Quatro anos atrás… oito anos depois…

Termino o ano reafirmando meu percurso na Universidade Federal de Minas Gerais, onde trabalho desde junho de 2012, mantendo uma promessa feita para meus amigos mais próximos e não acadêmicos: de que, uma vez “dentro”, eu faria diferente: sem salto alto nem veludo ou maquiagem, traria tudo de “fora” que já tinha vivido, repartido, estudado e homenageado – especial menção ao diretor, dramaturgo, ator e artista Ilo Krugli, falecido neste ano que termina, e que me ensinou a brincar como adulta – pela condução de um “teatro para todas as idades” sem mimimis, dedicado à transformação e ao uso criativo das coisas do mundo. Espero conseguir paz de espírito para continuar essa pesquisa e para compartilhar esse modo de ser, de estar no mundo, de viver e de morrer (um pouco).

Teatro como expressividade, sempre

Na outra semana aconteceu a aula final da disciplina “Teorias do ensino do teatro”. Meu empenho com esse curso é marcado pela aula que preparei e apresentei no concurso para entrar na UFMG; tenho carinho e responsabilidade por estes conteúdos (ou por essas noções, como diria Gilberto Icle).

Neste semestre, haviam 22 inscritos e apenas um desistiu. Para a Licenciatura em Teatro daqui, vinte e um alunos é bastante gente.

Meu hábito tem sido organizar três unidades, que giram em torno do teatro dramático tradicional e seu ensino / teatro épico e seu ensino / processos do teatro pós-dramático e seu ensino. Foi assim que organizei a aula de cinquenta minutos, na época do concurso; foi assim que pensei as quinze semanas do curso, com aulas de duas horas e meia.

Neste ano de 2019, pensei algo novo, que foi associar a unidade a um modo de ser e estar do professor: teatro dramático e o professor personagem / teatro épico e o professor narrador / teatro pós-dramático e o professor performer.

Trata-se de um curso teórico-prático, cuja prática não é “fazer teatro” mas sim planejar aulas – pensa-las, sem literalmente ensiná-las. Residiu nessa minha escolha — da não “aplicação” dos planos de aula — uma das críticas dos estudantes.

Sobre aulas expositivas

Foram as críticas por parte dos alunos me fizeram refletir e escrever esta postagem… Outra delas: o cansaço que aulas tradicionais e teóricas causam nos alunos de hoje; isso foi até mesmo associado ao que Paulo Freire nomeou “educação bancária” – o que obviamente mexeu demais comigo.

Paulo Freire falou algo sobre aulas teóricas – encontrei uma discussão interessante citada no Dicionário Paulo Freire, no verbete “aula”:

Mas é importante dizer (…) que ao criticar a educação “bancária”, temos que reconhecer que nem todos os tipos de aulas expositivas podem ser considerados educação “bancária”. Você pode ser muito crítico fazendo preleções. A questão, para mim, é como fazer com que os alunos não durmam, porque eles nos ouvem como se estivéssemos cantando para eles! A questão não é se as preleções são “bancárias” ou não, ou se não se deve fazer preleções. (…) O educador libertador iluminará a realidade mesmo com aulas expositivas. A questão é o conteúdo e o dinamismo da aula, a abordagem do objeto a ser conhecido. Elas re-orientam os estudantes para a sociedade de forma crítica? Estimulam o pensamento crítico ou não? (Paulo Freire e Ira Shor, 1986, p.31)

Sobre branquitude, contradições e lacunas / abismo geracional

Aos poucos percebi, na discursividade de alguns dos estudantes, que estamos em um momento potente e delicado ao mesmo tempo. A delicadeza reside na necessidade de abertura para conversa, compartilhamento na direção de novas atitudes, novos agachamentos, diante das questões emergentes: na Universidade e fora dela. Maneiras de ser e estar no mundo do século passado, no qual nasci e vivi por 39 anos, precisam ser revistas. Fui sincera admitindo minhas contradições.

Quero muito conseguir de fato fazer foco no ensino do teatro como algo relacional, na direção da expressividade das crianças e dos jovens com os quais os alunos formados em Licenciatura em Teatro vão trabalhar. Para tal, para não cair em contradição, preciso fazer foco na juventude e adultície deles – não na minha… Ou ainda, em termos ideais, podemos habitar a zona da lacuna geracional, no sentido de troca de experiências. Espero sinceramente atingir isso ao longo dos próximos anos.

Sobre o curso

Não vou ensinar esta disciplina em 2020. Se for retoma-la em 2021, pensei em um novo desenho, que tente unir teoria de prática de modo orgânico. Ficaria assim:

O teatro dramático, temas autobiográficos e seu ensino / O teatro épico, temas autobiográficos e seu ensino / O teatro pós-dramático, temas autobiográficos e seu ensino. Pensei assim pois planejar aulas pelo viés biográfico poderá contemplar o “dizer de si”; alguns alunos também se queixaram de que minha atitude em aula, por vezes, foi de não ouvi-los. Quem sabe a partir de um novo desenho para uma antiga disciplina (com uma “velha professora” rs) faça sentido para todas as partes envolvidas.

Faltou reafirmar que teatro é expressividade, e discutir expressividade

sim, eu tenho um lado dinossauro

sim, eu tenho um lado dinossauro

Acabei lamentando não ter destacado, naquela roda de conversa final, que, do meu ponto de vista, o teatro com não atores, é expressividade – não um saber técnico, nem tampouco aulas semanais de preparo para uma profissão; no entanto, é sim importante que as crianças e jovens percebam o que é a carreira profissional em artes e teatro.

O teatro como expressividade é feito pela oferta, pelo professor adulto condutor, de jogos, brincadeiras e propostas de “dizer algo a alguém”. Como e o que dizer, o aluno será convidado a investigar, cuidar, compreender a potência do teatro. Expressividade e protagonismo são palavras-chave do ensino do teatro no século atual. A Universidade seria a espacialidade para essa mudança: do espetáculo final ao ato performativo, que seja um dizer de si, com o outro, no mundo.

Aperitivos fenomenológicos

Sobre a docência na pós-graduação em Artes

foto de Lúcio Honorato

foto de Lúcio Honorato

Ontem terminou minha disciplina na pós-graduação da Escola de Belas Artes da UFMG. Foram dez semanas de três horas-aula a cada semana; foi a sexta versão do curso “Poéticas próprias, performances narrativas e atos (auto)biográficos”. Por quatro semestres ainda tinha subtítulo – “recortes etnográficos para pensar uma metodologia de pesquisa em Artes”. Esse nome gigante não cabia no formulário (rs rs) e então simplifiquei… e simplificarei mais ainda: provavelmente não darei mais essa disciplina, ao menos por um tempo. Tudo indica que irei passar alguns meses no Canadá, e, ao voltar, farei outra disciplina, compartilhando a pesquisa de campo de lá.

Quando começa, tenho dúvidas, me sinto um pouco mal, fico achando que estou enganada ofertando uma espécie de “fast food da fenomenologia”… Quando termina, fico contente, percebo avanços, bem como valorizo as trinta horas vividas em sala de aula, e repenso a possibilidade de, sim, ofertar aperitivos fenomenológicos!

Os aperitivos precisam ser apetitosos, atraentes, e convidativos – convite a uma atitude generosa de não julgamento, de compreensão dos fenômenos, das pessoas, das relações humanas enfim. Metodologia: vou alimentando os alunos e eles vão usufruindo dessas pitadas de generosidade, amorosidade fora da lógica da religiosidade ou comiseração ou assistência social…

Como fazer isso?

Por meio de um caminho que chamo, já na primeira aula, de simples, sério e viável. Inventei essa combinação de palavras para receber os alunos nas suas medidas, anunciando que não vou exigir leituras em três línguas, nem monografias finais exaustivas, nem retóricas de veludo azul… Contrapontos ao que eu mesma vivi e senti pelo mundo acadêmico afora, durante meus anos e anos de formação.

Na medida em que me dispus a ser professora universitária, inicialmente em universidades privadas em São Paulo e agora na UFMG, disse a mim mesma que ia procurar fazer diferente: fazer diferente na direção da dialogia, da não arrogância ou hierarquia de saberes, e em nome de um saber local – pessoal, brasileiro, mas capaz de universalidade, pela possibilidade de sermos o que somos.

Simples assim.

Parece ingênuo, mas tem feito muito sentido.

Também tem sido gratificante. Me sinto em geral leve e criativa, e vou propondo aos alunos a descrição como modo de conhecimento das coisas do mundo – os fenômenos. Mas como costumam dizer todos os antropólogos culturais, a partir de Clifford Geertz: não a “mera” descrição, mas a descrição densa. E quem quiser avançar, procurar pela descrição tensa (como escreveu John Dawsey em um artigo seu). Junto com a descoberta desse tipo de texto descritivo (sim, é texto!) trago aos alunos e alunas uma visão de ser humano: a visão fenomenológica, do ser-no-mundo, que apresento pela Flor da vida – síntese imagética que criei em meu doutorado, e que está discutida no livro Merleau-Ponty & a Educação.

Munidos de flores e da díade gesto-e-palavra, deixando as teorias entre parênteses, distanciando-se dos saberes que pensam que já possuem, os alunos são convidados tanto a descrever o que tem sido o curso, em dois Diários de Bordo, bem como fazer, como trabalho final, um Mapa de pesquisa.

O Mapa de pesquisa responde ao que muitos veem chamando de “cartografia”; alunos jovens gostam disso, tanto quanto gostam de “rizomas”, sem no entanto materializar essas possibilidades: sem espacializar suas imaginações, diria Doreen Massey. Dizem e aderem aos termos pois sabem de sua potência inovadora, mas no entanto, em geral, não percebem muito como chegar lá… dizem que não precisam chegar… rasgam os capítulos, escolhem dizer “pistas”… criticam as árvores e os conhecimentos hegemônicos desses bosques e florestas… Mas por vezes parecem perdidos tal como Chapeuzinhos Vermelhos nos mesmos bosques e florestas, quando insistem no que não querem fazer.

O trabalho fenomenológico será justamente procurar o que se quer fazer, unindo rigor e vigor; descrevendo suas escolhas, tempos, espaços, corpos, outros não-eu, no caldo do mundo, por meio do entretecimento possível de prática-teórica na oralidade e na textualidade da língua-mãe.

Tenho visto nas dez semanas de curso, nas seis oportunidades que o ofereci, transformações interessantes, quedas, tiradas de máscara, desequilíbrios, bagagens sendo desfeitas, malas se abrindo… embora um ou outro aluno permaneça impermeável a tudo isso. O que é obviamente um direito.

Para aqueles que vão experimentando os aperitivos, as coisas passam a ser palatáveis, a língua que se permite dizer o que se é, e os corpos por vezes choram, muitas vezes riem, junto, na possibilidade de sermos artistas que se reúnem uma vez por semana para pensar a arte e a pesquisa acadêmica em arte.

Como e por que isso seria um peso ou um fardo?

Percebo que quando pensar arte e sua própria pesquisa em arte é um fardo o aluno mesmo encontra-se numa caixa de vidro, ou até mesmo de cristal, na qual ele foi posto provavelmente depois do Ensino Médio, por seus professores das graduações pelo Brasil afora. Poucos se colocaram por conta própria na caixa dura e transparente… mas há casos assim também. Com base em meus estudos da obra de Winnicott, alunos mesmo jovens chegam por vezes no mestrado carregados do que o psicanalista nomeia por falso self. Uma espécie de máscara social na qual uma significação para a adultice e para o sucesso profissional são fixas, e cheias de certezas.

No entanto minha percepção é de que as dez semanas proporcionadas pelo curso lidam com o que o mesmo Winnicott chamou de verdadeiro self. Posso ver pelas pessoalidades o quanto estão dispostos a estarem ali – mesmo no momento atual, ou talvez, ainda mais no momento atual, no qual tanto o professor quanto o aluno das universidades federais encontram-se numa perversa berlinda, muitos alunos sem bolsa, e uma desvalorização sem precedentes dos nossos lugares no mundo.

foto de Lúcio Honorato

foto de Lúcio Honorato

Por isso tudo fico feliz com ter vivido, em seis anos seguidos, essas experiências de docência na pós-graduação não como obrigação, mas antes, como um compromisso do meu caminho existencial, de uma empiria radical vivida profissionalmente até a escolha de estar onde estou, aceitando meu dom e minha sina, a dor e a delícia de começar a envelhecer. Já morro um pouco para que tudo isso renasça nos alunos que estiveram na espacialidade da meia-lua na qual servi aperitivos…

Vai ser no dia de Cosme e Damião!

Fui mais uma vez chamada a falar para professores de arte, gestores e colaboradores da Secretaria de Cultura de São Paulo, no eixo de trabalho da Iniciação Artística.

Lembro que da última vez que falei para os artistas educadores do PIÁ – Projeto de Iniciação Artística, comentei ao final que eles “já sabiam muito de mim”, e que talvez pudessem se beneficiar de falas de outros. Salvo engano isso foi em 2015.

Hoje, quatro anos depois, penso que vale, sim, a pena conversar novamente com eles.

Primeiro o tempo passa e muitos dos artistas se renovam, não são selecionados novamente, ou partem para outros desafios… Então, quem vai assistir a mesa ou participará da roda de conversa não necessariamente esteve no encontro anterior (do PIÁ). Nem provavelmente sabe de mim como professora da EMIA, uma vez que trabalhei por lá entre 1989-2001 e entre 2003-2008.

Eu tenho um desejo “secreto”, de que a compreensão das minhas propostas pudesse levar as artes e o ensino de arte para um “outro lugar”. Um lugar mais perto da praia, da areia e do mar; do sol e do banho de chuva; um lugar que alguns visitam apenas nas férias; mas outros, nunca sequer foram lá.

Penso estar falando de um lugar que não se chama escola. Ou que poderia se chamar escola, aquela da etimologia: a palavra escola possui o significado etimológico de “tempo livre”.

O saber das artes deveria ser de tempo e espaço livre, de férias dentro da vida escolar, de prazer! mesmo que realizando tarefas e lições de casa. Prazer de construir coisas com toquinhos de madeira; cantarolar sem pre-ocupar se desafina, amor… saiba que isto em mim provoca imensa dor….

É que no fundo do peito dos desafinados, também bate um coração!

Tum tum tum tum tum……..

Falei do lugar e do tempo – quero falar dos corpos e das ações.

Os corpos de crianças e jovens que estivessem vivendo, experimentando a arte como férias ou tempo livre [mesmo que dentro da escola], seriam corpos vivos, plásticos, polimorfos, bonitos, solidários, mas também possivelmente violentos em suas ideias e simbolismos, quando retratam [algumas das] realidades vividas – e também as inventadas. Enfim, humanas, demasiadamente humanas. (Quem já foi ver o filme Bacurau?)

Escrevendo assim tudo flui, e parece tão simples o “deixar ser”!

No entanto existe um contrafluxo tão forte e poderoso, tão solidamente conservador, que não admitiria, jamais, férias durante as aulas! O contrafluxo reside na atitude adulta disciplinar, ta no cadeado da quadra, ta no boletim e na sala de instrumentos que nunca é aberta “porque os meninos vão quebrar ou roubar”… Vimos isso durante as ocupações de 2015: materiais preciosos guardados, escondidos, porque escola num era lugar de pingue-pongue, nem de comer bem… (merendas estragaram em dispensas trancadas).

Não sei bem porque mas vou escrevendo e outras imagens de bossa-nova me pegam:

vou te contar, seus olhos já não sabem ver… coisas que só o coração pode entender…

No caminho de retrocesso contra as ideias progressistas do Paulo Freire, sabemos que os tecnocratas não querem coração! E que acham “coração” e “belezura” perda de tempo — e pior: “doutrinação”… Sim, sim, sejamos pelo amor livre! O amor do tempo desperdiçado, o amor não correspondido, o beijo não beijado, tudo isso e muito mais: vira poesia, conto, fanzine, rap e num sei o quê mais…

… meninas grávidas de um liquidificador! (que escândalo, Marina!)

Arte é isso, um escândalo: como a abertura do último filme do Almodovar, um deus do cinema que permitiu-se falar da tristeza e da velhice, e da desistência: criando, ele mesmo, uma estética anti-almodovariana…! (É um escândalo de tão bonito, plástico e simples – vale a pena ver, se não viram; e vale também a pena ver de novo…) Quando fizerem isso, entrem na cozinha vermelha dele e tomem milquesheique.

Então, meu desejo “secreto” era de que os adultos artistas que querem ensinar arte parassem de ensinar arte como linguagem. Nesse dia eles iriam para aquele lugar – não gente, não “aquele” lugar, mas a cozinha vermelha do Almodovar! – porque já há algum tempo estou propondo a arte como um lugar: arte é âmbito. Um lugar humano, que já habitamos, desde a barriga da mamãe… sons, luzes, gases, vozes, coração coração coração – troca, pulso, vida, e morte também.

Ação de Cores-Nomes, voltando aos músicos profissionais brasileiros (um disco do Caetano). Mas estou aqui querendo é falar com os artistas profissionais da educação em arte. Qual o seu projeto? Como você cria sua aula antes de chegar na escola? Você conseguiria habitar a escola como tempo livre?

Sei das dificuldades, das amarras, da hora-aula surrada e mal paga…

O que vamos fazer sobre isso?

Esse é também meu desejo secreto. De que a partir da conversa com outras pessoas, de um telefone sem fio com aqueles que viveram noutros tempos e espaços (gente, houve um tempo antes dos Editais!) os alunos se formando professores de arte se levantassem. Sim, um levante. Sair da cadeira, negar a fileira, pode cantar desafinado e ser feliz – ser feliz junto: proporcionar às crianças praia dentro da classe, picolé de risada ou de lágrima, churro de bilhetinhos de vida (e morte).

E que no levante, pudéssemos trabalhar arte como campo possível do conhecimento daquilo que não conhece a si mesmo (o campo da arte, para alguns psicanalistas); doar conhecimento… desconhecer o já feito, o já sabido… tendo por paga bons salários, reconhecimento em gesto e palavra – e não pelas “apresentaçõeszinhas”: a comunidade adulta perceberia o valor e a potência das crianças e jovens habitarem seus próprios corpos. Simples assim.

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