Cildo Meireles na Sala Valdir Sarubbi

No sábado, dia 19 de novembro, fui conhecer em Belém do Pará o museu “Casa das Onze Janelas”. Neste museu, a sala mais ampla homenageia meu ex-marido: é a sala nomeada “Sala Valdir Sarubbi”. E, neste espaço, havia a exposição, de cunho “pós-moderno”, da edição 2011 do Arte Pará: uma obra minimalista de Cildo Meireles, nomeada “Cruzeiro do Sul”.

O guia, jovem estudante de Artes Visuais, fez vários comentários inteligentes sobre “a arte hoje”… inferindo, de certo modo, que a arte… daquele que dava nome à sala… era “arte de ontem”. A “arte de hoje”, segundo nosso jovem guia, seria conceitual e muito, muito, muito reconhecida “lá fora”.

Esta obra especificamente de Cildo Meireles consistiu em conceber um foco de luz redondo, numa sala imensa de chão de madeira e em um casarão estilo “arte de ontem” restaurado, no Ver-o-peso (“centro-de-ontem-agora-de-hoje-e-de-amanhã”) e colocar no centro do foco de luz um mínimo cubo de madeira “representando”, “simbolizando”, materializando a arte conceitual. O guia nos doa vários significados – mas também nos convida a dar/doar outros; no entanto não devemos falar de “outros assuntos” (minha amiga, muito expansiva, extrovertida, faz questão de retomar que ali se encontra “a viúva de Valdir Sarubbi” e, para nosso jovem guia, estamos fazendo algo inadequado, talvez pouco contemporâneo… mais tarde converso com ele, e explico que eu e ela somos pessoas da “arte contemporânea”, formadoras de professores em teatro e literatura). Mas parece que seu ponto de vista é que falar de outros assuntos estraga a visita monitorada.

Obra de Valdir Sarubbi editada postumamente

Arte de ontem?

Ironia do destino: a Obra de Valdir Sarubbi não mora na Sala Valdir Sarubbi. A Obra de Valdir Sarubbi mora no meu apartamento, e chora de noite por estar presa em plástico-bolha, dia após dia. Eu acalento: um dia você verá uma janela aberta! Foco de luz redondo em você, ar condicionado mantendo sua vida mais longa.

O guia da Sala Valdir Sarubbi pouco sabe sobre ele, afirma ser um “artista gráfico, gravurista” e pronto. Digo a ele que entre no site do Valdir, pois ele era também pintor. Pergunto de quem é a curadoria da “exposição da arte nova”; ele desconversa; falar da curadoria talvez não seja parte do roteiro do nosso jovem guia.

Paro de questionar o jovem guia, aliás um moço bonito e muito simpático, competente em seu papel de pertencimento ao Educativo do Museu, e me dedico a olhar com os olhos o que é a Casa das Onze Janelas, como órgão do Poder Público.

Canoas: Gravura de Valdir Sarubbi

Este rio é a rua dele

Numa sala do Acervo, no térreo, vejo, encontro cinco obras do Valdir. É algo emocionante, particularmente uma gravura comemorativa do nascimento do nosso filho Jonas, feita em 1985; mas parecem descontextualizadas do todo de seu pesamento-sentimento ético e estético, por não serem coerentes entre si, e perdem sua força no sentido de não revelar a riqueza da sua pesquisa poética própria: caminho das imagens telúricas amazonenses à abstração da luz e da água. Sua pesquisa é tão única que não interessa às novas escolas, às curadorias e comissões de fomento que se guiam por histórias e correntes. Isso acontece não apenas com a formação do jovem guia: é uma das dificuldades de inserir o trabalho de Valdir Sarubbi em leilões ou editais que contemplem as Artes Visuais — o tamanho da sua singularidade.

Termino apenas rabiscando a minha noção de arte contemporânea: é nosso guia mesmo quem narra que crianças entraram ali, sozinhas, e mexeram, deslocaram o cubinho do centro de luz!!! Mas qual não foi o alívio dele quando o cubinho ressurgiu, fora do foco. (Era proibido entrar na “Sala Valdir Sarubbi” sem guia).

Naquela situação, estava em foco as ações daquelas crianças! E, para mim, isso é arte contemporânea:

cubinhos para todos! Versões, inversões do Cruzeiro do Sul! Janelas abertas na Casa das Onze Janelas, para que todos e qualquer um possam usufruir, olhar para fora e para dentro, entre: entrem, fiquem à vontade; não há necessidade de visita guiada pelo Educativo. A isso se nomeia Arte Relacional.

 

9 comments for “Cildo Meireles na Sala Valdir Sarubbi

  1. Maína Junqueira
    24 de novembro de 2011 at 00:31

    Arte Contemporânea, o que é isso? Acho tudo tão banal, bobinho, com raríssimas exceções!

  2. 24 de novembro de 2011 at 01:13

    Sarubbi: seu trabalho e percurso é uma referência na arte brasileira. no Pará, talvez….

  3. Maria Rita
    24 de novembro de 2011 at 23:04

    Que Valdir Sarubbi é uma referência na arte brasileira não temos dúvida!! O que eu acho é que existem momentos, estórias, obras, coreografias, espetáculos que somente o próprio artista e talvez, alguém muito íntimo desse artista possa entender o verdadeiro valor. Esse” momento único” de criação, que brota do íntimo e é exteriorizado em forma de arte, parece que permanece no interior de nossas almas, como cristais,iluminando nossa “jornada” e que levamos conosco para a eternidade e enriquecimento de nosso espírito…

  4. paulo leonel gomes vergolino
    25 de junho de 2020 at 16:28

    Simplesmente lindo! Estou escrevendo um texto sobre esse nuclear artista. Um joia do Pará, uma joia do Brasil.

    • agachamento
      25 de junho de 2020 at 17:27

      Que bom! Há outras referências a ele aqui no site…
      Um abraço
      Marina

  5. Mila
    1 de julho de 2020 at 20:57

    Estou pesquisando sobre Sarubbi. Eu trabalho neste Museu.

    • agachamento
      1 de julho de 2020 at 21:49

      Que bom! Fico feliz por isso. Neste site-blog existem algumas outras referências sobre ele.
      Um abraço
      Marina

  6. Mila
    1 de julho de 2020 at 22:10

    Vou olhar. Estou lendo o livro da Rosana Charone Bittar sobre Sarubbi.

    • agachamento
      2 de julho de 2020 at 08:09

      Olá
      O documento mais rico e importante é o site dele, pois todos os textos lá, e a divisão das etapas do seu trabalho, foram feitas e escritas pelo próprio Valdir
      um abraço
      Marina

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