Um domingo em Belo Horizonte

Neste final de semana muitas coisas aconteciam para a vida cultural das pessoas em Belo Horizonte. Ontem, domingo, fui assistir a um espetáculo infantil criado e encenado por uma dupla de atores meus amigos de São Paulo (“O Flautista de Hamlin”, Grupo Furunfunfun), e, de noite, fui a um show em praça pública de Arrigo Barnabé.

O que pode unir estes dois eventos, para além do dia e da minha pessoa nos dois tempo-espaços? Talvez o poder da música.

Pois a música de Arrigo Barnabé me faz ter 19 anos.

E a música de Arrigo me faz crer que podemos ser “diferentes”, e que esta escolha (ou sina?) faz sentido sim, e pode ser compartilhada…

Jovens muito novos (18 ou 20 anos de idade) dançavam na beirada do palco e sabiam cantar as canções:

Era um balcão / de bar / de fórmica vermelha

Que delícia voltar no tempo, e no aqui-agora atualizar esta brincadeira criativa: o Arrigo em cena! Hoje perto dos 61 anos de idade, fazendo troça, ironia e piada com seu próprio “elitismo”… pedindo a Vânia Bastos conselhos para “fazer sucesso”, em um encontro casual (os dois fazendo de conta, presentificando carrinhos de compra invisíveis) em um supermercado… e  enxergamos, e imaginamos, tudo que Arrigo quer nos fazer ver e imaginar.

(Eu ainda quero ser Arrigo Barnabé! E sou.)

O que une os dois eventos, além da minha agenda e desta postagem no Agachamento, é também o espaço potencial daquilo que acontece ao vivo, diante de nossos olhos. Na peça “O Flautista de Hamlin” crianças da plateia são ‘entrevistadas’ sobre ideias acerca do combate aos ratos. O dizer das crianças, seu envolvimento, sua capacidade própria de compreensão da narrativa encenada, chega a ser mais interessante que o próprio espetáculo.

É este meu olhar hoje – e não pretendo sair deste ponto de vista tão cedo: de que a teatralidade está na vida mesma, tem raízes fortes na primeira infância; e por lá uma criança sugere: arrumem gatos, que comerão os ratos! Também uma menina de não mais de quatro anos falava e repetia, atrás de mim: “Botar fogo só queima, não mata… O que mata é veneno!”

Perto do final da peça, as crianças são convidadas pelo flautista a entrar para dentro do palco, da história, do cenário feito de biombos… e por lá ficam! São “devolvidas” aos pais apenas no final da encenação. Os momentos de participação direta da criança espectadora me fizeram lembrar o trabalho pioneiro de Ilo Krugli, revelado no espetáculo-instalação “As Quatro Chaves”. Este trabalho foi concebido por ele no início da década de 1980 e não se constituia uma peça: era um jogo, uma brincadeira coletiva de faz de conta, teatralidade construída, entre adultos e crianças. Foi uma experiência radical e fiz parte dela.

Arrigo hoje

descruze os braços para mim...!

Mudar o panorama é trabalho árduo e de risco. Por isso continuo amando Arrigo Barnabé. Posso dizer que é meu muso; meu exemplo de luta e coerência, e de sobrevivência; aparentemente sempre perto de si mesmo, capaz de deboche e auto-ironia, inferiu ontem no palco suas crises e dificuldades para ser músico no Brasil.

(Quisera eu ser comida por um, dois, três… Tubarões Voadores!)

 

 

 

 

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