O que será que será teatro para bebês?

Hoje aconteceram duas sessões do espetáculo O que eu sonhei?, dentro do evento “Conversas poéticas entre arte e bebês” / Centro Cultural São Paulo, cuja ficha técnica e release é:

grupo: Cia. Zin – direção geral: Fafi Prado – elenco: Elenira Peixoto e Fafi Prado?(30min)

A montagem traça um roteiro de movimentos e gestos cotidianos poetizados pelo estado de devaneio e de sonho. Em cena, duas personagens interagem em um espaço entre o real e o onírico. As ações misturam realismo e fantasia no momento antes de dormir, enquanto sensações do dia são revisitadas. Ao sonhar, os elementos se misturam e, ao acordar, apenas fragmentos deste sonho pairam na memória: “O que eu sonhei?”.? Entrada franca

De maneira cuidadosa o grupo organizou a plateia de modo que entrassem, primeiro, as crianças, e seus acompanhantes adutos: adultos sem crianças entraram depois. Quando entrávamos – sou do grupo de adultos sem crianças – todos eles estavam sentados em uma meia lua no palco, ao redor do dispositivo cênico, e nós sentávamos na plateia. Assim, o adulto assistia a dois eventos: o espetáculo “O que eu sonhei?” e a meia lua de bebês com seus pais!

O trabalho é extremamente suave e “feminino”: duas atrizes e uma musicista, com vestidos de manga bufante e um pequeno mural de cenário com flores e uma borboleta grudadas nele; música ao vivo, que remete a caixinhas de música. Gestualidade da leveza e do alongamento no corpo das atrizes. Percebemos aos poucos as noções de infância e de experiência estética da Cia. Zin: em busca do Belo.

Teatro parece ser, para elas, um dos sinônimos para a palavra “contemplação”.

As mães jovens presentes no geral pensam assim também: são alegres, estão felizes de ali estar e se empenham em  “conter” seus filhos em um território fora do dispositivo cênico, demarcado por uma espécie de tapetão.

De minha parte penso que o grande problema do trabalho “O que eu sonhei?” está em cultivar o comportamento de “ficar parado”, contemplando o que está sendo mostrado e contado. No entanto… como e por que eu deveria ficar parado diante de coisas que me chamam?

“Ficar parado” restringe; “ficar parado” é um único comportamento, e a criança pequena se apresenta muito viva e polimorfa.

E os adultos? Eles querem ver seus bebês “ficarem parados”! Uns puxam, outros impedem, há quem dê colo e vire o rosto do seu filho para a frente, onde está a encenação… de modo a conseguir uma certa imobilidade. E cerca de dez minutos depois, começa uma espécie de coro na plateia. Um ruído, um barulho, um sonzinho de quem está numa assembleia de bebês!

O personagem  que remete a um “E.T.”, um boneco manipulado por Fafi Prado, sabe disso: ele fala uma língua muito próxima de quem está aprendendo a falar e aproveita o ruído das crianças em assembleia e improvisa – momento importante da encenação.

Outro momento alto foi o final com bolhas de sabão caindo do alto! Na linguagem da leveza e da simplicidade, o trabalho termina deixando, afinal, que as crianças se aproximem e brinquem de estourar bolhas de sabão.

É meu ponto de vista que, se de fato o teatro para bebês vingar no Brasil, ao invés de eleger como palavras de ordem o Belo e a suavidade, poderíamos eleger o humor e a transformação. Transformação do corpo e da voz do ator; transformação dos objetos; transformação de climas e atmosferas, surpreendendo bebês e adultos!

Sons fortes e blecaute dão medo? São “politicamente incorretos”? Que tal arriscar mais, para além da proposta contemplativa?

Fazer isso seria um novo jeito de compreender o que Piaget nomeou de inteligência sensório-motora: seria exercer, encarnar na linguagem teatral as inteligências do corpo. Existe sim a possibilidade de contemplação em movimento! Que tal torná-la concreta? Assim sendo, o teatro para bebês aconteceria em espaços para brincar: ambientações, happenings proporcionando o teatro feito por bebês: em contraposição ao teatro para bebês (feito para assistir, contemplar) e o teatro com bebês (que o adulto representa e narra, convidando à cena).

Seriam os verbos para o teatro feito por bebês: criar e presentificar. Talvez fosse isso que a assembléia de bebês reivindicasse, passados 10 minutos: “coisas para fazer” – ouvir e emitir sons, luzes e sombras, travesseiros, corpos quentes conversando, panos, lenços e ventos, receitas anti-tédio para viver bem em uma complicada cidade chamada São Paulo.

ensaio Fafi e Elenira

work in process do espetáculo "O que eu sonhei?"

Domingo e no próximo final de semana haverão outros grupos se propondo a fazer teatro para bebês, confira:

dia 14/8 – domingo às 14h30 e às 16h O jardim de Caicara

grupo: Núcleo Trecos e Cacarecos – direção: Lilian Guerra – criação e interpretação: Andréa Egydio?(30min) Conta a trajetória da protagonista Caicara, que vive em seu jardim. Ela está em constante movimento, percebendo o mundo ao seu redor e guardando dentro de si suas primeiras impressões, seus primeiros registros da vida. Com suas coisinhas, realiza trabalhos cotidianos, até que um dia resolve fazer um passeio especial. ?Entrada franca

dia 20/8 – sábado às 14h30 e às 16h Berço de espuma

grupo: Papo Corpóreo – direção, figurino e cenografia: o grupo – profissional em arte infantil: Carolina Souza Matos – elenco: Andréa Pimenta e Gracieli Maccari dos Santos – voz da criança: Felipe Prestes?(35min) O espetáculo narra a trajetória de um individuo que – assim como um bebê – vai descobrindo a si e o mundo que o cerca a partir do contato com o próprio corpo e com tudo que o rodeia. Baseado em poesias e observações, o espetáculo apresenta uma experimentação de sons e imagens, privilegiando a estimulação dos sentidos aliada a um jogo lúdico. A peça visa à participação direta dos bebês, que assistirão a um espetáculo em que voz, música, luz, objetos e projeção de imagens têm igual importância.? Entrada franca

dia 21/8 – domingo às 14h30 e às 16h Oras bolas

grupo: Cia. Noz – direção geral e concepção: Anie Welter – elenco: Cida Sena, Ernandes Araújo, Paulo Enrique Alves, Renata Andrade, Sheyla Coelho e Verônica Giordano – stand by: Rafael Bolacha?(45min, livre)

Oras bolas é um espetáculo de teatro infantil contemporâneo que envolve técnicas de dança, música, artes plásticas e animação de objetos que se transformam em bonecos à medida que são manipulados pelos atores. Por meio de experiências lúdicas com bolas e outras formas geométricas, brinquedos, baldes e balaios transformam-se em “bonecos-personagens”, dando origem a pequenas histórias. A trilha sonora mistura diálogos relâmpagos, músicas cantadas ao vivo e outras, compostas especialmente para a encenação.? Entrada franca

 

2 comments for “O que será que será teatro para bebês?

  1. Elisangela Christiane de Pinheiro Leite
    8 de outubro de 2017 at 12:50

    Marina

    Estive nesse evento em 2012, infelizmente não cheguei a tempo de assistir as peças, mas participei da mesa em que discutiam sobre teatro para bebês. Os grupos que haviam apresentado estavam presentes e foi muito interessante perceber seus diferentes processos criativos.
    Concordo com você, que ainda caminhamos em passos lentos no sentido de um teatro que privilegie o modo de ser dos bebês! Estou estudando o teatro para bebês feito na Itália e estou encantada! É um grande desafio!
    Acredito que o desafio maior está no contexto educacional, eu fiz uma pesquisa de mestrado em 2013 e cheguei a conclusão que é necessário repensar muitas ideias cristalizadas sobre a plateia não-participante, parada, quieta, sem ar… se um dia quiser conhecer chama-se “professor em ação dramática”.
    Acredito que tanto artistas como professores, necessitamos urgentemente ‘olhar’ para os bebês para nossa atuação.

    abraços

    • agachamento
      8 de outubro de 2017 at 14:10

      Elisângela, que bom que tem passeado por aqui no Agachamento… eu, da minha parte, não tenho nenhuma necessidade de pensar sobre um “teatro para bebês”: prefiro pensar na chave “um bom começo de vida para bebês” — ou seja, se me perguntarem sobre políticas públicas para esta idade, eu certamente direi que é urgente um trabalho junto aos adultos: pais, mães, cuidadores, educadores da pequena infância
      “Simples assim”
      um abraço
      da Marina

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