Postagem a convite / Mayron Engel comenta o grupo de estudos remoto

Pensar no hoje, seu eu morresse agora?

Inevitavelmente pensamos no hoje mediante o que será do amanhã. Talvez possamos pensar que esse assunto de estar presente é “coisa” de esoterismo ou metafisica religiosa, mas vou procurar por outro viés. Por sermos condicionados no amanhã, quase não pensamos “se eu morresse hoje”, pois pensar na morte é invariavelmente pensar no agora, na minha existência encarnada.

Se eu morresse hoje, todo caminho percorrido pelo meu ser no mundo desapareceria, junto com minha matéria física? Todo meu movimento em direção à transcendência seria esquecido em sete dias? Minha essência encarnada continuaria dali em diante ou tudo seria só esquecimento?

Gostaria de ter perguntado isso para Maurice Merleau-Ponty.

merleau-pontyPenso que no primado da percepção se diria que não podemos nos ater àquilo que não podemos perceber, pois, com a experiência da morte nada resta vivo para contar, além das memórias. Sempre penso que a palavra é uma fuga da morte, ou ao menos uma tentativa de enganá-la.

Neste momento tenho no “agora” e nas “palavras” a oportunidade para expressar esse experimento de convívio virtual no Agachamento, que viveu além de mim, pois me instigou a provocar nos meus alunos a possibilidade diante do nada e o vazio, buscar a lucidez para viver em quarentena, e comunicar, interiormente, comigo e com o mundo, mesmo estando em isolamento.

Depois desse “tecnovívio”, todas essas palavras ditas anteriormente fazem mais sentido, pois foram percebidas através das conversas nesse “mundo compartilhado”. Sinto que como educador preciso estar atento ao meu discurso, a todo tempo estamos falando, mas percebo que o silêncio é necessário, tanto para gerar reflexões saudáveis, quanto para abrir espaço para a fala dos outros.

 Como me disse a Marina: permitir estar “entremundos”, “intramundo” e “extramundos”. Para nos afastar dos discursos que geram superatividade, temos que habitar o “mundo circundante” em busca da arte.

Nesta busca da arte tento não “fazer arte”, em determinado momento“estou na arte”, me coloco à disposição no espaço, dividindo meu tempo com meu grupo. Além das palavras, buscar as dimensões que elas alcançam, me perco para me encontrar em um outro lugar, outro momento, outro eu, habitar meu “espaço-corpo-próprio”.

Perceber que arte não precisa de função, na mesma medida que não precisamos fazer arte, pois esse imperativo “de fazer” carrega algo de utilitário, individualista e “estar na arte” me provoca uma sensação de pertencimento e possibilidades. A arte como território pessoal, intransferível, de possíveis acessos, arte como processo.

Agradeço a Marina e ao grupo de estudo por, em oito semanas, provocarem em mim vazios, sons, silêncios, nadas e palavras. Uma rota de trânsito pavimentada com teorias e arborizada com poíesis. E se eu morresse hoje, diria que estava andando por uma bela estrada.

Obrigado

Mayron Engel

Junho, 2020

2 comments for “Postagem a convite / Mayron Engel comenta o grupo de estudos remoto

  1. Eliana Rosa
    19 de junho de 2020 at 09:45

    Excelente texto em todo o contexto descrito com profundidade sobre o assunto e sentimento… Uma expertise! Abraço.

  2. ELY RAYQUEL ROSA SANTOS CARNEIRO
    19 de junho de 2020 at 10:37

    Nossa uma grande reflexão para os dias atuais em dilemas nem tão atuais da vida!! Gostei muito, das abordagens e questionamentos que reverberam nossos próprios pensamentos!!! Parabéns

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