Ações de não-adoecimento

Namorinho de portão, bem sucedido

Durante o primeiro semestre de 2018, pratiquei o “namorinho de portão” com o professor da FaE Vinícius Lírio. Para os mais novos (que não sabem do que se trata): namorar no portão era uma prática bem comportada e bem vigiada, de relacionamentos entre pessoas jovens nos anos de 1960…

… começamos bem comportados ao criar um elo, pelo desejo de ensinar e experimentar uma disciplina comum a nós dois e a nossos cursos de origem; no entanto, já vivemos logo de cara empecilhos para nosso “caso de amor”: burocracias e dificuldades para lançar, em duas unidades de ensino, a mesma disciplina com dez vagas para cada — e incompreensão acerca do nosso ímpeto interdisciplinar. Teimamos um pouco e geramos um entre-lugar, que consistiu em encontros não semanais nas terças-feiras de tarde.

O nome do curso já não era mais tão bem comportado:

PERFORMAR NA CIDADE

Temos nossos quatro pés na Licenciatura em teatro, e, justamente por isso, quisemos fazer algo bem diferente – tudo junto e misturado.

Dei ideia da ementa ser não apenas aberta mas ser entregue no primeiro dia de aula [quase] como folha de papel em branco.

Também a forma de avaliar se centraria “apenas” na escrita de diários, das semanas e dos encontros, incluindo a descrição densa de por onde andavam os alunos na semana em que não havia encontros….

Sem textos obrigatórios!

Mas com comentários, em roda, sobre

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Todas essas características da disciplina optativa convidavam, fica claro, a uma certa indisciplina dos discentes – e também evocavam o aluno performer, pesquisador “de si”

Do que eu gosto? Qual teatro quero fazer, mediar, inventar, ensinar? E coisas do gênero.

Ao longo das semanas fomos compreendendo como esse jeito, que podemos nomear por antiestrutura (diante do que vivemos na “grade obrigatória”), tinha seus problemas… a ponto de eu chamar o curso, a partir de um momento, de

O CURSO MAIS VAGABUNDO QUE DEI

Mas que rapidamente Vinícius me alertou para a categoria “vagabundo”, e sobre como a academia com seus academicismos está precisando aprender algo sobre

O CACHORRO VIRALATA

e sua fidelidade, e seu modo de abanar o rabo, de procurar por qualquer comida e brincar, com saúde mais forte que os cães de raça e suas botas e petshops.

No último encontro, de antemão anunciado para o comecinho de julho e fora da UFMG, fomos por duas horas passar a tarde de uma terça-feira de julho no Parque Municipal Renné Giannetti.

Foi no último encontro que percebemos quem de fato era o grupo – seis de dez alunos sobreviveram. A percepção da configuração do grupo no último encontro foi também uma característica antiestrutural vagabunda, diga-se de passagem.

Os chamados trabalhos finais surpreenderam. Afinal os seis alunos que toparam passar por toda a experiência tinham sim algo a dizer. E disseram.

Começando por Gefter, que no primeiro encontro anunciou algo como

ODEIO A PERFORMANCE!

Referindo-se, foi ficando claro, a uma modinha entre jovens, de sair dizendo

“eu performo!”

“adoro performance, odeio o teatrão!”

e outras pérolas…

Vejam que interessante seu texto lido ao vivo e a cores naquela tarde de inverno:

gefterBreve relato (de um ator performativo)

Considero a experiência boa, importante para meu crescimento como ator, pensador e pesquisador.

Enfrentei a dificuldade de me despir das influências teatrais, que levam sempre para o lado de uma dramaturgia (historinha) e que resulta nos aplausos.

A performance para mim hoje é igual àquele quiabão que tua mãe diz que você precisa comer primeiro para saber se gosta ou não. Então eu comi o quiabão e confesso que não gostei, mas eu não o odeio mais.

Eu conheço a performance e ela me conheceu, não somos amigos nem inimigos, somos conhecidos, mas ela no canto dela e eu no meu.

Penso que, do ponto de vista de um curso com ementa aberta e rotina bagunçada, essa conclusão é mais que justa, o aluno-pesquisador reviu sua posição de ódio, ou de bipolarização das estéticas, e isso é sempre muito bom.

Não era pra ser mas tornou-se um pequeno roteiro de improviso ou programa performativo o uso de uma cadeirinha amarela que levei de casa:

cadeirinha

Karol trouxe para mostrar um interessante “terço laico” de pano cujas partes eram pequenos retalhos karolde pano com palavras-chave… fez um depoimento que lembrou muito o que se vem denominando “desmontagem”, e assim uniu seu passado na graduação com o futuro almejado na pós-graduação, dizendo algo do “meio”: estar já em disciplina na pós, acabando de cumprir seus créditos na graduação da Licenciatura em teatro, em busca de escrever seu projeto.

tamirisTamiris usou um interessante retrato mais ou menos psicodélico que uma garota fez dela, para também dizer de si – de sua identidade, de como quer ser, de como percebe ser vista, e de como tudo isso pode ser por vezes simples e por outras, complicado. Chamou atenção seu (potente) uso do silêncio.

Kamilla foi contando sobre sua facilidade com a arte espetacular e sua dificuldade com o ato performativo; foi marcante seu dizer

kamilla

 

 

EU NÃO TÔ BEM NESSE LUGAR DE RISCO (mas quero fazer)

No mesmo semestre teve uma experiência de ocupação na Funarte, e os percursos conversaram e se misturaram.

 

 

Janaína retomou o “fazer mapas” e seu mapa-depoimento foi me deixando mais enamorada no portão jana(no portão entre eu e Vinícius Lírio) pois ela comentava cada encontro e eu percebia como sim, havia um curso sendo “dado” e “usufruído”!

Por último Raiane nos leu um poema, que transcrevo aqui:

What’s “happening”?

Ou

(O q tá pegando?)

O que está acontecendo na sala de aula?

Terça-feira quinzenalmente silenciosa…

Alunos passíveis balbuciantes

Proferem achismos, questões e temores

Sobre a arte da performance

Com a palavra, Senhores Doutores

 

Pode ser assim, pode ser assadonani

Sonho todos os dias com o estudante engajado

De volta à realidade

O mais importante é ser atravessado

Por dizeres internos, da rua ou cidade

Leia, experimente, cite, crie subjetividades

 

O que acontece na sala?

O artista está presente?

No espaço-tempo da sala?

Por que a gente se cala?

 

“Eu não sei dizer / nada por dizer / então eu escuto”

 

Fez-se assim o silêncio

Perigoso escudo

 

O que está acontecendo na cidade?

 

Ritos de individualidade coletiva

Com uma porção de E.V.A., vá ver e ser vista

No horizonte-belo da cidade-corpo

É cada um por si, deus contra todos

 

Caminhar, parar

Tocar a matéria relacional viva

Narrativas da rua, de mim

Mapas, desvios, deriva

Paisagem poética urbana

Um coro dissonante possível

“Caminhante, não há caminho”

Res(piro)

O que acontece comigo?

 

Fico feliz, muito feliz com esse poema, e com todos os depoimentos, porque vi e vejo a possibilidade de cursos vagabundos, bem brasileirinhos, rompendo barreiras caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, propondo modos de ser e estar que não adoecem os jovens acadêmicos.

Obrigada por compartilharem! E obrigada Vinícius, meu ex-namoradinho de portão agora noivo (engajados em outros projetos!): bora ser feliz, todo mundo junto e misturado, salve Minas, Bahia e São Paulo!

Sobre a solidão compartilhada

Por um acaso, navegando na internet, descobri que no dia 17 de janeiro deste ano foi criado, na Inglaterra, o “Minister for Loneliness”— o Ministério da Solidão. (E não é ficção ou fake news!)

Pesquisas apontaram que 14% da população britânica é sozinha e que, durante o ano de 2017, a partir de uma grande amostragem, 200 mil pessoas declararam não ter conversado com ninguém no último mês [da data da pesquisa]. Uma já ministra acumulará o cargo… ela tem 42 anos de idade e sua nomeação foi bastante ironizada nas redes sociais, por ser pessoa engajada nas políticas neoliberais. A acusação contra ela giraria em torno de como o ministério já nasceu sofrendo de “psicologismo” – minimizando o fator social da solidão, em termos de políticas públicas para os mais pobres.

Uma pesquisadora americana, chamada Amelia Worsley, estuda o conceito de solidão. Disse, em entrevista, que a noção de solidão foi de “sentimento” a “estado mental”. Seria uma palavra do século XVII em diante, e, inicialmente, significava estar em algum lugar perigoso, longe de sua aldeia e povo. Hoje a solidão é vista como um sintoma – do estilo de vida, do modo de ser e estar no século XXI.

Não falaria de solidão no Agachamento sem visitar, mais uma vez (e sempre!) o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (Aliás, sempre penso quando vejo, e leio, notícias da Inglaterra: e se Winnicott estivesse vivo??). Em 1958 Winnicott publicou o ensaio The capacity of being alone (A capacidade de estar só). No texto afirma que estar só é um aspecto saudável de nossa vida psíquica, é algo que revela maturidade do self. Ao afirmar isso, Winnicott positiva o fenômeno de separação da mãe: aprendemos a estar só a partir de nos afastarmos da mãe (ou adulto cuidador). Inicialmente, estou só na presença de alguém que me cuida. (É uma imagem bem bonita, à qual podemos associar a cena contemporânea, quero dizer, ao espaço do “entre-lugar” que a performance habita, preenche, esvazia…) (Bonito também porque Winnicott, em inglês, fala algo sobre “ser olhado” – e em português nós usamos mesmo essa expressão para o cuidar de crianças, não?).

No entanto, cotidianamente, na cidade de Belo Horizonte, observo um fenômeno que negativa o estar só… é o uso do celular e do tablet que os pais fazem, especialmente em almoços de domingo (vejo em um restaurante por quilo que frequento): para conseguirem almoçar (sic), deixam o bebê, e/ou a criança pequena, se entreterem com desenhos animados (e mais tarde, crianças um pouco maiores, jogam games)… Agir assim é não compartilhar o momento presente, da refeição no quilo. É como se a criança não devesse estar alí… e, diante do tablet, ela fica invisível para o jovem casal, mesmo quando a cadeirinha está pousada em cima da mesa do restaurante (é frequente, inclusive, esse gestus). Ou seja, não há situação ou contexto para que a criança esteja só-na-presença-de-alguém, nesses almoços de domingo que observo. E é provável que noutros momentos das mesmas famílias isso se repita: a invisibilidade da criança pequena e seu mergulho no que o celular e o tablet lhe oferecem.

Para Winnicott é a convivência, em sua concretude e em doses constantes, que nos leva à “experiência total”, cujo desdobramento é o “sentir-se real”. São noções muito profundas, que nos humanizam e dão sentido a nossa existência.

Quando as crianças não vivem, ao longo da pequena infância, um tipo de presença-na-ausência — estar só na companhia de alguém — que constitui a solidão como um valor e um modo de ser e estar no mundo, o que frequentemente acontece é ficarem tomados por ansiedade, pelo isolamento, e por uma espécie de imobilidade… E ansiedades e o sentimento de um vazio não compartilhado podem nos levar a uma “necessidade de preenchimento” – a qualquer custo! Obviamente são exemplos de “preenchimentos contemporâneos” o uso de celulares e tablets como “companhia”; comidas e bebidas; compras; brincadeiras mais ou menos compulsivas, etc.

Assim, o modo das relações adulto-criança mediadas por cadeirinhas – muito práticas e seguras, é verdade – mas uma tecnologia desenvolvida para não haver contato físico direto – e mediadas por equipamentos eletrônicos – que possuem grande eficácia de “entretenimento”, sim – mas é  tecnologia por meio da qual não há conversa, contação de histórias, cantigas ou trava-línguas, enfim: falta um adulto que fala comigo, em seu tom de voz próprio e humano. Assim a criança pode acabar se acostumando a isolar-se, sem viver situações de solidão compartilhada.

Minha “tese” aqui não demoniza a tecnologia; o argumento maior está nas relações sem mediações de equipamentos.

Relações encarnadas, com calor, bafo, suor, timbre, luz do olho no olho; e a palavra emitida com significatividade, o que equivale a dizer: ter vontade de conversar, de dizer algo a alguém. Meu argumento leva ao brincar relacional: ter companhia, ter com quem rir e chorar, e muito especialmente, habitar o corpo próprio. Textos meus falam bastante sobre isso.

Mas quero voltar ao fato de uma sociedade europeia e contemporânea ter precisado criar um “Ministério da Solidão”. Uma notícia bem triste, não acham? Penso ser algo conectado ao que estudiosos preconizaram, anunciaram desde os estudos sociais da Escola de Frankfurt, a partir da descoberta do inconsciente, desde a (im)possibilidade de diálogo nas guerras mundiais, e a existência do fenômeno do nazismo em pleno século XX… algo complexo e surpreendentemente perverso. Sim, retorno à psicanálise, de novo e de novo, para poder pensar em como lidar, eu mesma, com os jovens alunos da UFMG que estão se formando para serem professores de teatro.

Outro dia me foi perguntado, assim na lata: Faz quanto tempo que você não dá uma aula de teatro para crianças?

Foi um ataque pontiagudo, mas concordo que a pergunta tem sua razão de ser.

bandeira do loboEu falo de uma infância possível, que acontece no quintal (Quem habita o quintal hoje?). Eu advogo um trabalho no qual fazer teatro é sinônimo de “ser feliz” (Quem quer ver de fato as crianças livres, leves e soltas, sem necessariamente ir ao palco dar visibilidade à escola, ao projeto social, à ong?). Eu acredito em um jeito de ser e estar no mundo no qual os adultos se agacham para conversar com crianças (Quem de fato acha que desde bebê a criança compreende a palavra, a fala falante?).

Sim, estou em crise. Como todos, me parece. Mas minha crise implica em repensar modos e meios de trabalhar na direção de uma infância mais significativa, do ponto de vista da criança mesma.

Por vezes desanimo. Mas depois lembro de minha mãe (ausente porque já morreu, presente porque construímos isso, juntas, o sentimento de “sentir-me real”), e reanimo.

Bora ser feliz, gente! Bora perceber, e suportar, que a criança tenha tristezas também. Mas sempre amparada, pelo adulto, de modo presente-e-ausente – o que equivale a dizer: estaremos lá, se chamados; nos ausentaremos, quando percebermos que a criança já é capaz de estar só.

Mas para que tenhamos agudeza da percepção do modo de ser e estar da criança no mundo… será preciso desligar nossos próprios celulares e tablets, conectando na relação com a criança mesma. Ligação direta, sem intermediários. Simples assim.

Base Nacional Curricular Comum: entre o simplismo e a complexidade

Neste começo de maio, tive tempo para prestar atenção e me debruçar sobre o documento BNCC / Base Nacional Curricular Comum, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (a Base para o Ensino Médio entendo que ainda não foi publicada). Obviamente meu debruçamento (ler, pensar, comentar, criticar) é a partir do meu campo de atuação, estudo e conhecimento: as artes. Em especial o ensino do teatro.

O documento da Educação Infantil escolheu o caminho desenvolvimentista tradicional, e isso me parece um grande problema. Observem lá: é como se a criança até um ano e meio ou dois não imaginasse, não criasse, não fosse “performer de si” ainda… Quase tudo ficou inicialmente na base da imitação – e da dependência dos cuidados do adulto.

No campo do conhecimento das Artes, tal como posto no documento, a coisa toda se desenha a partir dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Impressão inicial: o texto circula entre um certo simplismo (de uma “neutralidade suspeita”) e alguma complexidade, o que parece dificultar e muito a percepção do professor jovem (e em formação) para chegar ao famigerado… “como eu faço?”. Digo isso pois acabo de ler, junto com alunos de uma das disciplinas da Licenciatura em teatro da UFMG, o quadro intitulado “Competências específicas de arte para o ensino fundamental” (p.156 do Documento). São nove itens e ali percebemos o desejo de “ir além” da já tão divulgada e trabalhada Abordagem Triangular para o ensino de arte, cujos verbos, grosso modo, se situariam na tríade fazer (arte), apreciar (arte), compreender historicamente (arte). Vemos grande destaque para as tecnologias, bem como a tentativa de inferir ou emplacar a importância das “artes integradas” (termo polêmico pois os mais experientes consideram que há risco da volta a uma prerrogativa generalista, tal como se viu nos cursos de formação em Educação Artística; as Licenciaturas nas áreas específicas de dança, teatro, artes visuais e música foram um avanço histórico durante o século XX).

Não quero, aqui, agir de modo maniqueísta afirmando que o documento não presta porque foi homologado durante o governo Temer – vejo muita gente fazendo isso. Sei que as coisas estavam já em andamento no governo Dilma. Sei também que o governo Dilma encontrava-se em um caminho já adiantado de construir “parecerias público-privadas” no âmbito da educação, inclusive na discussão sobre currículo (para saber mais acesse o excelente artigo intitulado Base Nacional Curricular Comum: Novas formas de sociabilidade produzindo sentidos para educação, da pesquisadora Elizabeth Macedo / Revista E-curriculum, out/dez 2014).

Quero escrever de modo justo, sincero e coerente com meu pensamento sobre o ensino de arte – lugar que habito desde 1982, quando comecei de modo amador e ingênuo a dar aulas de arte na Casa do Ventoforte. Depois disso trabalhei 16 anos na EMIA-SP (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) e venho publicando textos acadêmicos e postagens por aqui sobre o que penso e como penso os temas relevantes do brincar, do criar, do fazer arte, do ensinar teatro, etc.

Feita a introdução acima… vamos “ao que interessa”!

O que é próprio de uma neutralidade suspeita:

Na intenção de deixar as coisas abertas para as “culturas locais”, ou seja, admitindo que o Brasil é grande e múltiplo, a discursividade tendeu a ser técnica e impessoal. E como falar das possíveis experiências com arte de crianças e jovens na chave da impessoalidade? Por isso, tem vezes que o texto parece fazer parte de um “folder de papel couché” de alguma escola, Ong ou clube!…

O que é interessante e remete a um grau de complexidade:

Gosto especialmente de dizeres introdutórios, nos quais a proposta mostra e constrói “dimensões do conhecimento” em arte (a partir da página 152). São as dimensões propostas: criação / crítica / estesia / expressão / fruição / reflexão. Cada dimensão está lá definida… são filosóficas, por vezes profundas… mas, como um jovem educador as lê?

Teria o estudante das Licenciaturas pelo Brasil afora incorporado em si mesmo essas dimensões?

E como que esse discurso sofisticado transforma-se em aulas, eventos, atos performativos, acontecimentos e instalações? (Um detalhe lá que gosto: a expressão “movimento dançado”!)

Agora qual, por exemplo, a possiblidade concreta de crítica da criança recém-saída da Educação Infantil, ou do seio familiar (se não frequentou a escola até a chegada do Ensino Fundamental)?

Tudo isso certamente desembocará na necessidade da [super famigerada] formação continuada. Ainda assim causa estranheza a discursividade por vezes genérica, daí simplista, versus momentos sofisticados, por vezes complexos e recheados de abstrações, de modo que o artista educador precisará (como sempre foi!) “tirar a bunda da cadeira” para corporeificar a atitude de professor pesquisador. Aí, na concretude da vida, no cotidiano escolar, tudo desembocará não ainda na formação continuada, mas antes no contrato trabalhista: na necessidade de horas dos dias para preparar aula e pesquisar; ficar mais culto; adquirir gosto e estesias!

Assim surgiu em mim, lendo o documento, a imagem da torneira espanada… ou do dilema do ovo-e-da-galinha… Quem pelo Brasil afora está escolhendo cursar as Licenciaturas em arte? Como chegam? As escolhas são interessadas ou interesseiras? (Escolha interessada = querer ensinar arte e conviver nesse meio; escolha interesseira = o curso que minha nota no Sisu deu pra pegar).

Na televisão a propaganda sobre a Base Nacional Curricular Comum quer nos convencer que o mote é o direito de todos à mesma formação, do Oiapoque ao Chuí. (Viram a campanha?) E nas imagens todos invariavelmente vão para a escola felizes e contentes, bem uniformizados e com seus materiais reluzentes.

(Passado o auge das ocupações das escolas secundaristas pelo Brasil afora, o que restou da experiência de autonomia, alteridade e protagonismo vivida pelos estudantes mesmos?)

Que distância entre o documento BNCC, a propaganda da TV, o tempo das ocupações e a realidade mesma das escolas brasileiras!

Por isso que o discurso técnico, eficiente, evolutivo, limpinho, super revisado, não parece fazer parte da paisagem performativa dos mundos de vida da criança e do jovem brasileiros.

Em um momento pequenininho se escreveu, na página 157: “Dessa maneira, é importante que nas quatro linguagens da Arte – integradas pelas seis dimensões do conhecimento artístico – as experiências e vivências artísticas estejam centradas nos interesses das crianças e nas culturas infantis”.

Putz!

Como chegar lá?

O que é para um jovem de seus 20 ou 23 anos, estudante de Licenciatura em teatro, dança, música ou artes visuais, fazer foco nas culturas infantis? Onde residem as concretudes? E como faço para captar os mundos de vida sem ser prescritivo ou pre-conceituoso?

Os dilemas vão se adensando.

Mostro mais um — a definição de o que é teatro (na página 154):

“O Teatro instaura a experiência artística multissensorial de encontro com o outro em performance. Nessa experiência, o corpo é o lócus de criação ficcional de tempos, espaços e sujeitos distintos de si próprios, por meio do verbal, não verbal e da ação física. Os processos de criação teatral passam por situações de criação coletiva e colaborativa, por intermédio de jogos, improvisações, atuações e encenações, caracterizados pela interação entre atuantes e espectadores”.

Putz putz putz!

Como e por que escolher o uso da tão diversa e polêmica palavra anglo saxônica “performance” no parágrafo que irá definir o teatro?

E foi foi foi… e acabou na situação palco-plateia, atuantes-e-espectadores…!

Estaria mesmo nesse modo de dizer o caminho da diversidade, do fim da pecinha bem feita como ícone da aula de teatro, do fim da habilidade corporal e vocal nas primeiras filas (e os “outros” no fundão!?), do fim da máscara de coelho feita de cartolina, do fim do lobo mau agora bonzinho nas versões politicamente corretas das fábulas e das canções tolamente amenizadas?

A tarefa de criar um documento nacional, então, se mostrou inglória.

Quanto mais consultores, revisores e especialistas mexem no tacho, mais abstrações e discursos do não-dito! A saber: qual noção de educação se está veiculando? E de infância e juventude? E o que é a especificidade do ato de ensinar arte para crianças e jovens brasileiros?

Não sei se todos sabem que o empresário e bispo Edir Macedo está levando, nesse exato momento, primeiro semestre do ano de 2018, o longa-metragem sobre sua vida para as pessoas em privação de liberdade (em presídios) de todo o Brasil. Passa o filme e serve pipoca. Também em tribos indígenas no Amazonas, em comunidades ribeirinhas, em estádios de futebol; é o projeto “Cinema Solidário” (sic). Também estão dando ingressos de graça na frente de shopping em Belo Horizonte… Um mega-projeto de formação de espectadores em massa, gratuito e com viés evangélico — em parceria público-privada.

É isso que está acontecendo enquanto se discute, em gabinete, qual a melhor formação para crianças e jovens naquele mesmo país.

1 - #macaco1

 

 

 

Dez horas da noite do dia 15 de abril de 2018

Guerra e infância não combinam

Recebi neste domingo de manhã (15 de abril de 2018) uma convocação pelo whatsapp. Vai acontecer um “cobertor de orações” para as pessoas da Síria… Uma mensagem religiosa, bonita e poética, algo que na minha língua pode se chamar

um ato performativo.

Como meu deus é fraco, na hora da convocação (22:00 hs hoje no Brasil) vou postar este texto no site-blog Agachamento.

Sou de uma geração cuja infância aconteceu durante o início do golpe militar de 1964 no Brasil. Então, mais tarde, adulta jovem, percebi que ditadura e igreja combinam… talvez daí meu deus ser fraco.

Depois aconteceu a possibilidade da Teologia da Libertação, e me tornei leitora também de Paulo Freire, mas, meu deus do céu, o que faremos agora?

Minha arma é flower-power; o que percebo poder fazer, no momento, é uma espécie de oração: escrever a favor da infância, no lugar que venho construindo como possível ação política e artivista (este site-blog).

Também sou de uma infância que escutou o grupo “Secos & Molhados”, e em um L.P. super alegre no todo há lá o poema de Vinícus de Moraes musicado — e apenas Ney Matogrosso canta, em uma parte do disco, com muita muita tristeza:

Pensem nas crianças / mudas telepáticas / Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa / da Rosa de Hiroshima / a anti-rosa atômica…

Sou de uma geração que estudou, em um curso de Psicologia um pouco mais à esquerda na época, que a Psicanálise e a arte moderna e contemporânea trazem coisas em comum… seja a noção de inconsciente, seja a possibilidade de pensar sem agir reativamente (acting out): por meio da conversa e da criação, se pensaria a maldade, a perversidade, e se poderia construir/propor um mundo melhor, depois das duas guerras mundiais. Assim falou Freud e muitos dos psicanalistas posteriores a ele; assim agiram uma porção de artistas “burgueses”.

Pois é assim que o deus se mostra fraco.

Já fizeram muitos longa-metragens sobre as novas guerras, pós-segunda guerra mundial. Bósnia é um grande terrível exemplo; fizeram um filme que misturava ficção e dados documentais sobre os filhos nascidos das mulheres estupradas. E foram muitas mulheres que tiveram muitos filhos nessa condição.

É próprio dos humanos que as crianças sejam filhotes dependentes, por um período muito longo. É próprio dos humanos terem no mínimo duas faces, frente a suas crianças…

Talvez esse o mais forte ensinamento da Psicanálise: as tais pulsões. Somos deus e o diabo. Somos as forças do bem e do mal, e do mau. (Dois a um?)

Sim, o deus enfraquece a cada maldade que se vê e sente…

É algo que penso quando vejo pela televisão as imagens da guerra mais divulgada agora: a guerra na Síria. É provavelmente um pensamento um pouco infantil, porque a guerra fragiliza também minha própria ação profissional: ensinar teatro, ensinar jovens a serem professores de teatro. Fragiliza porque o que as crianças sírias durante a guerra precisam é abrigo, comida e adultos saudáveis – fazer teatro fica tão “supérfluo”!

Eu também tenho um pensamento romântico, quando vejo guerras na televisão, que é “entrar para o Médicos sem Fronteiras” (sou psicóloga). Um dia fui de fato na página deles na internet, ver como é. Não é nada romântico, e seria impossível eu fazer teatro de sombras ou teatro de bonecos: a necessidade é extremamente técnica, de fato comportamental – sobre-viver! Não tenho as competências necessárias, foi o que concluí rapidamente (nem idade, nem inglês fluente, não a ponto de poder fazer sobreviver).

Escrevo então.

O pensamento permanece: o que eu posso fazer sobre isso?

A criança em mim pergunta:

— O que eu faço com isso?

A adulta replica:

— Como tornar meu cotidiano e especialmente minha profissão um ato político? (Eu teria que brincar menos?)

Sou um adulto que brinca. Brinco também porque considero que meus alunos na graduação de teatro hoje brincaram muito pouco. Ser brincante seria “bom modelo”… Percebo a imaginação em baixa.

No jogo do “”Dois a Um para o mau”, imaginar foi associado a diabruras, por muitas e muitas famílias… Como desfazer essa maldição?

Agora me sinto um pouco melhor (ou me iludi?) ao ver que, ao brincar aos 56 anos de idade, estou dizendo algo político sim:

humor/amor.

Ter bom humor com as crianças que nascem. Acolhimento. Pertença. Fluxo de continuidade: ser um adulto que percebe a dependência absoluta da criança pequena… Ser um adulto que suporta o desejo de independência da criança maior.

Muitas dessas “palavras de ordem” aprendi lendo os escritos do psicanalista Winnicott. Ele trabalhou na evacuação das crianças em Londres: as crianças, na segunda guerra mundial, eram levadas para longe dos pais e da sua cidade de origem: as crianças foram protegidas. Era uma política pública, e Winnicott estava ali, fazendo o holding (um conceito dele, traduzido por segurar). Segurando a onda.

Um pensamento mais adulto que me vem: inaugurar um projeto de extensão com refugiados. Depois, ou logo em seguida, penso na burocracia que precisaria enfrentar, o desânimo começa com a visão de um terminal de computador e o preenchimento de formulários; penso na responsabilidade, e também na existência de “haters”. Sim, os “haters”: aqueles que odeiam e combatem algo.

É o mundo que está absolutamente infantilizado e maniqueizado, cindido em duas posições (mesquinhas).

Gostaria de fazer algo pelas crianças venezuelanas em Roraima. É um outro pensamento ou plano que acontece pelo apelo midiático: reportagens para “dar ibope” – nunca vi em canal nenhum uma cobertura completa mesmo, que nos dissesse como estão as pessoas?, quem são as pessoas?, e como percebem os brasileiros dalí a tragédia dos refugiados. Fecham a praça com tapumes (viram isso?) e a praça ganha um muro ou fronteira, e ali fica a Venezuela miniaturizada (mas não vemos por dentro, de fato).

Varíola.

Sou de uma geração que tomou vacina contra varíola e ganhou uma grande ferida no lugar da vacina, e depois uma cicatriz. Sou de uma geração que ouviu, em seguida, no banco escolar: “a varíola foi erradicada”. Isso podia até ser tema de redação de vestibular para nós.

Relendo o que escrevi até agora, positivo o fato de meu deus ser fraco, porque se fosse forte, eu acreditaria no Apocalipse. (Na minha descrença eu penso – crentes devem ser assim: se o mundo vai mesmo acabar, o que eu poderia fazer? Sento na poltrona e assisto a novela da TV Record de mesmo nome).

Aliás o Apocalipse Now é outro filme que valeria muito a pena rever e re-pensar sobre ele, a partir dele. Um Marlon Brando nada bonitão nem glamouroso (obeso), e o cinema gastando o dinheiro da indústria cultural para, de novo e sempre, tentar retratar algo como só o cinema faz,  e de novo se tenta compreender o que é o humano. É um filme paradoxalmente interessante, trash e contundente.

Vou acabar por aqui.

Pensem nas meninas cegas inexatas.

Minha prece, minha contribuição ao “cobertor de orações” está, mora e habita o lugar da arte. Um espaço, um território, que se inicia no recém-nascido. Não é querer a habilidade ou competência para aprender cantar afinado, mas sim a possibilidade de gritar!, como sinônimo de estar vivo, de sentir prazer e de sentir dor.

Gritar para ser ouvido.

Ouçam os recém-nascidos, adultos!,

mas oh não se esqueçam da Rosa da Rosa…

… da Maria, do Antonio, do Heitor e do Ênio, todas as crianças do mundo.

Elas merecem um mundo melhor.

Amém

(dedico esta postagem ao recém-nascido brasileiro Enzo de Jesus Pessoa)

Viva o desmame!

Sobre a amamentação tardia (nas culturas urbanas)

Tenho percebido, na nova geração de mães, uma das tendências ser a amamentação “até sempre”… ou seja, até o menino ou a menina “quiserem”…

Todos sabem que meus pés que se agacham caminham e dançam e pulam entre a Fenomenologia e a Psicanálise. Para pensar a amamentação prolongada, não dou conta de um pé só — escrever com o pé apenas na Fenomenologia: porque a descrição do que vejo não dá conta, preciso de alguma teoria, para amaciar a discursividade das mães… sim, a teoria pode amaciar!

Nem sempre falar de Psicanálise e das descobertas freudianas (em diante) é endurecimento, sabiam?

Pois o que é importante saber, pensar, e refletir é sobre a “oralidade”. Ou o que se denomina “a fase oral” dos bebês… a ela se seguirão outras, e, para que a inserção no mundo cultural seja suficientemente forte e atraente, os adultos precisam fazer algo em nome de “outra coisa” que não seja o prazer oral.

Prazer oral máster: mamar-na-mamãe!

Prazeres orais maravilhosos também: saber falar! Comer! Chupar sorvete! Morder com força o amigo da creche… (depois levo bronca, e percebo que ser canibal não é comum nas culturas urbanas contemporâneas – mas eu mordi por amor!)

Para as mães que estão amando amamentar tardiamente, falta um pouco de “outros interesses” para elas e nelas também: o prazer mais proibitivo, que é separar-se do filho. Ter seu corpo de volta. Viver sua sexualidade adulta, de todas as maneiras possíveis que sua cultura e modo de ser e estar abarcam. Saber falar! Comer com amigas, amigos, maridos, maridas! Tomar um sorvete tesudo. Morder seu amante.

Pois então, é nessa chave que a Psicanálise é uma flower power (um poder de flor). O que parece ser uma escuta do filho (estar ali para ele, sempre, e deixa-lo mamar no peito) esconde uma escuta da mãe apenas: amo tanto meu filhinho!, que queria para provar isso dar uma parte do meu corpo para ele, a melhor delas, meus seios.

Dos seios jorram um líquido sagrado.

Sim, é fato, mas a sacralidade da dupla mãe-bebê precisa ser dessacralizada, profanada, até mesmo corrompida, para que o bebê se realize como criança humana. Para que fale com os outros, para que coma a comida do mundo, para que descubra a riqueza dos sorvetes, picolés, casquinhas, eskibons, chupe-chupes… Ui! Por que não me disseram isso antes?, vai pensar e sentir o bebê tardio…

Sim, a amamentação prolongada faz da criança humana um bebê tardio.

E os bebês são dependentes e exigentes: sugam, incorporam, mordem e dominam o líquido sagrado e sua fonte.

Assim chego ao cerne de fato desta postagem: as relações de poder. (Algo mais além da Fenomenologia e da Psicanálise! Leiam Foucault)

Trata-se de uma relação de poder inicial, entre mãe e bebê.

Como e por que a mãe não quereria inserir seu filho na cultura compartilhada, onde não há dois seios fartos e amorosos para ele acessar quando encontrar impasses, tristezas e frustrações?

arco e flexaPenso ser este o verdadeiro dilema. O prazer de doar o líquido sagrado deve cessar. Um dever da mãe adulta e urbana (não estou tematizando a cultura indígena ou ancestral!). Aliás nas culturas ancestrais aos cinco anos o menino pesca pequenos peixes com sua pequena lança, a menina faz pequenos potes de cerâmica e cestos!

“Entregar” seu filho pequeno para a cuidadora, para a professora da creche, para o pai, para o tio ou padrinho…! Para as avós! “Entregar” precisaria ser um verbo irmão do “Amamentar”! Seria uma ação correlata.

O apaixonamento pela criança que geramos é complicado. Por vezes dificulta um novo apaixonamento pelo companheiro ou companheira, e mais, por “nós mesmas”(olhar-se no espelho e contentar-se com a retomada do corpo de mulher, versus o corpo de mãe que amamenta).

E agora José?

E agora Maria?

E agora Jesus?

(Qual o nome do seu bebê?)

Pois então o des-mame (tchau mammie!) é um exercício de des-poder da mãe que amou amamentar seu filhinho. Que ele se torne José, Maria e Jesus de si mesmo (rs, me desculpem os católicos pelas imagens, mas há que profanar o leite sagrado). É essa a nova habilidade que a mãe que amou amamentar precisa desenvolver – ela mesma crescer, e dar um passo muito importante, que é perceber que seu filho não é “seu” filho…

Como fazê-lo?

O negócio é reinventar a rotina, a tal ponto que aqueles “outros prazeres” nos façam esquecer de como era bom sugar, incorporar, morder e dominar (parte da) mamãe… E não será pelo domínio do outro ou do mundo: será pelo domínio de si. Pelo cuidar de si.

Pelo desenho, pela construção com massinha, argila, madeira! Pela capacidade de fazer-e-comer brigadeiros. Pela possiblidade de ver um filme no cinema (que delícia!).

Com tudo isso quis dizer: a fórmula para des-mamar é o encantamento pelo mundo, tal qual ele se apresenta. No entanto, quando quem me apresenta ao mundo é basicamente minha mãe… ela tem a força! Por isso as crianças precisam de um leque de possibilidades de outros cuidadores, e por isso a creche é tão importante – não apenas para a mãe trabalhadora, mas para todas as crianças: do ponto de vista delas é libertador ter vida social fora do pequeno núcleo inicial. Assim, a mãe que estava cem por cento disponível poderá ser sim mãe trabalhadora: criadora de cultura adulta, ganhadora de seu dinheiro, e quiçá um modelo de saúde frente aos filhos, nas culturas urbanas.

Que venha o desmame!