A casa ruiu

Grupo Teatro Invertido

Ontem presenciei o segundo dia da temporada do espetáculo “Os Ancestrais” do Grupo Teatro Invertido, que acontecerá em sua sede, no bairro Sagrada Família, durante todo o mês de março/2013.

O trabalho acontece em um subterrâneo imaginário, escombros de uma casa que ruiu. Os atores entram em cena por uma espécie de sótão, o chão é de terra, eles comem e respiram terra, por mais de uma hora, trazendo ao espectador remetimentos de um Brasil de cova e chão, de ruínas, de enchente, deslizamento e pobreza. Este grupo é egresso do curso de teatro da UFMG e eu já tinha bastante curiosidade de conhecê-los, pois, para meu concurso, estudei um pequeno volume de textos “invertidos” sobre um dos seus processos criativos-teatrais.

Em parte minha expectativa cumpriu-se, no sentido de assistir a um teatro de pesquisa, a corpos entregues a um tipo de expressividade das mais interessantes, rastejando pela terra e dizendo algo por meio de personas certamente muito diferentes de seus corpos cotidianos, idade e histórias de vida. Isso é um grande feito, certamente fruto de nove anos de convivência e desejo de dizer algo socialmente denso e importante por meio do teatro.

E o que é mais espantoso é que este dizer tenha sido elaborado com vozes muito pouco subterrâneas – é nesse ponto que o trabalho peca, digamos assim, por [talvez sem querer] insistir em um teatro textocêntrico e dito de tal maneira que nos remete ao velho, famigerado mas “bem sucedido” teatro burguês.

Todo o intenso trabalho corporal de rastejamento e comoção, de contato profundo com o chão de terra, se perde um pouco com a dramaturgia concretizada em diálogos e em biografias, aparentemente lineares, dos personagens. Algo que poderia ser intensamente arquetípico se dilui nos tons das vozes e na dicção da “boa técnica” do ator profissional. Os vermes não vingam, não chegam, não se tornam visíveis. Mas vale a pena imaginá-los!

Compareçam e olhem com seus próprios olhos. Os alérgicos e os claustrofóbicos devem ir previnidos.

 

1 comment for “A casa ruiu

  1. 15 de março de 2013 at 14:32

    Ah, muito bacana suas observações, Marina, vou assistir essa semana e aí vamos estender essa conversa…
    Beijos.
    Adélia.

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