Convite ao teatro de pesquisa dramatúrgica

Ator-pesquisador na Portaria

um ator-pesquisador, uma trilha e imagens projetadas

Li um release sobre um trabalho cuja dramaturgia se baseia em depoimentos de porteiros de prédios em São Paulo. Gostei da ideia, gostei desta foto de divulgação. Fui conferir ontem, no Centro Cultural Vergueiro.

Chegamos no final de um corredor e encontramos uma ‘tosca’ portaria improvisada, um interfone dependurado, uma tv com imagens de segurança, onde passam imagens do ator em preparação. Alguém da produção vem nos “ensinar” a ver o invisível, quero dizer, a moça comenta que não era necessário fazer fila e que aquelas eram as imagens do ator se preparando para entrar em cena. (É meu ponto de vista de que não se deveria “dar instruções” para espectadores desavisados. É preciso deixar a coisa rolar).

Entramos e nosso ator-pesquisador-dramaturgo-porteiro encarnado está em uma mesa de portaria sob o foco de luz. Senta ali e assim fica, por um tempo extremamente longo. Seu corpo se inquieta de forma sutil: a mão em garra, uma coceira, um tremor de perna que segue uma nova postura na cadeira, de perna cruzada. Esse foi um momento tão longo que tive a impressão de que “o som não entrava” (‘como se’ uma falha da produção). Mas depois achei admirável que ele mantivesse aquela “temporalidade de portaria” de modo que nós, espectadores, permanecessemos nesse aspecto da profissão do porteiro.

Este é um trabalho extremamente artesanal que nos surpreende quando passa de um certo ingênuo realismo para um surrealismo corajoso por trás da tela de projeção. O porteiro-ator-dramaturgo-pesquisador confessa algo sobre ter medo de ficar louco, e é a deixa para aquela nova atmosfera. Segue-se uma espécie de trabalho em dança-teatro onde o ator por vezes deixa de ser porteiro, e o porteiro da pesquisa etnográfica é projetado em seu peito… (Minha [pouca] experiência como espectadora de teatro-documentário já me aponta que se trata de uma linguagem quase comum neste tipo de direção/dramaturgia. Mas mesmo assim não mudo de ideia: gosto do trabalho, gosto da condução do espectador “para dentro do prédio”).

O dramaturgo-ator-porteiro-pesquisador faz uma pequena pausa brechtiana, e diz algo sobre a dificuldade de aceitar o outro: o ator “quer material de cena”, mais do que escutar depoimentos, durante a fase de coleta de material.

Mas chega de comentários, caso contrário, ninguém precisará ir ao teatro!

Portar(ia) Silencio / uma experiência dramatúrgica fica em cartaz até 27/11. Criação, pesquisa, dramaturgia e atuação: João Júnior ?(60min, livre):

“Espetáculo de teatro-documentário que lança olhos sobre as implicações existenciais de um processo de migração, a partir das narrativas do ator e de nove porteiros de prédios da cidade, utilizando vídeo, corpo e som em uma cena performativa”. Sábados, às 21h; domingos, às 20h – Espaço Cênico Tarsila do Amaral (60 lugares), no Centro Cultural Vergueiro.

 

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