Sobre a solidão compartilhada

Por um acaso, navegando na internet, descobri que no dia 17 de janeiro deste ano foi criado, na Inglaterra, o “Minister for Loneliness”— o Ministério da Solidão. (E não é ficção ou fake news!)

Pesquisas apontaram que 14% da população britânica é sozinha e que, durante o ano de 2017, a partir de uma grande amostragem, 200 mil pessoas declararam não ter conversado com ninguém no último mês [da data da pesquisa]. Uma já ministra acumulará o cargo… ela tem 42 anos de idade e sua nomeação foi bastante ironizada nas redes sociais, por ser pessoa engajada nas políticas neoliberais. A acusação contra ela giraria em torno de como o ministério já nasceu sofrendo de “psicologismo” – minimizando o fator social da solidão, em termos de políticas públicas para os mais pobres.

Uma pesquisadora americana, chamada Amelia Worsley, estuda o conceito de solidão. Disse, em entrevista, que a noção de solidão foi de “sentimento” a “estado mental”. Seria uma palavra do século XVII em diante, e, inicialmente, significava estar em algum lugar perigoso, longe de sua aldeia e povo. Hoje a solidão é vista como um sintoma – do estilo de vida, do modo de ser e estar no século XXI.

Não falaria de solidão no Agachamento sem visitar, mais uma vez (e sempre!) o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (Aliás, sempre penso quando vejo, e leio, notícias da Inglaterra: e se Winnicott estivesse vivo??). Em 1958 Winnicott publicou o ensaio The capacity of being alone (A capacidade de estar só). No texto afirma que estar só é um aspecto saudável de nossa vida psíquica, é algo que revela maturidade do self. Ao afirmar isso, Winnicott positiva o fenômeno de separação da mãe: aprendemos a estar só a partir de nos afastarmos da mãe (ou adulto cuidador). Inicialmente, estou só na presença de alguém que me cuida. (É uma imagem bem bonita, à qual podemos associar a cena contemporânea, quero dizer, ao espaço do “entre-lugar” que a performance habita, preenche, esvazia…) (Bonito também porque Winnicott, em inglês, fala algo sobre “ser olhado” – e em português nós usamos mesmo essa expressão para o cuidar de crianças, não?).

No entanto, cotidianamente, na cidade de Belo Horizonte, observo um fenômeno que negativa o estar só… é o uso do celular e do tablet que os pais fazem, especialmente em almoços de domingo (vejo em um restaurante por quilo que frequento): para conseguirem almoçar (sic), deixam o bebê, e/ou a criança pequena, se entreterem com desenhos animados (e mais tarde, crianças um pouco maiores, jogam games)… Agir assim é não compartilhar o momento presente, da refeição no quilo. É como se a criança não devesse estar alí… e, diante do tablet, ela fica invisível para o jovem casal, mesmo quando a cadeirinha está pousada em cima da mesa do restaurante (é frequente, inclusive, esse gestus). Ou seja, não há situação ou contexto para que a criança esteja só-na-presença-de-alguém, nesses almoços de domingo que observo. E é provável que noutros momentos das mesmas famílias isso se repita: a invisibilidade da criança pequena e seu mergulho no que o celular e o tablet lhe oferecem.

Para Winnicott é a convivência, em sua concretude e em doses constantes, que nos leva à “experiência total”, cujo desdobramento é o “sentir-se real”. São noções muito profundas, que nos humanizam e dão sentido a nossa existência.

Quando as crianças não vivem, ao longo da pequena infância, um tipo de presença-na-ausência — estar só na companhia de alguém — que constitui a solidão como um valor e um modo de ser e estar no mundo, o que frequentemente acontece é ficarem tomados por ansiedade, pelo isolamento, e por uma espécie de imobilidade… E ansiedades e o sentimento de um vazio não compartilhado podem nos levar a uma “necessidade de preenchimento” – a qualquer custo! Obviamente são exemplos de “preenchimentos contemporâneos” o uso de celulares e tablets como “companhia”; comidas e bebidas; compras; brincadeiras mais ou menos compulsivas, etc.

Assim, o modo das relações adulto-criança mediadas por cadeirinhas – muito práticas e seguras, é verdade – mas uma tecnologia desenvolvida para não haver contato físico direto – e mediadas por equipamentos eletrônicos – que possuem grande eficácia de “entretenimento”, sim – mas é  tecnologia por meio da qual não há conversa, contação de histórias, cantigas ou trava-línguas, enfim: falta um adulto que fala comigo, em seu tom de voz próprio e humano. Assim a criança pode acabar se acostumando a isolar-se, sem viver situações de solidão compartilhada.

Minha “tese” aqui não demoniza a tecnologia; o argumento maior está nas relações sem mediações de equipamentos.

Relações encarnadas, com calor, bafo, suor, timbre, luz do olho no olho; e a palavra emitida com significatividade, o que equivale a dizer: ter vontade de conversar, de dizer algo a alguém. Meu argumento leva ao brincar relacional: ter companhia, ter com quem rir e chorar, e muito especialmente, habitar o corpo próprio. Textos meus falam bastante sobre isso.

Mas quero voltar ao fato de uma sociedade europeia e contemporânea ter precisado criar um “Ministério da Solidão”. Uma notícia bem triste, não acham? Penso ser algo conectado ao que estudiosos preconizaram, anunciaram desde os estudos sociais da Escola de Frankfurt, a partir da descoberta do inconsciente, desde a (im)possibilidade de diálogo nas guerras mundiais, e a existência do fenômeno do nazismo em pleno século XX… algo complexo e surpreendentemente perverso. Sim, retorno à psicanálise, de novo e de novo, para poder pensar em como lidar, eu mesma, com os jovens alunos da UFMG que estão se formando para serem professores de teatro.

Outro dia me foi perguntado, assim na lata: Faz quanto tempo que você não dá uma aula de teatro para crianças?

Foi um ataque pontiagudo, mas concordo que a pergunta tem sua razão de ser.

bandeira do loboEu falo de uma infância possível, que acontece no quintal (Quem habita o quintal hoje?). Eu advogo um trabalho no qual fazer teatro é sinônimo de “ser feliz” (Quem quer ver de fato as crianças livres, leves e soltas, sem necessariamente ir ao palco dar visibilidade à escola, ao projeto social, à ong?). Eu acredito em um jeito de ser e estar no mundo no qual os adultos se agacham para conversar com crianças (Quem de fato acha que desde bebê a criança compreende a palavra, a fala falante?).

Sim, estou em crise. Como todos, me parece. Mas minha crise implica em repensar modos e meios de trabalhar na direção de uma infância mais significativa, do ponto de vista da criança mesma.

Por vezes desanimo. Mas depois lembro de minha mãe (ausente porque já morreu, presente porque construímos isso, juntas, o sentimento de “sentir-me real”), e reanimo.

Bora ser feliz, gente! Bora perceber, e suportar, que a criança tenha tristezas também. Mas sempre amparada, pelo adulto, de modo presente-e-ausente – o que equivale a dizer: estaremos lá, se chamados; nos ausentaremos, quando percebermos que a criança já é capaz de estar só.

Mas para que tenhamos agudeza da percepção do modo de ser e estar da criança no mundo… será preciso desligar nossos próprios celulares e tablets, conectando na relação com a criança mesma. Ligação direta, sem intermediários. Simples assim.

Base Nacional Curricular Comum: entre o simplismo e a complexidade

Neste começo de maio, tive tempo para prestar atenção e me debruçar sobre o documento BNCC / Base Nacional Curricular Comum, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (a Base para o Ensino Médio entendo que ainda não foi publicada). Obviamente meu debruçamento (ler, pensar, comentar, criticar) é a partir do meu campo de atuação, estudo e conhecimento: as artes. Em especial o ensino do teatro.

O documento da Educação Infantil escolheu o caminho desenvolvimentista tradicional, e isso me parece um grande problema. Observem lá: é como se a criança até um ano e meio ou dois não imaginasse, não criasse, não fosse “performer de si” ainda… Quase tudo ficou inicialmente na base da imitação – e da dependência dos cuidados do adulto.

No campo do conhecimento das Artes, tal como posto no documento, a coisa toda se desenha a partir dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Impressão inicial: o texto circula entre um certo simplismo (de uma “neutralidade suspeita”) e alguma complexidade, o que parece dificultar e muito a percepção do professor jovem (e em formação) para chegar ao famigerado… “como eu faço?”. Digo isso pois acabo de ler, junto com alunos de uma das disciplinas da Licenciatura em teatro da UFMG, o quadro intitulado “Competências específicas de arte para o ensino fundamental” (p.156 do Documento). São nove itens e ali percebemos o desejo de “ir além” da já tão divulgada e trabalhada Abordagem Triangular para o ensino de arte, cujos verbos, grosso modo, se situariam na tríade fazer (arte), apreciar (arte), compreender historicamente (arte). Vemos grande destaque para as tecnologias, bem como a tentativa de inferir ou emplacar a importância das “artes integradas” (termo polêmico pois os mais experientes consideram que há risco da volta a uma prerrogativa generalista, tal como se viu nos cursos de formação em Educação Artística; as Licenciaturas nas áreas específicas de dança, teatro, artes visuais e música foram um avanço histórico durante o século XX).

Não quero, aqui, agir de modo maniqueísta afirmando que o documento não presta porque foi homologado durante o governo Temer – vejo muita gente fazendo isso. Sei que as coisas estavam já em andamento no governo Dilma. Sei também que o governo Dilma encontrava-se em um caminho já adiantado de construir “parecerias público-privadas” no âmbito da educação, inclusive na discussão sobre currículo (para saber mais acesse o excelente artigo intitulado Base Nacional Curricular Comum: Novas formas de sociabilidade produzindo sentidos para educação, da pesquisadora Elizabeth Macedo / Revista E-curriculum, out/dez 2014).

Quero escrever de modo justo, sincero e coerente com meu pensamento sobre o ensino de arte – lugar que habito desde 1982, quando comecei de modo amador e ingênuo a dar aulas de arte na Casa do Ventoforte. Depois disso trabalhei 16 anos na EMIA-SP (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) e venho publicando textos acadêmicos e postagens por aqui sobre o que penso e como penso os temas relevantes do brincar, do criar, do fazer arte, do ensinar teatro, etc.

Feita a introdução acima… vamos “ao que interessa”!

O que é próprio de uma neutralidade suspeita:

Na intenção de deixar as coisas abertas para as “culturas locais”, ou seja, admitindo que o Brasil é grande e múltiplo, a discursividade tendeu a ser técnica e impessoal. E como falar das possíveis experiências com arte de crianças e jovens na chave da impessoalidade? Por isso, tem vezes que o texto parece fazer parte de um “folder de papel couché” de alguma escola, Ong ou clube!…

O que é interessante e remete a um grau de complexidade:

Gosto especialmente de dizeres introdutórios, nos quais a proposta mostra e constrói “dimensões do conhecimento” em arte (a partir da página 152). São as dimensões propostas: criação / crítica / estesia / expressão / fruição / reflexão. Cada dimensão está lá definida… são filosóficas, por vezes profundas… mas, como um jovem educador as lê?

Teria o estudante das Licenciaturas pelo Brasil afora incorporado em si mesmo essas dimensões?

E como que esse discurso sofisticado transforma-se em aulas, eventos, atos performativos, acontecimentos e instalações? (Um detalhe lá que gosto: a expressão “movimento dançado”!)

Agora qual, por exemplo, a possiblidade concreta de crítica da criança recém-saída da Educação Infantil, ou do seio familiar (se não frequentou a escola até a chegada do Ensino Fundamental)?

Tudo isso certamente desembocará na necessidade da [super famigerada] formação continuada. Ainda assim causa estranheza a discursividade por vezes genérica, daí simplista, versus momentos sofisticados, por vezes complexos e recheados de abstrações, de modo que o artista educador precisará (como sempre foi!) “tirar a bunda da cadeira” para corporeificar a atitude de professor pesquisador. Aí, na concretude da vida, no cotidiano escolar, tudo desembocará não ainda na formação continuada, mas antes no contrato trabalhista: na necessidade de horas dos dias para preparar aula e pesquisar; ficar mais culto; adquirir gosto e estesias!

Assim surgiu em mim, lendo o documento, a imagem da torneira espanada… ou do dilema do ovo-e-da-galinha… Quem pelo Brasil afora está escolhendo cursar as Licenciaturas em arte? Como chegam? As escolhas são interessadas ou interesseiras? (Escolha interessada = querer ensinar arte e conviver nesse meio; escolha interesseira = o curso que minha nota no Sisu deu pra pegar).

Na televisão a propaganda sobre a Base Nacional Curricular Comum quer nos convencer que o mote é o direito de todos à mesma formação, do Oiapoque ao Chuí. (Viram a campanha?) E nas imagens todos invariavelmente vão para a escola felizes e contentes, bem uniformizados e com seus materiais reluzentes.

(Passado o auge das ocupações das escolas secundaristas pelo Brasil afora, o que restou da experiência de autonomia, alteridade e protagonismo vivida pelos estudantes mesmos?)

Que distância entre o documento BNCC, a propaganda da TV, o tempo das ocupações e a realidade mesma das escolas brasileiras!

Por isso que o discurso técnico, eficiente, evolutivo, limpinho, super revisado, não parece fazer parte da paisagem performativa dos mundos de vida da criança e do jovem brasileiros.

Em um momento pequenininho se escreveu, na página 157: “Dessa maneira, é importante que nas quatro linguagens da Arte – integradas pelas seis dimensões do conhecimento artístico – as experiências e vivências artísticas estejam centradas nos interesses das crianças e nas culturas infantis”.

Putz!

Como chegar lá?

O que é para um jovem de seus 20 ou 23 anos, estudante de Licenciatura em teatro, dança, música ou artes visuais, fazer foco nas culturas infantis? Onde residem as concretudes? E como faço para captar os mundos de vida sem ser prescritivo ou pre-conceituoso?

Os dilemas vão se adensando.

Mostro mais um — a definição de o que é teatro (na página 154):

“O Teatro instaura a experiência artística multissensorial de encontro com o outro em performance. Nessa experiência, o corpo é o lócus de criação ficcional de tempos, espaços e sujeitos distintos de si próprios, por meio do verbal, não verbal e da ação física. Os processos de criação teatral passam por situações de criação coletiva e colaborativa, por intermédio de jogos, improvisações, atuações e encenações, caracterizados pela interação entre atuantes e espectadores”.

Putz putz putz!

Como e por que escolher o uso da tão diversa e polêmica palavra anglo saxônica “performance” no parágrafo que irá definir o teatro?

E foi foi foi… e acabou na situação palco-plateia, atuantes-e-espectadores…!

Estaria mesmo nesse modo de dizer o caminho da diversidade, do fim da pecinha bem feita como ícone da aula de teatro, do fim da habilidade corporal e vocal nas primeiras filas (e os “outros” no fundão!?), do fim da máscara de coelho feita de cartolina, do fim do lobo mau agora bonzinho nas versões politicamente corretas das fábulas e das canções tolamente amenizadas?

A tarefa de criar um documento nacional, então, se mostrou inglória.

Quanto mais consultores, revisores e especialistas mexem no tacho, mais abstrações e discursos do não-dito! A saber: qual noção de educação se está veiculando? E de infância e juventude? E o que é a especificidade do ato de ensinar arte para crianças e jovens brasileiros?

Não sei se todos sabem que o empresário e bispo Edir Macedo está levando, nesse exato momento, primeiro semestre do ano de 2018, o longa-metragem sobre sua vida para as pessoas em privação de liberdade (em presídios) de todo o Brasil. Passa o filme e serve pipoca. Também em tribos indígenas no Amazonas, em comunidades ribeirinhas, em estádios de futebol; é o projeto “Cinema Solidário” (sic). Também estão dando ingressos de graça na frente de shopping em Belo Horizonte… Um mega-projeto de formação de espectadores em massa, gratuito e com viés evangélico — em parceria público-privada.

É isso que está acontecendo enquanto se discute, em gabinete, qual a melhor formação para crianças e jovens naquele mesmo país.

1 - #macaco1

 

 

 

Dez horas da noite do dia 15 de abril de 2018

Guerra e infância não combinam

Recebi neste domingo de manhã (15 de abril de 2018) uma convocação pelo whatsapp. Vai acontecer um “cobertor de orações” para as pessoas da Síria… Uma mensagem religiosa, bonita e poética, algo que na minha língua pode se chamar

um ato performativo.

Como meu deus é fraco, na hora da convocação (22:00 hs hoje no Brasil) vou postar este texto no site-blog Agachamento.

Sou de uma geração cuja infância aconteceu durante o início do golpe militar de 1964 no Brasil. Então, mais tarde, adulta jovem, percebi que ditadura e igreja combinam… talvez daí meu deus ser fraco.

Depois aconteceu a possibilidade da Teologia da Libertação, e me tornei leitora também de Paulo Freire, mas, meu deus do céu, o que faremos agora?

Minha arma é flower-power; o que percebo poder fazer, no momento, é uma espécie de oração: escrever a favor da infância, no lugar que venho construindo como possível ação política e artivista (este site-blog).

Também sou de uma infância que escutou o grupo “Secos & Molhados”, e em um L.P. super alegre no todo há lá o poema de Vinícus de Moraes musicado — e apenas Ney Matogrosso canta, em uma parte do disco, com muita muita tristeza:

Pensem nas crianças / mudas telepáticas / Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa / da Rosa de Hiroshima / a anti-rosa atômica…

Sou de uma geração que estudou, em um curso de Psicologia um pouco mais à esquerda na época, que a Psicanálise e a arte moderna e contemporânea trazem coisas em comum… seja a noção de inconsciente, seja a possibilidade de pensar sem agir reativamente (acting out): por meio da conversa e da criação, se pensaria a maldade, a perversidade, e se poderia construir/propor um mundo melhor, depois das duas guerras mundiais. Assim falou Freud e muitos dos psicanalistas posteriores a ele; assim agiram uma porção de artistas “burgueses”.

Pois é assim que o deus se mostra fraco.

Já fizeram muitos longa-metragens sobre as novas guerras, pós-segunda guerra mundial. Bósnia é um grande terrível exemplo; fizeram um filme que misturava ficção e dados documentais sobre os filhos nascidos das mulheres estupradas. E foram muitas mulheres que tiveram muitos filhos nessa condição.

É próprio dos humanos que as crianças sejam filhotes dependentes, por um período muito longo. É próprio dos humanos terem no mínimo duas faces, frente a suas crianças…

Talvez esse o mais forte ensinamento da Psicanálise: as tais pulsões. Somos deus e o diabo. Somos as forças do bem e do mal, e do mau. (Dois a um?)

Sim, o deus enfraquece a cada maldade que se vê e sente…

É algo que penso quando vejo pela televisão as imagens da guerra mais divulgada agora: a guerra na Síria. É provavelmente um pensamento um pouco infantil, porque a guerra fragiliza também minha própria ação profissional: ensinar teatro, ensinar jovens a serem professores de teatro. Fragiliza porque o que as crianças sírias durante a guerra precisam é abrigo, comida e adultos saudáveis – fazer teatro fica tão “supérfluo”!

Eu também tenho um pensamento romântico, quando vejo guerras na televisão, que é “entrar para o Médicos sem Fronteiras” (sou psicóloga). Um dia fui de fato na página deles na internet, ver como é. Não é nada romântico, e seria impossível eu fazer teatro de sombras ou teatro de bonecos: a necessidade é extremamente técnica, de fato comportamental – sobre-viver! Não tenho as competências necessárias, foi o que concluí rapidamente (nem idade, nem inglês fluente, não a ponto de poder fazer sobreviver).

Escrevo então.

O pensamento permanece: o que eu posso fazer sobre isso?

A criança em mim pergunta:

— O que eu faço com isso?

A adulta replica:

— Como tornar meu cotidiano e especialmente minha profissão um ato político? (Eu teria que brincar menos?)

Sou um adulto que brinca. Brinco também porque considero que meus alunos na graduação de teatro hoje brincaram muito pouco. Ser brincante seria “bom modelo”… Percebo a imaginação em baixa.

No jogo do “”Dois a Um para o mau”, imaginar foi associado a diabruras, por muitas e muitas famílias… Como desfazer essa maldição?

Agora me sinto um pouco melhor (ou me iludi?) ao ver que, ao brincar aos 56 anos de idade, estou dizendo algo político sim:

humor/amor.

Ter bom humor com as crianças que nascem. Acolhimento. Pertença. Fluxo de continuidade: ser um adulto que percebe a dependência absoluta da criança pequena… Ser um adulto que suporta o desejo de independência da criança maior.

Muitas dessas “palavras de ordem” aprendi lendo os escritos do psicanalista Winnicott. Ele trabalhou na evacuação das crianças em Londres: as crianças, na segunda guerra mundial, eram levadas para longe dos pais e da sua cidade de origem: as crianças foram protegidas. Era uma política pública, e Winnicott estava ali, fazendo o holding (um conceito dele, traduzido por segurar). Segurando a onda.

Um pensamento mais adulto que me vem: inaugurar um projeto de extensão com refugiados. Depois, ou logo em seguida, penso na burocracia que precisaria enfrentar, o desânimo começa com a visão de um terminal de computador e o preenchimento de formulários; penso na responsabilidade, e também na existência de “haters”. Sim, os “haters”: aqueles que odeiam e combatem algo.

É o mundo que está absolutamente infantilizado e maniqueizado, cindido em duas posições (mesquinhas).

Gostaria de fazer algo pelas crianças venezuelanas em Roraima. É um outro pensamento ou plano que acontece pelo apelo midiático: reportagens para “dar ibope” – nunca vi em canal nenhum uma cobertura completa mesmo, que nos dissesse como estão as pessoas?, quem são as pessoas?, e como percebem os brasileiros dalí a tragédia dos refugiados. Fecham a praça com tapumes (viram isso?) e a praça ganha um muro ou fronteira, e ali fica a Venezuela miniaturizada (mas não vemos por dentro, de fato).

Varíola.

Sou de uma geração que tomou vacina contra varíola e ganhou uma grande ferida no lugar da vacina, e depois uma cicatriz. Sou de uma geração que ouviu, em seguida, no banco escolar: “a varíola foi erradicada”. Isso podia até ser tema de redação de vestibular para nós.

Relendo o que escrevi até agora, positivo o fato de meu deus ser fraco, porque se fosse forte, eu acreditaria no Apocalipse. (Na minha descrença eu penso – crentes devem ser assim: se o mundo vai mesmo acabar, o que eu poderia fazer? Sento na poltrona e assisto a novela da TV Record de mesmo nome).

Aliás o Apocalipse Now é outro filme que valeria muito a pena rever e re-pensar sobre ele, a partir dele. Um Marlon Brando nada bonitão nem glamouroso (obeso), e o cinema gastando o dinheiro da indústria cultural para, de novo e sempre, tentar retratar algo como só o cinema faz,  e de novo se tenta compreender o que é o humano. É um filme paradoxalmente interessante, trash e contundente.

Vou acabar por aqui.

Pensem nas meninas cegas inexatas.

Minha prece, minha contribuição ao “cobertor de orações” está, mora e habita o lugar da arte. Um espaço, um território, que se inicia no recém-nascido. Não é querer a habilidade ou competência para aprender cantar afinado, mas sim a possibilidade de gritar!, como sinônimo de estar vivo, de sentir prazer e de sentir dor.

Gritar para ser ouvido.

Ouçam os recém-nascidos, adultos!,

mas oh não se esqueçam da Rosa da Rosa…

… da Maria, do Antonio, do Heitor e do Ênio, todas as crianças do mundo.

Elas merecem um mundo melhor.

Amém

(dedico esta postagem ao recém-nascido brasileiro Enzo de Jesus Pessoa)

Viva o desmame!

Sobre a amamentação tardia (nas culturas urbanas)

Tenho percebido, na nova geração de mães, uma das tendências ser a amamentação “até sempre”… ou seja, até o menino ou a menina “quiserem”…

Todos sabem que meus pés que se agacham caminham e dançam e pulam entre a Fenomenologia e a Psicanálise. Para pensar a amamentação prolongada, não dou conta de um pé só — escrever com o pé apenas na Fenomenologia: porque a descrição do que vejo não dá conta, preciso de alguma teoria, para amaciar a discursividade das mães… sim, a teoria pode amaciar!

Nem sempre falar de Psicanálise e das descobertas freudianas (em diante) é endurecimento, sabiam?

Pois o que é importante saber, pensar, e refletir é sobre a “oralidade”. Ou o que se denomina “a fase oral” dos bebês… a ela se seguirão outras, e, para que a inserção no mundo cultural seja suficientemente forte e atraente, os adultos precisam fazer algo em nome de “outra coisa” que não seja o prazer oral.

Prazer oral máster: mamar-na-mamãe!

Prazeres orais maravilhosos também: saber falar! Comer! Chupar sorvete! Morder com força o amigo da creche… (depois levo bronca, e percebo que ser canibal não é comum nas culturas urbanas contemporâneas – mas eu mordi por amor!)

Para as mães que estão amando amamentar tardiamente, falta um pouco de “outros interesses” para elas e nelas também: o prazer mais proibitivo, que é separar-se do filho. Ter seu corpo de volta. Viver sua sexualidade adulta, de todas as maneiras possíveis que sua cultura e modo de ser e estar abarcam. Saber falar! Comer com amigas, amigos, maridos, maridas! Tomar um sorvete tesudo. Morder seu amante.

Pois então, é nessa chave que a Psicanálise é uma flower power (um poder de flor). O que parece ser uma escuta do filho (estar ali para ele, sempre, e deixa-lo mamar no peito) esconde uma escuta da mãe apenas: amo tanto meu filhinho!, que queria para provar isso dar uma parte do meu corpo para ele, a melhor delas, meus seios.

Dos seios jorram um líquido sagrado.

Sim, é fato, mas a sacralidade da dupla mãe-bebê precisa ser dessacralizada, profanada, até mesmo corrompida, para que o bebê se realize como criança humana. Para que fale com os outros, para que coma a comida do mundo, para que descubra a riqueza dos sorvetes, picolés, casquinhas, eskibons, chupe-chupes… Ui! Por que não me disseram isso antes?, vai pensar e sentir o bebê tardio…

Sim, a amamentação prolongada faz da criança humana um bebê tardio.

E os bebês são dependentes e exigentes: sugam, incorporam, mordem e dominam o líquido sagrado e sua fonte.

Assim chego ao cerne de fato desta postagem: as relações de poder. (Algo mais além da Fenomenologia e da Psicanálise! Leiam Foucault)

Trata-se de uma relação de poder inicial, entre mãe e bebê.

Como e por que a mãe não quereria inserir seu filho na cultura compartilhada, onde não há dois seios fartos e amorosos para ele acessar quando encontrar impasses, tristezas e frustrações?

arco e flexaPenso ser este o verdadeiro dilema. O prazer de doar o líquido sagrado deve cessar. Um dever da mãe adulta e urbana (não estou tematizando a cultura indígena ou ancestral!). Aliás nas culturas ancestrais aos cinco anos o menino pesca pequenos peixes com sua pequena lança, a menina faz pequenos potes de cerâmica e cestos!

“Entregar” seu filho pequeno para a cuidadora, para a professora da creche, para o pai, para o tio ou padrinho…! Para as avós! “Entregar” precisaria ser um verbo irmão do “Amamentar”! Seria uma ação correlata.

O apaixonamento pela criança que geramos é complicado. Por vezes dificulta um novo apaixonamento pelo companheiro ou companheira, e mais, por “nós mesmas”(olhar-se no espelho e contentar-se com a retomada do corpo de mulher, versus o corpo de mãe que amamenta).

E agora José?

E agora Maria?

E agora Jesus?

(Qual o nome do seu bebê?)

Pois então o des-mame (tchau mammie!) é um exercício de des-poder da mãe que amou amamentar seu filhinho. Que ele se torne José, Maria e Jesus de si mesmo (rs, me desculpem os católicos pelas imagens, mas há que profanar o leite sagrado). É essa a nova habilidade que a mãe que amou amamentar precisa desenvolver – ela mesma crescer, e dar um passo muito importante, que é perceber que seu filho não é “seu” filho…

Como fazê-lo?

O negócio é reinventar a rotina, a tal ponto que aqueles “outros prazeres” nos façam esquecer de como era bom sugar, incorporar, morder e dominar (parte da) mamãe… E não será pelo domínio do outro ou do mundo: será pelo domínio de si. Pelo cuidar de si.

Pelo desenho, pela construção com massinha, argila, madeira! Pela capacidade de fazer-e-comer brigadeiros. Pela possiblidade de ver um filme no cinema (que delícia!).

Com tudo isso quis dizer: a fórmula para des-mamar é o encantamento pelo mundo, tal qual ele se apresenta. No entanto, quando quem me apresenta ao mundo é basicamente minha mãe… ela tem a força! Por isso as crianças precisam de um leque de possibilidades de outros cuidadores, e por isso a creche é tão importante – não apenas para a mãe trabalhadora, mas para todas as crianças: do ponto de vista delas é libertador ter vida social fora do pequeno núcleo inicial. Assim, a mãe que estava cem por cento disponível poderá ser sim mãe trabalhadora: criadora de cultura adulta, ganhadora de seu dinheiro, e quiçá um modelo de saúde frente aos filhos, nas culturas urbanas.

Que venha o desmame!

 

Charles se agacha

Seguindo com a ideia de fazer publicações de postagens escritas por outras pessoas… vejam aqui como o ator e pesquisador Charles Valadares viveu a experiência do teatro de apartamento “Evandro e Dimas / Os nomes escolhidos”. Charles era Dimas. Charles é agora um filho meu…

Para entrar com o “pé esquerdo” no quintal

Fui convidado pela Marina para escrever um texto para o Agachamento.  Muito antes desse convite veio outro: mergulhar em um processo criativo-afetivo a partir da experiência de perda gestacional dos seus filhos gêmeos, ocorrida há 33 anos. Assim, ao longo de 9 meses do ano de 2017, de janeiro a setembro, “gestamos” (Marina, Raysner e eu) nosso Teatro de Apartamento. De outubro a dezembro compartilhamos, com pessoas queridas, os frutos do processo. E, após um ano frequentando o seu apartamento (espaço que abrigou conversas, reuniões, improvisações e público), sou convidado a entrar e brincar de escrever em seu “quintal”.

Para mim, menino-homem crescido na pequena Raposos, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, que tem ares de interior, o quintal é uma das melhores e mais importantes partes de uma casa. 

Para Manoel de Barros, poeta pelo qual nutro um grande afeto, quintal é lugar “maior do que o mundo”. Sendo assim, para entrar com o “pé esquerdo” no quintal do Agachamento e iniciar uma prosa-brincadeira (que talvez dure mais que uma postagem) vou falar um pouco de mim.

Para começo de conversa: me chamo Charles Valadares. Minha cidade de origem já contei. Foi lá que vivi até os 18 anos, quando mudei para Belo Horizonte para cursar a graduação em Teatro na UFMG (onde, mais tarde, fiz a opção pela habilitação em Licenciatura). A escolha pela graduação foi resultado de uma experiência de curso livre de teatro feito em Belo Horizonte, somada ao desejo de ser ator, nutrido na minha infância, alimentado por certo fascínio pela produção televisiva, primeira referência da arte de representar que me chegava, já que em Raposos não existia a oferta de experiências ligadas ao teatro (cursos livres, apresentações de espetáculos, nada).

Ao longo da graduação, convivendo no mundo e com o “mundo dentro do mundo” que é o espaço da Universidade, veio o amadurecimento acerca da profissão. Mudei meu modo de pensar, de ver a vida. Aquilo, que na meninice era um fascínio, desejo em ser “ator de TV”, na mocidade começou a não fazer mais sentido. No processo de crescer os sonhos também amadurecem, e, assim, o teatro ganhou outros contornos e novos sentidos em minha vida.

Os sonhos-crescidos também costumam vir acompanhados de pessoas, e assim os meus trouxeram Raysner, Helaine, Vânia e Fabrício, com quem formei o “Mamãe tá na plateia grupo de teatro”, lugar onde comecei a rabiscar meus desejos artísticos. Foi “teatrando” de forma independente, com eles, que pude compreender aos poucos o teatro como espaço potente de elaboração inventiva da vida, lugar de criação coletiva, de compartilhamento ideias, práticas, gostos, afetos e anseios. Nossa união brotou da afinidade.

Paralelo a esse encontro conheci a Marina: primeiro como autora de referência para pensar as relações entre o teatro e infância, a partir de um projeto de extensão que participei (2011-2012), coordenado pelo professor Ricardo Carvalho de Figueiredo; depois, como professora da graduação em Teatro na UFMG (2013-2014) e orientadora do meu Trabalho de Conclusão de Curso; em seguida como orientadora de mestrado (2017-2018) – e, a partir da experiência criativa-afetiva de “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, o convívio ganhou fronteiras mais pessoais e artísticas.

Essa união também brotou da afinidade, do meu desejo, somado ao do Raysner, de empreender uma criação artística junto à Marina, e também da brincadeira iniciada por ela ao nos apelidar de “gêmeos”.

Assim, durante o ano de 2017, vivenciei outro modo de pensar e fazer teatro, diferente das noções experimentadas até então. O projeto artístico imaginado pela Marina era uma via que eu ainda não havia percorrido: teatro sem marcações fechadas, nem direção ou ensaios longos e exaustivos; sem compromisso com “acertar” ou cumprir as “expectativas da direção” (apesar da carga pessoal e biográfica dela, havia uma busca pela horizontalidade no processo). 

Diria que foi um “teatro sem expectativas de dar certo”, mais próximo do coração. Trilhamos um caminho existencial, pessoal e conectado com a vida (nossa e da Marina). Ah, ela diria: conectado com a vida e com a morte.

Sobre isso escrevi em meu diário de bordo da apresentação feita no dia 11 de dezembro de 2017: “um teatro que não termina quando acaba. Resvala para além do espaço de cena e tromba na vida. Nosso “teatro de apartamento” não tem só 20 minutos. Vai para além da estrutura que decidimos compartilhar. Dura até sairmos pela porta do apartamento. Aliás, vai além. Aqui não tem patrocínio, não temos obrigações, só desejo. Para mim esse é o dom do trabalho”.

Um teatro movido pelo desejo me enche o peito de alegria.

Em conversas constantes com Raysner falávamos sobre a leveza, o prazer desse encontro, a importância de ser assim, principalmente no sombrio ano de 2017, que politicamente mexeu muito com nossas vidas, mentes e corações.

Só assimilei ao longo do compartilhamento com o público, o convite, feito pela Marina, de “atuar sem atuar”, uma busca não por representar os gêmeos, mas sim se-los de modo encarnado, simbólico e afetivo. 

 Hoje, refletindo sobre o processo vivido, Identifico duas noções-chave do nosso experimento: convívio e corporalidade.

Gosto do pensamento de Jorge Dubatti, estudioso da filosofia do teatro, acerca da noção de convívio: encontro entre pessoas, de corpos presentes, delimitado num tempo-espaço em comum, podendo acontecer nos mais distintos lugares (sala, rua, casa, bar, etc).  Elaborar artisticamente a experiência de júbilo e dor vividas pela Marina, a partir da espacialidade de sua casa, lugar que abriga intimidade, objetos de valor afetivo, conectados a sua biografia, foi valioso.

 A experiência convivial não pode ser capturada, sua existência está conectada ao momento em que ocorre, é efêmera e singular.  E foi assim que a vivemos. Optamos por não realizar registros fotográficos ou fílmicos, apenas escrever em nossos diários de bordo. A cada apresentação realizada (foram 10) vivemos distintos encontros, enriquecidos pela percepção, sensibilidade e biografia de cada convidado, revelando a potência do teatro enquanto acontecimento.

Dubatti pensa o teatro como acontecimento em uma noção que compreende a experiência teatral para além artifícios técnicos bem executados, ou meio de comunicar algo a alguém.  Amplia nossa compreensão do teatro para o âmbito existencial, lugar de afetar e ser afetado, espaço de provocar os sentidos, pensamentos, memórias e a subjetividade – do ator/pesquisador e dos outros, espectadores/testemunhas.  

Outra dimensão do convívio que atravessou a criação, mais pessoal do que teatral, diz respeito aos laços afetivos que estreitamos ao longo de 2017, a princípio, a partir dos nossos encontros quinzenais (que em meados do segundo semestre viraram semanais), no qual íamos, Raysner e eu, nos aproximando aos poucos dos detalhes da experiência vivida pela Marina, por meio de sua narrativa e exposição de documentos (diário com cartas para seu filho Jonas, os atestados de óbitos, receitas médicas, fotografias, etc). Alguns encontros acabavam em pizza e cerveja! Ou melhor, numa deliciosa pizzaria próxima ao apartamento.  Lá compartilhávamos, além dó desejo de estar juntos criativamente, pensamentos, sentimentos e visões de mundo.

O que vivemos em nossa corporalidade e presença conversa com princípios que Marina discute em seu livro Merleau-Ponty e a Educação (2010) ao falar do espaço corpo próprio – noção da filosofia fenomenológica de Merleau-Ponty . Para exemplificar, escolho um aspecto do nosso experimento: a busca não por mimetizar ou representar algo que não somos (fetos em período gestacional ou crianças). 

Durante o processo de criação trabalhamos a partir de estímulos imagéticos (corpo meleca, corpo sem ossos, ambiente aquoso, por exemplo); verbos para ações (brincar, contorcer, aglutinar, expandir, diluir e formar) e sonoridades (batidas de coração, sons uterinos e silêncio). Ao experienciarmos tais elementos colocávamos nossos corpos de adulto em situação para viver (não representar!) climas e atmosferas e sermos afetados pelos estímulos, entremeados por nossa capacidade inventiva, imaginativa e memória. Compreendi nosso corpo como espaço de fala, rico em carga existencial e autobiográfica: narrador de si.

Tais compreensões só processei posteriormente ao vivido.  

 E assim, sigo, em 2018 e ainda elaborando o que vivi, refletindo sobre como continuar: como alinhar aquilo que eu era antes com aquilo que sou agora? Como afinar (ou seria desafinar?) as noções de teatro vividas?

Penso que não vou jogar fora tudo o que vivi antes do Teatro de Apartamento, pois somos o que está inscrito em nosso corpo, memórias, em nossos modos de ser e estar no mundo. Desejo na verdade assimilar caminhos, novas possibilidades e desvios, para criar de forma autoral trajetos… rumo ao risco da (re) invenção.

Como continuar pesquisando “aquilo que ainda não sei?” Assim, curioso e instigado, sigo brincando!

Vamos também?

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Para ler na volta às aulas

Compartilho aqui com os leitores do Agachamento um texto meu que achei em arquivos do laptop antigo, para a seleção de emprego em uma importante editora em São Paulo, escrito em 2010.

Vejam se não é próprio para a volta às aulas no Brasil de 2018:

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Uma escola que apresente às crianças alegria e exercícios férteis para seu crescimento e desenvolvimento não significa uma escola literalmente colorida e preenchida por figuras e personagens em suas paredes… Uma escola que apresenta alegria e fertilidade é a escola que admite, congrega, elabora a dor e a angústia de crescer; tristeza de separar-se dos pais, temor de enfrentar desafios e embates… entre ser grande e ser pequeno. Essa escola conversaria com a tristeza e a melancolia advinda dos climas e atmosferas vividas por seus alunos, dentro e fora de casa. Como estar feliz e repleto de energia vital se meu avô está no Chile, onde aconteceu um terrível terremoto? Como ser destemido diante de todo o alarde mediante a gripe H1-N1? Como ser criativo em uma cidade como São Paulo, no início do período escolar, se as ruas alagam e meus pais temem, a cada dia, que a perua escolar não consiga chegar em casa?

A escola que acolhe os temores das crianças é uma escola que faz pensar; é uma instituição que lê os jornais para as crianças, com as crianças, e, mais tarde, as torna capaz de escrever seu próprio jornal-mural. A escola que conversa com a melancolia e a tristeza de quem perdeu o avô, de quem tem medo de enchente, de quem fica com insônia por medo da “gripe suína”, é a mesma escola que mediatiza essas experiências de tal maneira que todos crescem e se transformam, por meio da capacidade de pensar e de agir, em direção à aquisição de um tipo de saúde. Saúde mental, física, psíquica, social, cultural; saúde que compreende a doença como um dos momentos da vida, e que surge dos campos educacionais de intersecção: entre a criança e ela mesma, entre as diversas crianças, entre a criança e a comunidade adulta, entre a criança e o mundo.

A escola que lida com “retratos em branco em preto” ouve Elis Regina junto com seus alunos e trabalha cada momento histórico na chave compreensiva. A escola que força a alegria colorida do animador cultural é um equívoco – gera crianças ansiosas e artificialmente contentes. A escola que lida com “retratos em branco e preto” mostra a seus alunos que existem diferentes possibilidades: inúmeros jeitos de fotografar. A escola que conversa com o difícil momento que vivemos, integra melancolia e tristeza como uma das formas de uma criança se expressar. Permitindo esta integração, admite as dificuldades, veicula novas referências, deixa a criança “ser o que ela é”, ensina tolerância e superação. 

A escola que ouve as canções de Vinícius também sabe que “fazer samba não é contar piada”, e que “sem tristeza não se faz um samba não”. E se essa escola também trabalhar com seus alunos a cultura do jazz e do rock’n roll, fazendo noutro momento música de câmera e depois ouvindo sinfonias, sem nunca esquecer do enorme valor do silêncio, será uma escola propositiva que ouve, faz e cria com seus alunos todos os tipos de música, em busca da experiência multicultural, que enriquecerá a vida e o imaginário das crianças, tornando-as cidadãs capazes de pensar, expressar, sentir e transformar as condições de vida de sua pessoa, família, cidade e país. Penso ser essa a comunhão a qual Paulo Freire se referia quando escreveu que “aprendemos em comunhão, mediatizados pelo mundo”; disse Vinícius de Moraes: “fazer samba é uma forma de oração”.

(Passei na seleção mas não aceitei o trabalho, pois percebi como teríamos de nos moldar, cruelmente, ao mercado editorial da publicação de livros didáticos)