Herdar um acervo de arte

Em uma madrugada do mês de novembro do ano 2000, recebi a notícia de que meu ex-marido, o artista Valdir Sarubbi, havia falecido. Ele havia trocado sua válvula mitral artificial em cirurgia do coração cerca de um mês antes; já de alta, em casa, passou mal, foi socorrido por um amigo, internado no Hospital do Coração de São Paulo e de lá não saiu. A hipótese foi de que um coágulo formou-se, entupindo a válvula, levando ao óbito.

Nosso filho Jonas, naquele momento, tinha apenas 15 anos de idade; portanto coube a mim uma porção de decisões, uma vez que Valdir não se casou de novo. Desmanchei seu apartamento e atelier, procurei criar algumas estratégias e categorias para as coisas que valiam a pena guardar — e quais outras não?… uma espécie de elaboração do luto encarnada em cada detalhe das grandes e pequenas decisões. Hoje, Jonas tem 25 anos e está apto a ser o mentor do Acervo de seu pai.

Meu ponto de vista é de que a herança de um Acervo de Arte tem certa semelhança com a história do Cavalo de Tróia. Nunca podíamos imaginar as dificuldades que íamos enfrentar, para guardar, fazer circular, expor, vender, manter e doar obras maravilhosas, de qualidade inquestionável. Em dez anos, conseguimos articular duas exposições realizadas em galerias particulares: DAN Galeria (2006) e Galeria Pontes (2010-11), as duas em São Paulo. Por dois anos escrevemos e produzimos todos os acertos para uma edição póstuma de gravuras em metal; conseguimos nove importantes museus parceiros, em nove capitais brasileiras, que aceitaram a doação da Caixa de Gravuras e catálogos, de modo a concretizar uma exposição, uma homenagem póstuma e guardar as gravuras em seus acervos. No entanto não conseguimos o patrocínio para viabilizar este projeto; mesmo com a Lei Rouannet aprovada, não obtivemos recursos: nosso o projeto “não cabia” nos editais disponíveis. Como fazer circular uma arte brasileira sofisticada, reconhecida por muitos e compreendida por poucos? Eis nosso enigma.

Penso que seria urgente o poder público no Brasil pensar políticas culturais que contemplem acervos herdados… pois certamente outras famílias de outros artistas viveram, vivem e viverão experiências semelhantes à nossa. O currículo de Valdir Sarubbi é exemplar: ele ganhou inúmeros prêmios, no Brasil e no exterior, e sua obra é como “música de câmara”, disse o crítico Olívio Tavares de Araujo – sutil, sofisticada, “low profile”, agradável de ouvir/ver…

Guardar as obras em um quarto de apartamento… devidamente embrulhados no plastibolha, esperando seus momentos de desembrulho… Isso é cuidar deste Cavalo de Tróia que precisa de pasto, repasto, ar livre, companhia de outros cavalos… Ouço muito os quadros/cavalos chorarem sua solidão na madrugada escura. Outros tantos quadros/potrinhos observam curiosos o mundo das artes hoje.

Aqueles que quiserem saber mais sobre a obra de Valdir Sarubbi podem navegar em seu site oficial:  http: //www.art-bonobo.com/valdirsarubbi

Valdir Sarubbi

Valdir Sarubbi fotografado por Juan Esteves

 

2 comments for “Herdar um acervo de arte

  1. JACQUELINE
    31 de maio de 2011 at 23:11

    Comecei lendo sobre outras formas de agachar-se e me emocionou, fiquei triste em saber como deve ser difícil o legado solitário….
    Muito enterncida em ver a menina que se transformou em uma Gram Mulher!
    bjos,jacqui

  2. José Roberto...beko.
    19 de julho de 2011 at 23:54

    Ma… consegui,Me sinto feliz por participar dessa sua trajetória…
    e do Jonas…tbm…que Deus ilumine seus passos,que lhe abençõe os pensamentos. bjão Béko.

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