Vai ser no dia de Cosme e Damião!

Fui mais uma vez chamada a falar para professores de arte, gestores e colaboradores da Secretaria de Cultura de São Paulo, no eixo de trabalho da Iniciação Artística.

Lembro que da última vez que falei para os artistas educadores do PIÁ – Projeto de Iniciação Artística, comentei ao final que eles “já sabiam muito de mim”, e que talvez pudessem se beneficiar de falas de outros. Salvo engano isso foi em 2015.

Hoje, quatro anos depois, penso que vale, sim, a pena conversar novamente com eles.

Primeiro o tempo passa e muitos dos artistas se renovam, não são selecionados novamente, ou partem para outros desafios… Então, quem vai assistir a mesa ou participará da roda de conversa não necessariamente esteve no encontro anterior (do PIÁ). Nem provavelmente sabe de mim como professora da EMIA, uma vez que trabalhei por lá entre 1989-2001 e entre 2003-2008.

Eu tenho um desejo “secreto”, de que a compreensão das minhas propostas pudesse levar as artes e o ensino de arte para um “outro lugar”. Um lugar mais perto da praia, da areia e do mar; do sol e do banho de chuva; um lugar que alguns visitam apenas nas férias; mas outros, nunca sequer foram lá.

Penso estar falando de um lugar que não se chama escola. Ou que poderia se chamar escola, aquela da etimologia: a palavra escola possui o significado etimológico de “tempo livre”.

O saber das artes deveria ser de tempo e espaço livre, de férias dentro da vida escolar, de prazer! mesmo que realizando tarefas e lições de casa. Prazer de construir coisas com toquinhos de madeira; cantarolar sem pre-ocupar se desafina, amor… saiba que isto em mim provoca imensa dor….

É que no fundo do peito dos desafinados, também bate um coração!

Tum tum tum tum tum……..

Falei do lugar e do tempo – quero falar dos corpos e das ações.

Os corpos de crianças e jovens que estivessem vivendo, experimentando a arte como férias ou tempo livre [mesmo que dentro da escola], seriam corpos vivos, plásticos, polimorfos, bonitos, solidários, mas também possivelmente violentos em suas ideias e simbolismos, quando retratam [algumas das] realidades vividas – e também as inventadas. Enfim, humanas, demasiadamente humanas. (Quem já foi ver o filme Bacurau?)

Escrevendo assim tudo flui, e parece tão simples o “deixar ser”!

No entanto existe um contrafluxo tão forte e poderoso, tão solidamente conservador, que não admitiria, jamais, férias durante as aulas! O contrafluxo reside na atitude adulta disciplinar, ta no cadeado da quadra, ta no boletim e na sala de instrumentos que nunca é aberta “porque os meninos vão quebrar ou roubar”… Vimos isso durante as ocupações de 2015: materiais preciosos guardados, escondidos, porque escola num era lugar de pingue-pongue, nem de comer bem… (merendas estragaram em dispensas trancadas).

Não sei bem porque mas vou escrevendo e outras imagens de bossa-nova me pegam:

vou te contar, seus olhos já não sabem ver… coisas que só o coração pode entender…

No caminho de retrocesso contra as ideias progressistas do Paulo Freire, sabemos que os tecnocratas não querem coração! E que acham “coração” e “belezura” perda de tempo — e pior: “doutrinação”… Sim, sim, sejamos pelo amor livre! O amor do tempo desperdiçado, o amor não correspondido, o beijo não beijado, tudo isso e muito mais: vira poesia, conto, fanzine, rap e num sei o quê mais…

… meninas grávidas de um liquidificador! (que escândalo, Marina!)

Arte é isso, um escândalo: como a abertura do último filme do Almodovar, um deus do cinema que permitiu-se falar da tristeza e da velhice, e da desistência: criando, ele mesmo, uma estética anti-almodovariana…! (É um escândalo de tão bonito, plástico e simples – vale a pena ver, se não viram; e vale também a pena ver de novo…) Quando fizerem isso, entrem na cozinha vermelha dele e tomem milquesheique.

Então, meu desejo “secreto” era de que os adultos artistas que querem ensinar arte parassem de ensinar arte como linguagem. Nesse dia eles iriam para aquele lugar – não gente, não “aquele” lugar, mas a cozinha vermelha do Almodovar! – porque já há algum tempo estou propondo a arte como um lugar: arte é âmbito. Um lugar humano, que já habitamos, desde a barriga da mamãe… sons, luzes, gases, vozes, coração coração coração – troca, pulso, vida, e morte também.

Ação de Cores-Nomes, voltando aos músicos profissionais brasileiros (um disco do Caetano). Mas estou aqui querendo é falar com os artistas profissionais da educação em arte. Qual o seu projeto? Como você cria sua aula antes de chegar na escola? Você conseguiria habitar a escola como tempo livre?

Sei das dificuldades, das amarras, da hora-aula surrada e mal paga…

O que vamos fazer sobre isso?

Esse é também meu desejo secreto. De que a partir da conversa com outras pessoas, de um telefone sem fio com aqueles que viveram noutros tempos e espaços (gente, houve um tempo antes dos Editais!) os alunos se formando professores de arte se levantassem. Sim, um levante. Sair da cadeira, negar a fileira, pode cantar desafinado e ser feliz – ser feliz junto: proporcionar às crianças praia dentro da classe, picolé de risada ou de lágrima, churro de bilhetinhos de vida (e morte).

E que no levante, pudéssemos trabalhar arte como campo possível do conhecimento daquilo que não conhece a si mesmo (o campo da arte, para alguns psicanalistas); doar conhecimento… desconhecer o já feito, o já sabido… tendo por paga bons salários, reconhecimento em gesto e palavra – e não pelas “apresentaçõeszinhas”: a comunidade adulta perceberia o valor e a potência das crianças e jovens habitarem seus próprios corpos. Simples assim.

1 - 1 - Convite

Sobre a palavra estimação

Implico muito com a substituição da expressão “animal de estimação” por pet. Não sei bem quando foi que isso aconteceu… certamente tem a ver com a explosão das lojas chamadas Pet Shop, e a “globalização”!, e as redes sociais… Enfim, nesse assunto, eu sou conservadora: gosto de dizer “animal de estimação”. E acho que sei argumentar porque.

É algo que conversa com a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Trata-se da escolha de um objeto do cotidiano que “representa” a relação com a mãe, ou com as figuras maternas (adultos cuidadores), e a relação com a casa, com familiaridade, com um tipo de sensação de presença – mesmo na ausência. Como pessoa de teatro posso ousar dizer que o objeto escolhido não representa o conforto e a segurança… ele é. E o psicanalista diz em seus livros que a “mãe comum” sabe disso (ou seja, não precisa estudar teoria para confortar uma criança) e por isso respeita, cuida, não retira bruscamente para lavar, não o substitui de modo fútil ou corriqueiro… Estamos falando sobre o famigerado ursinho de pelúcia, ou o cobertor, ou a fralda, enfim, paninhos e brinquedos molinhos; mas Winnicott observa que há outros apegos, inclusive a pedaços de madeira, peças soltas de um brinquedo, coisas “duras” também. A isso – o apego a uma coisa do mundo, na tenra infância – ele nomeou fenômeno transicional. Ele transita: entre a mãe e o bebê, entre o que a psicanálise gosta de chamar “mundo interno” e as coisas e pessoas do mundo compartilhado por todos, entre sensações e concretudes. Ele simboliza. Ele ganha significações dadas pela mãe também – que percebe que se deixar o paninho por perto a criança vai usá-lo; o uso do objeto também é um conceito na psicanálise, e o uso criativo do objeto é a saúde psíquica dos humanos, seja a idade que for.

Isso posto podemos falar sobre o uso das ideias teóricas de Winnicott pela indústria cultural: ele mesmo, ainda vivo, citou o cobertor do Linus, nas tirinhas e gibis Peanuts. As ideias teóricas sobre o ato criativo, no caso do Winnicott, vieram de seus pacientes: da observação viva e atenta, do convívio, da comiseração… Seu último livro apresenta a seguinte dedicatória:

A meus pacientes, que pagaram para me ensinar.

O fenômeno transicional hoje, ao menos na nossa língua, entre estudiosos brasileiros, já se chama transicionalidade; e os objetos escolhidos, os objetos transicionais. Winnicott em seus escritos diz que a própria criança abdica do objeto, quando cresce e ganha novos interesses, quando matura.

Quem não estuda psicanálise diz muitas vezes que o objeto que a criança escolheu é de estimação.

Cheguei no ponto: sobre dizer “animal de estimação” – e não “pet”.

Pelo menos comigo faz muito mais sentido… e consigo ver o urso de pelúcia, o cobertor, a fralda, o toco de madeira, etc e sua transicionalidade potencializados nos humanos que escolhem ter animais de estimação. Fazendo o paralelo: animais de apego; animais que transitam: entre nosso “dentro” e nosso “fora”, ou seja, nossa pessoalidade e o mundo compartilhado; penso especialmente no animal que vive por muitos anos, a tal ponto que ele é testemunha de nosso percurso, de nossa vida, de nossos percalços, escolhas, dificuldades, mudanças, e tudo o mais que acontece, no passar de uma década ou duas.

No dia 1 de julho o gato Jerry Lewis morreu em um apartamento da cidade de São Paulo.

Hoje eu moro em Belo Horizonte. Convivi por dez anos com o gato Jerry. Depois, passei no concurso da UFMG e ele ficou em São Paulo com meu filho. Éramos um núcleo familiar de três: eu, meu filho, o gato Jerry; eu migrei; o Jonas e o Jerry foram morar em um apartamento menor que o nosso anterior, e em um outro bairro também. Eles passaram a ser um núcleo familiar de dois. Um tempo depois o gato Jerry tem, como felino, um enorme desafio: ir morar com outros dois gatos, que eram da namorada do Jonas – e assim eles se tornaram um núcleo familiar de dois adultos jovens e três gatos. Deu cinco.

Agora quatro, na ausência do Jerry.

O grau de tristeza que nos toma quando um animal de estimação – não um pet – morre, depois de dezessete anos de vida em comum, só é compreendido por pares: pessoas que também tem ou tiveram animais de estimação – não pets – e perceberam, de modo encarnado (não teórico) o grau de transicionalidade que existe entre humanos e animais. Caso contrário somos julgados e parecemos crianças choronas e despolitizadas, algo como: “Por que se dedicar a um bicho desse modo? E as crianças miseráveis, por que não ajuda-las?” e assim por diante.

Não foi o humano que se dedicou ao bicho.

Foi o bicho que se dedicou ao humano.

O gato Jerry Lewis talvez percebeu que seu dono/companheiro/ser humano que ele testemunhava, ao fazer 34 anos, podia abrir mão do fenômeno transicional que ele representava: abrir mão do papel que o gato tinha em nossas vidas, chegado em primeiro lugar para animar outro gato, que estava ficando sedentário e desinteressado: pegamos o gato Jerry para viver, ou re-viver o gato Tom.

Dito assim parece talvez um daqueles filmes edificantes que mostram um cão e um menino. Mas os filmes fazem tanto sucesso e a gente chora tanto durante sua exibição justamente porque sabemos do que se trata. Chorar no cinema é fazer catarse – outro conceito da teoria do teatro, também emprestado pela psicanálise.

Esta postagem hoje quer ser catártica também: adeus, gato Jerry. Você foi um elo fundamental entre o Jonas e eu, entre o Tom e os humanos, entre racionalidade humana e instinto felino.

Que morte bonita que você nos reservou.

jerry lewis

Papelão ou tecnologia?

No último fim de semana (dias 15 e 16 de junho) assisti a dois trabalhos teatrais voltados para crianças: João de Barros, solo de Charles Valadares, e #Mergulho, um espetáculo para crianças pequenas, que faz uso de tecnologia para narrar uma história, apresentada por Sandra Coelho e Leandro Maman. O primeiro estava em cartaz por um único dia, no Espaço do Conhecimento da UFMG, e era gratuito; o segundo ficou em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, grande sucesso de público, com ingressos esgotados, semana a semana, com facilidade.

O contraste entre os dois trabalhos: um baseado fortemente no uso de materiais não-estruturados (aquilo a que nomeio o “brinquedo-sucata”) e outro com forte apelo plástico e visual, pelo uso de tecnologia em cena.

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#Mergulho

Outra diferença que aponto é o fato do trabalho em cartaz no CCBB-BH anunciar, de antemão, ser uma experiência própria para crianças pequenas: “teatro para crianças de 1 a 6 anos”. O leitor frequente das postagens do Agachamento sabe o que penso sobre o “teatro para bebês”… mas fui lá conferir. Dessa vez, me surpreendi, no bom sentido. E posso também revelar que talvez meu julgamento fosse parcial, ou não-isento, em relação ao João de Barros — Charles foi meu orientando de mestrado, e pesquisou justamente este trabalho… Mas penso que são estéticas incomparáveis.

Os trabalhos são incomparáveis porque um remete a uma espécie de infância atemporal, poderíamos até dizer “ancestral” – enquanto que o outro situa a infância de hoje, de uma faixa de espectadores: aqueles que tem acesso ao uso das tecnologias. Deveriam ser todas as crianças… mas sabemos que não é o caso, ao menos no Brasil. Do mesmo modo que os espectadores do #Mergulho pagavam, se maiores de 2 anos de idade, 15 reais o ingresso (30 reais o adulto, somando 45 reais na dupla adulto-criança).

#Mergulho aposta, então, em um palco materializado tal qual um grande tablet; para isso, o chão é constituído por um lugar: espacialidade tecnológica de projeção. Antes de começar, o ator pede aos pais que as crianças não adentrem o dispositivo. Espectadores crianças com um adulto acompanhante entravam antes, e quando o resto dos adultos entra, a organização cênica ao redor do palco-tablet já está dada – procedimento feito de modo muito cuidadoso, devo dizer.

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João de Barros

Em João de Barros também se constrói, diante do espectador, o dispositivo cênico: uma lona que o ator abre, passo a passo, já narrando/anunciando uma viagem ou navegação – cuja “tecnologia” será a imaginação de cada um, acordada pela corporalidade e pela discursividade do ator, e pela invenção incrível da trilha/paisagem sonora.

As noções de infância de cada trabalho vão ficando claras, ao longo das suas encenações. #Mergulho pressupõe uma mente aberta e plástica mas que requer calma e simplicidade, bem como delimitação e contorno dados por adultos; João de Barros é mais barulhento, com sua trilha de marés e entrechos de sonoridades recheadas de mistério e ação. A trilha neste trabalho é essencial para que as imaginações possam aderir à narrativa do ator. Em #Mergulho, mais que a sonoridade o foco é a visualidade, bem como “a magia” de fazer aparecer as projeções, encarnada numa luva amarela usada pelo ator.

A simplicidade que #Mergulho traz está na narrativa: o ator é engolido por uma baleia, a atriz deve salvá-lo, com ajuda dos espectadores (que devem permanecer ao redor do dispositivo-tablet – apenas a uma criança é permitida a entrada, pisar naquele chão, em um determinado momento). Já João de Barros chama as crianças para encenar uma espécie de epílogo, e o dispositivo-lona é “profanado” pelo uso brincante dos corpos de não-atores de todas as idades…

Também o desenho do “para quem” é aquele teatro difere nos dois trabalhos; #Mergulho, ao menos nesta temporada num centro cultural gerido por um banco, cobra ingresso e revela espectadores sofisticados e que compreendem (mesmo na mais tenra idade!) a linguagem do tablet e dos jogos eletrônicos criados por adultos para crianças pequenas; João de Barros, por sua vez, ao remeter aos quintais, fala com todos que tiveram infâncias de brincadeiras de pés descalços. Ou seja, pode não falar com aqueles que não se despem facilmente (e que são vestidos bem limpinhos por suas babás rs) nem brincam com “lixo limpo” (rolinhos de papel higiênico, tampinhas de garrafa, potinhos de iogurte…).

No final, #Mergulho traz mais uma sofisticação: cada pessoa, pequena ou grande, ganha um álbum de colorir, muito bonitinho e bem editado.

No final de João de Barros, pessoas pequenas e grandes fazem teatro por meio da condução do ator: brincam junto, espacializam e corporificam suas imaginações – e levam, como lembrancinha, a memória do trabalho mesmo.

No final de minha postagem, repenso meus pre-conceitos sobre o teatro para bebês, por meio do respeito e da delicadeza que o casal de atores de #Mergulho revelaram. Mas pergunto, tal qual um enigma ou desafio ao leitor: papelão ou tecnologia?

 

 

Porque não fazer parte da Semana Mundial do Brincar

Semana mundial do brincar

Estamos na semana mundial do brincar. Ao mesmo tempo acabei de voltar da conferência das geografias da infância, juventude e famílias como escrevi na postagem anterior. E também estou me empenhando em escrever meu segundo projeto de pos-doutoramento, que irá atualizar as ideias do livro O brinquedo-sucata e a criança. Tudo junto misturado…!

Tanto se diz sobre a criança e o brincar. Quero muito retomar e reconectar com um parágrafo escrito por Walter Benjamin, um importante filósofo alemão do século XX que escreveu coisas muito interessantes sobre a infância. O texto com o qual volto a conversar, não por acaso é a epígrafe que escolhi para a abertura do livro do Brinquedo-sucata, diz assim:

Meditar com pedantismo sobre a produção de objetos – material ilustrado, brinquedos ou livros – que devem servir às crianças é insensato. Desde o Iluminismo isto é uma das mais rançosas especulações dos pedagogos. A sua fixação pela psicologia impede-os de perceber que a Terra está repleta dos mais incomparáveis objetos da atenção e da ação das crianças. Objetos dos mais específicos. É que as crianças são especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atuação sobre as coisas se processa de maneira visível. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos detritos que se originam da construção, do trabalho nojardim ou em casa, da atividade do alfaiate ou do marceneiro. Nesses produtos residuais elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente sobre elas, e somente para elas. Neles, estão menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer entre os mais diferentes materiais, através daquilo que criam em suas brincadeiras, uma relação nova e incoerente. Com isso as crianças formam o seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande.

capa benjaminRetirei o texto da edição mais atual do livro Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação, de Walter Benjamin, agora editado e traduzido com mais cuidado por Editora 34 e Livraria Duas Cidades (São Paulo, 2002; 2009). Imaginem que o trecho foi escrito cem anos atrás! Hoje a indústria cultural voltada para as crianças é vasta, e voraz. E a citação ainda faz sentido…! Pois as crianças estão no mundo, e haveriam de ser deixadas livres para descobri-lo, a seu modo; embora o grau de liberdade hoje se desenha como “liberdade assistida”, pelos temores adultos em relação ao mesmo mundo, gerido por eles mesmos diga-se de passagem…

… Então é assim que tenho retomado meu primeiro livro: em nome do que Winnicott chamou de “brincar livre e criativo”; conexão com as relações entre pessoas, e não com os brinquedos industrializados; um brincar que é de fato uma atitude, na direção do direito a ser o que se é, e na direção de um dever dos adultos em permitir um momento inicial nas vidas no qual se possa brincar imaginativamente – brincar não como componente curricular, mas como ação constitutiva de nosso lastro de subjetividade, criação e pertença.

Por isso não vou aderir à portentosa “Semana Mundial do Brincar” – pois, semelhante ao Dia da Criança, ao Dia da Mulher ou ao Dia do Índio, penso haver uma falácia na data comemorativa. O brincar das crianças deve ser exercido 365 dias ao ano, 366 nos anos bissextos, e não “no dia do brinquedo” nem tampouco “dentro da brinquedoteca”. Brincar é um modo de ser e estar no mundo.

Tem um imã de geladeira que tem escrito duas frases: nós não paramos de brincar porque envelhecemos. Nós envelhecemos porque paramos de brincar. Eu tenho um desses. E você?