Infância tipo Rede Globo

Por uma circunstância continuo, até a próxima semana, sem televisão e sem internet em minha casa nova em Belo Horizonte.

Assim tenho revivido a experiência muito antiga de ser “televizinha” de minha prima Maria Clara, que mora na mesma rua…

Lá tenho assistido, por vezes, à novela “Amor Eterno Amor” (Rede Globo, 18hs).

Chama muita atenção a atuação, bem como o papel, ou seja, a dramaturgia escrita para a personagem, da menina vidente. Seu modo de ser, seu modo de falar, a articulação entre palavra e pensamento, revelam e explicitam a noção de infância de “mini-adulto”. Ela é sábia, articulada, pacienciosa… Veste roupas impecáveis e sempre está com batom que poderemos chamar politicamente correto. Sua personagem vê o sobrenatural, conversa com figuras de vidas passadas, e tem um papel semelhante ao do Bobo da Corte, o que significa possuir sabedoria e grande liberdade de expressão… uma vez que é criança “ainda”! (O polo oposto ao de papel de menina vidente é aquele bastante explorado pela indústria dos filmes de terror: a criança diabólica, maléfica, tomada por forças do mal).

Também assisti, muitas semanas atrás, a uma cena na outra novela, a famigerada “Avenida Brasil” (Rede Globo, 21hs), em que dois personagens crianças, em cena do tipo flashback, juravam amor (!?) em uma brincadeira de faz de conta. A direção de cena, as falas, a iluminação, a corporalidade dos “atores mirins”, absolutamente tudo caminhava para longe da espontaneidade e da verdade que podemos encontrar no brincar cotidiano das crianças.

Como e por que persiste este tipo de atuação e direção de cena de atores crianças nas dramaturgias da Rede Globo?

Como e por que crianças-esperança precisam dançar uma dança coreografada, saltitante e “feliz” na abertura do programa beneficiente?

Haveria consciência dos diretores, dramaturgos e encenadores do peixe que estão nos vendendo? (Peixes de aquário, criados em cativeiro, com horário para brilhar… contradizendo o próprio mito da infância feliz).

É meu ponto de vista que crianças submetidas ao trabalho de atores precisariam ser acompanhadas de modo particular, único, intimista, para preservar algo da infância que Hanna Arendt nos mostrou em suas reflexões sobre a criança e a educação: os elos com a casa, a família e a rua… inseridos, com simplicidade e privacidade, na vida cotidiana mesma, a partir de uma temporalidade própria que não combina absolutamente com decorar falas, provar figurinos, estar no estúdio na hora certa com o sorriso certo! O trabalho de ator na Rede Globo durante a infância me parece portanto um convite [errado] ao estabelecimento do falso self, conceito winnicottiano já comentado em algumas postagens anteriores: defesa precoce a invasões adultas ao verdadeiro self.

 

 

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