Morreu o músico Marcus Félix

Ontem, dia 13 de abril de 2019, morreu o músico Marcus Félix.

Na década de 1990 senti um amor profundo por ele. Um homem bonito e muito carismático, um autêntico pisciano, chegava nos lugares e, rapidamente, tinham três ou quatro mulheres ao redor dele. Mas agia com naturalidade, acostumado talvez desde pequeno a essas abordagens… Era um homem carinhoso e capaz de ser gentil em todos os primeiros contatos. Um dia eu disse a ele:

Fulana já te adora (com uma ponta de ciúmes, é claro)

Ao que ele respondeu, não sem ironia:

Dois palitos para me odiar…

Amor e ódio eram emoções, sentimentos e atitudes bastante presentes na sua vida. Sua capacidade como músico talvez encarnasse sua amorosidade. O uso de drogas, os aspectos de raiva e ódio. Tudo junto misturado.

Era carinhoso, criativo, interessado pelas coisas do mundo mas ao mesmo tempo extremamente angustiado, e ao longo dos anos, foi se tornando infeliz — Infelix, não-Félix, não mais o gato de outrora; sua sombra foi tomando conta da rotina e dos hábitos, precisou ser afastado do trabalho… e quando eu perguntava a alguns colegas da escola, ninguém sabia me dizer como ele andava… (Para as pessoas mais jovens que leem esse texto, lembro que existe no mundo dos desenhos animados “de antigamente” um personagem que é o Gato Félix).

Marcus Félix era muito forte, um touro pisciano, morreu ou deixou-se matar sete vezes, pois era um gato. Até os gatos morrem. Até os touros piscianos fraquejam.

Também para os mais jovens vou dizer: se virem amigos queridos caindo de bêbados na mesa do bar, procurem estar próximos, ao invés de se afastar…

Na década de 1990 tínhamos por hábito beber juntos, muitos dos professores da escola, nas quintas-feiras, depois das reuniões. Um dia Marcus Félix caiu da cadeira. Quase todos riram. A situação com amigos de copo fica então “natural”: ele é assim, a gente pensa.

Eu já estudava Psicologia quando me apaixonei fortemente por ele.

E nada podia fazer.

Um dia ele apenas cochichou no meu ouvido: Estou muito doente, Ma. Em seguida seguiu a conversa macia, como se não tivesse me confessado, ao pé do ouvido, a consciência de sua própria sombra.

Quando alguém assim morre, sempre pensamos como poderia ter sido diferente.

O que, a seguir, vamos fazer sobre isso?

Assumir o inferno do outro como “escolha” é um modo mesquinho de não fazer nada. Por outro lado o inferno do outro nos ameaça e se nos aproximarmos demais, os diabos e o fogo e o cheiro de mercúrio entrarão por todos os nossos buracos.

Amigos da década de 1990 não achavam que tinham a missão de “salvar vidas”. Especialmente ao redor da mesa do bar.

Amigos de artistas, eles mesmos artistas também, tinham certa suportabilidade ao sofrimento encarnado no uso excessivo do álcool. Todos do grupo bebiam junto. Quase ninguém tinha religião. Quase todo mundo tinha comiseração com a miséria humana que crescia a cada semana, mês e ano.

O que poderíamos ter feito?

Espero que todos que leiam essa postagem pensem comigo, junto: ninguém larga a mão de ninguém, hoje a proposta é andar junto, criar redes, um tipo de solidariedade e cumplicidade… mas percebo isso mais no mundo “das Redes” do que no mundo dos copos. Aliás em junho fará sete anos que moro em Belo Horizonte, e por aqui o fantasma do alcoolismo assombra a todos – todas as classes sociais, todos os sexos, todas as idades. Me assusto especialmente com o alcoolismo feminino, quase sempre visto pelas amigas de copo como… empoderamento!

O que eu posso fazer?

No ano passado fiz meu registro no Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais. Pensei que seria importante retomar a profissão e um tipo de possibilidade de intervir, em doses pequenas, no cotidiano das crianças e jovens mineiras. Criei um grupo de pessoas para intervir comigo. Intervenções artísticas como convívio e roda de conversa… Sem algemas, sem tornozeleira eletrônica. Por enquanto estamos estudando, para afinar nosso pensamento.

Quero muito fazer o que não fiz, quero muito não sentir mais que nada fiz, quero também pessoas sãs ao meu redor que façam algo por mim, se me virem na beira do abismo.

Agora meu amigo gato saiu do inferno, está fazendo amizade com Irene na porta do céu.

Direi a ele então: fique bem, veja lá com São Pedro onde estão os violões, cuide de suas mãos e pés, cabeça e coração. (Só agora pude dizer isso. Me perdoa?)

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Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 3)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 3: APRESENTO UMA BREVE DESCRIÇÃO DA ATITUDE DE AGACHAMENTO QUE A ABORDAGEM ESPIRAL PROPÕE

E como trabalhar na chave da Abordagem espiral?

A resposta me parece ser, ao mesmo tempo, simples e complexa. Para trabalhar nessa chave, precisamos nos dispor a uma escuta aguçada para criar proposições que potencializem os processos criativos das crianças e se afinem com seus interesses. Para tanto, precisamos estar presentes no tempo e espaço do encontro com as crianças, de modo atento aos seus dizeres e às condições do entorno como um todo. A isso Marina chama de “agachamento”.

No ano de 2018, em uma aula com um grupo de crianças de 9 e 10 anos que tem a presença de quatro professores em sala, chovia muito. A chuva era contínua e o som que as gotas grossas provocavam ao cair, era muito alto. De repente, pareceu noite. Eu e os demais professores da turma, já havíamos programado aquela aula e certamente o assunto não se aproximava de questões relacionadas à agua e muito menos à chuva. Porém, reconhecemos que não seria possível ignorar aquele fenômeno e então o convidamos para participar do encontro. Apagamos a luz branca e forte e iluminamos a sala com um refletor de luz amarela pouco intensa. Reproduzimos uma música do grupo Cordel do Fogo Encantado que narra uma experiência com a chuva e chama-se “Preta” e esta, em composição com o som que invadia a sala, tornou-se parte da trilha sonora da experiência. A proposta era clara: Seríamos a chuva! Seríamos as gotas de água e choveríamos juntos pela sala em intensidades distintas. Todos nós, adultos professores e crianças, ocupamos os espaços da sala com movimentos que iam para o chão, na direção que a chuva cai. Evaporamos depois, devagar, até chegar às nuvens… e caímos novamente algumas vezes. Formamos também gotas bem grossas compostas por vários corpos juntos. Experimentamos quedas em velocidades diferentes.

Essa experiência inicial deixou nossos corpos atentos, sensíveis e com uma qualidade de movimento leve e líquida. A partir daí nos deixamos levar pelo som da chuva e da música. Os comandos já não eram dados pela fala dos professores, mas sim, por seus movimentos, gestos e olhares atentos, compartilhados com as crianças. Os corpos-chuva interagiam entre si e com o espaço e já não caíam mais apenas em direção ao chão: saltavam, giravam, respingavam em todas as direções, faziam trajetórias no espaço de maneira lenta e rápida¸ revelando gestos e olhares inteiros e intensos, cheios de vida e simbologias diversas. Assim, chovendo juntos, nos conectamos uns aos outros, com o som da chuva sendo um canal de relação entre nós. No pensamento de Marina, esse tipo de procedimento pode ser chamado de “roteiro de improviso”.

Quando a música já havia tocado pelos menos umas cinco vezes seguidas em looping, nós, os adultos professores, começamos a nos movimentar para transformar a proposta, quando fomos surpreendidos por Natália que, percebendo nossa movimentação, nos perguntou: “O que vocês vão fazer?”. Respondemos algo que demonstrava que transformaríamos a proposta; e ela logo nos alertou: “Não está na hora!”. Respondemos algo como: “Mas a música já tocou umas cinco vezes!”. Natália: “Não tem problema. Estamos adorando a música. Olhem para a sala, olhem como as pessoas estão concentradas e felizes!”

Naquele instante, Natália ampliou os olhares dos professores adultos. De fato, ela tinha razão. Todas as crianças estavam envolvidas de tal modo que aquele espaço estava preenchido de sentimento, de expressividade, de formas simbólicas individuais e coletivas, de respeito mútuo, de acolhimento, de vida pulsante. Percebemos então que, mesmo nos desafiando a permanecer com os sentidos abertos durante todo tempo, em algumas situações agimos a partir de preconcepções (impregnadas ao longo do tempo) e que, por vezes, nos auxiliam na organização, senso de responsabilidade e estruturação das pesquisas com as crianças, mas, por outras, podem limitar situações potentes. Que bom que Natália nos alertou, que nós a escutamos, para fortalecer e alargar ainda mais aquele espaço-tempo de descobertas e compartilhamento de formas de ser e viver no mundo.

A música então tocou muitas vezes mais, até que percebemos que as crianças foram se deitando no chão, pouco a pouco, sem que o comando viesse dos professores, e sim, das suas próprias vontades: de recolherem-se e descansar. Naquele dia, a chuva modificou nossos planos e uma criança acalmou nossa ansiedade, aguçando nossa percepção adulta para o espaço, o tempo e às expressividades e interesses de outras crianças.

Assim, penso que umas das maneiras de nos aproximarmos da Abordagem espiral é mantermos uma atitude agachada – abertura e disposição para nos relacionarmos de forma densa conosco, com os outros e com o espaço-tempo que ocupamos; como diz Marina, a partir da fenomenologia: eu-com-o-outro-no-mundo. Esse modo de pensar, ser e estar no mundo certamente influencia nossos modos de propor processos criativos artísticos com crianças, nos espaços de educação formais e informais, bem como influencia nossos modos de viver nossos cotidianos e nossas relações com as pessoas, com os espaços e tempos que compartilhamos. Saravá!

2 - Imagem Ifim da postagem a convite

 

todas as fotos das três partes da postagem escrita por Priscilla Vilas Boas fazem parte do filme curta-metragem Vai virar prazer na profissão (com pitadas de luto) a ser lançado muito em breve — criação e execução em parceria com Priscilla Vilas Boas e Luiz Eduardo Cotrim.

Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 2)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 2: DIGO COMO VEJO A “ABORDAGEM ESPIRAL” PARA O ENSINO DE ARTE

Gosto muito do texto Fazer surgir antiestruturas: abordagem espiral para pensar um currículo em Arte no qual Marina inicia seus dizeres e reflexões em diálogo com o que a pesquisadora Ana Mae Barbosa apresenta como Abordagem triangular para o ensino de arte.

Esse texto nos diz que, se na Abordagem triangular, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são definidos como linguagens artísticas, na Abordagem espiral as artes são pensadas como âmbitos artístico-existenciais e nomeadas por espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades. Se a Abordagem triangular, grosso modo, estabelece-se a partir da tríade contextualização histórica, experimentação e apreciação, na Abordagem espiral a experiência artística está centrada nas crianças mesmas e na dedicação dos professores em potencializar a exploração de seus próprios modos de ser e estar no mundo, a partir do contato com as espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades próprias, dos outros e do espaço que ocupam no mundo. Na Abordagem espiral, o termo âmbito no lugar de linguagem procura incluir nos processos de ensino da arte, a experiência estética vivida por todas as pessoas em suas vidas cotidianas, acolhendo seus modos de ser, mover e conviver no mundo. Âmbito significa lugar. Para Marina, o termo linguagem sugeriria a necessidade de aprender pressupostos específicos das áreas artísticas (que seriam do domínio adulto e provavelmente técnico) — e pensar assim pode distanciar as pessoas de reconhecer as ações performativas presentes em suas próprias vidas, bem como atrela a experiência artística aos experts.

No modo espiral de viver processos criativos em arte, as referências são também importantes, mas são apresentadas à medida em que dialogam com os caminhos de pesquisa, apontados por todos. Assim, a Abordagem espiral propõe uma forma íntima de promover experiências de aprendizagem artística: processual e estreitamente conectada com os modos de ser e interesses dos sujeitos envolvidos, adultos e crianças, juntos.

Minha intenção aqui não é fazer contraposição a Ana Mae Barbosa, por quem tenho admiração devido a sua contribuição para a valorização do pensamento sobre educação em arte no país. Sua pesquisa e obra estimularam o reconhecimento da Arte como área de conhecimento humano e são um relevante eixo norteador para o aprimoramento das políticas públicas relacionadas à experiência artística de crianças e jovens.

expressividade das costasAssim, esse meu texto-depoimento/ declaração de amor à abordagem espiral (rs), não tem o intuito de invalidar outros modos de ver e de ensinar arte, mas, antes, sublinha uma maneira conectada estreitamente com meu modo de ser, habitar e ver o mundo.

No meu ponto de vista, na Abordagem espiral não há saberes previamente estabelecidos a serem ensinados e sim, a busca das relações de maneira intensa: dos sujeitos consigo mesmos, com os outros, com o espaço no mundo; com as referências que lhes são apresentadas e com o modo como desenvolvem pensamento-e-sentimento sobre sua própria construção de saberes, de maneira individual e coletiva. Os professores, que são artistas e pesquisadores atentos aos dizeres das crianças lançam mão das referências artísticas, filosóficas, históricas e geográficas que poderão enriquecer muito a experiência de aprendizagem e a qualidade do diálogo estabelecido.

Penso que essa maneira de ver a experiência artística e seu (des) ensino liberta professores e crianças de padrões estabelecidos pelos currículos obrigatórios, alarga os contornos, expande as possibilidades de interação das crianças consigo mesmas, com seus saberes, com os saberes de seus professores, delas mesmas com outras crianças, com o espaço e com o mundo em que vivem – e ainda, disponibiliza mais espaço para que professores e estudantes investiguem formas de expressão ancoradas em seus interesses e modos de ser e estar no mundo.

Fim da parte 2

 

Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 1)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 1: APRESENTO QUEM SOU

Me chamo Priscilla Vilas Boas e sou professora, artista e pesquisadora em dança, graduada e mestre em Educação pela UNICAMP. Atuo como professora de dança na EMIA (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) desde 2007. A EMIA é uma escola pública, ligada à Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo, em que crianças de 5 a 12 anos têm aulas de arte com dois ou mais professores nos chamados “cursos regulares” da escola. Dos cinco aos 8 anos, os grupos de crianças têm dois professores em sala, com estudos em áreas artísticas distintas. Entre 9 e 10 anos, os grupos de alunos têm quatro professores: um de artes visuais, um de dança, um de música e um de teatro. E na maioria dos grupos com alunos com idades entre 11 e 12 anos há dois professores com estudos em uma das áreas artísticas citadas. Ainda há cursos optativos, em que as crianças podem escolher ir um dia a mais à escola para praticar um instrumento musical, ou frequentar cursos com foco nas artes visuais, na dança, na música ou no teatro. O ingresso das crianças à escola é feito por sorteio público e a vaga é garantida a cada ano pela presença em aulas.

SÃO PAULO,SP,09.02.2017:EMIA-FIM-CONTRATO-PROFESSORES - Fachada da Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA), situada no Parque Lina e Paulo Raia, no bairro do Jabaquara, Zona Sul de São Paulo (SP), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, na manhã desta quinta-feira (9). A escola não renovou os contratos com os professores por conta do congelamento de verbas feita pela Prefeitura de São Paulo, atrasando o Espacialidade é tudo! (Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Espacialidade é tudo!
(Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Minha pesquisa própria flerta com as abordagens somáticas do movimento, que formam um campo de conhecimento interdisciplinar (saúde, arte, educação) cujos pressupostos divergem de uma visão mecanicista do corpo. Os procedimentos de pesquisa que dialogam com esse campo de conhecimento buscam conexões entre os aspectos cognitivos e sensoriais das pessoas durante seus processos de pesquisa e de vida. Dessa forma, novos padrões de movimentos podem ser investigados a todo momento, e novas formas de relação das pessoas consigo, com os outros e o espaço-tempo podem ser experimentadas.

Professora de crianças desde 2003, procuro encontrar formas de propor processos criativos de aprendizagem artística que se aproximam de seus modos de ser e de seus interesses. Além disso, nos últimos anos, eu também me dediquei a escrever livros didáticos de Arte e participei das discussões de documentos curriculares nacionais. Procuro integrar meus fazeres de modo que sejam condizentes com os pensamentos com os quais dialogo, ou seja, procuro maneiras de fazer com que minha atuação como professora e a atuação na elaboração de pensamento crítico e reflexivo, condigam com a forma como pesquiso a arte e me expresso por meio dela.

No campo da educação com crianças, está presente em meu caminho a Abordagem espiral para o ensino de arte proposta por Marina Marcondes Machado. Quando era bem jovem, trabalhei com Marina na EMIA-SP com turmas de crianças com idades entre 5 e 7 anos. Aos poucos, fui compreendendo como ela nos desafiava (a mim e a ela própria) a desenvolver formas performativas que incentivassem as crianças à investigação de maneiras expressivas e de expor seus modos de ser e estar no mundo, em diálogo conosco e com as outras crianças. Durante esse tempo, costumávamos organizar o espaço da sala com o intuito de fazer com que todos se sentissem confiantes e seguros para explorar desafios, descobrir diferentes maneiras de ser quem se é, imaginar modos de existir, descobrir muitas formas possíveis de se comunicar com os outros e com o mundo, brincar.

professoras de teatro e de dança que sabem brincar (foto: Luiz Eduardo Cotrim)

professoras de teatro e de dança que sabem brincar
(foto: Luiz Eduardo Cotrim)

Cuidávamos da iluminação da sala, dispúnhamos os móveis ali presentes de uma maneira diferente a cada novo encontro, disponibilizávamos materiais como tecidos, papéis, materiais recicláveis, objetos de uso cotidiano, entre outros, que poderiam ser ressignificados. Assim, o diálogo entre todos ocorria por meio de palavras, olhares, gestos e silêncios. A cada novo encontro, elaborávamos ações performativas – ao mesmo tempo em que convidávamos as crianças a dialogar conosco e entre elas, criando assim, suas próprias ações performativas conectadas a interesses e desejos seus. Segundo Marina, os atos performativos são ações reveladoras do modo como as pessoas são e se relacionam com o mundo compartilhado. Para os adultos professores, são ações que podem ser pensadas para potencializar as experiências estéticas das crianças. Podem ser motes para iniciar o diálogo e podem, ainda, estar presentes durante seu acontecimento.

Aquele nosso tempo juntas foi muito importante para a professora, artista e pesquisadora que sou. Hoje não me vejo obrigada a vislumbrar objetivos a serem alcançados pelas crianças em um processo de construção de conhecimentos em dança, pois, incentivando-as a vivenciarem suas próprias pesquisas sobre si mesmas e seus modos de mover e se expressar, em diálogo com outras crianças e com as professoras, elas mostram saberes conectados aos seus próprios interesses e desafios. Esse modo de atuação abre espaço para que emerjam experiências de pesquisa que não podem ser imaginadas de antemão apenas pelos professores: dependem da participação de todos os envolvidos no processo. Os professores, a partir de seus próprios saberes e com foco em seus campos de atuação e pesquisa, apresentam propostas às crianças e permanecem abertos a dialogar com seus modos de se relacionarem com tais propositivas e acontecimentos, refletindo e reavaliando cada novo passo do processo.

Há um artigo de Marina que pode ser consultado para esclarecer ainda mais alguns termos usados nesse texto. Ele se chama “Só rodapés” e pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.seer.ufu.br/index.php/rascunhos/issue/view/1281

fim da parte 1

Realities com crianças?

Reality show com crianças: um sofrimento desnecessário

doce é pra comerQuero conversar com os leitores e frequentadores do Agachamento sobre o fenômeno “reality show” feito com participantes crianças. Me remeto ao episódio de estreia de Junior Bake Off Brasil em sua segunda temporada, que aconteceu ontem de noite no SBT (dia 16 de fevereiro de 2019), como disparador desta postagem.

Assistir ao episódio me deixou um tanto desassossegada…

Então, hoje cedo fui ao site oficial, e percebi que simplesmente 15 mil adultos, ou 15 mil famílias brasileiras, se dispuseram a inscrever seus filhos – dos quais foram, segundo o site, selecionados os 10 participantes desse primeiro episódio. São meninos e meninas entre 7 e 12 anos de idade. Os adultos que conduzem o reality são Nadja Haddad (considerada “apresentadora”), Olivier Anquier e Beca Milano (considerados “jurados”). Todos os participantes já “amam” esses adultos… pois são, eles mesmos, espectadores afoitos e fãs da primeira temporada, e talvez (e provavelmente até) dos Bake Off Brasil com adultos, amadores e profissionais.

Quem quiser se aprofundar sobre todas as pessoas envolvidas no programa atual, recomendo que entrem no site oficial do programa: https://www.sbt.com.br/bakeoffbrasil/

Aqui, vou falar como pessoa de teatro e psicóloga formada. Quero procurar por uma abordagem mais filosófica e existencial do que vi ontem… Pois me espantei, poderia até mesmo dizer, me senti mal pelas duas crianças “desclassificadas” (que, na edição, choraram bastante…: imagine no estúdio mesmo!).

Não me espanta o choro ou a desilusão, mas antes, o fato de que as crianças foram selecionadas a partir de 15 mil inscritos. Fica claro o olhar da produção & marketing do programa: escolheram “tipologias”. Entrem nos perfis que estão no site oficial, e verão… Há quem seja apresentado como “uma verdadeira princesinha” e também como “um verdadeiro ‘lobinho’”. Ah, e uma menina que é “um docinho”.

O programa é definido por uma “disputa de confeiteiros amadores” e é recomendado para “todas as idades”.

No entanto que vi foi de grande crueldade! Digo crueldade dos adultos que inscreveram suas crianças para “disputar”. A crueldade está no fato de que, quando diante de câmeras e de desafios que implicam em um tempo-espaço determinado e de receitas dadas pela produção do programa, o grau de estresse foi inimaginável – especialmente para as crianças entre 7 e 8 anos. Ao menos dessas crianças específicas (selecionadas entre 15 mil!).

Todos sabem que a perspectiva adotada por mim no Agachamento não é de fixação em faixas etárias ou em adoção de aspectos teóricos e fixos do desenvolvimento humano; minha perspectiva é existencial. Ou seja: penso no grau de estresse quando imagino que uma criança de sete anos, sete anos atrás era um bebê. Sete anos depois… como e por que um pai e ou uma mãe querem que “seus bebês” enfrentem uma competição desse porte?

Há muito pouco tempo, questão de dias, meninos morreram queimados em um alojamento de treinamento juvenil ( “categorias de base”) para a profissão de jogador de futebol. Faço a analogia porque esses dez participantes do Junior Bake Off Brasil estariam, eles mesmos, sendo treinados para a profissão que no Brasil se chama “confeiteiro”. E a analogia vale também para trazer o grau de dramaticidade do que vi na tela de minha TV na noite de ontem.

biscoito caveira

 

Vale? Dez anos de infância (que não voltam mais) com foco no futuro?

Que futuro?

Da fama e do dinheiro, talvez; e para poucos.

O tempo presente foi de estresse desnecessário, ao menos para mim, espectadora de 57 anos de idade e muito longe desse “sonho”: de um filho confeiteiro, cheio de dinheiro.

(Ou sou eu que estou sendo cruel?)

Ficou evidente a situação de estresse pela atitude dos adultos, apresentadora e jurados, querendo “positivar o fenômeno” da desclassificação; querendo escolher palavras de mérito para algo que, mesmo aos 7 anos de idade, se sabe que não tem valor positivo – dada a lógica competitiva do programa e tudo o mais daquela moldura.

Podemos apenas imaginar o que está por trás de pais que inscrevem seus filhos e se encontram, por assim dizer, nas coxias da fama mirim… Pois é como se, para o espectador comum, eles (os participantes) fossem pessoas autônomas, uma vez que os pais não estão sendo filmados e entrevistados estrito senso.

Papel dos pais: treinar o filho e assinar a cessão de imagem. E com certeza uma porção de outras concessões. E treinamentos.

Faz parte da produção e execução do reality a crença na autonomia das crianças… mas nada sabemos sobre como é o convívio estrito senso, uma vez que o que assistimos foi cuidadosamente editado. Faz parte do show, que não pode parar.

No entanto, mesmo cuidadosamente editado, foi ficando claro que alguns dos participantes foram se fragilizando demais no decorrer do tempo-espaço do programa, chegando, antes mesmo da desclassificação, às lágrimas – e a confusões mentais e psíquicas. Exemplos dessas confusões (as que a produção quis nos mostrar): um menino não sabia como medir o potinho de água, e colocou a água com o pote inteiro no recipiente, sendo, em seguida, “pacientemente” ajudado pela apresentadora que mostrou seu “engano”; outros dois ‘perderam’ no freezer suas formas de doce e diziam algo como “alguém pegou minha gelatina”!

Nos primórdios dos estudos psicanalíticos sobre a infância, Melanie Klein formulou como conceito a “posição bebê persecutorioesquizo-paranóide”: um estado psíquico, grosso modo, de fragilidade inicial no qual nos vemos entre a sensação irreal de que criamos o mundo, e o comandamos, e o sentimento persecutório (de que estão programando nos fazer mal, nos trair, nos machucar…). São momentos constitutivos da pequena infância de todos, e que cabe ao adulto cuidador sua modelagem, ou seja, a compreensão desses abismos e pequenos grandes desesperos, que, a partir de muita conversa e contenção afetiva (atitude de “holding”, segundo outro psicanalista, Winnicott) podem dar lugar a um jeito de ser mais maduro, com maior flexibilidade e capacidade para lidar com o conflito e com o Outro.

O que vi diante dos meus olhos de espectadora sênior do Junior Bake Off Brasil foram momentos muito difíceis do ponto de vista da criança, e reações muito despreparadas do ponto de vista dos adultos (e relembrando: são imagens editadas!).

Portanto, todos se encontravam infantilizados. Tal qual o participante de sete anos que tem um bicho de pelúcia seu “ajudante de cozinha”.

Mudou o mundo ou mudei eu?

Ok, jovens agachados, sei que estou envelhecendo.

Mas é uma posição interessante e importante – acenar para os mais alegrinhos que não se enganem, estamos “dominados” por mercados e nichos… E pela potente indústria cultural. Simples assim.

industria cultural

 

 

 

 

Oficina de Pequenas Dramaturgias para alunos do Ensino Médio e seus professores

foto de Lucio Honorato

foto de Lucio Honorato

Durante o Festival de Verão da UFMG, organizado todos os anos pelo DAC / Departamento de Ação Cultural da UFMG, vou dar uma oficina para jovens e seus professores de teatro.

A sinopse:

Esta oficina é uma proposta conectada com o projeto UFMG-Jovem e vai receber três turmas de jovens do Ensino Médio interessados na escrita de dramaturgias, bem como seus professores de Teatro. Seu objetivo é abrir a possibilidade de escrita de cenas curtas, nas modalidades dramática, épica e pós-dramática, a partir de elementos teatrais simples bem como cenas do cotidiano.

Nosso público-alvo:

Jovens estudantes do Ensino Médio interessados na escrita para teatro e professores de teatro para crianças e jovens interessados em dramaturgia.

Acessem o site para se inscrever: https://www.ufmg.br/festivaldeverao/

E para compreender melhor a proposta, vejam esta breve entrevista concedida ao Boletim UFMG:

Você pode me descrever, em poucas palavras, como será a oficina de Pequenas Dramaturgias?

A oficina Pequenas Dramaturgias vai trabalhar com criação de textos teatrais bem curtos, baseados em diálogos, narrativas e misturas de estilo não tradicionais – a isso chamamos por exemplo de “dramaturgia do corpo” ou “dramaturgia do espaço”.

A partir das escolhas dos participantes, tais como músicas, pequenos poemas, tirinhas de quadrinhos, aprenderemos alguns princípios da transformação de uma mídia em outra: quadrinhos em texto de teatro, poema em narrativa dramática, além de roteiros curtos para serem improvisados por alguém ou por um grupo.

Quais as suas expectativas?

Minha expectativa está no interesse de jovens por esse tipo de escrita, bem como na divulgação da existência de um dramaturgo “por trás” das peças de teatro. A oficina poderá ser um empurrão na direção de pesquisa e informação, para que jovens interessados por teatro e seus professores sintam-se capazes de escrever seus próprios textos teatrais no futuro próximo.

Como o ensinamento de técnicas de escrita de dramaturgia pode contribuir para a formação desses jovens do Ensino Médio?

Não diria “técnicas de escrita” mas sim “poéticas da cena”, ou seja, o trabalho com a palavra criativa é mais autoral do que técnico. Trabalhar um jeito próprio de escrever algo que possa ser lido de maneira teatral, e até mesmo encenado por seus pares e por qualquer interessado, é interessante e valioso, para todos – crianças, jovens, adultos e idosos. Isso demarca o conhecimento na área artística e a expressividade em gesto e palavra. A oficina está aberta para jovens estudantes do Ensino Médio que fazem teatro bem como para seus professores de teatro.

Em tese pensei a oficina como uma ação [micropolítica] ligada à UFMG Jovem – uma proposta na qual, segundo o site da Universidade, “estudantes do ensino fundamental e médio de escolas mineiras apresentam trabalhos científicos”—“uma feira de ciências e tecnologia da educação básica”.

E as artes?

Usualmente as artes moram noutro lugar, residem muitas vezes em algo nomeado como “entretenimento cultural”. Desde que fui convidada a participar do projeto, penso que a Escola de Belas Artes pode contribuir para mudar a chave daquela morada: que as artes sejam campo do conhecimento, tanto quanto as ciências e a tecnologia – “simples assim”. Por exemplo: há uma artesania muito própria no fazer teatral; habitamos um outro tipo de técnica, um tipo de saber: uso do corpo, do tempo-espaço, da palavra dita e escrita. Há muitas e muitas possibilidades de pesquisa envolvidas nisso.

No ano de 2019 acontecerá a vigésima edição da UFMG Jovem. Talvez, paulatinamente, as artes possam ganhar outra visada, como campo do conhecimento humano – como eu gosto de dizer: são âmbitos artístico-existenciais, que, acionados, nos fazem seres mais expressivos, dialógicos e criativos. Saravá!