Coelhos, mitologias e transformação

Feriado de Páscoa

Na segunda-feira logo depois do domingo de Páscoa, o módulo “Fenomenologia, Arte e Infância” no curso de formação para professores da rede municipal de Belo Horizonte, que a Escola de Belas Artes está acolhendo, vai terminar. Durante o feriado, portanto, estou preparando a aula de fechamento – ao mesmo tempo em que vejo por todos os lugares o apelo do consumo ao chocolate, às associações que as propagandas fazem de ovos de chocolate e crianças, e coisas do tipo… imagens enviadas pelos pais de crianças pequenas para a página do UOL, provedor de internet, de “crianças na Páscoa”. São pouquíssimos pais que enviam fotos sem orelhinhas, maquiagem feita por um adulto e sorriso de revista…

Como enriquecer nosso pensamento e ação junto às crianças, nas datas comemorativas?

(Antes ainda, seria mesmo necessário – pautar-se pelas “datas comemorativas”?)

Um instrumento simples que tenho usado muito com os alunos da UFMG é a leitura do Dicionário de Símbolos (um livro organizado por Chevalier & Gheerbrant e editado no Brasil por José Olympio Editora). Vamos nos verbetes de interesse e lemos, configurando um mosaico, um quebra-cabeça, uma rede de remetimentos sobre o assunto.

Lá não temos o verbete “Páscoa” mas temos “Lebre-Coelho”.

Para lebre-coelho, o texto se inicia assim:

lebre correndo

fugindo dos estereótipos da imagem do coelhinho!

É preciso pensar na extrema importância do bestiário lunar nesta tapeçaria subjacente da fantasia profunda, onde estão inscritos os arquétipos do mundo simbólico, para compreender a significação das inúmeras lebres e coelhos, misteriosos, familiares e companheiros muitas vezes inconvenientes dos luares do imaginário. Povoam todas as nossas mitologias, nossas crenças, nossos folclores. Até em suas contradições todos se parecem, como também são semelhantes as imagens da Lua. Com ela, lebres e coelhos estão ligados à velha divindade Terra-Mãe, ao simbolismo das águas fecundantes e regeneradoras, ao da vegetação, ao da renovação perpétua da vida sob todas suas formas. Este é o mundo do grande mistério, onde a vida se refaz através da morte. O espírito que é somente diurno nele se choca, preso, ao mesmo tempo, de inveja e de medo diante das criaturas que, necessariamente, assumem para ele significações ambíguas.

Um ícone da minha infância é o livro da Clarice Lispector, O mistério do coelho pensante. Nesta história escrita em 1967 (e ainda sempre atual!) para um dos seus filhos, Clarice brinca com a fertilidade, o mistério e a esperteza dos coelhos, nos contando um “causo” de um coelho que conseguia escapulir da gaiola… vale a pena conferir, o livro foi re-editado diversas vezes, hoje encontra-se pela Editora Rocco.

Com essas duas referências encerro esta postagem, pedindo aos educadores… não façam mais máscaras de coelho de cartolina! Pensem, re-pensem, re-inventem suas referências! Lidem com a simbologia do coelho, e não necessariamente com sua concretude! E se forem lidar com sua concretude, tragam um coelho para a sala de aula!

Compreendem como ações muito simples podem mudar o cotidiano pautado nas datas e nos hábitos arraigados, das práticas sempre-as-mesmas? Novos significados para os momentos rotineiros podem trazer ações criativas, criadoras, férteis como os coelhos.

imagem de dois coelhos

coelhos pensantes: querem a espiral!

 

 

 

1 comment for “Coelhos, mitologias e transformação

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