Vidas de crianças negras importam

Vidas de crianças negras importam

Morreu João Pedro aos catorze anos, morreu Miguel aos cinco. Essas duas histórias de vida interrompidas por dois tipos de violência no Brasil hoje precisam ser olhadas, para pensarmos a infância, e o papel dos adultos.

A casa dos tios de João Pedro, onde ele visitava, no Rio de Janeiro, ficou com setenta e duas marcas de tiro! E a perícia afirma ser incerto dizer que o tiro que o matou veio de arma de policial.

O menino Miguel foi “despachado” por Sari, patroa de sua mãe Mirtes, para o último andar, em um prédio de alto luxo de Recife; aparentemente ele estava dando trabalho, com saudade da mãe em crise de birra, e Sari deu um jeito de se livrar dele (enquanto sua mãe, empregada de Sari, passeava com o cachorro da patroa). Ainda não se sabe exatamente como, mas sabemos, pela câmera de segurança do elevador do condomínio chique, que Sari apertou o botão do último andar: o menino pequeno apertou outros andares também, e saiu sozinho, no nono andar, aparentemente andando para entender onde estava… e acabou por pular em um vão, da grade do ar condicionado, morrendo em seguida.

A polícia do Recife, no dia do crime, tentou preservar a identidade da patroa, mas não foi eficaz – agora todos sabemos seu nome e sobrenome, sua classe social, e sua atitude durante a pandemia: fazer com que Mirtes viesse trabalhar, a ponto dela precisar trazer o filho junto com ela, pois sua creche está paralisada pelo Corona Vírus.

Enquanto isso… também no Brasil, um homem negro em um cargo importante – Sérgio Camargo, diretor da Fundação Cultural Palmares – tem um “áudio vazado” no qual afirma que o movimento negro é feito de uma “escória maldita”, e que “abriga vagabundos”. Noutro momento afirmou que “embora terrível, a escravidão foi benéfica”. Também está implementando, naquela Fundação, um sistema de denúncia entre funcionários: devem denunciar quem é de esquerda, de modo que ele os demita. Afirmou que o Brasil tem dificuldade de aceita-lo, “um negro de direita” (suas palavras). Também a ministra Damaris Alves, advogada e pastora evangélica, lançou um concurso de máscaras (de proteção ao Covid 19), voltado às crianças brasileiras, cujo prêmio é: ir a Brasília tomar café da manhã com ela. (!)(?)

Vamos ver qual o modo brasileiro de lidar com tudo isso, a exemplo das manifestações nos Estados Unidos a partir do sufocamento de George Floyd, negro, assassinado em público por um policial branco.

Estaríamos acostumados, anestesiados, naturalizando a morte de crianças negras brasileiras? Simples assim?

Pelo filtro do Agachamento, em busca de propositivas e atitude política, a sociedade não está sendo capaz de ir ao chão, onde a criança está; o menino João Pedro morreu com tiros a queima roupa, e Miguel morreu porque a patroa da mãe não teve capacidade de diálogo e conversa. Nem foi capaz de ela mesma arrumar sua casa, enquanto houvesse quarentena.

As crianças estão em uma situação especialmente difícil, nesta pandemia, no Brasil.

Também na TV aberta vi Djamila Ribeiro dizendo que postagens na Internet não bastam. Concordo demais com ela.

policial se ajoelha

Quero muito agir em frentes democráticas e artísticas, e ensinar na Licenciatura, de modo a formar outro tipo de adultos, especialmente na rotina de trabalho da UFMG. Não escrevo nem mantenho o site-blog para me “vangloriar”, mas antes, para me mobilizar, junto com os leitores.

Comentar as duas mortes recentes de crianças no Brasil fará sentido sempre para pensar o que pode ser um trabalho artivista, no qual toda vida – de todas as crianças – importa.

Penso que, de agora em diante, vou explicitar o braço político que o Agachamento possui potencialmente. E trabalhar nessa direção, nesse rumo, com esse prumo.

Sim, me disponho a fazer diferente. Vamos?

 

Hoje, dia 6 de junho de 2020, faço oito anos de migração, mudança de São Paulo para Belo Horizonte, bem como oito anos de trabalho na UFMG, na graduação em Teatro e na pós graduação em Artes da cena.

Com a pandemia, revi algumas das minhas atitudes de migrante (Paulistinha… rs, me apelidei assim em gesto de auto-ironia); uma das atitudes revistas é não ter viajado por Minas Gerais como eu gostaria (e não seria para as cidades históricas…). Eu gostaria de conhecer as infâncias de Minas; especialmente as infâncias do interior. Penso que meu trabalho como professora universitária precisa disso – contextos e situações locais e atuais, como referências para pensar possibilidades criativas para o ensino do teatro e das artes.

 

5 comments for “Vidas de crianças negras importam

  1. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    7 de junho de 2020 at 23:44

    Vidas negras importam! Minha vida importa!

    Não somente agora em que muitas crises estão sendo aceleradas e evidenciadas pela pandemia, não somente no mês de novembro da “Consciência Negra”. Também concordo com Djamila, só postagens na internet não bastam…existe uma responsabilidade social em relação ao racismo estrutural que precisa ser cultivada dia após dia e colocada em prática para que ocorra uma verdadeira transformação. Não adianta dizer “eu não sou racista” em um país que vive deitado em berço esplêndido sobre o mito da “democracia racial”.
    E sendo bem honesto: enquanto pessoa preta tenho medo de ser o próximo. Pois, o racismo estrutural se configura cada vez mais em uma necropolítica, onde além do desmonte das políticas afirmativas, o estado decide quem vive e quem morre.

    • agachamento
      8 de junho de 2020 at 09:26

      bom dia Rodrigo
      sim, não é de hoje, e não será fácil mudar o amanhã
      espero que sua pesquisa de mestrado possa ser uma arma flower power — arma de flor!, bem como todo o trabalho da Universidade, especialmente nas Federais
      um abraço
      da Marina

  2. Nani
    11 de junho de 2020 at 22:16

    Bora lá

  3. Raysner de Paula
    13 de junho de 2020 at 12:23

    Marina,

    me lembro da sua primeira aula na universidade: foi na nossa turma de seminários D (era esse o nome da disciplina?). Ainda é vivo o espanto que o seu lançamento de livros e ideias me trouxeram naquela e nas outras tardes quentes na UFMG. Espanto esse que me despertou para outros pontos de vista, caminhos possíveis, vontade de revolução e necessidade da ação. Que me tirou de um certo jogral de palavras cansadas, bem decoradas e eficazes e me apresentou o gosto pelo inesperado, pelo devir, para o mais significativo e revolucionário dos improvisos. Assim, ao rememorar esses momentos, aulas, reuniões, encontros, conversas, criações – oito anos de convívio – sempre te encontro “em luta”, volta e meia inquieta e em busca de formas mais justas de habitar e construir a história. O “agachamento”, extensão desse seu gesto/luta por um mundo melhor, é, para mim, uma espécie difusor de ideias e estratégias, mas também nosso “ponto de encontro” onde podemos nos alimentar e sonhar (despertos).

    • agachamento
      13 de junho de 2020 at 13:25

      Raysner,
      Por vezes oito anos é um tempão, por outras parece pouco… É um tempão quando eu vejo vocês, alguns de meus primeiros alunos em 2012, agora crescidos e trabalhando “no mercado”… e fico feliz quando vejo que fiz diferença na formação de vocês. Também fico feliz com seu dizer aqui porque o acomodamento, na carreira universitária e de funcionalismo federal, é um convite forte, que recuso, quase todos os dias… Sei que cunhei a expressão “bebê parado” no curso de teatro da UFMG, para falar sobre as crianças que brincavam na praça do Colégio Arnaldo, e que depois virou uma expressão para todos nós: o bebê parado seria um estado de espírito, que por vezes “o sistema” (rs) quer nos impor, e quando ficamos bebês parados, movimentar-se é difícil! cansativo! perigoso! etc. Sejamos bebês ativos, crianças performers, jovens de luta, adultos éticos e idosos que acreditam em transformação, sempre.
      Obrigada pela homenagem
      Marina

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