Minha crença no teatro

Para aqueles que acham que “a Marina não gosta de teatro”… aqui vai um comentário sobre “o meu teatro”, sobre um espetáculo que traduz minha crença, minha filiação.

Ator Van Gogh

esse é o cara

O meu teatro é, modéstia à parte, o mesmo de Gero Camilo no espetáculo “A Casa Amarela”, em cartaz no Teatro Cacilda Becker até o próximo final de semana.

Acabo de voltar de lá.

O meu teatro é aquele que vai mostrando a que veio muito lentamente. Não tem trucagem, e o cenário é forma-e-conteúdo: neste caso, molduras de quadros, uma cadeira que o ator trouxe nas costas, como uma mochila, muitos tipos de luz amarela… composições de Van Gogh, pintor-personagem de Gero Camilo. Criações de Gero Camilo, texto e atuação.

Crença no teatro: domingo à noite, São Paulo chuvoso, alguém saiu para ir ao teatro; outro alguém entrou pelo corredor cantando, para fazer teatro.

O meu teatro é como o dele… pesquisa quase silenciosa, dramaturgia no gesto, no detalhe, no não realismo da coisa que quer falar Van Gogh – e não, nunca, em nenhum momento, sobre Van Gogh.

Nenhum quadro surge como referência museológica, nenhuma projeção ou reprodução: só inferências. Muita mistura entre o ator-criador e sua fonte; brincadeiras com o ouvido e o coração do espectador, na fria noite chuvosa de São Paulo; uma casa muito engraçada, sem teto, sem nada: a canção de Vinícius em alemão!

E de um certo momento em diante, o corpo do ator é o pincel e a obra. É a partir do incidente com a orelha: guache vermelho, gesto preciso, e Gero começa a ser ele mesmo a tela, a obra, Van Gogh encarnado, presentificado em lembranças de infância, com os pés mergulhados em guache amarelo: esfregando-se na cor, na memória, na possibilidade de ser uma tela.

O cenário de molduras vazadas permite que ele de fato vá-se embora quadro.

Trabalho simples, artesanal e primoroso, que vale a pena ser compartilhado.

 

3 comments for “Minha crença no teatro

  1. Taís
    3 de outubro de 2011 at 18:26

    que vontade de ver… mas o gero camilo merece sempre ser visto, ouvido e vivido.

    • agachamento
      3 de outubro de 2011 at 21:24

      Que bom Taís: mais um elo entre nós!
      beijos

  2. Maria Lúcia Pupo
    4 de outubro de 2011 at 12:24

    Dá água na boca… Tudo o que vi ou li do Gero sempre me pareceu especialmente bom; força e delicadeza, gravidade e humor coexistindo, inseparáveis.
    Obrigada!

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