AGENDA para outubro e novembro, 2017

Ainda antes do Natal…

 Já chegou o feriado de 12 de outubro e ainda irei, “antes do Natal”, a dois eventos importantes: o CARTOGRAMA 2017 em Santos, São Paulo; e o Congresso CONFAEB 2017 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Tive grande simpatia pelo CARTOGRAMA desde o início, quando me convidaram a falar, ao perceber que é um evento conjuntamente organizado por gente das artes e da saúde; gosto disso – de participar de algo que, em sua origem, já é interdisciplinar. Faz sentido para mim: pelos anos de estudo de Psicologia, e pelos anos de ensino na graduação em Psicologia, concomitantes com minha prática de artista-professora na EMIA-SP. Minha fala será teórico-prática (um tipo de oficina que mistura práticas e ideias, discussões e fazeres) e dei a ela o seguinte título:

PERCORRER A VIA MENOS PERCORRIDA

Aliás aprendi a usar a expressão “a via menos percorrida” com um aluno da graduação em Psicologia da Uninove, universidade privada onde trabalhei entre 2002-2007. Ele estava lendo um livro com aquele dizer no título (na verdade no livro era “trilha”, não “via”, e tratava-se de uma obra no campo da espiritualidade e autoajuda… fui ver no Google: uma leitura sobre viver bem, e honestamente) e foi meu aluno que fez a associação entre o título com a Fenomenologia, inserida no campo maior da Psicologia. Nada mais próprio: como e por que ocupar-se com uma proposta filosófica que não busca a cura nem promove saúde – mas busca a compreensão da doença psíquica e seus desdobramentos existenciais? Quem se ocupa com isso e dessa maneira está mesmo caminhando pela via menos percorrida.

E de fato, com o passar destes 10 anos, a via fenomenológica na Psicologia ficou cada vez menos percorrida… lugar onde se evita a medicação excessiva e as estratégias que maquiam o sofrimento humano.

Para o Cartograma, meu foco é o olhar fenomenológico para a criança, e as possibilidades que se abrem diante dessa via menos percorrida (pois a via mais percorrida é a desenvolvimentista, ou seja, o olhar para a infância por fases, etapas pré-determinadas a serem superadas… e por preparações para os próximos degraus). Se não olho para a criança por meio das fases, eu positivo a experiência da possibilidade mais possível, vivida aqui-agora; eu enxergo sua inteligência de modo pleno, e admiro suas conquistas sem achar que precisaria mais, ou “ser melhor ainda”. Enfim, trabalhar na chave da fenomenologia da criança seria evitar a maneira de trabalhar por competições e superações (modo que faz foco no que “não se tem” ainda). Podemos chamar o olhar fenomenológico como uma lida que positiva o fenômeno da infância. A temática da edição atual do evento Cartograma é “arte e infância”. Vou procurar discutir que diferença faz tudo isso no campo do convívio entre adultos e crianças, e no ensino da arte.

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Na CONFAEB minha fala terá o título

INFÂNCIA COMO IMPROVISO /

POR UMA ABORDAGEM ESPIRAL NO ENSINO DE ARTES PARA CRIANÇAS

Neste evento, o Congresso da Federação dos Arte/Educadores do Brasil, participarei de uma mesa redonda – e nos pediram por textos. Escrevi uma reflexão (disponível em breve nos Anais do Congresso) que retoma os princípios da abordagem espiral no ensino de arte. É de extrema importância, pela abertura de espaço dada para mim na Confaeb, poder divulgar as ideias que desenvolvi ao longo do tempo, posso dizer ao longo de mais de uma década, sobre o ensino de arte na chave do hibridismo, ou das misturas entreartes – algo polêmico para aqueles que defendem o purismo de cada arte, e que definem arte como “linguagem”— pois cada linguagem teria sua gramática, sua estética, suas especificidades…

Meu ponto de vista é de que as artes podem habitar outro lugar: o do âmbito artístico-existencial; seria esta minha contribuição original, que não só remexe com certezas, como alerta para o risco da rigidez da via de mão única, e também para os corporativismos no campo de conhecimento ao qual pertenço.

Âmbito é sinônimo de lugar; haveriam lugares no corpo que nos levam ao que se denomina arte – mas que a criança pequena pode viver, se puder ser o que se é, como brincar e ser feliz. Ser feliz por sentir-se plena, habitando seu corpo, expressando-se com liberdade; liberdade situada, diriam os fenomenólogos: liberdade emoldurada pela cultura compartilhada e pelas regras e normas do convívio familiar, social e político.

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A partir de muitos problemas pelo qual o campo da arte está passando, com perigosa pobreza de espírito das discussões entre apenas duas posições (“estar a favor ou contra”), descubro a potência, novamente, do pensamento de Paulo Freire. Ganhei de aniversário o Dicionário Paulo Freire e estou curtindo, depurando, absorvendo cada verbete… No texto para a Confaeb, fiz foco na noção de inédito-viável (que aliás eu nem conhecia!). Trata-se de um modo de pensar criação, transformação, e propostas que possam ser novas mas de fato possíveis. Sonhar sonhos possíveis! Será que o Brasil ainda comporta / suporta isso?

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foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

foto de Txay Tamoios tirada no Rolezinho na Rampinha

Outro acontecimento importante do mês de outubro, este no “microcosmo”: a ida ao ar (ou à nuvem? Rs) do novo desenho do site-blog Agachamento fará aniversário no dia 27. Durante o ano, foram feitas cerca de 20 mil visitações – e 100 mil acessos a postagens lidas, visitadas, impressas. Fico feliz com isso.

Foram publicadas 350 postagens desde janeiro de 2011, compiladas agora por suas temáticas (algo que o leitor encontra na página de abertura do site-blog à direita da tela).

A via menos percorrida vale a pena, também cava seus espaços, mapas, estradas e pousadas…

Quero falar de uma coisa

Todos temos nossos Arquivos X

Nos meses de outubro e novembro de 2017, acontecerá, na espacialidade de um apartamento em Belo Horizonte, Minas Gerais, um evento teatral. Um rito. Uma pequena obra documental posta em ação.

Em janeiro, comecei a me encontrar com Charles Valadares e Raysner de Paula. Eu os convidei para um trabalho cujos modos de fazer se assemelham ao que está sendo nomeado “teatro documentário”. Eu os chamei para que fossem “meus filhos gêmeos”. (Não para que representassem: para serem).

No ano de 1984 fiquei grávida de gêmeos. Foi uma experiência inicial de muita felicidade e júbilo. No entanto, aos cinco meses e meio de gestação, os meninos (eram dois meninos) morreram.

Dependendo do tempo gestacional, os bebês que morrem na barriga da mãe e nascem são denominados – e registrados em suas certidões de óbito – “natimortos”. Este é um dos (imensos) detalhes desta história, que vamos contar por seis vezes, algumas segundas-feiras de outubro e novembro de 2017: trinta e três anos depois do ocorrido.  Um detalhe imenso e que me fez deixar os originais dos atestados de óbito no fundo de uma pasta de documentos, muito no fundo, durante todos esses anos.

Por meio deste trabalho, eu percebi, ou confirmei, a potência do teatro para a cura.

“Cura” no seu sentido etimológico: cuidado.

Estou cuidando de um luto atemporal, ou antes, longuíssimo, que meus vinte e dois para vinte e três anos (minha idade naquele momento) não deram conta de “elaborar”. Por trinta e três anos seguidos, os meses de julho me deixaram melancólica. Há um certo cheiro, luz e atmosfera do inverno que me levavam, mais uma vez, em trinta e três julhos, à tristeza da ação de parir bebês já mortos — a mais cruel síntese do que é um paradoxo.

No momento vivido, enfermeiras inábeis me chamavam por “mãe”, ou “mamãe”.

Tudo muito errado. Todos os profissionais envolvidos muito incapazes de conversar uma conversa aberta e franca, olhos nos olhos.

De início, o médico do ultrassom, que detectou, no exame, o falecimento dos bebês, fez com que minha mãe, que me acompanhava junto com meu marido, fosse a portadora da notícia do óbito.

Na minha memória quem acertou foi o jovem médico que conduziu o trabalho de parto. Ele percebeu que eu chorava. Me perguntou se sentia dor… Eu disse que era tristeza, não dor exatamente. Ele me respondeu, com simplicidade: “Você ainda vai poder ter muitos outros filhos”.

Outros médicos mais velhos e mais experientes só sabiam afirmar, com secura e objetividade: “A natureza é sábia”. No geral eles acham que quem ouve a frase a compreende “cientificamente” tal como eles, quando enunciam: que perder bebês doentes é melhor do que tê-los.

Quem viveu algo parecido sabe que nada substitui aquelas crianças, na sua existência, nas suas pessoalidades e especificidades.

É sobre isso o meu “teatro de apartamento”: sobre poder falar do assunto, um tipo de “tema tabú”, de modo livre, artístico e poético, e nomear os natimortos das certidões de óbito por Evandro e Dimas – seus nomes escolhidos.

Desde janeiro construimos quinze momentos dramatúrgicos de modo a expurgar isso de mim; em mim. Concluir, e dizer para o céu que enxergo da varanda do meu apartamento recém alugado: eles viveram cinco meses e meio de uma existência feliz. Em determinado momento eu canto, e depois os meninos cantam, um trecho de uma canção de Rita Lee:

Num apartamento / perdido na cidade / alguém está tentando acreditar /

que as coisas vão melhorar / ultimamente…

(Teriam mesmo eles vivido cinco meses e meio de uma existência feliz? A pergunta é, agora, filosófica, e não é para ser respondida).

De início pensei mesmo sobre uma abordagem realista, estudo da neurologia dos fetos, e coisas correlatas. (Eles sentiram dor, quando morreram na barriga?)

A pergunta vai ser performada. Ou, em palavras mais transparentes: a resposta (mais possível, trinta e três anos depois) é a criação, ao lado de Raysner e Charles, junto; dois atores jovens que toparam o desafio, que acolheram meu projeto, em troca do convívio e da aprendizagem deste tipo de teatro e seus procedimentos. Tenho muito a agradecer a eles. Encarnaram Evandro e Dimas, ao longo do ano de 2017, e, ao ver os gêmeos crescidos e saudáveis, por meio da ilusão do teatro, eu pude dizer adeus.

Com este trabalho vou expurgar a dor, a recordação, o cheiro do inverno que mistura também a mancha de sangue vermelho na calcinha durante a recuperação do “aborto espontâneo” (que expressão terrível!) e a nitidez do cheiro, nas narinas, de um tipo de spray cicatrizante que se usava nesses casos, à época.

Eu tomei vacina “anti RH” pois não se pensou sobre isso, durante a internação hospitalar, e não foram verificados os tipos sanguíneos de Evandro e Dimas – eu, sua mãe, era 0 negativo.

No ano de 2012, ao fazer exames para entrar na UFMG, descubro que meu sangue se tornou “0 positivo fraco”. (Aparentemente isso aconteceu por ter tomado a vacina nas duas gravidezes vividas… nos anos de 1984 e 1985).

…Ter mudado de tipo sanguíneo talvez possa, agora, ter sua potência poética, na medida em que decido que vou deixar que Evandro e Dimas, enfim, sejam por mim consideradas vidas de cinco meses e meio (dentro da barriga) bem vividas; dois bebês queridos e desejados, que, posso teatralizar agora, inspirada em palavras de Janusz Korczak: crianças que tiveram o direito de morrer.

Deixo registrado, aqui no Agachamento, a criação deste ato performativo que acontecerá de modo aberto muito em breve, e explicito os “resultados” que pretendo “obter”: a assunção de que tive três filhos, um deles vivo.

É para Jonas, meu filho saudável e vivinho da silva, que dedicarei este expurgo, à sua liberdade de vida e expressão, para que sua mãe deixe estar os irmãos, com quem não brincou e não conheceu:

como disseram os Beatles: let it be

como disseram os Beatles: let it be

que seus primos possam ter tido este papel — e tiveram — e que a sua vida seja homenageada, com sinceridade e sem escrúpulos para saber de seu caminho biográfico; e que você se sinta livre para, sempre que quiser, e puder, acessar esses Arquivos X da sua mãe. De seu pai. E de seus irmãos.

 

 

 

Rolezinho na rampinha

Artivismo, agora praticado

Em uma postagem intitulada “Eu quero ser artivista”, comentei sobre uma oficina / workshop / ato performativo que iria propor para o setor Educativo do Centro Cultural do Banco do Brasil. Este trabalho aconteceu no dia 23 de agosto, última quarta-feira.

Tinha muito o desejo de “ocupar” a rampa na lateral do prédio do Centro Cultural.

Pensava, e penso ainda, que tudo de contemporâneo que o Centro Cultural está propondo, precisa sair dali: ganhar a calçada!

Expandir-se.

Conversar com transeuntes, moradores, e pessoas que não tem o hábito de ir a… museus. Mesmo com entrada gratuita, existe um fenômeno: há alguns grupos sociais que não entram em espaços assim. Assim como? Museológicos, bem cuidados, com cara-de-elite. Sim, é inevitável que o imponente prédio seja visto, lido e vivido como espaço “não para mim” (pessoa comum).

Assim dividi o tempo em três momentos.

Primeiro momento:

dinossaure-se

Eu me apresento junto com os objetos que levo em uma sacola… Sem planejar nem roteirizar, vou criando sentido entre os objetos: nomeio o jacaré de plástico meu filho; dou a ele uma enorme maçã para comer, e ovos. Ele namora uma galinha. Eu sou enciumada. Eu até já o levei a Paris! E assim por diante.

 

Segundo momento:

Cada participante ganha “um kit”. Trata-se de um móbile da fábrica de brinquedos S’ocio, que fechou. Ganhei do meu irmão, criador da fábrica, uma porção desses “kits”, para fazer o que eu quiser… Explico que o “kit” vira um móbile – e que vamos fazer

tudo menos um móbile.

o kitTerceiro momento:

Passear pelo espaço. Perceber que isso que fizemos pode ser chamado de performar a paisagem. Nesse momento eu brinco de ser “O Educativo” do lugar. Falo coisas imaginadas e ao mesmo tempo situadas (Aqui é a Savassi… Aqui é o Parque Municipal… Em Paris!… etc)

E houve um quarto momento, no qual, por cerca de vinte minutos, conversamos, em pé. Aglomerados.

Disse que quem quisesse “reproduzir” o trabalho com crianças deveria ter sua mala ou sacola de objetos. Colecionar coisas é o primeiro passo. O segundo passo é exercitar narrativas imaginativas, brincantes, humoradas – posso chamar isso de doar significações [para os objetos, para o espaço ocupado, para as relações que estão acontecendo no aqui-agora]. Essas narrativas são apenas motes iniciais para acordar as imaginações. As imaginações serão espacializadas, por meio do uso dos materiais distribuídos a seguir.

Obviamente as pessoas não terão os mesmos “kits”, mas podem colher brinquedos-sucata de modo que cada participante ganhe um mesmo inventário. É um exemplo simples: rolhas; tampinhas; galhos; folhas; pedras; brinquedos quebrados; bolas de gude; papeizinhos. E assim por diante.

O importante é perceber que, quando o adulto condutor não diz o que é pra fazer, estou livre para inventar. Mas tristemente há no mundo crianças que, quando não se diz “o que é pra fazer”, se inibem, ou se entediam, ou até mesmo se sentem ameaçadas pela liberdade.

Digo “tristemente” por ser estudiosa da obra do psicanalista inglês Winnicott, que afirma existir um tipo de mandalabrincar “livre e criativo”. Este jeito de brincar não é inato – ou seja, as crianças não nascem imaginando; as crianças aprendem essa maneira de brincar de modo relacional: com os adultos cuidadores, com os pares, com a cultura compartilhada enfim. Trata-se do tão famoso “brincar de faz de conta”. Não preciso de brinquedos ou de regras para que o faz de conta aconteça; preciso de liberdade de expressão e de liberdade de ir e vir: preciso ir ao mundo, ver o que o mundo me oferece; e preciso ter a ilusão de que eu criei o mundo, e que o mundo é meu parceiro – as coisas ali estavam para que eu as descobrisse.

Mas como as crianças pequenas estão, habitualmente, sob as asas do adulto cuidador, o gesto espontâneo de descoberta do mundo precisa ser permitido, provocado, até mesmo induzido; “ir ao mundo” pode significar por exemplo, simplesmente ir ao encontro de uma torneira de água, ou ir até a terra da pracinha.

Como você, leitor do Agachamento, pensa essa situação? Deixar a criança ir e vir na pracinha, e ter contato direto com a terra e com a água?

Também tristemente muitos adultos jovens (tomo pelos meus alunos na graduação de teatro) consideram perigoso ou arriscado ficar livre na pracinha. Estou percebendo que uma porção de lugares e mídias estão tematizando a “infância confinada” entre os brasileiros. As ruas estão perigosas, é fato; mas o que vamos fazer sobre isso?

jacaré1Por isso considerei a breve e pequena ocupação da rampinha ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil um ato político. Uma ação de uma hora e meia de artivismo.

O foco foi o uso criativo dos materiais que todos tinham em comum. Pelas imagens vocês podem notar como foi rico e instigante!

Foi uma proposta de risco. Poderia ter frio e vento, poderia ter interferência da rua ou dos transeuntes de tal modo que os participantes se sentissem inibidos, intimidados, ou abordados de um jeito intromissor. Também os participantes poderiam não aderir aos meus comandos. Ou poderiam se entediar ou se dispersar, sendo que, em meu enunciado, disse que o trabalho pressupunha introspecção e um grau de silêncio.

paisagem2Ao final algumas pessoas deram breves depoimentos sobre o que vivemos. Foi interessante e bem sucedido. Percebo que por vezes os educadores agem como se os coordenadores, diretores e o sistema educacional fosse “Pai” e “Mãe” autoritários, que mandam e nos limitam. Gosto de afirmar que nossa arma-flor (flower power) são os documentos curriculares. Muitos dos municípios brasileiros elaboraram documentos a favor da pequena infância, do brincar, do protagonismo. Se o coordenador, diretor ou supervisor de ensino se aborrece com “nossa bagunça” (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) devemos, em nome das crianças, afirmar que o que estamos propondo está previsto no documento curricular. O brincar é preponderante – não é um momento da sexta-feira no qual trazer brinquedo é permitido… O brincar é uma grande paisagem ou pano de fundo de toda a vida escolar da pequena infância. O brincar é um parangolé a ser vestido, uma chuva para nos molhar, uma bota de sete léguas que nos faz gigantes.

Grande indício de que isso tudo (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) faz parte da energia da criança, foi a visita de dois meninos à nossa ocupação:

gesto espontâneo

13 razões para assistirmos a um seriado americano

imagesMuitas e muitas pessoas me falavam do seriado “Thirteen reasons why” (“Os treze porquês”, em português), produzido pela Netflix, neste ano de 2017. Quando “todo mundo” está falando… tenho certa preguiça de aderir (rs) – mas agora confesso que, neste caso, foi puro preconceito.

No último final de semana de julho, pude começar a assistir a tão falada série. A temática é polêmica, bem como seu modo dramatúrgico: falar sobre o suicídio, do ponto de vista da garota suicida (que grava fitas cassete, para seus colegas de high school ouvirem, sobre as (13) razões para tirar a vida, por assim dizer).

Pela minha faixa etária, profissão, geração… minha atenção – e tensão – fez foco nos modos de ser e estar da comunidade adulta. Assim minha emoção, comoção, identificação se ligou aos personagens dos pais, professores, terapeutas e gestores da escola… Ficam transparentes os conflitos de geração, e de que aquela boa e velha receita “tenhamos uma conversa sincera olhos nos olhos”, por inúmeras vezes, é impossível de ser seguida. Todo o tempo os episódios apontam para isso.

E, junto daquilo, a solidão, ou o tipo de solidão da personagem suicida: ausência de diálogo, de amizade, de copertença, de solidariedade… o que, para os americanos (na vida real e nos roteiros de seriados, literatura, auto-ajuda, psicoterapias e etc) possui o par complementar dos comportamentos de bullying. (É que não gosto de adotar esta palavra. Sempre digo para os alunos: podemos pensar, em português, sobre: maltratos; maldades; sacanagens; crueldades; relações de poder).

Nos treze episódios a tensão vai acumulando, e a tristeza, o isolamento; e seguem um rumo que, no início de alguns episódios, já haverá um “warning”/ aviso de que haverão cenas fortes – penso que muito bem elaboradas, dirigidas, atuadas. Os temas de maltratos e crueldades se expandem para violência e estupro. Há contexto; delicadeza por um lado; veracidade por outro, que, num dizer no “extra” pos-treze episódios, os atores nos explicam: o modo explícito homenageia os vivos. O realismo da dor é um modo de honrar a dor dos que ficaram vivos, quando o jovem suicida passa ao ato. A encenação verosímil, para eles, é a escolha que faz jus ao que amigos e familiares experienciaram suicídios de jovens.

*

Passei recentemente pela experiência de assistir por dias apenas a TV aberta. Estava sem internet, por ter mudado de casa. Como a programação da televisão brasileira está ruim, e ideologizada! (seja pela espetacularização, seja pela religião comercializada, seja pela ausência de “pontos de vista”). Então, ao assistir a série das treze razões do porque Hanna Baker se matou, fiquei paradoxalmente feliz – depois, igual quando acordamos de um sonho – feliz porque existe no mundo este objeto da cultura.

Uso há bastante tempo esta expressão, emprestando a definição do psicanalista Roberto Barberena Graña: “Os objetos da cultura são (…) produtos refinados do exercício da criatividade (…) que contribuem cumulativamente na sedimentação do patrimônio de realizações e experiências humanas. A experiência cultural criativa propicia uma totalização do sentimento de ser; é não só a de quem escreve como a de quem emocionalmente lê, não só a de quem pinta como a de quem emocionalmente identificdo contempla, não só a de quem compõe como a de quem se deixa inebriadamente envolver pela melodia, enfim, a de quem consegue, sem esquivar-se às exigências e responsabilidades que a vida e a realidade (…) impõem, preservar em si a possibilidade de surpresa, de encantamento e de ilusão.” (no livro Donald W. Winnicott/Estudos).

Pois então existe um objeto da cultura que tematiza o suicídio, sem estereótipos nem maniqueísmos. Existe um seriado americano inteligente, em pleno mundo de vida Trump-trash.

Existe a possibilidade de criar algo de modo a levar a discussão do tema tabu do suicídio, bem como dos maltratos e crueldades, incluindo o crime de estupro, por meio da linguagem já instaurada das séries de TV.

Existe a possiblidade de fazer televisão e cultura de massa de modo cuidadoso, sensível, e respeitoso com uma obra (a série é transcriação de um livro); com os atores jovens; com o público.

Enfim, penso que todos aqueles que tiverem a oportunidade de assistir, devem fazê-lo. Especialmente educadores que, como eu, enfrentam os temas nos subtextos das criações dos jovens alunos universitários que estudam teatro; e se não enfrentam os subtextos em seu cotidiano de trabalho, podem enfrentar em outras formas: no silêncio e na dor do jovem que se sente mal, não pertencente, por vezes alvo de crueldades…

Também vejo na construção dramatúrgica algo que vale a pena, próprio do texto contemporâneo – os episódios tem seu sentido próprio, mas a trama se faz em fragmentos e por camadas; o roteiro é trabalhado por meio de “pontos de vista”, mesclando o ponto de vista da narradora (já morta), e os tempos passado e presente. No tempo presente ficcional, ouvimos versões das personagens. No tempo presente do que é editado no final dos treze momentos, ouvimos os produtores, os atores, a diretora…

No modo de roteirizar, há busca por não terminar em relativismos: ao final, haverá o compartilhamento de dor, segredos, solidão, e possibilidade de denúncia e, talvez, reparação.

A morte de um filho nunca é reparada.

Vemos muitos pais trabalharem sua dor politizando a vida cotidiana, como fez por exemplo a mãe do cantor Cazuza. (Talvez algo assim possa acontecer na segunda temporada da série, que estão preparando).

Eu mesma estou nesse caminho: criando uma encenação para comunicar meu luto, que hoje percebo como foi extremamente estendido, pela perda de filhos gêmeos, no quinto mês de gestação.

Percebo que a adaptação do roteiro em “13 reasons why”, e a atuação, direção, etc quer nos conduzir pelo caminho da autorreflexão: e por isso termino falando de mim. Eu estou ali.

Minha juventude também está ali, de algum modo, pois fui estudante de intercâmbio em uma pequena cidade do estado de Michigan, em 1977.

Ao voltar para o Brasil, de 1978 em diante, descobri o teatro.

A morte pode não ser reparada, mas poderá ser retratada, tornada “objeto da cultura”.

Tornada “objeto da cultura”, está pronta para ser compartilhada, discutida, antropofagizada que seja.

“13 reasons why”, para mim, é uma obra de artivismo. (Ver postagem anterior)

Talvez por isso fez tanto sentido assisti-la neste momento.

*

Não “sou” do Facebook, portanto, não estou acompanhando os comentários e a polêmica sobre esta série…… mas, para aqueles que pensam que estão “convidando jovens ao suicídio”, só tenho a dizer, citando Bachelard: “todo realista é avarento”.

Encarar esse trabalho de maneira realista estrito senso é simplesmente avaro, estreito e simplório. Seria igonorar a capacidade humana para a ficcionalidade — e o lugar terapêutico, ou curativo (curar no sentido do “cuidado”) que a ficção pode ter.

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Te dou então treze razões para assistir ao seriado: encarar de frente um tema tabu; perceber a riqueza do roteiro em fragmentos; abrir portas e janelas para o diálogo sobre o suicídio, a solidão, os maltratos e crueldades sofridas por jovens; acompanhar jovens atores e seus personagens desenvolvendo-se; compreender o que é próprio da cultura americana; aprender o valor da ficcionalidade na vida humana; entender como até mesmo a cultura de massa pode ter traços de artivismo; abrir mão do realismo estrito senso, deixando de ser avarento; desenvolver empatia; perceber as relações de poder da vida humana; espelhar-se nas situações e crescer como pessoa; pensar em formas de solidariedade e companherismo na vida cotidiana; compreender a complexidade do início da vida sexual ativa dos seres humanos.

Eu quero ser artivista

Por vezes me sinto fora do tempo.

A vida correndo, nossas escolhas, preocupações e projetos, tudo nos toma – e de repente senti uma urgência, de entrar no tempo, não mais a temporalidade que mescla subjetividade e objetividade, mas o tempo do relógio. Isso aconteceu depois da experiência do congresso do IFTR (ver postagem anterior).

No meu caso, entrar no tempo do relógio é, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, procurar um caminho da maturidade que leve meu trabalho a um lugar político estrito senso.

Que o lugar político estrito senso de minha dedicação à infância seja, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, trabalhar na chave de um início de vida (digamos os dez primeiros anos) de alguma felicidade. De encontro. De descoberta e sedimentação.

Dez anos da possibilidade mais possível para as crianças do Brasil.

Como fazê-lo?

Vou começar agora.

Vai ser numa reunião que terei no Centro Cultural do Banco do Brasil em Belo Horizonte, no final de julho. Pretendo, na reunião, conseguir desmanchar o que se projeta em mim (Professora Doutora e etc), para construir algo junto, e para falar da criança tal qual ela se apresenta, em nós, para nós, no dia para o qual estou sendo convidada a falar.

A criança hoje tem nome e sobrenome, tem data de nascimento, tem contexto afetivo, social e político; a criança de hoje não é “a criança interior” de cada um. E a criança de hoje não é a criança das teorias do desenvolvimento humano!

Pretendo falar dessa criança na chave artivista, no meu caminho já iniciado e trilhado: partir de um brincar originário. Lembrar os presentes da felicidade de descobrir o mundo, o eu e o outro, a partir de situações relativamente organizadas pelos adultos, mas nas quais “eu me vejo o criador”. As coisas lá estariam para que eu as descobrisse. Sem estresse, sem pressa, sem “ter que”.

Em algum momento, na UFMG (onde cheguei em junho de 2012, para ensinar a ensinar teatro) eu tive a ideia, ou talvez uma epifania, que reuniu palavras da seguinte maneira:

tempos dilatados para espaços encontrados.

Gosto demais dessa expressão; dessa síntese; maneira de re-nomear algo antigo: o brincar “livre e criativo”, tal como discute o psicanalista inglês Winnicott.

Para que a criança pequena se veja livre e criativa, há que enfrentar um paradoxo: os adultos precisam estar alí, de modo a propiciar o que Winnicott chama de ambiente facilitador. Também precisamos, adultos que somos, ser capazes de holding – que, em tradução literal, significa sermos capazes de “segurar”. Na gíria isso fica mais claro: segurar a onda. Acolher. Deixar ser (e só então propor o fazer).

Alguns interpretaram esse modo winnicottiano como “deixar rolar”. Não penso ser esta a melhor expressão, pois por vezes as crianças gostam de coisas estranhas, perigosas, e perversas. Por isso os adultos precisam estar por alí.

No entanto a educação se daria como tempo de espera. Que a maturação viesse aparentemente sozinha – ou, pelo esforço da criança mesma – mas a partir de um ambiente seguro, cujos perigos são apresentados como desafios, que a maturação aconteça (andar, falar, correr, pular, imaginar, brincar!) com seu espaço e seu tempo afinados com a espacialidade (relação criança-espaço) e com a temporalidade (relação criança-tempo).

Trata-se de praticar uma espécie de arte zen. Estar alí, mas saber ausentar-se, para que a solidão surja como modo positivo de sentir-se humano.

Sentir-se humano significaria, aqui, agora, e a partir de hoje, sempre, saber da finitude.

Que nos dez anos iniciais de nossas vidas possamos experienciar uma corporalidade (relação criança-corpo) sagrada – não no sentido religioso, mas sim no sentido poético e artístico, tratando daquilo que é um sopro de vida… e seu fluxo de continuidade.

Saber da continuidade de si, do outro e do mundo, é saber também que tudo que nasce, morre. Penso ser interessante propor, como artivismo, o direito do tempo dilatado e dos espaços encontrados, durante a primeira década de vida. Dez anos de boas experiências de continuidade nos daria força para enfrentar as (inevitáveis) rupturas que a vida humana traz.

A solidão compartilhada é uma das noções mais bonitas e interessantes da obra de Winnicott, que faleceu em 1971. Penso que o “auge” do seu pensamento é muito conectado com os movimentos inovadores da década de 1960. Paz e amor. Arte e vida. Criatividade e presença (e ausência, concomitantes).

Vou propor, na reunião que terei no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte, não ser conferencista. Não usar microfone. Não falar em situação palco/plateia, em auditório.

Eu quero ser artivista.

Vou propor uma bagunça em uma área externa do (imponente) CCBB-BH. Por bagunça entendo vida, movimento, surpresa. Por bagunça quero dizer busca de antiestruturas, no sentido sociológico.

Eu quero uma casa no campo (…) / a esperança de óculos / meu filho de cuca legal.

Todos os educadores da pequena infância querem crianças de cuca legal – quase todos reclamam de crianças problemáticas, inquietas ou não psiquicamente saudáveis… mas, o que estão fazendo sobre isso?

Penso que é necessária uma reviralvolta no discurso, e na ação, dos adultos.

Essa reviravolta pode ser proposta pelos artistas que trabalham com educação e infância.

Brincar!

A oficialização do brincar, vivida por muitos na educativa e organizada Brinquedoteca (nada contra, mas vejo coisas de arrepiar os cabelos em algumas dessas maneiras organizacionais), abafou algumas das possibilidades existentes para semear a saúde mental, existente no brincar “livre e criativo”.

Vejo entre intelectuais que muitos debocham dessa expressão.

Eu homenageio essa expressão, a cada convite que me é feito para falar sobre arte e infância. Os que debocham dizem que liberdade e criatividade são ilusões, ou “conceitos datados”. Mas outra coisa bonita e especial que a obra de Winnicott propõe é o modo como nos relacionarmos com a ilusão:

A ilusão encontra-se em um espaço próprio, que é o entre: entre a mãe e o bebê, entre o adulto e a criança, entre natureza e cultura… A ilusão é positiva, necessária, amorosa. A ilusão move montanhas. O espaço de ilusão nos humaniza – é onde eu acredito que criei o mundo! Apesar de muitas vezes desconfiar que tudo aquilo alí já estava… A ilusão acolhe a fantasia, o devaneio, o desejo.

A ilusão é fundante.

A ilusão nos leva, na vida adulta, à arte, à ciência, à filosofia e poesia, ao prazer de gostar do nosso campo profissional. Nessa chave, a ilusão é o que nos move, rumo à independência.

O espaço de ilusão também é chamado, por Winnicott, de área do consolo.

Do que você acha que a criança se consola, por meio do brincar?

Para Winnicott, seria da constatação do “self”; e concomitante àquela constatação, outra: a separação da mãe (ou figura materna, quem nos cuidou).

Como e por que eu precisaria ser consolado disso?

É porque eu acreditava ser um oceano.

Mas sou uma pessoa humana.

E como pessoa humana, eu te proponho: plante amigos e livros, e nada mais.

A ilusão da casa no campo, tão intensa na voz de Elis Regina… que tinha suas angústias e questões, que morreu precocemente…

A dura realidade da morte da artista desfez a ilusão da canção?

Zé Rodrix, compositor da música, muito tempo depois, em 2014, disse que escreveu a letra de modo despretensioso… pensa ser retrato de uma geração… e que a música é perigosa. (Entendo que pelo desejo de fuga).

Falar sobre perigo é muito importante para conseguir mudança nos modos de educar crianças. Muitos não querem as crianças na rua, e preferem que fiquem vendo televisão ou jogando no tablet. Muitos não percebem como é fundante a corporalidade em movimento – o desafio, e o enfrentamento do perigo. Muitos consideram crianças gordinhas e paradas na frente da televisão, ou sentadas com seus tablets, sinônimo de segurança.

Sei dos tiros na rua, sei da maldade humana, sei da existência de tráfico de órgãos e rapto de crianças – e sei que tudo isso não é contos de fada ou literatura!

Mas o que vou fazer sobre isso?

Artivismo.

colher

Por onde andei esses dias

Entre os dias 10 e 14 de julho participei do congresso da IFTR que aconteceu no campus da USP, em São Paulo, majoritariamente nas salas e auditórios da ECA. IFTR é a sigla para International Federation of Theater Research, ou, em português, Federação Internacional de Pesquisa em Teatro. Este evento é mundial e anual, com organização e origem anglo-saxã. Isso significa que a “língua oficial” do evento, no Brasil, seria o inglês.

Desse modo, desde que me inscrevi, em janeiro deste ano, estive pre-ocupada: era necessário escrever um paper em inglês e preparar-me para comunicar, expressar, me virar… em inglês: paradoxalmente, na minha cidade de origem…

processo 1

Foi bastante intensa a preparação – e por vezes tensa.

Quando chegou o momento, deu uma certa preguiça, obviamente associada a alguma ansiedade… mas junto com a parceira Luciana Hartmann, lá fomos nós, enfrentar o moinho anglo-saxão. Eu e ela estávamos no mesmo working group (grupo de trabalho), intitulado “Performance as Research” (Performance como Pesquisa).

Primeiro dia

Em mensagem por email, teria sabido que o encontro seria no

tbc

estranho!

Como e por que um evento co-organizado pela ECA-USP escolheria o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia)??

Tento confirmar, a organizadora do grupo de trabalho diz: yes, tbc.

Já tinha visto no Google Maps. O TBC é hoje um lugar fechado, abandonado.

Penso: podem estar querendo trabalhar em ruínas…

Vou pra lá.

Pego um ônibus e depois ando ando ando.

Ao chegar, mistério. Tudo mesmo fechado, estranhamente desabitado.

Vou na lojinha em frente. Pergunto. A moça me diz que se eu bater na porta, um vigia virá me atender.

Atravesso.

Bato na porta.

Vem o vigia.

Pergunto se ali está tendo algum evento ligado à USP…

Ele diz, aqui não tem nada. Ta abandonado.

Ainda me preocupo com “os estrangeiros”, que chegariam ali e encontrariam o abandono e o nada. Falo isso para ele.

Ando ando ando. Páro e envio, pelo celular, email para a organizadora do grupo de trabalho, alertando que não há nada no TBC.

Resolvo almoçar, bater perna, para depois ir para a cerimônia de abertura do Congresso na USP.

Ao chegar ainda reclamo com alguns meninos voluntários…

E o mistério só é desvendado quando encontro de fato a organizadora do WG (GT):

tbc = to be confirmed

Fico muuuuito sem graça. Constrangida. Me sinto infantilmente enganada. Em poucos minutos aquilo tudo se torna piada, folclore, ou ainda, para ficar chique: uma prova da existência das epistemologias do sul.

Segundo dia

Agora já sei, cresci, e me concentro para chegar na hora e no lugar certos.

Chego.

Surpresa: os encontros são de práticas. Se tira o sapato. Quando o pé esquenta, se tira a meia… e se tira também o peso do academicismo (ainda mais se falado em inglês por brasileiros! Rs).

Realmente as propostas foram simples, leves, bem legais. A proposta tematizou o “dentro” e o “fora”, de uma maneira fisicalizada e performativa.

Neste segundo dia, em um momento de Auditório, Ileana Diéguez fez uma comunicação muito forte sobre performance e política no México.  É uma felicidade ouvi-la.

Terceiro dia

Em um movimento crescendo, o espaço do congresso se torna espaço de convivialidade. Isso foi incrível. O passo mais importante nesta direção foi a permissão para falar português do Brasil! Algumas pesquisadoras falavam tanto inglês como português fluente; assim, o sub-grupo ao qual pertenciam criou um jeito de dar os comandos do workshop de maneira bilíngue. O tema deste momento foram memórias, que contávamos uns para os outros ao mesmo tempo em que construíamos teias de fios pelo espaço… Antes disso experimentamos alguns jogos de Augusto Boal; no último momento, alguém performava uma das nossas memórias, sem o uso da palavra. Foi muito emocionante para mim pois uma pesquisadora fez no corpo aquilo que tinha contado a ela: ser posta para esquiar na neve, sem ter nenhuma experiência (aconteceu comigo ao chegar nos Estados Unidos em 1977, no ano em que fiz intercâmbio).

De tarde foi a vez do meu subgrupo conduzir uma proposta.

Gostei pois pude usar o material de uma parte daquilo que teria preparado individualmente para comunicar, caso acontecesse um momento desse tipo: imagens do Parque Municipal de Belo Horizonte, dos burrinhos, da dramaturgia do espaço.

Preparação

Pusemos, em envelopes, duas figurinhas e um papel dobrado (página do bloquinho do evento).

Por vezes escolhíamos figurinhas repetidas. Fizemos isso de modo rápido e aleatório. Eu tinha preparado em Belo Horizonte as figurinhas e o evelope.

Eu e a parceira Chloé criamos uma sequência de três momentos:

path / frame / perfoming the landscape

caminho / moldura / performando a paisagem

Eram comandos simples e aos poucos levamos os participantes a um alto grau de silêncio.

Path / Caminho

Em quatro grupos compartilhar as figurinhas e criar com elas um caminho

veja que construção interessante de um dos grupos!

veja que construção interessante de um dos grupos!

Frame / Moldura

Escolher, dentro da sala ou fora, uma moldura – um recorte de algo, tal como uma janela, uma grade, um desenho no chão… que pudessem servir como uma moldura para o olhar – olhar simplesmente, imaginar, deixar-se levar: e fazer apontamentos na folha de papel que estava no envelope

Performing the landscape / Performar a paisagem

Ir para fora e escolher um lugar, de modo a especializar o que se imaginou; podendo usar as figurinhas ou não, devendo usar o envelope

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Cada momento teve seus vinte minutos de duração e muito mais tempo ‘subjetivo’… revelado pelo grau de envolvimento e presença dos participantes.

O “fechamento” foi coletivamente visitar alguns dos espaços imaginados materializados no pátio do CAC – Centro de Artes Cênicas da ECA-USP.

A parte em Auditório deste dia foi uma fala do pesquisador Sérgio Carvalho.

Quarto dia

Um dia livre para o Grupo de Trabalho, dentro da agenda dos cinco dias – algumas coisas acontecendo, como comunicações temáticas.

Quinto dia

Três membros do Working Group foram selecionados de antemão e tiveram tempo para comunicações de suas pesquisas estrito senso. Foi interessante e fez sentido esse modo de organização. Entre eles a pesquisadora Ciane Fernandes, que fez, em auditório, uma proposta performativa com todos que quisessem participar, e de um modo centrado no evento, e não nela nem na pesquisa autoral de modo literal.

Em seguida tivemos o último workshop, este mais polêmico, pois a proposta partia de recortes de citações de todos os papers do grupo… Me diverti bastante, por ter entendido que seria uma possibilidade de brincar de (anti)academicismo. No entanto não era para ser nem cômico nem paródia – mas foi. Interessante pensar isso: uma certa recusa à tradição da citação – algo que eu estava valorizando, mas as proponentes estavam pensando noutro sentido completamente diverso…

Os sentidos completamente diversos surgiram novamente!

TBC ou tbc?

Eis a questão.

De tarde haveria o fechamento, com uma última roda de conversa do GT e uma fala da Eleonora Fabião, que provavelmente foi bem interessante (não fiquei).

Valeu muito a pena o desafio. É extremamente cansativo operar noutra língua por horas seguidas – mas a possiblidade criativa nos workshops nos levavam para um lugar de jogo, partilha, convivialidade. Posso dizer que foi um dos “eventos acadêmicos” de minha vida que mais conversou comigo, com minha pesquisa, e com meus desejos de futuro.

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta