Dez horas da noite do dia 15 de abril de 2018

Guerra e infância não combinam

Recebi neste domingo de manhã (15 de abril de 2018) uma convocação pelo whatsapp. Vai acontecer um “cobertor de orações” para as pessoas da Síria… Uma mensagem religiosa, bonita e poética, algo que na minha língua pode se chamar

um ato performativo.

Como meu deus é fraco, na hora da convocação (22:00 hs hoje no Brasil) vou postar este texto no site-blog Agachamento.

Sou de uma geração cuja infância aconteceu durante o início do golpe militar de 1964 no Brasil. Então, mais tarde, adulta jovem, percebi que ditadura e igreja combinam… talvez daí meu deus ser fraco.

Depois aconteceu a possibilidade da Teologia da Libertação, e me tornei leitora também de Paulo Freire, mas, meu deus do céu, o que faremos agora?

Minha arma é flower-power; o que percebo poder fazer, no momento, é uma espécie de oração: escrever a favor da infância, no lugar que venho construindo como possível ação política e artivista (este site-blog).

Também sou de uma infância que escutou o grupo “Secos & Molhados”, e em um L.P. super alegre no todo há lá o poema de Vinícus de Moraes musicado — e apenas Ney Matogrosso canta, em uma parte do disco, com muita muita tristeza:

Pensem nas crianças / mudas telepáticas / Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa / da Rosa de Hiroshima / a anti-rosa atômica…

Sou de uma geração que estudou, em um curso de Psicologia um pouco mais à esquerda na época, que a Psicanálise e a arte moderna e contemporânea trazem coisas em comum… seja a noção de inconsciente, seja a possibilidade de pensar sem agir reativamente (acting out): por meio da conversa e da criação, se pensaria a maldade, a perversidade, e se poderia construir/propor um mundo melhor, depois das duas guerras mundiais. Assim falou Freud e muitos dos psicanalistas posteriores a ele; assim agiram uma porção de artistas “burgueses”.

Pois é assim que o deus se mostra fraco.

Já fizeram muitos longa-metragens sobre as novas guerras, pós-segunda guerra mundial. Bósnia é um grande terrível exemplo; fizeram um filme que misturava ficção e dados documentais sobre os filhos nascidos das mulheres estupradas. E foram muitas mulheres que tiveram muitos filhos nessa condição.

É próprio dos humanos que as crianças sejam filhotes dependentes, por um período muito longo. É próprio dos humanos terem no mínimo duas faces, frente a suas crianças…

Talvez esse o mais forte ensinamento da Psicanálise: as tais pulsões. Somos deus e o diabo. Somos as forças do bem e do mal, e do mau. (Dois a um?)

Sim, o deus enfraquece a cada maldade que se vê e sente…

É algo que penso quando vejo pela televisão as imagens da guerra mais divulgada agora: a guerra na Síria. É provavelmente um pensamento um pouco infantil, porque a guerra fragiliza também minha própria ação profissional: ensinar teatro, ensinar jovens a serem professores de teatro. Fragiliza porque o que as crianças sírias durante a guerra precisam é abrigo, comida e adultos saudáveis – fazer teatro fica tão “supérfluo”!

Eu também tenho um pensamento romântico, quando vejo guerras na televisão, que é “entrar para o Médicos sem Fronteiras” (sou psicóloga). Um dia fui de fato na página deles na internet, ver como é. Não é nada romântico, e seria impossível eu fazer teatro de sombras ou teatro de bonecos: a necessidade é extremamente técnica, de fato comportamental – sobre-viver! Não tenho as competências necessárias, foi o que concluí rapidamente (nem idade, nem inglês fluente, não a ponto de poder fazer sobreviver).

Escrevo então.

O pensamento permanece: o que eu posso fazer sobre isso?

A criança em mim pergunta:

— O que eu faço com isso?

A adulta replica:

— Como tornar meu cotidiano e especialmente minha profissão um ato político? (Eu teria que brincar menos?)

Sou um adulto que brinca. Brinco também porque considero que meus alunos na graduação de teatro hoje brincaram muito pouco. Ser brincante seria “bom modelo”… Percebo a imaginação em baixa.

No jogo do “”Dois a Um para o mau”, imaginar foi associado a diabruras, por muitas e muitas famílias… Como desfazer essa maldição?

Agora me sinto um pouco melhor (ou me iludi?) ao ver que, ao brincar aos 56 anos de idade, estou dizendo algo político sim:

humor/amor.

Ter bom humor com as crianças que nascem. Acolhimento. Pertença. Fluxo de continuidade: ser um adulto que percebe a dependência absoluta da criança pequena… Ser um adulto que suporta o desejo de independência da criança maior.

Muitas dessas “palavras de ordem” aprendi lendo os escritos do psicanalista Winnicott. Ele trabalhou na evacuação das crianças em Londres: as crianças, na segunda guerra mundial, eram levadas para longe dos pais e da sua cidade de origem: as crianças foram protegidas. Era uma política pública, e Winnicott estava ali, fazendo o holding (um conceito dele, traduzido por segurar). Segurando a onda.

Um pensamento mais adulto que me vem: inaugurar um projeto de extensão com refugiados. Depois, ou logo em seguida, penso na burocracia que precisaria enfrentar, o desânimo começa com a visão de um terminal de computador e o preenchimento de formulários; penso na responsabilidade, e também na existência de “haters”. Sim, os “haters”: aqueles que odeiam e combatem algo.

É o mundo que está absolutamente infantilizado e maniqueizado, cindido em duas posições (mesquinhas).

Gostaria de fazer algo pelas crianças venezuelanas em Roraima. É um outro pensamento ou plano que acontece pelo apelo midiático: reportagens para “dar ibope” – nunca vi em canal nenhum uma cobertura completa mesmo, que nos dissesse como estão as pessoas?, quem são as pessoas?, e como percebem os brasileiros dalí a tragédia dos refugiados. Fecham a praça com tapumes (viram isso?) e a praça ganha um muro ou fronteira, e ali fica a Venezuela miniaturizada (mas não vemos por dentro, de fato).

Varíola.

Sou de uma geração que tomou vacina contra varíola e ganhou uma grande ferida no lugar da vacina, e depois uma cicatriz. Sou de uma geração que ouviu, em seguida, no banco escolar: “a varíola foi erradicada”. Isso podia até ser tema de redação de vestibular para nós.

Relendo o que escrevi até agora, positivo o fato de meu deus ser fraco, porque se fosse forte, eu acreditaria no Apocalipse. (Na minha descrença eu penso – crentes devem ser assim: se o mundo vai mesmo acabar, o que eu poderia fazer? Sento na poltrona e assisto a novela da TV Record de mesmo nome).

Aliás o Apocalipse Now é outro filme que valeria muito a pena rever e re-pensar sobre ele, a partir dele. Um Marlon Brando nada bonitão nem glamouroso (obeso), e o cinema gastando o dinheiro da indústria cultural para, de novo e sempre, tentar retratar algo como só o cinema faz,  e de novo se tenta compreender o que é o humano. É um filme paradoxalmente interessante, trash e contundente.

Vou acabar por aqui.

Pensem nas meninas cegas inexatas.

Minha prece, minha contribuição ao “cobertor de orações” está, mora e habita o lugar da arte. Um espaço, um território, que se inicia no recém-nascido. Não é querer a habilidade ou competência para aprender cantar afinado, mas sim a possibilidade de gritar!, como sinônimo de estar vivo, de sentir prazer e de sentir dor.

Gritar para ser ouvido.

Ouçam os recém-nascidos, adultos!,

mas oh não se esqueçam da Rosa da Rosa…

… da Maria, do Antonio, do Heitor e do Ênio, todas as crianças do mundo.

Elas merecem um mundo melhor.

Amém

(dedico esta postagem ao recém-nascido brasileiro Enzo de Jesus Pessoa)

Viva o desmame!

Sobre a amamentação tardia (nas culturas urbanas)

Tenho percebido, na nova geração de mães, uma das tendências ser a amamentação “até sempre”… ou seja, até o menino ou a menina “quiserem”…

Todos sabem que meus pés que se agacham caminham e dançam e pulam entre a Fenomenologia e a Psicanálise. Para pensar a amamentação prolongada, não dou conta de um pé só — escrever com o pé apenas na Fenomenologia: porque a descrição do que vejo não dá conta, preciso de alguma teoria, para amaciar a discursividade das mães… sim, a teoria pode amaciar!

Nem sempre falar de Psicanálise e das descobertas freudianas (em diante) é endurecimento, sabiam?

Pois o que é importante saber, pensar, e refletir é sobre a “oralidade”. Ou o que se denomina “a fase oral” dos bebês… a ela se seguirão outras, e, para que a inserção no mundo cultural seja suficientemente forte e atraente, os adultos precisam fazer algo em nome de “outra coisa” que não seja o prazer oral.

Prazer oral máster: mamar-na-mamãe!

Prazeres orais maravilhosos também: saber falar! Comer! Chupar sorvete! Morder com força o amigo da creche… (depois levo bronca, e percebo que ser canibal não é comum nas culturas urbanas contemporâneas – mas eu mordi por amor!)

Para as mães que estão amando amamentar tardiamente, falta um pouco de “outros interesses” para elas e nelas também: o prazer mais proibitivo, que é separar-se do filho. Ter seu corpo de volta. Viver sua sexualidade adulta, de todas as maneiras possíveis que sua cultura e modo de ser e estar abarcam. Saber falar! Comer com amigas, amigos, maridos, maridas! Tomar um sorvete tesudo. Morder seu amante.

Pois então, é nessa chave que a Psicanálise é uma flower power (um poder de flor). O que parece ser uma escuta do filho (estar ali para ele, sempre, e deixa-lo mamar no peito) esconde uma escuta da mãe apenas: amo tanto meu filhinho!, que queria para provar isso dar uma parte do meu corpo para ele, a melhor delas, meus seios.

Dos seios jorram um líquido sagrado.

Sim, é fato, mas a sacralidade da dupla mãe-bebê precisa ser dessacralizada, profanada, até mesmo corrompida, para que o bebê se realize como criança humana. Para que fale com os outros, para que coma a comida do mundo, para que descubra a riqueza dos sorvetes, picolés, casquinhas, eskibons, chupe-chupes… Ui! Por que não me disseram isso antes?, vai pensar e sentir o bebê tardio…

Sim, a amamentação prolongada faz da criança humana um bebê tardio.

E os bebês são dependentes e exigentes: sugam, incorporam, mordem e dominam o líquido sagrado e sua fonte.

Assim chego ao cerne de fato desta postagem: as relações de poder. (Algo mais além da Fenomenologia e da Psicanálise! Leiam Foucault)

Trata-se de uma relação de poder inicial, entre mãe e bebê.

Como e por que a mãe não quereria inserir seu filho na cultura compartilhada, onde não há dois seios fartos e amorosos para ele acessar quando encontrar impasses, tristezas e frustrações?

arco e flexaPenso ser este o verdadeiro dilema. O prazer de doar o líquido sagrado deve cessar. Um dever da mãe adulta e urbana (não estou tematizando a cultura indígena ou ancestral!). Aliás nas culturas ancestrais aos cinco anos o menino pesca pequenos peixes com sua pequena lança, a menina faz pequenos potes de cerâmica e cestos!

“Entregar” seu filho pequeno para a cuidadora, para a professora da creche, para o pai, para o tio ou padrinho…! Para as avós! “Entregar” precisaria ser um verbo irmão do “Amamentar”! Seria uma ação correlata.

O apaixonamento pela criança que geramos é complicado. Por vezes dificulta um novo apaixonamento pelo companheiro ou companheira, e mais, por “nós mesmas”(olhar-se no espelho e contentar-se com a retomada do corpo de mulher, versus o corpo de mãe que amamenta).

E agora José?

E agora Maria?

E agora Jesus?

(Qual o nome do seu bebê?)

Pois então o des-mame (tchau mammie!) é um exercício de des-poder da mãe que amou amamentar seu filhinho. Que ele se torne José, Maria e Jesus de si mesmo (rs, me desculpem os católicos pelas imagens, mas há que profanar o leite sagrado). É essa a nova habilidade que a mãe que amou amamentar precisa desenvolver – ela mesma crescer, e dar um passo muito importante, que é perceber que seu filho não é “seu” filho…

Como fazê-lo?

O negócio é reinventar a rotina, a tal ponto que aqueles “outros prazeres” nos façam esquecer de como era bom sugar, incorporar, morder e dominar (parte da) mamãe… E não será pelo domínio do outro ou do mundo: será pelo domínio de si. Pelo cuidar de si.

Pelo desenho, pela construção com massinha, argila, madeira! Pela capacidade de fazer-e-comer brigadeiros. Pela possiblidade de ver um filme no cinema (que delícia!).

Com tudo isso quis dizer: a fórmula para des-mamar é o encantamento pelo mundo, tal qual ele se apresenta. No entanto, quando quem me apresenta ao mundo é basicamente minha mãe… ela tem a força! Por isso as crianças precisam de um leque de possibilidades de outros cuidadores, e por isso a creche é tão importante – não apenas para a mãe trabalhadora, mas para todas as crianças: do ponto de vista delas é libertador ter vida social fora do pequeno núcleo inicial. Assim, a mãe que estava cem por cento disponível poderá ser sim mãe trabalhadora: criadora de cultura adulta, ganhadora de seu dinheiro, e quiçá um modelo de saúde frente aos filhos, nas culturas urbanas.

Que venha o desmame!

 

Charles se agacha

Seguindo com a ideia de fazer publicações de postagens escritas por outras pessoas… vejam aqui como o ator e pesquisador Charles Valadares viveu a experiência do teatro de apartamento “Evandro e Dimas / Os nomes escolhidos”. Charles era Dimas. Charles é agora um filho meu…

Para entrar com o “pé esquerdo” no quintal

Fui convidado pela Marina para escrever um texto para o Agachamento.  Muito antes desse convite veio outro: mergulhar em um processo criativo-afetivo a partir da experiência de perda gestacional dos seus filhos gêmeos, ocorrida há 33 anos. Assim, ao longo de 9 meses do ano de 2017, de janeiro a setembro, “gestamos” (Marina, Raysner e eu) nosso Teatro de Apartamento. De outubro a dezembro compartilhamos, com pessoas queridas, os frutos do processo. E, após um ano frequentando o seu apartamento (espaço que abrigou conversas, reuniões, improvisações e público), sou convidado a entrar e brincar de escrever em seu “quintal”.

Para mim, menino-homem crescido na pequena Raposos, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, que tem ares de interior, o quintal é uma das melhores e mais importantes partes de uma casa. 

Para Manoel de Barros, poeta pelo qual nutro um grande afeto, quintal é lugar “maior do que o mundo”. Sendo assim, para entrar com o “pé esquerdo” no quintal do Agachamento e iniciar uma prosa-brincadeira (que talvez dure mais que uma postagem) vou falar um pouco de mim.

Para começo de conversa: me chamo Charles Valadares. Minha cidade de origem já contei. Foi lá que vivi até os 18 anos, quando mudei para Belo Horizonte para cursar a graduação em Teatro na UFMG (onde, mais tarde, fiz a opção pela habilitação em Licenciatura). A escolha pela graduação foi resultado de uma experiência de curso livre de teatro feito em Belo Horizonte, somada ao desejo de ser ator, nutrido na minha infância, alimentado por certo fascínio pela produção televisiva, primeira referência da arte de representar que me chegava, já que em Raposos não existia a oferta de experiências ligadas ao teatro (cursos livres, apresentações de espetáculos, nada).

Ao longo da graduação, convivendo no mundo e com o “mundo dentro do mundo” que é o espaço da Universidade, veio o amadurecimento acerca da profissão. Mudei meu modo de pensar, de ver a vida. Aquilo, que na meninice era um fascínio, desejo em ser “ator de TV”, na mocidade começou a não fazer mais sentido. No processo de crescer os sonhos também amadurecem, e, assim, o teatro ganhou outros contornos e novos sentidos em minha vida.

Os sonhos-crescidos também costumam vir acompanhados de pessoas, e assim os meus trouxeram Raysner, Helaine, Vânia e Fabrício, com quem formei o “Mamãe tá na plateia grupo de teatro”, lugar onde comecei a rabiscar meus desejos artísticos. Foi “teatrando” de forma independente, com eles, que pude compreender aos poucos o teatro como espaço potente de elaboração inventiva da vida, lugar de criação coletiva, de compartilhamento ideias, práticas, gostos, afetos e anseios. Nossa união brotou da afinidade.

Paralelo a esse encontro conheci a Marina: primeiro como autora de referência para pensar as relações entre o teatro e infância, a partir de um projeto de extensão que participei (2011-2012), coordenado pelo professor Ricardo Carvalho de Figueiredo; depois, como professora da graduação em Teatro na UFMG (2013-2014) e orientadora do meu Trabalho de Conclusão de Curso; em seguida como orientadora de mestrado (2017-2018) – e, a partir da experiência criativa-afetiva de “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, o convívio ganhou fronteiras mais pessoais e artísticas.

Essa união também brotou da afinidade, do meu desejo, somado ao do Raysner, de empreender uma criação artística junto à Marina, e também da brincadeira iniciada por ela ao nos apelidar de “gêmeos”.

Assim, durante o ano de 2017, vivenciei outro modo de pensar e fazer teatro, diferente das noções experimentadas até então. O projeto artístico imaginado pela Marina era uma via que eu ainda não havia percorrido: teatro sem marcações fechadas, nem direção ou ensaios longos e exaustivos; sem compromisso com “acertar” ou cumprir as “expectativas da direção” (apesar da carga pessoal e biográfica dela, havia uma busca pela horizontalidade no processo). 

Diria que foi um “teatro sem expectativas de dar certo”, mais próximo do coração. Trilhamos um caminho existencial, pessoal e conectado com a vida (nossa e da Marina). Ah, ela diria: conectado com a vida e com a morte.

Sobre isso escrevi em meu diário de bordo da apresentação feita no dia 11 de dezembro de 2017: “um teatro que não termina quando acaba. Resvala para além do espaço de cena e tromba na vida. Nosso “teatro de apartamento” não tem só 20 minutos. Vai para além da estrutura que decidimos compartilhar. Dura até sairmos pela porta do apartamento. Aliás, vai além. Aqui não tem patrocínio, não temos obrigações, só desejo. Para mim esse é o dom do trabalho”.

Um teatro movido pelo desejo me enche o peito de alegria.

Em conversas constantes com Raysner falávamos sobre a leveza, o prazer desse encontro, a importância de ser assim, principalmente no sombrio ano de 2017, que politicamente mexeu muito com nossas vidas, mentes e corações.

Só assimilei ao longo do compartilhamento com o público, o convite, feito pela Marina, de “atuar sem atuar”, uma busca não por representar os gêmeos, mas sim se-los de modo encarnado, simbólico e afetivo. 

 Hoje, refletindo sobre o processo vivido, Identifico duas noções-chave do nosso experimento: convívio e corporalidade.

Gosto do pensamento de Jorge Dubatti, estudioso da filosofia do teatro, acerca da noção de convívio: encontro entre pessoas, de corpos presentes, delimitado num tempo-espaço em comum, podendo acontecer nos mais distintos lugares (sala, rua, casa, bar, etc).  Elaborar artisticamente a experiência de júbilo e dor vividas pela Marina, a partir da espacialidade de sua casa, lugar que abriga intimidade, objetos de valor afetivo, conectados a sua biografia, foi valioso.

 A experiência convivial não pode ser capturada, sua existência está conectada ao momento em que ocorre, é efêmera e singular.  E foi assim que a vivemos. Optamos por não realizar registros fotográficos ou fílmicos, apenas escrever em nossos diários de bordo. A cada apresentação realizada (foram 10) vivemos distintos encontros, enriquecidos pela percepção, sensibilidade e biografia de cada convidado, revelando a potência do teatro enquanto acontecimento.

Dubatti pensa o teatro como acontecimento em uma noção que compreende a experiência teatral para além artifícios técnicos bem executados, ou meio de comunicar algo a alguém.  Amplia nossa compreensão do teatro para o âmbito existencial, lugar de afetar e ser afetado, espaço de provocar os sentidos, pensamentos, memórias e a subjetividade – do ator/pesquisador e dos outros, espectadores/testemunhas.  

Outra dimensão do convívio que atravessou a criação, mais pessoal do que teatral, diz respeito aos laços afetivos que estreitamos ao longo de 2017, a princípio, a partir dos nossos encontros quinzenais (que em meados do segundo semestre viraram semanais), no qual íamos, Raysner e eu, nos aproximando aos poucos dos detalhes da experiência vivida pela Marina, por meio de sua narrativa e exposição de documentos (diário com cartas para seu filho Jonas, os atestados de óbitos, receitas médicas, fotografias, etc). Alguns encontros acabavam em pizza e cerveja! Ou melhor, numa deliciosa pizzaria próxima ao apartamento.  Lá compartilhávamos, além dó desejo de estar juntos criativamente, pensamentos, sentimentos e visões de mundo.

O que vivemos em nossa corporalidade e presença conversa com princípios que Marina discute em seu livro Merleau-Ponty e a Educação (2010) ao falar do espaço corpo próprio – noção da filosofia fenomenológica de Merleau-Ponty . Para exemplificar, escolho um aspecto do nosso experimento: a busca não por mimetizar ou representar algo que não somos (fetos em período gestacional ou crianças). 

Durante o processo de criação trabalhamos a partir de estímulos imagéticos (corpo meleca, corpo sem ossos, ambiente aquoso, por exemplo); verbos para ações (brincar, contorcer, aglutinar, expandir, diluir e formar) e sonoridades (batidas de coração, sons uterinos e silêncio). Ao experienciarmos tais elementos colocávamos nossos corpos de adulto em situação para viver (não representar!) climas e atmosferas e sermos afetados pelos estímulos, entremeados por nossa capacidade inventiva, imaginativa e memória. Compreendi nosso corpo como espaço de fala, rico em carga existencial e autobiográfica: narrador de si.

Tais compreensões só processei posteriormente ao vivido.  

 E assim, sigo, em 2018 e ainda elaborando o que vivi, refletindo sobre como continuar: como alinhar aquilo que eu era antes com aquilo que sou agora? Como afinar (ou seria desafinar?) as noções de teatro vividas?

Penso que não vou jogar fora tudo o que vivi antes do Teatro de Apartamento, pois somos o que está inscrito em nosso corpo, memórias, em nossos modos de ser e estar no mundo. Desejo na verdade assimilar caminhos, novas possibilidades e desvios, para criar de forma autoral trajetos… rumo ao risco da (re) invenção.

Como continuar pesquisando “aquilo que ainda não sei?” Assim, curioso e instigado, sigo brincando!

Vamos também?

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Para ler na volta às aulas

Compartilho aqui com os leitores do Agachamento um texto meu que achei em arquivos do laptop antigo, para a seleção de emprego em uma importante editora em São Paulo, escrito em 2010.

Vejam se não é próprio para a volta às aulas no Brasil de 2018:

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Uma escola que apresente às crianças alegria e exercícios férteis para seu crescimento e desenvolvimento não significa uma escola literalmente colorida e preenchida por figuras e personagens em suas paredes… Uma escola que apresenta alegria e fertilidade é a escola que admite, congrega, elabora a dor e a angústia de crescer; tristeza de separar-se dos pais, temor de enfrentar desafios e embates… entre ser grande e ser pequeno. Essa escola conversaria com a tristeza e a melancolia advinda dos climas e atmosferas vividas por seus alunos, dentro e fora de casa. Como estar feliz e repleto de energia vital se meu avô está no Chile, onde aconteceu um terrível terremoto? Como ser destemido diante de todo o alarde mediante a gripe H1-N1? Como ser criativo em uma cidade como São Paulo, no início do período escolar, se as ruas alagam e meus pais temem, a cada dia, que a perua escolar não consiga chegar em casa?

A escola que acolhe os temores das crianças é uma escola que faz pensar; é uma instituição que lê os jornais para as crianças, com as crianças, e, mais tarde, as torna capaz de escrever seu próprio jornal-mural. A escola que conversa com a melancolia e a tristeza de quem perdeu o avô, de quem tem medo de enchente, de quem fica com insônia por medo da “gripe suína”, é a mesma escola que mediatiza essas experiências de tal maneira que todos crescem e se transformam, por meio da capacidade de pensar e de agir, em direção à aquisição de um tipo de saúde. Saúde mental, física, psíquica, social, cultural; saúde que compreende a doença como um dos momentos da vida, e que surge dos campos educacionais de intersecção: entre a criança e ela mesma, entre as diversas crianças, entre a criança e a comunidade adulta, entre a criança e o mundo.

A escola que lida com “retratos em branco em preto” ouve Elis Regina junto com seus alunos e trabalha cada momento histórico na chave compreensiva. A escola que força a alegria colorida do animador cultural é um equívoco – gera crianças ansiosas e artificialmente contentes. A escola que lida com “retratos em branco e preto” mostra a seus alunos que existem diferentes possibilidades: inúmeros jeitos de fotografar. A escola que conversa com o difícil momento que vivemos, integra melancolia e tristeza como uma das formas de uma criança se expressar. Permitindo esta integração, admite as dificuldades, veicula novas referências, deixa a criança “ser o que ela é”, ensina tolerância e superação. 

A escola que ouve as canções de Vinícius também sabe que “fazer samba não é contar piada”, e que “sem tristeza não se faz um samba não”. E se essa escola também trabalhar com seus alunos a cultura do jazz e do rock’n roll, fazendo noutro momento música de câmera e depois ouvindo sinfonias, sem nunca esquecer do enorme valor do silêncio, será uma escola propositiva que ouve, faz e cria com seus alunos todos os tipos de música, em busca da experiência multicultural, que enriquecerá a vida e o imaginário das crianças, tornando-as cidadãs capazes de pensar, expressar, sentir e transformar as condições de vida de sua pessoa, família, cidade e país. Penso ser essa a comunhão a qual Paulo Freire se referia quando escreveu que “aprendemos em comunhão, mediatizados pelo mundo”; disse Vinícius de Moraes: “fazer samba é uma forma de oração”.

(Passei na seleção mas não aceitei o trabalho, pois percebi como teríamos de nos moldar, cruelmente, ao mercado editorial da publicação de livros didáticos)

 

 

Ser canhoto e começar pelo meio

O artivismo é uma construção coletiva

carnaval zenChegou o ano novo!

E estou de férias.

Ao olhar para a agenda nova (sim, ainda tenho agenda de papel!), e para o calendário do ano da universidade, me pego imaginando projetos para ter… uma “vida fora da universidade”. Desde que cheguei na UFMG, é bem evidente um tipo de dinâmica dos que mais ou menos “se casam” com a Universidade… ah, uma esposa bem complicada! Rs, esposa-entidade que traz com ela – e nela – co-dependência e, por vezes, cargas pesadas de tristeza e tensão (nunca esqueçam o suicídio do reitor em Santa Catarina, e outros tantos exemplos terríveis de adoecimento). Por essa e por outras não aceitei o pedido de casamento, algumas poucas vezes formulado a mim, por meio de convites e abordagens… implicando mais e mais horas de trabalho.

Não é preguiça – é busca por saúde psíquica.

“Vida fora da universidade” significa também, assim como é para mim a docência, engajamento e artisticidade. Foi assim que nesses primeiros dias do ano criei uma sigla:

MRACO

MOVIMENTO RUMO AO AGACHAMENTO COLETIVO

(Passo zero: convidei quatro pessoas para dançar)

Tenho tentado estudar a noção de “coletivo”— e rapidamente percebo minhas próprias contradições… Os coletivos são típicos de movimentos das periferias… sou funcionária federal e vivo em Belo Horizonte num bairro no centro, concentração de classe média alta; branca; 56 anos; doutora em Psicologia da Educação com pós-doutorado em Pedagogia Teatral.

Ah, mas sempre que me apresentam com pompa, vou tirando acessórios (brincos, um colar, os sapatos…) de modo a me despojar e “ir ao chão, onde a criança está”. Tirar acessórios e buscar essencialidades.

O encontro com a criança no chão, na contemporaneidade, pode ser considerado mais uma das minhas contradições: pois quem disse que ela está lá?

Em meus estudos sobre a infância, e sobre as relações entre infância e cena contemporânea, penso que ela deveria sim estar lá… e aí surge mais uma contradição: como e por que sou eu que digo onde ela deve estar?

É bem interessante trabalhar o pensamento, e o sentimento, por meio da percepção das nossas contradições. É um modo de fazer – uma metodologia. Fica mais rico, mais transparente, mais desafiador. Mas também é algo muitas vezes difícil, e tende a ser frustrante – então, precisamos paciência e compreensão, acerca de nós mesmos,  dos mundos de vida que nos cercam, e busca pela abertura ao Outro. Sempre.

Na gestão da criação do trabalho teatral que fiz com Charles e Raysner no ano passado procurei horizontalidade. Muitas vezes percebia neles uma certa dúvida, e até mesmo angústia: “que raios ela quer?”, algo próximo a esse dizer se mostrava em suas corporalidades… Trabalhamos por um ano: de janeiro a dezembro de 2017; atingimos algo. É esse “algo” que quero cultivar, fazer crescer, para que permaneça em nós como raiz de árvore… agora sintonizando, a partir de 2018, em alguns dos direitos da criança.

Direito a ser o que se é; direito ao brincar (especialmente sem brinquedos); direito aos cuidados e à escuta pela comunidade adulta. E proporei a eles que nossa sintonia seja humorada e teatral: direito a um teatro inteligente, talvez um teatro para todas as idades, como aprendi nos anos 1980 com Ilo Krugli, e direito a aulas de teatro inteligentes, que não possuam o objetivo majoritário de “dar visibilidade” à escola ou à instituição a qual está veiculado, bem como proporei não fazer coro com a espetacularização da “criança no palco”. Protagonismo não é bem isso, nos termos da sociologia(s) da infância(s).

E, na minha cartilha, fazer teatro na infância precisa ter como objetivo principal: ser feliz.

A pesquisa para a qual convidei quatro jovens para estar junto em 2018 será, inicialmente, de modos de dizer coisas para os adultos sobre práticas “naturalizadas” por eles – “é assim”; “eles gostam”; “socializa”; “aprende a ter disciplina”, são dizeres dos mais comuns para falar sobre teatro feito por crianças para plateias de adultos… e faz muito, muito tempo que “é assim”! “Eles gostam”! Não viu como “socializa”? “Aprendem a disciplina” (do ensaio, da personagem, do canto afinado, etc)…

Como e por que eu seria “contra” essas quatro expressões-chave do teatro e educação?

Não é que eu seja “contra”. O que é ruim é o “senso comum” dos dizeres… Para quem é leitor de Foucault, o ruim está na discursividade do “eu sei o que é bom pra você”. Modo de ser, e de dizer, clássico dos adultos frente às crianças. Equivale a mandar a criança “ir brincar”… querer que a criança “seja livre e criativa”… coisas que não vão acontecer por mandos ou por simples quereres dos adultos!

Na arte que acredito e pratico, o caminho da criação e da liberdade (sempre situada, dizem os fenomenólogos, e eu gosto da expressão – liberdade situada) é relacional. Não é técnico, nem ensaiado. É convívio. É feito de um tempo dilatado, e acontece em espaços encontrados.

O tempo da apresentação final e o espaço estabelecido por palco-e-plateia são “marcações”. Posso arriscar um jogo de palavras e dizer: o professor de teatro que se ancora nos ensaios e nas apresentações bem feitas está “marcando bobeira”!

Pois!

Está fazendo marcações bobas enquanto as crianças mesmas teriam um potencial impressionante para o improviso, para a experimentação, para brincar com pequenos roteiros que lembrem o faz de conta, para concretizar ações que corporeifiquem a dor e a delícia de ser criança e não ter compromissos tal como o  adulto…

Mas atenção: o potencial para o improviso na infância não é “natural”, “espontâneo” ou “chega chegando”.

É preciso ambiência. Proporcionar um espaço de tal modo que a criança, inicialmente, acredite que aquilo estava ali para que ela encontrasse – assim é a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Daí ele usar a expressão “espaço de ilusão”. Não a ilusão da crença em papai noel!! Mas a ilusão filosófica: de criar e recriar o mundo e a si mesmo. Só acontecerá se o adulto tiver a crença também: de que, em relação, algo novo acontecerá, e que o novo e a atmosfera criativa serão significativas – e demasiadamente humanas.

Não quero ter uma fala e escrita cheia de certezas.

Quero ter uma escrita que convide o leitor do Agachamento ao “espaço de ilusão”. Entre adultos, significaria estabelecer algum elo para o artivismo, junto. Ensaiar crianças e fazer teatro bem feito pode ser artivismo também: mas mais ao centro ou à direita.

Sejamos canhotos! Vamos escapar pela diagonal para a plateia e para o saguão e para a rua! Sejamos responsáveis pela apresentação do Mundo, vasto mundo, às crianças para quem ensinamos teatro. Isso sim é “cena contemporânea”. E para chegar lá, o artista formado como artista precisa abrir mão de alguns de seus pressupostos também: sair de si, deixar a vaidade de lado, não querer brilhar…

Percebo com clareza como a formação em uma nota só, ou seja, a formação baseada na arte espetacular, estraga o improviso. Gera o “improvisador profissional”, ou o “improvisador de carteirinha” (como vemos em festivais e competições de comediantes/improvisadores “stand up”). Ah, eles tem a técnica! Eficácia! Rigor!

No campo improvisacional,  o rigor estraga o vigor. Gera vícios e gagues, pois termina por se querer “dar certo”, “fazer rir”, “vencer”. (Que chato!)

Sou mais por uma pedagogia do sonho e por um teatro que lide com o fracasso, de modo intimista.

Assim, nas reuniões do “coletivo”, pretendo propor a todos oficinas para desenvolver a timidez. O silêncio. O gosto pelo risco, pelo experimento, pelo “começar pelo meio”, sem necessidade de início ou fim.

 

 

 

Para fazer de 2018 um ano melhor

2018!

Alguns frequentadores do Agachamento podem ter pensado que o ano de 2017 foi “apolítico” para mim – ao menos pelos textos das últimas postagens, nas quais comento meu Teatro de Apartamento. E, se precisasse me defender, eu diria: estive, neste ano, ocupada com ações de micropolítica (e de saúde psíquica).

Mas acredito que não seria necessário me defender na minha própria casa. (Espero!)

A preocupação com a necessidade de defesa vem, concomitantemente, da minha consciência de como podem ser potentes as trocas virtuais – e também da consciência de outra potência: as polêmicas via internet.

Percebi que, em muitos dos textos postados aqui, eu não explicito, em palavras, mil por cento, o viés político que o cuidado com a infância necessita – sempre. Para 2018, quero mudar: serei mais explícita; discutirei algumas questões que acredito centrais para o crescimento das crianças, e quero falar mais sobre as [ricas? ou pobres?] relações entre arte e educação.

A continuidade do trabalho com os atores Raysner e Charles acontecerá por meio de um grupo de estudos, e propus, ao longo do ano, em considerarmos a possibilidade de manter “um canal no Youtube”. Quem sabe?

Sei de algumas questões sobre as quais quero falar; elas podem ser consideradas “bandeiras” – mas quero muito me sentir fazendo política de um outro modo: sem levantar mastros pesados ou remar muito forte contra a correnteza… Seria isso possível?

Cito dois exemplos, para anunciar aos leitores o que vem por aí: o direito da criança à verdade e o direito à expressividade (e ao silêncio). O primeiro mote diz respeito à conversa, ao acolhimento, à inserção no mundo (mas inserção no mesmo mundo! Habitamos, adultos e crianças, um mundo em comum! O que difere são os modos de habitar). O segundo mote diz respeito à minha crença de que crianças não precisam de visibilidade – aliás, está de fato faltando intimidade e privacidade para elas. E silêncio. Silêncio de um tipo específico: algo relacionado ao que o Winnicott chamou de “solidão compartilhada”.

Assim, tenho o desejo de escrever para adultos, por exemplo, sobre a exposição que eles fazem das crianças em imagens e vídeos na internet; e, mais radicalmente, no sentido de raiz mesmo, sobre a exposição vivida por elas em apresentações públicas… no modo palco-e-plateia.

Explico meu pano de fundo: em aulas na Licenciatura em Teatro da UFMG, estou sempre provocando meus alunos para que criem outros modos de trabalhar avaliação e mostras; “outros modos” seriam mais processuais e menos focados no “teatro bem feito” (aliás, estamos trabalhando com não-atores, certo?). A resposta da comunidade de alunos é praticamente invariável: os pais querem; a escola exige. Ao que eu respondo: mas… não dá pra tentar propor algo diferente?

Como seria trabalhar com os adultos a viabilidade e a pertinência outros modos de fazer arte com crianças e jovens?

Por que não podemos tentar mexer em estruturas hoje tão arraigadas, especialmente nas escolas e projetos sociais, por exemplo a da “apresentação final”? O artista educador não tem este poder e arbítrio? Se não tem, como e quando foi que isso aconteceu?

Como remexer com a comunidade adulta propondo bagunçar e redesenhar algo em seus imaginários  infantilizados que não os fazem ter crítica ao Dia do Índio no Show da Xuxa? E como é que muitos até mesmo desejam, ainda, fortemente, participar do Show, que deve continuar / must go on (nos pressupostos daquela estética, claro)?

Uma espécie de batalha de Dom Quixote com o Moínho, eu sei; mas quero propor isso, e por meio da pesquisa em teatralidades: algo novo para as relações entre adultos e crianças, relações renovadas nas quais

 a alegria não mais seria de plástico,

nem moraria em paraísos artificiais.

Feliz ano novo