Quem fui

Marina Marcondes MachadoEu sou Marina Marcondes Machado, nascida em 1961 em São Paulo, Brasil. Sou caçula de cinco filhos de um casal de médicos que dedicou-se à medicina da infância, no Hospital das Clínicas. Fui moradora de Pinheiros quando as crianças ainda brincavam pelas ruas – e muitas das ruas eram de terra. Estudei na Escola Quá-Quá, que se auto-denominava “experimental” no final da década de 1960 e cujo projeto pioneiro começava a rever o uso da cartilha.

Lembro de querer ser “Decoradora”, e passava algum tempo desenhando, ou mal desenhando, cadeiras palito… Também quis fazer ballet, influenciada por uma prima dois anos mais velha: minha mãe me levou para os testes da Escola Municipal de Bailado! Foi um banho de realidade maior do que eu podia compreender. Meu corpo pequeno e fortinho, vestido de macaquinho de algodão e tênis conga vermelho, diante das meninas de coque-e-tule já tão bem preparadas para aquele “vestibular”, comunicava às examinadoras, a mim e minha mãe que não seria permitido que eu dançasse ballet. Anos depois fiz aulas com o dançarino J. C. Viola, e, no corpo vivido, aquela sensação ruim transformou-se: era 1976, auge da “expressão corporal” e da forte crença de que todo corpo dança.

Em 1977 fui estudante de intercâmbio na cidade de Holland, Michigan (EUA). A viagem foi determinante para meu interesse pelas Ciências Humanas e todo o campo criativo: com dezesseis anos descobri a escrita como possibilidade expressiva e profissional. Ao retornar, fui estudar no Colégio Palmares. Fiz teatro amador por dois anos, um deles, no Teatro-escola Célia Helena; meu projeto de futuro era ser dramaturga. Meus vestibulares foram para o curso de Artes Cênicas (USP) e para o curso de Letras (PUC): aprovada em ambos, escolhi cursar Artes Cênicas.

Ao mesmo tempo em que frequentava o primeiro ano da faculdade, fazia o curso de formação de atores de Ilo Krugli, na Casa do Ventoforte, onde permaneci entre 1980 e 1982. Totalmente identificada com a linguagem teatral ali exercida, acabei desistindo da formação universitária: já atuava e ensinava arte para crianças – iniciada pelo diretor e dramaturgo Ilo Krugli. A intensidade criativa e transformadora da convivência no Ventoforte nada tinha a ver com a rotina rotineira da faculdade em Artes Cênicas. Também o fato de ter me casado com o artista Valdir Sarubbi influenciou minha decisão de parar de estudar e começar a trabalhar. Fui ser professora de crianças pequenas em um berçário, o Curió; também trabalhei por um semestre com crianças pequenas na Escola Carlitos.

Para ter meu filho Jonas, fiquei em repouso absoluto por cerca de cinco meses, pois perdi gêmeos em gestação anterior. Nesse momento de vida surgiu meu interesse pelo brincar e pelo brinquedo; fui artesã de brinquedos por cerca de três anos, num “espaço virtual” (sem sede própria) que denominei “Brinquinharia / Oficina de Brinquedos”. Comecei a estudar a obra de D. W. Winnicott, psicanalista que tematizou a origem da criatividade e a capacidade para brincar, autor de cabeceira para mim até hoje.

Retomei em 1989 minha atividade como professora de crianças, ensinando artes e teatro na Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo (EMIA). Durante os três primeiros anos de trabalho na EMIA organizei meu primeiro livro, O brinquedo-sucata e a criança, publicado por Edições Loyola (SP) em 1994; o texto fala da capacidade humana de brincar e nossas formas culturais primeiras.

Em 1992 voltei a estudar, pensando em me tornar psicanalista de crianças. No quarto ano do curso de Psicologia, bastante desiludida com a Psicanálise ensinada institucionalmente, descobri a Fenomenologia, e, desde então, é nessa conexão que atuo, estudo e compreendo as Ciências Humanas, meu trabalho e profissão. A aproximação ao pensamento fenomenológico, especialmente de Gaston Bachelard, me fez rever meu primeiro livro, e  escrevi A poética do brincar, editado em 1998 por Edições Loyola (SP).

Em 1999 ingressei no Mestrado da ECA/USP: um movimento em direção ao campo da pesquisa em teatro, eterno retorno ao sonho de ser dramaturga; meu projeto envolveu criação dramatúrgica, montagem e questionamento do teatro dito infantil. Minha pesquisa, orientada por Maria Lucia Pupo, propôs a encenação de “Cacos de infância”, dramaturgia criada em work in process e que confirmou a rica possibilidade de transformação do teatro “infanto-juvenil” em teatro “para todas as idades”:  revelou que os temas, no teatro a ser assistido por crianças, podem ser sérios, existenciais e profundos; foi publicada como livro em 2004 – Cacos de infância / teatro da solidão compartilhada (SP: Annablume/FAPESP).

No ano de 2001 fui convidada a participar de uma equipe de psicólogos que projetou a graduação em Psicologia da UNINOVE; lá trabalhei entre 2002 e 2007. Ingressei no doutorado em Psicologia da Educação na PUC/SP em 2003, sob orientação de Heloisa Szymanski. Meu projeto foi construir uma Fenomenologia da Infância, a partir das propostas do filósofo Maurice Merleau-Ponty. Defendi a tese em abril de 2007; no mesmo ano, fui trabalhar com formação de coordenadores pedagógicos, no programa “A Rede em Rede” da Secretaria de Educação de São Paulo. Trabalhar com formação de educadores me levou a sair do Centro Universitário Nove de Julho, mas continuei como professora de teatro para crianças até 2009, quando mergulhei no pós-doutorado: de volta à pesquisa dramatúrgica, elaborei “Territórios do brincar”, trabalho que une antropologia, pedagogia do teatro e criação, sob supervisão de Maria Lucia Pupo. Em 2010 publiquei o livro Merleau-Ponty & a Educação, editado pela Editora Autêntica (BH), trabalho que retoma meu percurso no doutorado.

Se aos 14 anos soube que todo corpo dança, aos 19 compreendi que o teatro é transformação, aos 20 me inscrevi em um Atelier Livre para desenhar novas cadeiras palito, e, como professora de artes por vinte anos, trabalhei, em mim, a presentificação de uma professora-narradora, hoje sei que podemos pensar a arte como algo não separado da vida. Isso significa aproximar-se da Antropologia, das possibilidades criativas cotidianas e seus movimentos de resistência ou antiestruturas, em busca não apenas de uma atuação profissional ética e politizada, mas da compreensão de que os menores gestos ordinários podem ser enxergados e vividos como atos performativos.

Somos performers de nossas existências e fazer circular essa descoberta, feita ao longo da minha vida profissional e afetiva, é um dos motes de meu site AGACHAMENTO. Bem vindos!

19 comments for “Quem fui

  1. Melina Sanchez
    25 de maio de 2011 at 11:31

    Marina, muito lindo ler a sua história reconhecendo que as escolhas são frutos da articulação entre diversas experiências vividas: sonhos, curiosidades, descobertas, realidades. O mais bonito é ver o movimento incansável de busca pela coerência – tão presente no seu trabalho. Adorei. Beijo da Melina

  2. Maria Lúcia Pupo
    26 de maio de 2011 at 13:32

    “Quente” é a primeira qualificação que me ocorre ao percorrer o teu site. Ele ilumina facetas as mais variadas das preocupações dos leitores que se detêm nos textos, trazendo toques especiais para que nos tornemos mais gente!
    Caem assim fronteiras e paredes que fracionam o conhecimento e instala-se um olhar sensível e agudo sobre o aqui-agora.
    Parabéns, da

    Maria Lúcia

  3. Maria Silvia Monteiro Machado
    28 de maio de 2011 at 21:21

    Marina, querida amiga, parabéns pelo site!!! Dei uma olhada, li alguns artigos e gostei demais. É um verdadeiro presente, obrigada. Beijo grande, Silvinha

  4. Mônica M Machado
    29 de maio de 2011 at 00:13

    Ma, gostei do site, espaço cuidado com carinho, aberto a relações! Tem veracidade e generosidade, essa uma
    grande qualidade sua! Podemos brindar, agachadinhas, com
    uma boa xícara de café? Um beijo afetuoso da Mô.

  5. Thereza Peric
    26 de junho de 2011 at 20:47

    Pois é , Marina!!! Murray Schafer considera a fragmentação do sensorium , a experiência mais traumática na vida de uma criança pequena. Até os cinco anos, vida é arte e arte é vida. Porém ao entrar na escola, vida é vida e arte é arte. Não precisa ser assim, né? Sua contribuição neste sentido é valiosa.
    Que bom… tantas pessoas agora…terem um acesso tão aberto a este universo precioso… que é simplesmente você!!!!!! Abração afetuoso, Thereza.

  6. Marcia Soares de Andrade
    30 de julho de 2011 at 22:44

    Marina,
    Olhei tudo, bem devagarinho, no meu tempo para poder “saborear”.
    Adore!!!
    Tudo é dito com muita poesia, como só vc pode dizer.
    Parabéns!
    Um bj com muito carinho.
    Marcia Andrade

  7. Lenilda Dias de Melo
    9 de dezembro de 2011 at 03:18

    Olá Professora Marina,tudo bem,para min é um prazer e ao mesmo tempo
    estou surpresa por saber que será a minha orientadora.
    Mas eu tenho certeza que nos daremos muito bem,e agradeço muito a sua atenção.
    Gostei muito da sua história,parabéns pelo site,um grande abraço!até breve.
    Lenilda Melo

  8. Bárbara Bazello
    20 de janeiro de 2012 at 19:36

    Olá Marina! Sou sobrinha da Conceição, ela comentou que tinha uma amiga Psicóloga e fui procurar para conhecer. Sou estudante de Psicologia, entrarei no terceiro ano agora. Quando fui pensar em fazer a faculdade, escolhi a Psicologia, porém não era minha primeira opção. Mas, ao começar, descobri que não fui eu que escolhi a Psicologia e sim ela que me escolheu. Estou realmente adorando! Ao ler sua trajetória vejo que ainda tenho muito o que conhecer e aprender na área. Adorei o seu site. Parabéns!

    Bárbara Bazello

  9. Vera Lúcia da Silva Borges
    27 de maio de 2012 at 20:10

    Olá querida profª Marina fiquei emocionada ao ler sua história, vou sentir sua falta na faculdade fmu na pós-educação infantil, vou sentir saudades do cavalinho das quinta-feiras. volte sempre cavalinho! com suas histórias.
    Abraços.
    Vera Borges

    • agachamento
      27 de maio de 2012 at 22:45

      Obrigada pelo carinho, Vera! Se estiver um dia em Belo Horizonte, me avise, e batemos um papo… Continue visitando o Agachamento!!

  10. Cauê Salles
    4 de agosto de 2012 at 00:11

    Hoje ouvi falar sobre você, sua chegada a BH e seu blog.
    Seja bem vinda!
    Mundanças podem deixar a pessoa melhor e o lugar para onde ela muda também.
    Certamente visitarei novamente seu site. Hoje passei os olhos pelas palavras!
    Sou professor de teatro em escolas particulares e oficineiro de teatro e teatro de bonecos.
    Um prazer “internáutico” saber de você.
    Saudações “outonais”!
    Cauê

  11. Haydeé Lapa
    20 de março de 2013 at 00:02

    MARINA, ENQUANTO VOCÊ FALA EM AGACHAMENTO,INFÂNCIA E ARTE EU FALO EM ENCANTAMENTO.ESTOU ENCANTADA POR TODA A SUA TRAJETÓRIA,GOSTARIA DE PARABENIZÁ-LA PELO TRABALHO, PARABENIZÁ-LA PELA FORMA TÃO SIMPLES QUE VOCÊ USA PARA TRADUZIR O AMOR QUE TEM PELO QUE FAZ…
    FOI UMA HONRA ESTAR NA SUA AULA!

  12. 22 de junho de 2013 at 18:31

    Marina,
    Parafraseando o seu artigo “Fenomenologia e Infância:
    o direito da criança a ser o que ela é (MACHADO, 2013, p. 249), seu blog realoca a essência na existência, expressando uma ambiência propiciadora do direito de se ser o que se é.
    Grande abraço e parabéns minha querida.
    Dionéia

  13. Valéria Gama Fully Bressan
    20 de agosto de 2014 at 00:34

    Marina, linda sua história! Parabéns pelos trabalhos. Enorme prazer em conhecê-la! Abraços, Valéria Bressan

  14. Aroldo Dias Lacerda
    2 de fevereiro de 2015 at 12:12

    Querida Marina,

    desde nosso encontro no ” Arte & Diferença – Infâncias” no TU/EBA UFMG, que estava querendo fazer esse contato com você. O seu site está muito rico e inspirador.
    Vou te procurar para continuarmos a trocar figurinhas, agachados!

    Já apliquei aquele seu artigo sobre Merleau-Ponty da publicação de 2014 (com que me presenteou) em vários artigos de TCC de minhas orientandas na FUMEC.

    Abraço com afeto, Aroldo D. Lacerda

  15. 4 de maio de 2015 at 05:11

    Olá Marina Machado,
    Paze Bem!
    Sou aluna da Mariana Lima Muniz na disciplina Seminários Artes da Cena, tive o prazer de participar da sua aula onde você explicou sua trajetória, pesquisas Rumo a possíveis dramaturgias do espaço e Desmontagem. Foi uma aula lúdica, criativa e muito rica. Parabéns pela sua pesquisa e gostei demais do Agachamento. Sobre a maioridade penal, concordo plenamente, precisamos é de mais educação e não colocar nossos jovens numa cela, com um sistema carcerário tão complicado e muitas vezes com profissionais não capacitados. Adorei também a dica de leitura do profissional da geografia Cassio Hissa e suas entrenotas, desáfios e como aprender fazer um projeto de pesquisa. Ficarei sempre ligada, nas dicas bibliográficas e as reflexões envolvendo o ensino das artes, produção e pesquisa em artes. Obrigada, sua aula foi um estímulo e fiquei sem dúvida mais forte para seguir enfrente com meu projeto de pesquisa e outras formas de saberes.Abraço e CAMINHOS ABERTOS!
    “Que a água seja refrescante. Que o caminho seja suave. Que a casa seja hospitaleira. Que o “Mensageiro conduza em paz nossa Palavra.” Benção Yoruba

    Grande abraço e Ngunzo,

    Júnia Bertolino
    (Diretora e coreógrafa da Cia Baobá Minas baoba.danca@gmail.com
    juniabertolino@yahoo.com.br
    http://www.ciabaoba.com.br

    • agachamento
      4 de maio de 2015 at 11:54

      Que bom Junia que “agachou-se” por aqui… Seja bem vinda! Abraços da Marina

  16. Laudeth Alves dos Reis
    5 de janeiro de 2016 at 17:28

    Olá, Marina!
    Tudo bem?
    Estou encantada com sua história. Sou mestranda em Educação pela UFTM e pedagoga de um centro socioeducativo de Uberaba/MG. Minha pesquisa é o sentido da corporeidade na Educação Infantil. Li seu livro e me apaixonei mais ainda pelos postulados de Merleau-Ponty. Sua escrita nos permite uma viagem encantadora. Estou no aguardo da chegada de mais uma aquisição: Cacos da Infância. No momento estou me deliciando com seus artigos, pois sei que serão fundamentais à minha alma e minha pesquisa.
    Continuarei seguindo-a, em minhas buscas descobri seu blog e aqui estou.
    Abraço fraterno,
    Laudeth

    • agachamento
      6 de janeiro de 2016 at 10:12

      Que bom Laudeth, o estudo de outras pessoas sobre fenomenologia, arte e infância é o grande mote da manutenção — agora já por 5 anos! — deste site-blog.
      Um abraço e obrigada pelo carinho
      Marina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


sete + 5 =