Eu pertenço à comunidade UFMG

Roda de conversa entre alunos e professores

Na tarde de ontem, por iniciativa da professora Mariana Muniz, todos os alunos do período se reuniram para conversar sobre o trote violento e de conteúdo machista, racista, segregacionista que aconteceu muito recentemente no Campus da UFMG. A “brincadeira” de péssimo gosto está sendo repudiada por muitos e relativizada por alguns, e discutir entre os jovens estudantes esta situação foi fundamental.

Na sala, uma grande roda com estudantes de teatro, e seus professores.

A atitude geral era de silêncio solene e compartilhamento.

Achei importante quando uma aluna disse que “naturalizamos” a comédia fácil, rimos e achamos “graça” em coisas terríveis… Também gostei do depoimento de outra aluna sobre o poder da imagem, o que nos leva a reforçar a constatação de que nada, gesto, palavra, imagem, forma e conteúdo, absolutamente nada é neutro! E a neutralidade é sempre suspeita.

Da minha parte não tenho conta no Facebook para participar do ato combinado por todos – reafirmando “Eu sou UFMG” e “não compactuo com o acontecido”, mas estou usando do espaço deste site-blog para lembrar a todos um dos grandes dizeres dos estudiosos da fenomenologia e do existencialismo:

O outro sou eu.

Imagem-ícone da Revolução Francesa

hoje revoluções precisam ser sangrentas?

Penso que mais do que o julgamento dos “culpados” precisamos colocar na pauta do dia da vida universitária uma discussão sobre os [agora datados] valores do Iluminismo, a saber: “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”, atualizando-os talvez por… “Diversidade, Liberdade situada, Copertença”. Pois o que parece estar em jogo é uma enorme crise de valores.

Penso que os alunos do curso de teatro da Escola de Belas Artes hoje demonstraram que escolher estudar teatro é uma forma de “dizer algo a alguém”. O que dizemos com nossa arte? Para que, para quem?

Se este debate continuar vivo, já teremos revertido parte do dano feito à comunidade UFMG pelas manchetes policiais nestes dias. Precisamos muito cuidar para não cairmos na tentação da via curta da censura, julgamento impiedoso, prisão e expulsão dos “responsáveis”, insentando, com esta escolha, o macrocosmos: isto é, a constatação de que está no ar um tipo de educação que leva as pessoas a condutas violentas e preconceituosas, “só de brincadeirinha”. Este tipo de atitude é reflexo de algo maior e passível de um estrago considerável. Penso que a Universidade Federal também precisa fazer reflexão sobre isso, criando clareiras para a educação como espaço relacional, de troca, afeto-e-intelecto; e também, por que não?, de comiseração pela miséria humana.

 

4 comments for “Eu pertenço à comunidade UFMG

  1. Fernando Mencarelli
    21 de março de 2013 at 13:01

    Marina,

    Obrigado pela lucidez e posicionamento. Precisamos compartilhar estas palavras e divulgar a iniciativa da reflexão coletiva.

    Fernando Mencarelli

  2. 21 de março de 2013 at 14:09

    Marina, fantástico seu texto. Esse encontro foi muito importante em muitos aspectos e concordo com você quando destaca a importância da fala da aluna que dizia que não há imagem neutra, porque como artistas temos que estar muito atentos a isso para assumir os discursos que colocamos em cena, os discursos que colocamos em diálgo com o mundo. Abraços.

  3. Antonia
    15 de abril de 2013 at 16:18

    Oi Marina, acho que vc ia gostar de ler o seguinte texto: http://papodehomem.com.br/feminismo/#feminismo6
    Tem uma parte que fala sobre censura e humor, desmentindo o argumento de muitos de que o humor deve ser um território livre de repreensões e punições de acordo com as leis que proibem manifestação de racismo, por exemplo.
    Eu particularmente acho que a punição dos responsáveis é, no caso brasileiro, tão importante quanto a reflexão ampla, pois no Brasil “reflete-se” sobre o racismo e o machismo com muita facilidade, há matérias, machetes, debates etc – todos condenam e acham repugnante, mas ao mesmo tempo esse trote e programas como zorra total são aceitos como “possíveis” dentro da nossa sociedade (apenas os responsáveis diretos são tidos como repugnantes e a sociedade como um todo é isenta). Eu gostaria que fosse tido como “impossível” esse tipo de humor, que fosse algo com consequências morais graves e tbm jurídicas, algo danoso para a sociedade como um todo e que deve ser processado de acordo com um corpo de valores hegemônico, que rejeite a humilhação com base no gênero e na raça como “atos possíveis”. Em casos como esse, a reflexão sem punição, para mim, apenas indica que o corpo de valores hegemônico admite que ser mulher e negra é algo humilhante em si; sim, é repugnante humilhar pessoas com base nisso, mas é sempre uma possibilidade. Não acho que leis e punições funcionam para sanar o problema e pronto, mas gostaria que aqui fosse mais parecido com os EUA nisso, gostaria que na hora que os veteranos estivessem planejando o trote, que eles tivessem receio de fazer uma coisa dessas, pois sabem que sua posição não é tida como uma possibilidade.
    beijos!

    • agachamento
      16 de abril de 2013 at 00:23

      Sim, Antonia, vc tem razão… há casos que “refletir” não basta!!! vamos ver como serão os desdobramentos na UFMG… bjos

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