O bebê faz teatro: ele é parte da cena contemporânea

Nesta noite de quarta-feira, vou falar na mesa “Arte e bebês: aproximações e distanciamentos”, no evento que já anunciei por aqui, “Conversas poéticas entre arte e bebês”.

Preparei um texto e um caminho de comunicação de algo que se conecta com meu pensamento hoje, e que fiquei muito feliz em ver, na fala da convidada Anna Marie Holm, o mesmo ponto de vista: arte e vida podem ser concebidas sem separações, devemos fazer cair mais esse muro. Portanto o teatro, a teatralidade encontra-se no cotidiano, nas relações, no gesto ordinário. Nesta chave, a criança, mesmo na mais tenra infância, já encontra-se mergulhada em potencialidades estéticas, artísticas e criadoras.

Proponho, além da queda do muro entre arte e vida, a desconstrução, em detalhes e em câmera lenta, do que se pensa ser “uma criança”, “a infância” e o “teatro infanto-juvenil”. Tenho certeza de que, semeada a dúvida, no melhor sentido da palavra, surgirá questionamento a tudo já pré-estabelecido de antemão sobre “o que é bom para as crianças”. Isso pode gerar novidade e pesquisa na cena contemporânea. Tudo muda. Por que não mudaria a produção cultural para a infância? Como e por que o teatro infantil continuaria veiculando infâncias cor de rosa e azuis? Onde está o roxo, o marrom, o amarelo e o ocre? E o vermelho, então?! Viva o verde limão, o verde musgo, o verde piscina!

A noção de infância da qual falo hoje encontra-se em meu artigo A criança é performer . Trata-se de um texto de posicionamento, a partir da minha pesquisa de pós-doutorado em Pedagogia do Teatro, “Territórios do brincar”.

Desenho em lápis de cor da série "Brinquedos para Jonas"

fazer teatro a partir de uma caixa vazia

Para além do teatro feito para crianças, quero semear o teatro feito pelas crianças. Na faixa etária discutida neste evento, dos zero aos três anos, as crianças farão teatro de forma extremamente semelhante ao brincar de faz de conta, mergulhadas em jogos corporais: correr como saci, pular como a pulga, congelar ação, sentar como um adulto sonolento, engatinhar como um leopardo… Para que esses atos performativos aconteçam, do que precisamos?

A lista de material é você e eu, simples assim; não preciso, como disse Anna Marie, de um estudio, nem de materiais sofisticados – eu preciso de espaço e de gente, de coragem e de boa vontade por parte dos adultos. Eu preciso de um tempo dilatado para brincar (que não é o tempo de duração de um “espetáculo”). Eu preciso de adultos que me conduzam e que me deixem ir.

Gosto muito da formulação de Roland Barthes, em seu ensaio Fragmentos de um discurso amoroso: “designar o desejo, e depois deixá-lo, como esses nativos amáveis, que mostram bem o caminho a você, sem no entanto se oferecerem para acompanhá-lo”.

 

 

 

 

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