Um pós-doutorado de faz de conta existe?

  Pós-doutorado sobre isso:

barbies na redeSim, meu pós-doutorado é sobre “bonecas na rede”. Ou ainda, “bonecas deitadas na rede feita de Máscara Covid”. Ou então: “bonecas em rede”. Talvez melhor assim: “bonecas e bonecos, uni-vos!”. Acho que pode ser: “Macunaíma somos todos nós”. Pensei melhor: “network das bonecas”. Não! Mude para: “bonecas em home office”…

Desde o último dia de março, até o penúltimo dia de dezembro, estou afastada das funções regulares de docente universitária, para escrever um livro. Aconteceu deste período pós-doutoral, na minha linha do tempo, coincidir com a pandemia e as quarentenas. A universidade que está me acolhendo é a UNESP e a supervisora é a Carminda André. Remotamente…

Fiquei sem chão por um período. Criei aqui no Agachamento o “grupo de estudos remoto”, com nove postagens entrelaçadas, sobre arte e ensino de arte, sobre hibridismo e arte como um lugar, sobre a possibilidade da abordagem espiral. O livro que estou criando é sobre tudo isso também.

Mas há um tema específico. Algo muito caro na minha obra, em meu percurso. É o brincar imaginativo – o brincar invisível, o brincar que se mostra em uma atitude corporal, em sons do faz de conta, olhos que fecham e abrem e reinventam o mundo.

Não é algo apenas próprio das crianças. Mas precisa ser cultivado na infância. E quem cultiva precisa ter um saber, um saber relacionado à dança da chuva. À poeira cósmica. A bolas de fogo. A bonecas que dormem na rede. A camas de ursinhos que vão passear na floresta. Ao espaço do chão. A objetos que “querem” ser outra coisa… Era uma vez um pano que não queria ser pano.

Por vezes acho que estou trancada na bolha dessa escrita. Depois olho para os lados e vejo todos nas bolhas. Depois penso em um dia que um aluno do curso de teatro me pediu para ensinar a brincar de faz de conta… em uma “optativa”. Na hora estranhei demais. Hoje vejo que muitos atores jovens de fato não brincaram imaginativamente em suas infâncias de século XXI.

Por vezes me sinto com cinco anos de idade. Depois olho para quem fala comigo por telefone (sim, “O telefone voltou!” disse um médico das antigas) e vejo todos, em momentos de crise e sensibilidade, com idades entre quatro a cinco anos, embora sejam adultos em termos cronológicos…

Por vezes me sinto parada no tempo. Depois vejo na Netflix a série Feito em Casa (Homemade) e encontro pares! Outros adultos confinados criando, em suas molduras profissionais. O relógio volta a funcionar.

Minha moldura profissional é o brincar que não é a aprendizagem da Brinquedoteca. A moldura é oca, não tem figura, o quadro será o que se quer e se pode imaginar… Imagine você!

Estou escrevendo exercícios de agachamento poético. Ler e praticar vai deixar suas imaginações fortes, com músculos apropriados: ossos e sangue, suor e lágrimas. Tive leitores do processo. Percebi que rompi a bolha e consegui dizer o que queria dizer desde muito tempo atrás, quando uma menina na aula de teatro, aos cinco ou seis anos, viu-se impedida de fazer uma aula de teatro de bonecos na qual tematizamos um diálogo entre o Anjo e o Diabo. O anjo era uma boneca de papel cartão azul; o diabo era um ancinho de jardinagem com capa de papel de seda. Depois da aula a criança ouviu em casa que não era para, nunca!, colocar a mão no diabo. O adulto encheu a criança de literalidade e esvaziou sua imaginação. Em meus escritos chamo a isso por “realismo estrito senso”—algo que faz mal para a saúde dos artistas e de todos aqueles que querem ser criadores.

O trabalho que estou maturando deve ser publicado no ano que vem. Ficarei feliz se os leitores do Agachamento se encherem de curiosidade e de esperança com a capacidade para imaginar.

Será imaginando que sairemos dessa… Imaginar é uma abertura para a transformação. Para novos mundos possíveis.

Meu pós-doutorado é sobre isso: imaginar como modo de ser e estar protagonista.

Querem um aperitivo? Lá vai:

Biblioteca

Feche os olhos e se transporte para uma imensa biblioteca – daquelas que vemos em filmes: é um grande salão, com uma escada para acessar os livros em prateleiras mais altas.

Imagine-se subindo a escada e passando pelas estantes de livros… observe suas cores, tamanhos, texturas…

Lá no topo tire um livro da prateleira para trazer com você, ao abrir os olhos.

Abra os olhos.

Crie o título do livro imaginado.

Pense no mundo dos livros.

Seja um personagem principal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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