Se eu morresse amanhã / Postagem 1 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 1

 Conversas com os leitores do Agachamento sobre como definir “arte”

 

A partir de hoje, 6 de abril de 2020, farei postagens semanais, e temáticas; todas as segundas-feiras vou procurar discutir com vocês um trecho de um texto escrito por mim: um parágrafo, uma citação, noção ou conceito…

Assim, estou propondo que as pessoas entrem no site-blog, leiam a postagem e conversem comigo: postem seus comentários, questionamentos, dúvidas, asserções…

Que acham?

O primeiro trecho é a definição de arte que se encontra no texto Guerra de maçãs / A escola como paisagem performativa. Na época da publicação, em 2017, cheguei a fazer uma postagem sobre a escrita desse texto, que passei dois anos escrevendo. Penso ser meu texto mais denso e propositivo; ele busca interpretar uma guerra de maçãs entre crianças, comentar o ocorrido por meio de um olhar de contramão: na contramão do senso comum, na contramão do “Olha como os meninos estão!”, e também, na contramão de que seria preciso “tirar o menino da rua”:

 

(…) arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e coabitarmos o mundo compartilhado. Arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações. Arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua, e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento. 

[O trecho está na página 67]

 

Digitado aqui o texto fica com oito linhas.

As oito linhas trazem sete noções (!).

São elas: território e habitação; espaço corpo próprio; mundo compartilhado; possibilidade relacional; espacializar imaginações; mundos possíveis; e intensa experiência da rua.

Minha proposta nas postagens de segundas-feiras é, inicialmente, discutir on line as oito linhas e as sete noções. Contando com esta, serão oito postagens seguidas, oito semanas vividas.

Como e por que?

Como: por meio de uma espécie de escavação, arqueologia dos meus estudos desde antes da graduação em Psicologia, quando publiquei em 1994 meu primeiro livro, O brinquedo-sucata e a criança

Porque: estou iniciando minha segunda pesquisa de pós-doutorado, em plena pandemia (!). Escrever para vocês pode ser um modo de manter a calma, o foco, e a crença na volta dos tempos presenciais.

E se não voltarem, estive em troca, até o fim. Troca com quem visita o site-blog, troca com quem ensina arte, troca com quem quer saber mais sobre praticar o agachamento como poiésis.

Para participar, é entrar, ler e escrever: ler o texto Guerra de maçãs, escrever o que pensa e compreende sobre ele, a partir dele; perguntar o que não compreendeu… um tipo de roda de conversa debaixo da macieira. Rs mesmo quem não tem computador Apple. (Clicando em “deixe uma resposta”, digitando e enviando).

Metodologia work-in-process / trabalho em processo; modo de funcionamento “aparece aí”.

Que sentido faz definir arte?

O sentido maior está em questionar práticas empobrecedoras. São as palavras que eu nego naquele parágrafo que escolhi comentar: associar projetos sociais e o ensino de arte, é quase sempre simplista, ingênuo, e mesmo tarefeiro (ou seja, é preciso maior atenção à criação por parte das crianças e jovens, não a direção e gosto dos adultos condutores); fazer arte para ser apresentada em eventos, mostrando que os adultos cuidaram das crianças e dos jovens de modo ordenado e dirigido, costuma ser um modo benevolente com “os menores” (ou seja, revela que tem um adulto por trás criando, trabalhando, mas… ele foi capaz de ouvir as crianças e jovens? Será que elas queriam estar ali?); querer trabalhar disciplina e técnicas artísticas com crianças… quase que invariavelmente acontece por meio de adestramento: rotina, repetição, obediência, reforçamento positivo ao final = palmas! Esses modos de encarar arte, e o ensino de arte, são empobrecedores diante da potencialidade vital que crianças e jovens apresentam. E também empobrecem as possibilidades por não proporem verdadeiro protagonismo: o foco permaneceria na imitação (mesmo que bem feita…).

Propor protagonismo é contar com os desejos, as possiblidades, os repertórios anteriores das crianças e dos jovens.

Arte não é algo que “ajuda”… Arte é uma das habilidades imaginativas dos humanos. Não “serve para”— já é.

O que eu considero como “práticas enriquecedoras” de fazer arte, ensinar arte?

O ponto de vista defendido aqui é que enriquecedor será uma proposta de trabalho lenta, gradual, sutil, de protagonismo das crianças e dos jovens. Isso “casa” com os atuais estudos das culturas infâncias e juventudes – a vertente mais arejada para pensar: quem são as crianças e jovens com quem trabalhamos?

Proponho especialmente, procurarmos o fluxo, a liberdade de experimentar, perceber, com cuidado, quatro modos de existência: as corporalidades; as musicalidades; as espacialidades; as teatralidades. Existir cotidianamente nesses lugares, com liberdade para ir e vir (ah, mesmo em confinamento!); estar nesses lugares, com prazer e inteireza (mas podemos habitar também, expressivamente, o desprazer e a fragmentação).

Então, considero arte como um lugar. Cheguei a isso, a essa espécie de síntese, ao longo de muitos anos. Arte como um lugar para habitar. Uma morada. Por vezes aconchegante, por outras, tal como aquelas casas dos filmes de terror… ou as casas de nossos confinamentos… ui!

Falarei mais sobre isso – arte como um lugar – no texto da segunda-feira próxima.

E é também sobre isso o livro que começo a escrever, entre agora e o final de 2020: um livro sobre não precisarmos nos prender ou nos fixar na definição de arte como linguagem. E que diferença fará. Que diferença fará?

“Aguarde os próximos episódios” e… “Habla comigo!”

MRACO - UFMG Jovem 2019 - Lúcio Honorato (49)

foto de Lúcio Honorato, 2019

 

p.s.: Se eu morresse amanhã, eu estaria plena, por ter feito este texto, divulgando aqui, em um site-blog aberto e transparente, um [outro] jeito de olhar para a arte da criança e do jovem, hoje.

O anjo perdeu a cabeça

O anjo perdeu a cabeça (Postagem para ateus?)

anjo sem cabeçaGente, os anjos da guarda saíram.

Tão sem cabeça, tão pirex, tão sem eira nem beira… Nunca imaginaram viver uma situação assim, em tempos que os humanos nomearam século XXI.

Os anjos suspiram cansados.

Choram entristecidos.

Desistem.

Alguns repensam suas prioridades, mudam de dono…

Cantam e dançam ao redor de crianças doentes, sem conseguir alegra-las.

Os anjos estão até mesmo em dúvida sobre o Papa Francisco. Não suportam sua tristeza, demasiadamente até o Papahumana. Como e por que um Papa estaria assim tão tristemente só? Alguns — aqueles que moram na direita da moldura dos quadros das igrejas — acham que ele está só por suas escolhas, desde a juventude. Outros, desavisados, ignorantes da existência da ficção, dizem ter certeza de que o Papa está amaldiçoado porque fez cinema.

Há alguns que sabem ser uma provação.

(Pro-vocação, já repararam nisso, na formação dessa palavra?)

Os anjos agora ficaram bravos comigo, pois consideram que estou questionando suas vocações… Daí esta postagem ser para ateus:

ateus, uni-vos!

Há algo viral no reino da Dinamarca.

Falência múltipla da globalização, anunciada por uma doença sem fronteiras.

Quem poderia imaginar?

Uni-vos em torno da vida mesma: vocês, sem anjo da guarda, sem poupança e sem banco na igreja.

Tenta ser feliz, é a mensagem de hoje, vinda da terra mesmo.

Álcool gel na maçaneta.

Para as mamães confinadas

O direito da criança à verdade

Tenho visto, especialmente na tv aberta e em comentários de pessoas conhecidas que estão em casa com seus filhos, algumas “soluções” para este “problema” do convívio: inclui inventar uma rotina, hora disso, hora daquilo, e algumas mães literalmente desesperadas, com o confinamento dos filhos, e provavelmente com o “confinamento de si”…

E a invenção da “solução” do convívio com seus próprios filhos? Já foi inventada?

Teria mesmo que vir de fora de você?

Ironias à parte, gostaria de fazer foco na perspectiva existencial, um modo de pensar a vida (e a morte), e de pensar o humano, sem caminhar pela via das “soluções” – pertence à trilha da compreensão de contextos e situações, e foca, especialmente, na conversa e no diálogo.

Estar disponível. Aprender a falar com as crianças sobre “as coisas do mundo”: sem receitas, sem fórmulas pedagógicas, sem querer acertar!… Ah, porque erramos, como pais, o tempo todo. Querer acertar com os filhos já é um erro, na perspectiva existencial, porque a vida não é um jogo. Freud teria dito, mais de cem anos atrás, que a educação é uma “tarefa impossível”.

Isso posto – dispor-se a conversar e não encarar a lida com as crianças como jogo – podemos arriscar criar um clima e atmosfera de mútua compreensão.

No geral os adultos subestimam a capacidade de compreensão das crianças, pois isso nos é ensinado pela leitura desenvolvimentista: ou seja, haveriam “fases” na vida e coisas próprias (temáticas, experiências) de cada “faixa etária”. Deve ter sido por isso que por milênios se disse para a criança que a cegonha que traz os bebês. E também por isso, pela especialização em faixas etárias, que muitos adultos querem entregar seus filhos para “os profissionais”.

Não creio em pedagogismos nem de passos sobre como falar sobre temas difíceis…!

Então como seria?

Tente, a seu modo, ser sincera com a criança. Não seria escancarar a sua dor, a sua aflição, a sua contrariedade, a sua preocupação com as contas e com a morte, mas antes, agachar-se para estar por alí… para o que for necessário, e na medida do possível. Pedir desculpas por ter gritado o outro dia… não deixar comer comer comer como maneira de “cuidar”! Não liberar a criança para toda a disneygrafia………….. a adição à tecnologia é mútua, e as crianças aprendem bastante por imitação.

Ser sincera é dizer: hoje estou cansada. Ontem estava triste, mas hoje estou feliz em estar aqui com você. Arrumar brinquedos é bom para desarrumar depois… e achar o que estamos procurando. Você gostava de tomar banho quando era nenê! Vamos ver suas fotos? E assim por diante. Falas que mostram presença. Um tipo de paciência. Na contramão do “alegria, alegria”!! Pois é fato que as coisas não estão nada alegres. As crianças sabem quando estamos mentindo, omitindo; e vão se acostumando com isso: um tipo de alegria mascarada, aquém e além do carnaval. Isso é bem preocupante. O psicanalista Winnicott chamou essa tipologia “alegria, alegria” de falso self; algo falso e falseado, às vezes muito cedo, para agradar o adulto.

Estar junto. Temos algo a perder?

Estar junto. O que nos resta… e quando nos dispomos, é tudo.

A infância é uma só. Não pense na infância como “preparação” para outra coisa. Em tempos tão hecatômbicos, com cara de terceira guerra mundial, a vida é agora. Estar junto. Sem exageros de debruçamento sobre a perspectiva da criança… procure apenas percebê-la, e curtir a dualidade entre pouca experiência e um tipo de sabedoria que as crianças podem ter. Se não entrarmos em contato com isso, não saberemos.

E o “isso” é feito, nos dizeres de outra psicanalista, Françoise Dolto, de ciclos de alegria e luto. Estamos em um difícil momento de luto, de contato próximo com a morte, literalmente. Se não tentarmos conversar com as crianças sobre as tristezas do adulto, não estaríamos traindo sua confiança? Será que não ouviremos, um dia, “por que não me disse isso antes?”. Na verdade estamos falando, nossos corpos dizem… mas se nossa fala e ações forem contrárias, artificiais, “alegria, alegria”, as contradições se instauram, e a criança poderá se acostumar a não falar de si (algo que insistimos tanto com ela, não é?).

foto de lúcio honorato

foto de lúcio honorato

Estar junto. Pedir um tempo quando não estamos disponíveis. Pedir ajuda a outro adulto, para darmos um tempo. Atentar ao uso da comida e dos apps, filmes, joguinhos: coisas “feitas para crianças”. Lembrar que existe por trás dessa realidade que se diz pedagógica uma indústria cultural e também uma fábrica de valores e costumes. Assistir então, junto, para ter esperteza com isso: personagens femininas, personagens negros, personagens que sofrem, personagens que vencem… Qual é a sua, como adulto? Que tal pensar mais sobre isso tudo, fazer sua própria “curadoria”, com base nos seus valores e crenças, com base também na criança que você tem diante de si, viva, atenta, e ávida de luz (e sombra)?Que tal apenas dançar? Cantar, viver. E morrer um pouco. Morrer e ressuscitar, no brincar de faz de conta que é algo presente, carnal, convivial, e pode ser um modo de conversar também. Estar presente.

Tudo que nasce morre. Esta é a verdade à qual a criança tem direito — em doses pequenas, se possível, mas sem artificialismos. Sem cegonhas às avessas, estrelinhas que não moram em cemitérios nem em potes de cinzas…

Me desculpem as mamães mais fadinhas, mas a verdade é fundamental. É o ingrediente, o alicerce de uma relação de confiança mútua, de vislumbre de solidariedade, de ninguém soltar da mão de ninguém – não porque a mamãe ta mandando, mas porque dar as mãos tem sentido e poder.

E que pena que, no momento, precisamos ensinar a não dar as mãos, e quem der as mãos, precisa ir correndo lavar. Vai ser necessário pensar no efeito higienista que isso tudo trará, e daí também a necessidade de muita conversa sincera, olho no olho.

Faz sentido para você?

Ensino condensado: o que seria?

Ensino condensado

Cheguei no curso de Teatro da UFMG em 2012 e, em minha experiência de agora quase oito anos, vira-e-mexe algum professor propõe para a graduação um “curso condensado”. As razões para isso costumam ser de ordem prática: um professor importante está no Brasil por um período curto; o professor vai sair de licença para o pós-doutorado ou para uma temporada profissional de teatro, dança, música; um seminário de uma semana de um grupo de pesquisa pode se tornar “disciplina condensada” também. Costumava ter má impressão disso, especialmente no que diz respeito aos alunos da graduação e sua rotina; provavelmente influenciada pela palavra “condensada”, eu considerava que os estudantes não teriam tempo para leitura e escrita, e que o tempo vivido corrido, sem ser em um semestre dilatado nas semanas, poderia ser prejudicial para a “elaboração mental e psíquica” de tudo aquilo que estava circulando no curso… Além do fato dos alunos terem que “estar em dois lugares ao mesmo tempo”, contrariando as leis da física… é que quase sempre uma “condensada” acontece ao mesmo tempo em que o semestre tradicional está rolando.

Agora, março de 2020, sou eu que estou conduzindo uma “condensada”. Três semanas de segunda a sexta, para ensinar Dramaturgias (do dia 2 a 20 de março). Um super desafio para mim, que fui por tantos semestres azedinha com as propostas condensadas dos outros docentes. Isso está acontecendo pois agora sou eu que vou sair para um pós-doutorado na UNESP, supervisionada por Carminda André (como comentado na postagem anterior).

Agora já sei como é estar por cinco manhãs corridas na semana, com a mesma turma de alunos e fazendo acontecer um fluxo de ideias, formas-conteúdos, de modo que todos permaneçam interessados (eu inclusive!).

Para conversar com minha resistência anterior a esta modalidade de ensino, criei a estratégia de deixar, concreta e simbolicamente, a porta fica aberta: pode entrar, pode sair, pode não vir (para estar noutro lugar mais necessário, do ponto de vista do aluno). Mas haverão três exercícios avaliativos, esses, sim, obrigatórios.

Ainda teremos mais duas semanas. No dia 22 de março estarei apta a “fechar o diário” da disciplina, enquanto o semestre letivo rotineiro estará ainda aquecendo os motores.

Por cinco manhãs estive propondo aos alunos pensarem Dramaturgias e Infâncias. Não o teatro infantil – mas antes as temáticas da infância em cenas e narrativas que possam ser lidas para ou encenadas por todas as idades, ou até por um público específico, no caso de o modo de dizer sobre um estado de infância seja violento, triste demais, obsceno, etc. Trata-se de afastar-se da classificação por faixa etária para pensar a arte conectada à existência humana. E não por acaso será esse o tema de meu segundo pos-doc, a partir de abril.

Com isso não quero que acabe o pensamento sobre as idades, ou até mesmo sobre “adequações”; quero é questionar quesitos e critérios da indústria cultural majoritária, e suas “naturalizações” para os objetos da cultura voltados para este ou aquele público específico. Exemplos corriqueiros: criança gosta de coisa colorida; jovem gosta de falar de namoro e de vestibular; adulto gosta de pimenta e os idosos, são bonitinhos que dói… Ironias à parte, acredito que o leitor compreende do que estou falando.

No curso até então, em cinco aulas tematizamos: o brinquedo-sucata; o brinquedo comprado; o álbum de figurinhas; os burrinhos do Parque Municipal de Belo Horizonte; o menino que há no homem (especialmente em relação ao poeta Manuel de Barros e a pesquisa de mestrado de Charles Valadares).

DSC_0127Dito assim, ainda como “lista de palavras”, você imaginou caminhos dramatúrgicos possíveis?

Mais que um aluno politizou o uso de burrinhos como “brinquedo vivo” no Parque: paga-se (salvo engano) dois DSC_0160reais e cinquenta centavos para andar de burrinho… “atividade” para crianças de um ano a cinco ou seis, dependendo do tamanho e peso. Quando cheguei em Belo Horizonte, achei esta possibilidade superinteressante e imaginativa, pois enxerguei, de modo evidente, como a corporalidade das crianças pequenas se transformava, depois de colocadas por um adulto no lombo do burrinho.

Mais tarde, ao apresentar uma reflexão artístico-poética em um congresso internacional de teatro tematizando isso – o passeio de burrinho, a transformação que via nas crianças e a teatralidade de tudo aquilo – os estrangeiros ouvintes mobilizaram em mim uma consciência ecológica, por assim dizer. E a partir daquele outro olhar, de uma outra significação, pude ver com tristeza como eles estão velhinhos, desgastados, e de fato por vezes parecem sentir muita sede – talvez o passeio de burrinhos devesse não existir mais, passadas duas décadas do século XXI (não usar animais para diversão de humanos). Por que a comunidade belorizontina não questiona essa tradição?

A dramaturgia contemporânea encontra-se no mundo; nas coisas do mundo; na interação corpo-mundo: eu, no mundo, com os outros. Tematizar o uso adulto do animal burrinho, feito (por deus!) para carregar carga (?) , para carregar crianças e suas imaginações, é por si só conflitivo e dramatúrgico. Tanto quanto outras situações e espacialidades: hospitais, ônibus escolares, farol de trânsito com meninos equilibristas, igrejas e coroinhas e coroamentos, cachoeiras e as circunstâncias de verão…

O curso segue por mais duas semanas, e a partir de amanhã vou trazer à tona a juventude de luta, aquela dasescolas de luta ocupações, e a juventude de algum modo desistente: todos leitores do Agachamento sabem de quatro suicídios ultra recentes em um shopping center da cidade de Ribeirão Preto?

Luta e desistência como motes dramatúrgicos e contemporâneos.

Falar no teatro sobre temas tabu é potente, e necessário. Do mesmo modo que considero o ensino do teatro, hoje, uma ação política de “volta ao corpo encarnado”, agora que tantos e tantos meninos e meninas estão crescendo de modo desencarnado: habitando e enraizando-se no universo virtual, maquinado, fabricado e proposto por Outros… E mesmo quando meninos e meninas famosos fabricam e propõem coisas neste universo, são capturados, se bem sucedidos, pela indústria dos patrocínios e se tornam “influencers” profissionais: lugar, diga-se de passagem, onde um tipo de extroversão me tira do sério. (Você não?)

Mas, para outros, o teatro, a presença e o convívio é que invadem as possibilidades tecnológicas! É por aí que vou tematizar, na próxima unidade do curso de Dramaturgias, a juventude hoje: por seu protagonismo e possibilidades antiestruturais (e não de adesão ao que “o mercado” quer e determina para eles). Fazer clips, gravar depoimentos, criar memes, inventar tutoriais, e tantas outros usos criativos da tecnologia, podem ser, para o professor de teatro para crianças e jovens, ponto de partida para algo maravilhoso. Vejo esse uso como pesquisa dramatúrgica. E você?

Te digo o que vai pegar

Vai pegar em 2020, de 2020 em diante

Em 2020 vou ter um afastamento das funções de docente na UFMG para meu segundo pos-doutoramento, com supervisão de Carminda Mendes André (UNESP) e cujo mote é a escrita de um novo livro. Título provisório: Perspectiva artístico-existencial / Espirais entre arte e infância, fenomenologia e psicanálise.

Não será um trabalho “de gabinete”; vou propor três ações que podem ser um Projeto de extensão por um período, e, no contato com os participantes das três propostas, irei processualmente escrevendo. São as ações, brevemente resumidas:

Perspectiva artístico-existencial no ensino de arte e na pesquisa

Em um programa intensivo de dez encontros seguidos, vamos discutir dez textos centrais no meu caminho de pesquisa, no entanto na direção das “poéticas próprias” dos participantes – mais do que uma adesão irrefletida à perspectiva artístico-existencial, a proposta é que cada um projete sua autonomia como professor artista pesquisador, ou professor performer.

Supervisão de práticas de ensino de arte na Perspectiva artístico-existencial: implicações da abordagem espiral com o professor artista pesquisador

Oito encontros para discutir “estudos de caso” apresentados pelos participantes que estejam praticando a docência no campo de conhecimento das artes, com especial destaque para o ensino do teatro, de modo a fazer ver modos de ação e pensamento na abordagem espiral, sob a perspectiva artístico-existencial.

Grupo de amizade acadêmica: rodas de conversa sobre pesquisa em arte e a Perspectiva artístico-existencial

Neste grupo vou propor, também por oito encontros, um espaço compartilhado para a conversa sobre pesquisa em artes, com especial destaque para o ensino e a pesquisa que se pautem na perspectiva artístico-existencial, tal qual discutida e explicitada nos outros dois braços do projeto.

Durante as ações, vamos discutir dez a doze textos de minha autoria, de modo que o livro se torne uma espécie de roteiro criativo para convidar o leitor, ao mesmo tempo que ler o livro, às leituras dos artigos; os textos estão no mundo. Assim como a escrita que mantenho,  aqui no site-blog Agachamento, em fluxo contínuo desde janeiro de 2011, quero escrever (e publicar rs) um livro com um tipo de texto simples e sério ao mesmo tempo… mas não acadêmico estrito senso. Gostaria muito que estudantes nas graduações – Bacharelados e Licenciaturas nas artes, pelo Brasil afora – pudessem ter acesso ao livro, e que sua leitura fosse prazerosa e desafiadora.

Projeto criar um tipo de resposta ao livro didático, no qual tudo está relativamente dado, organizado e roteirizado.

Como fazer seus próprios roteiros criativos e sequências didáticas abertas? Tenho nomeado este outro jeito de trabalhar o ensino de arte como “abordagem espiral”. Agora, alguns anos depois da ideia inicial, que me proporcionou dois prêmios, vejo que trabalhar, com transparência, uma visão de mundo, uma “perspectiva” para compreender a criança e o jovem em seus mundos de vida, é a maneira mais interessante e bonita de começar a fazer diferente.

proposta encarnada no corpo_materiais_ relaçõesO que proponho modificar?

É meu ponto de vista que a atitude adulta frente à criança e o jovem que precisam des-contornar… tenho gostado de usar as palavras “contorno” e “descontorno” pois vemos ainda milhares, senão milhões de educadores propondo, como “atividade de artes”, colorir dentro do contorno. Eu estava numa banca de conclusão de curso e a aluna, graduanda na Escola de Belas Artes, chorou lembrando, em depoimento, de como era “um fracasso” em colorir certinho, no contorno…! Colorir dentro do contorno não é arte, é tarefa/exercício de psicomotricidade – ok, podemos validar como algo relacionado à percepção da figura no papel e ao uso comedido (motricidade fina) do lápis de cor, mas não é ação relacionada a arte.

atitude de agachamentoProvavelmente por ter nascido na década de 1960, sido adolescente da metade da década de 1970 em diante, e por ter dado de cara com o teatro desde 1978, encontrando referências das bordas entre arte e vida, que cometi a “audácia do bofe” de, muito lentamente, criar a perspectiva artístico-existencial. Mas, ei você!?, não é algo para ser adotado! É algo para ser notado, como fonte que matará a sede de poder ser o que se é.

Ser o que se é!

Que raios é isso na era dos games, selfies, haters, instas???

Penso que só você leitor poderia saber o que se é – mas nunca como competição em um game, nem como foto registrando “Seu Momento”, nem polarizado entre gostei e não gostei, nem a imagem pela beleza da imagem…

A perspectiva artístico-existencial tem sim alguns princípios, e talvez difíceis de praticar na contemporaneidade.

O primeiro: o silêncio.

O segundo: a observação atenta, de si, do outro, do mundo.

O terceiro: a busca pelo ponto de vista da criança e do jovem.

O quarto: focar nas relações, encontro, convívio.

outra corporalidadePor isso ainda acho que vai pegar, no melhor sentido, o caminho do ensino de arte – na chave existencial, que sintoniza na criação de poéticas próprias, da felicidade e da possibilidade expressiva da infelicidade (cantada, dançada, performada, gritada, chorada) – como ato performativo de resistência… Resistir ao aplicativo, ao livro didático roteirizado, às vias curtas e técnicas e práticas. E vai pegar como dois e dois são cinco, e por muitas décadas.

Quinto princípio: praticar a via longa.

Sexto: perceber, a cada dia, como a arte é um lugar – visitar, alugar, morar, construir, habitar… demolir e erguer de novo.

Sétimo:  rir muito (mas sem ironia) daquele que diz que sabe para que serve a [aula de] arte, e ensina a serventia.

Esses sete princípios seriam um modo de ir, em câmera lenta, agachando-se, na direção do chão. De onde vem o baião.

Cave um buraco até o Japão.

Pesquise onde é o Jalapão.

Comece seus hai-kais mesmo que com rimas pobres, e, aos poucos, sem estresse, desapegue da rima… E volte ao primeiro princípio, sempre.

*

capa livro silêncio

Silêncio é o nome do livro, recém-traduzido para o português pela Editora Cobogó, de autoria de John Cage. Dê um jeito de ter o seu, se quiser encontrar o fluxo disso tudo também em livros.

 

 

 

[As três fotos desta postagem foram tiradas por Lúcio Honorato em setembro de 2019, no evento UFMG Jovem, do qual fizemos parte: eu, Raysner de Paula, Charles Valadares e Raiane Oliveira]

 

 

 

 

 

Quatro anos atrás… oito anos depois…

Termino o ano reafirmando meu percurso na Universidade Federal de Minas Gerais, onde trabalho desde junho de 2012, mantendo uma promessa feita para meus amigos mais próximos e não acadêmicos: de que, uma vez “dentro”, eu faria diferente: sem salto alto nem veludo ou maquiagem, traria tudo de “fora” que já tinha vivido, repartido, estudado e homenageado – especial menção ao diretor, dramaturgo, ator e artista Ilo Krugli, falecido neste ano que termina, e que me ensinou a brincar como adulta – pela condução de um “teatro para todas as idades” sem mimimis, dedicado à transformação e ao uso criativo das coisas do mundo. Espero conseguir paz de espírito para continuar essa pesquisa e para compartilhar esse modo de ser, de estar no mundo, de viver e de morrer (um pouco).