfera incrível de silêncio significativo.

E no final, dois comentários/elogios muito bonitos me deixaram feliz. Um rapaz perguntou: Como você consegue escrever tão leve?

E o outro disse: Achei do caralho…(rs), e seguiu dizendo que, para ele, era inédito alguém que de fato bancasse a experiência da corporalidade concomitante à comunicação acadêmica. Ao menos foi como entendi seus dizeres.

Ao primeiro, agradeci, mas disse que consegui porque “ralei”. Sim, como disse tenho registros de todas as etapas da criação do texto Guerra de maçãs. Foi um processo longo, intenso, e cheio de altos e baixos. O texto final não “me veio” simplesmente; ele foi trabalhado como “escrita falante”, ao longo de meses e por meio de diferentes versões.

Ao segundo, expliquei que sim, um dos braços da minha pesquisa acadêmica é comunicar textos performando.

Agora, neste caso especificamente, penso que, por meio da temporalidade dilatada para a escrita, acontece que o próprio texto Guerra de maçãs performa.

Gosto especialmente de dois momentos. Vou citá-los para dar curiosidade no leitor desta postagem em acessar o dossiê.

Num momento, digo o que penso ser o ensino da arte:

Proporei pensar a partir do meu campo de trabalho, o território artístico; inicio com o risco de um caminho existencial e relacional traçado de tal maneira que arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e cohabitarmos o espaço mundo compartilhado; arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações; arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento…

Outro momento, já no final, quando advogo pelo direito à salada de frutas:

Entretecemos tempos, espaços, materiais e interações de modo espiral e brincante no tear de páginas deste texto; por fim reivindicamos como direito de todas as crianças e jovens no Brasil: comer salada de frutas e brincar de frutaria de barro e papel maché; arrumadas em prateleiras ou caídas no chão, lá estarão as maçãs de argila à espera de serem (des)arrumadas por brincadeiras imaginativas. E, do lado de cá, as maçãs para serem comidas; que crianças e jovens – tendo comido bem – cantem expressivamente, corram, saltem, agachem-se, brinquem de estátua (sem nunca perder seu dinamismo e movimento); que envolvam-se nos mais diferentes tipos de dança, escrevam prosa e poesia, ampliem seus referenciais em arte, ciência e humanidade, rumo aos mais diferentes tipos de ocupação: desdobramentos da morada de si, com o outro, no mundo compartilhado.

Por tantos anos estudando o modo de pensar do filósofo Maurice Merleau-Ponty, que nos convida a um tipo de escrita e fala falante – contraposta à fala falada, simplória, objetivista – posso dizer que, por meio da construção de um texto por dois anos, atingi algo inédito no meu processo criativo com a palavra. Agradeço aos organizadores do dossiê pelo convite que se tornou um desfio!

Quero muito que os leitores do Agachamento confiram. E comentem.

Para acessar o dossiê Performance e Escola como um todo, procurem pela edição atual dos Cadernos Cedes.

 

 

 

 

 

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

Vou falar em Florianópolis / CEART – UDESC

No dia 6 de junho, terça-feira, vou falar sobre “arte e infância” no CEART da Universidade Estadual de Santa Catarina. Quando convidada, criei um título e uma sinopse:

 Arte, fenomenologia e infância:

uma via menos percorrida

Sinopse:

Esta conversa introduz os interessados na leitura fenomenológica da infância às noções de “criança performer” e de “abordagem espiral” no ensino de arte, tal como pensadas e propostas por Marina Marcondes Machado. A compreensão da criança como performer nos leva a uma atitude adulta que remete àquilo que a Sociologia nomeia “atores sociais protagonistas” – não se trata da adesão ao conceito de performance nas artes cênicas, o que implicaria em pensar crianças como mini-adultos ou mini-artistas, mas antes, a filiação à performance como modo de ser e estar no mundo. Nesta chave, adultos e crianças são protagonistas em seus mundos de vida; para que isso efetivamente aconteça, o campo da educação pode ser repensado, reproposto, redesenhado, especialmente em seus âmbitos criativos. São eles, na infância: os campos da brincadeira e das artes, da palavra falada e do gesto espontâneo. Nosso ponto de vista terá como lente a abordagem espiral para a re-escritura daquele campo de conhecimento, na qual teatro, artes visuais, música e dança não serão consideradas “linguagens” – e sim “âmbitos artístico-existenciais”.

Penso que os grandes temas de minha fala serão, então: uma noção de infância (contida na expressão “criança performer”); uma noção de arte (contida na expressão “âmbitos artístico-existenciais”); uma noção de arte e educação (contida na expressão “abordagem espiral”). As três noções misturadas, mixadas, hibridizadas, dão caldo para uma ciranda, para uma brincadeira de roda, para uma teatralidade rica em imaginação e faz de conta.

Por “via menos percorrida” quero dizer a Fenomenologia, que pode ser lida e apreciada na obra, por exemplo, de Paulo Freire. Trabalhar arte com crianças muito pequenas é trabalhar a autonomia. Autonomia para ser o que se é. Aprender a falar a fala falante, aquela recheada de expressividade e transformação.

Não gosto de ser considerada “especialista”, mas estou feliz pelo convite para falar das relações entre adultos e crianças, acontecidas pela arte na pequena infância. Também me atrai a possibilidade de falar em público e provocar a audiência no sentido de desnaturalizar a arte definida como “linguagem”. Todos dizem isso tal qual se fala sobre uma obviedade! Como e quando isso aconteceu? Qual o conforto que essa definição traz, para estar assim tão arraigada entre nós?

Não vou desmentir, vou afirmar que arte como linguagem é um dos modos de definir arte.

E proporei outro: imaginem que é próprio da existência dos entes humanos o fazer artístico. E nessa imaginação localizem âmbitos: lugares, modos de habitar. Teatralizar. Espacializar. Corporeificar. Musicalizar. Os verbos desenhados como mapas: lugar das teatralidades; lugar das espacialidades; lugar das corporalidades; lugar das musicalidades. Agora misture os lugares, como se fossem serpentinas que se espiralam. Pronto: você concretizou, por meio das minhas “instruções de jogo”, a abordagem espiral no ensino das artes, concebidas como âmbitos artístico-existenciais.

Agora te proponho que as “instruções de jogo” se tornem “roteiro de improviso”:

Pegue um grupo de crianças entre zero e cinco anos. Peça ajuda a outros adultos… para levarem o grupo ao jardim; ao quintal; ao pátio; a um lugar com céu aberto e visível. Com sol da manhã.

No quentinho do sol converse com eles devagarinho. Solicite que fechem seus olhos, para sentir o amarelo.

Diga que quando menos esperarem podem ficar vermelhos!

De vergonha? De raiva? De amor? De sol forte?

Ao abrirem os olhos vejam o verde! Procurem por ele. Debaixo da árvore. Na blusa do Lucas. No balde da dona Antonia. Na ervilha torta, verdura no prato do almoço?

Em seguida sugira o roxo.

O roxo tem uma irmã gêmea, a lilás. Vamos brincar de esconde-esconde com eles?

No pique estava o azul. Desceu do céu por um instante. Está procurando pelo Branquinho, apelido do filho do músico Egberto Gismonti quando era nenê.

Nessa hora volte em câmara lenta para a sala, e ouça com todos eles o disco Branquinho, de Egberto Gismonti.

Pare de falar. Deixe que a música fale, e toque, e ela própria proponha o imaginar.

No final, na hora de ir embora, peça que cada criança diga em casa como foi que conheceu o branquinho.

Na próxima semana, traga um roteiro de improviso que os introduza a Luiz Melodia: o Negro Gato.

Depois disso, construa um projeto de escuta, fruição e rodas de conversa com o som de artistas brasileiros negros: Itamar Assumpção gravou uma maravilhosa trilogia “Pretobrás”. (Quer algo mais atual que isso?)

Que acha disso tudo?

Quais foram os “conteúdos” trabalhados até aqui?

Você pode dizer que esteve, neste dia, pelos caminhos da educação em favor da mistura étnico-racial própria do Brasil?

Se sim, como e por que?

Se não… comece tudo de novo.

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos…

Por que eu não pensei nisso antes? Postar no Agachamento Itamar Assumpção!

O CEART fica na Av. Madre Benvenuta 2007, o encontro será a partir das

14:00 hs do dia 06/06/2017 no Espaço 1 do Bloco de Artes Cênicas / UDESC

Convite para o Quinto Agacho do AGACHO

Convite ao debate

Agachamento

Desde que o AGACHO é um grupo de pesquisa registrado no CNPq, faço com meus orientandos um encontro semestral aberto ao público para conversar sobre pesquisa em artes, e sobre as pesquisas em andamento sob minha orientação: é o que chamei de Agacho do AGACHO.

O quinto encontro será no dia 2 de junho, pela manhã, com a presença do professor, docente da FaE, pesquisador e artista, Vinícius Lírio. Ele é nosso parceiro no curso de teatro da UFMG, responsável pela orientação de dois estágios da Licenciatura. Penso que podemos ampliar essa parceria, misturando mais os âmbitos Belas Artes / Faculdade de Educação.

Quando o convidei tive uma ideia brincante – convite pra brincar comigo, conosco – e disse: que tal nos entrevistarmos mutuamente? Ele topou.

Depois, tentei inventar três perguntas interessantes e pertinentes, parecidas com os anseios e as angústias dos jovens professores de teatro em formação. São elas:

– Como eu faço para conseguir um resultado processual, que não precisa ser necessariamente espetacular?
– Como eu consigo avaliar o aluno de teatro sem ser apenas dando “notas” e “conceitos”?
– O que falta nas políticas públicas brasileiras em educação para o campo da arte ser realmente compreendido e valorizado?

Do meu ponto de vista, são quase que as “perguntas que não querem calar” nos meus cursos na UFMG, perguntas feitas pelos alunos e/ou imaginadas por mim, a partir da convivência. Muitos já trabalham com o ensino de teatro, em diferentes espaços (escolas, ongs, projetos livres); todos passarão pelos estágios obrigatórios; e, nas aulas, deixo claro que discuto, preferencialmente, “o que deveria ser”. Faço isso propositalmente: é minha metodologia. Metodologia de imaginar melhores dias; melhores situações de trabalho e de vida; projetar, sempre, que o teatro pode ser um meio de ser feliz, e de criar um mundo melhor. Esse seria o maior valor do nosso campo de trabalho. Junto a ser feliz em um mundo melhor, o teatro também é lugar de liberdade para ser triste e encarnar o mundo pior. O pior dos mundos é um possível potente pano de fundo ficcional. Tudo isso revela a substância transformadora e pensadora do teatro, imensa, embora muitos não a aproveitem o suficiente.

Muita gente faz uso do teatro para doutrinar, para adestrar, para moralizar. Podemos dizer que numa das pontas do cabo de guerra está essa força. Deve estar à direita. Na outra ponta, a antiestrutura, a rebeldia, a reflexão – incluindo o questionamento ao ato de doutrinar crianças e jovens, adestramento e moralização propostas por adultos que os dirigem em pecinhas bem feitas, por vezes com figurinos engomados cujo objetivo é cumprir a expectativa adulta de assistir e aplaudir “suas” crianças no palco. Infelizmente ainda é majoritário o pensamento do uso do teatro para dar visibilidade às maneiras de ser e estar no mundo do ponto de vista dos adultos (arte serve para… criança no palco é… etc.) Tenho para mim que a Licenciatura em Teatro em uma universidade pública deve trabalhar na direção de dar visibilidade aos modos de ser e estar no mundo do ponto de vista das crianças e jovens, em diálogo com os adultos, sim, e no mesmo mundo compartilhado. Isso se chama protagonismo. Mas… como fazer isso?

Quem quer debater precisa comparecer!

Vejam como:

QUINTO AGACHO

DO

AGACHO / Laboratório de pedagogias teatrais

No dia 02 de junho de 2017, das 10:00 ao meio-dia, no Espaço Laranja do prédio do Teatro da Escola de Belas Artes, na UFMG – Campus Pampulha, acontecerá o Quinto Agacho do AGACHO: encontro semestral do grupo de pesquisa da professora Marina Marcondes Machado.

Proposta: entrevista mútua entre Marina e Vinícius Lírio, aberta aos participantes.

Tema: o ensino do teatro hoje.

Agachamento

Criação: parâmetros e limites, fronteiras e aberturas

Uma proposta minimalista

 Cada aluno do curso “Brincar, criar, teatralizar, viver” (Escola de Belas Artes, UFMG, prédio do Teatro nas sextas-feiras de tarde) recebeu, na aula do dia 7 de abril, um brinquedo e um brinquedo-sucata. O material é comum a todos, e tem esta cara:

material inicial

Propus prepararem um ato performativo, com duração de apenas um minuto, a partir destes dois elementos. Parto do pressuposto de que será um dizer autobiográfico – sempre é: segundo Saramago e muitos outros artistas… tudo é biográfico!

Será  um “exercício avaliativo” e causou alguma ansiedade, e diferentes tipos de dúvida. Alguns alunos sentem que não poderão ser de fato criativos… consideram que estou dirigindo demais, com um comando que posso resumir aqui em:

Crie um dizer com duração de um minuto

a partir de sua corporalidade

e desses brinquedo e brinquedo-sucata.

Chamo esse tipo de enunciado de roteiro de improviso. Tenho como fio condutor a seguinte frase do psicanalista Winnicott: Em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição. Winnicott amava paradoxos. O paradoxo desse dizer é a conexão entre tradição e inovação.

Qual tradição evoco no enunciado do exercício proposto aos alunos?

A tradição da performance. (Sim, a performance já é um campo cultural estabelecido!)

Há mistura entre brinquedo feito pelo adulto (o pequeno pato) e a hipótese de brincar com as coisas do mundo (um papel alumínio que foi tampa de iogurte).

Há mistura entre ser livre para dizer o que quiser, no entanto com uma moldura comum a todos, e dada, elaborada por mim: os materiais e o tempo de um minuto.

Uma hipótese para o estranhamento do jovem aluno estaria em uma crença de que, para criar, não precisamos – ou ainda, não podemos ter! – nenhum parâmetro, limite ou fronteira. Caso contrário (com parâmetros, limites e fronteiras) não haveria liberdade de criação.

o pato dormiuA crença da não necessidade da presença de um Outro condutor para seguir o caminho criativo é, do meu ponto de vista, ilusória: especialmente no ensino de arte. Se deixarmos tudo aberto, tudo muito à vontade, as zonas de conforto poderão nos tomar de tal modo… que dormimos no colchãozinho (rs). Fazemos o que já sabemos.

Uso o deitar como imagem para uma posição onírica e que não requer ações mais complexas, inusitadas, de risco. Presença acordada… acorda patinho!!

A chave do enigma dessa proposta comum a todos: “usar” os dois objetos para mostrar algo que surpreenda o grupo; o foco é a possibilidade de compartilhar sua ideia, criação, sentimento-pensamento, e perceber o mesmo dos outros… sob o mesmo comando, com os mesmos materiais… dezessete pessoas vão expressar sua relação com a proposta, os dois brinquedos, e com o curso até agora.

Decifrar o enigma é abrir-se para a propositiva, criada por mim. Trata-se de estabelecer uma relação de confiança. Parecido com o jogo de andar por aí vendado com alguém nos conduzindo. Entregar-se e ligar-se noutras possibilidades, que não a da racionalidade ou da liberdade não-situada. Na conexão por nós trabalhada, a liberdade não-situada é uma ilusão de liberdade. A moldura é a possível “aula de artes” – que agora nomeio “ato performativo”.O mote é procurar agir desse mesmo modo no cotidiano como professor:

Ofertar algo ao aluno.

Desafiá-lo a algo enigmático.

Trabalhar a criação com pequenos parâmetros dados por você = professor-artista condutor.

Deixar acontecer. Depois, reuniremos todos os atos performativos de 1 minuto em tempo real. Disse a todos que isso é performance. Simples assim.

Para quem quer saber mais, indico dois autores muito importantes: Allan Kaprow (artista) e Marvin Carlson (estudioso da performance). E como referência brasileira, Eleonora Fabião, sempre. Ela  dialoga com o uso desses roteiros, e os nomeia roteiros de ação – já fazem parte hoje, como disse no início do texto, da tradição performática. Os roteiros performativos são sempre bastante abertos e podem mudar a qualquer momento, por serem relacionais, e dados de fato no acontecimento – não no papel escrito. Procurem via google, gente, ta tudo lá!

Quem vem?

retrato dos alunos

 [Aviso importante: A aula que vai reunir todos os minutos será dia 5 de maio]