Sobre processos colaborativos

Quero pesquisar maneiras simples e criativas sobre como ensinar pessoas leigas em teatro, que possuem pouco ou nenhum repertório neste campo, a importância de processos grupais: algo muito mais valioso, em termos educacionais e afetivos, do que o resultado e o resultado “em palco”. Especialmente durante a primeira infância, qual seria o sentido de ir ao palco, mesmo na sintonia do jogo, da brincadeira corporal, da simplicidade de “contar algo a alguém”, senão reativar o processo grupal e relacional para chegar ali?

Se diz, na língua do teatro, da importância do bastidor, da cozinha. O que foi cozido e como… aliás eu por mim ficaria no rito de comer junto, com crianças pequenas – sem a menor necessidade do buffet, se é que vocês me entendem!

(Mas talvez poucos entendam, pois os buffets literalmente proliferaram! Pensem comigo, quantas pessoas abrem sua casa hoje em dia para a festa de aniversário de seus filhos?)

Imagem retirada de uma sequência da internet

Cinematograficamente teatral

Quando reencontrei esta foto, pensei ter achado uma imagem que diz muito sobre o que é um processo colaborativo: fotografia da “resolução de problemas” de modo colaborativo. Fazendo um paralelo especificamente a “resolução de problemas” cênicos, as crianças buscam como dizer algo a alguém de modo teatral, dar a mão, salvar o cachorro, esticar-se, fazer uma diagonal com o corpo… possíveis palavras-chave do processo colaborativo.

Lembro bem como foi que comecei a querer fazer teatro. Foi assistindo ao trabalho de criação coletiva “Trate-me leão”, do grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, no final da década de 1970. Eu tinha 16 anos. Lembro perfeitamente da Regina Casé batendo na mão um bolo invisível. Simples assim. Era uma pesquisa incrível de gestualidade, sonoridade, inventividade no corpo da atriz – em um trabalho que mostrava a atriz em relação intensa com seu grupo e em diálogo com a platéia, ainda nos anos da ditadura. Ao ver aquilo, a inteireza da cena, ao compreender que “isso” era uma profissão, percebi que queria fazer teatro. Meu segundo insight sobre querer fazer teatro foi assisitindo a “História de Lenços e Ventos”, do Ventoforte, já aos 19 anos. A música ao vivo e o colorido deste surpreendente espetáculo, que fazia surgir um “Dragão de Sete Cabeças” de um varal com lenços pendurados pelos atores, e a dúvida – mesmo que durasse poucos segundos – se a desistência do ator de fazer seu personagem era fato ou parte da dramaturgia… foram detalhes imensos que acenderam meu desejo de aprender teatro: teatro como jogo e como linguagem.

Compreendi participando de uma banca de qualificação ao lado do Antonio Araújo que a criação coletiva não é o “primórdio” daquilo que ele e outros encenadores hoje chamam de “processo colaborativo”; são momentos históricos diferentes que possibilitaram experiências de outros modos de fazer/produzir/viver o teatro. Sei que são estas outras possibilidades de fazer teatro que me conduzem a continuar minha pesquisa das relações entre teatro e infância, e também fazer/produzir/viver minha performance “A mulher que vira lobo”, 35 anos depois de comer bolo invisível como espectadora do “Trate-me leão”.

(Quem tem medo de lobo mau?, cantam os três porquinhos, ingenuamente…)

“A mulher que vira lobo” é um video de quatro minutos de duração que quer proposital e propositivamente dar medo em todos que o assistam: medo de nosso potencial criador e destrutivo, medo de tudo que pode acontecer conosco na solidão de uma noite vazia. O video foi produzido de maneira colaborativa com o olhar da dançarina e pesquisadora Priscilla Vilas Boas e com o fazer do videomaker e documentarista Luiz Eduardo Cotrim. Proibido (por mim) para menores de 7 anos, o trabalho tematiza o onirismo, o polimorfismo e a não representacionalidade da primeira infância. Vetado para crianças muito pequenas justamente porque a mulher que vira lobo não desvira, e isso pode ser extremamente angustiante para quem vive mergulhado na vida imaginativa, entre realidade e ficção. Também o fato do filme não ter trilha sonora nem decupagem, ou seja, não ter sido arredondado artificialmente por uma montagem que pudesse amenizar a crueza da transformação, impressiona porquinhos desavisados.

Então digo que “A mulher que vira lobo” é uma pequena homenagem a Antonin Artaud e ao modo de ser e estar das crianças de zero a seis anos: mergulho na experiência pré-reflexiva.

Não deixem de conferir. Entrem em contato, juntem interessados, e agendem sua sessão.

 

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