O Inferno de Dante imaginado por crianças (parte 6)

Continuando uma série de postagens sobre a infância e os possíveis maltratos e injustiças cometidas pelos adultos, vou comentar hoje o sexto dos nove círculos do inferno de Dante imaginado por crianças, a partir do incrível folheto escrito pelo meu avô nos anos de 1950, “Se Dante tivesse três anos…” :

No círculo seguinte, os que assustaram a criança. Permanecendo em pé sobre o peitoril de uma janela de uma torre altíssima e contemplando distraidamente a paisagem, um diabo chega sorrateiramente pelas costas, da-lhes um empurrão e os segura para que não caiam. Isto se repete cada vinte minutos e, por artes do diabo, os condenados não se acostumam.

Noutro texto meu avô afirma: “Provocar voluntariamente emoções na criança é um crime inqualificável”. As crianças devem ser ensinadas, segundo ele, a “ter medo das coisas reais e perigosas e das situações que ela ainda não pode resolver com seus próprios recursos”. Nesse sentido o pensamento do meu avô me remete a Winnicott (outro pediatra, aliás!, e que tornou-se, ao longo da vida, psiquiatra e depois psicanalista) que afirmou que nosso crescimento se dá, sempre, da dependência total “rumo à independência”. No período de dependência total, o poder do adulto e dos cuidadores é inimaginável, e maltratos, ações e dizeres perversos marcam fortemente o imaginário nesse período. Assustar a criança com ações ou dizeres, incluindo figuras míticas, mágicas ou lendárias, tais como bicho papão, bruxas, lobisomens, homem do saco, e também o guarda da esquina… é uma inabilidade do adulto que está em dificuldade com a criança. O uso da fertilidade do imaginário infantil, bem como da sua crença no modo de ser dos adultos, com ameaças inventadas para conte-la, é, sem dúvida, um exercício de abuso de poder. Na medida em que a criança depende total e diretamente do adulto, a questão, inevitavelmente, gira em torno do tema das relações de poder.

Com a expressão “rumo à independência” Winnicott quis dizer que seremos sempre dependentes do outro, no sentido do companheirismo, da pertença, do trabalho em grupo e equipe; Winnicott faleceu em 1971 e não presenciou algumas drásticas mudanças psicossociais acontecidas dali em diante. Exemplifico assim: estava no ônibus outro dia e uma moça conversava com outra sobre como era bom ter amigos no bairro mas que “ninguém nunca entrou na minha casa”, nos nove anos que mora no mesmo endereço! Argumentava que esse era o “jeito certo” de ter conhecidos (não amigos!), que se você passar mal vão te socorrer, mas que não se intrometem na sua vida… (Associei esse dizer a uma outra postagem no blog, sobre o afeto dos ficantes). Estamos vivendo um momento afetivo e psíquico desconfiado e arisco, onde fazer vínculo e criar novas inter-dependências tem sido visto como algo ruim. Reside aí, no meu ponto de vista, um dos grandes problemas revelado em atendimentos psicológicos: a solidão e o sentimento de não pertencer. A não pertença muitas vezes se desdobra na sensação de não sentir-se real.

Donald Woods Winnicott

vale a pena conhecer a obra de Winnicott

Outro conceito winnicottiano importante é a “solidão compartilhada”: com o paradoxo de sermos e não sermos uma ilha, Winnicott nos mostra sua capacidade criativa, ao inventar palavras que traduzem estados, modos de ser e estar, e que permanecem extremamente atuais. Adultos que compreendem tanto o que é a vida “da dependência total rumo à independência” bem como a noção de “solidão compartilhada”, teriam, na teoria winnicottiana, maior capacidade tanto para a preocupação com as crianças (em inglês: concerning) quanto para a hospitalidade no mundo, que gera o sentimento de pertença (em inglês: belonging) – palavras chave para a saúde relacional e para o diálogo entre adultos e crianças, de modo que crianças se tornem jovens e adultos, eles mesmos, capazes de cuidar, naquela mesma sintonia, das crianças das novas gerações.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


− um = 8