Se eu morresse amanhã / Última postagem para um Grupo de Amizade

Postagem 9 / Grupo de Amizade

 

Remate

Rumo ao artivismo

 ou

 Elogio ao fiozinho

 

Passadas oito semanas de “tecnovívio” neste grupo de estudos remoto, cerca de dois meses, fiz um exercício de síntese: de uma definição de arte à outra… e com autocrítica, especialmente no que diz respeito à minha recusa a considerar “projeto social” como arte. Isso porque preciso explicitar que sei como os projetos sociais foram importantes, especialmente desde a década de 1990 em diante no Brasil. Na década de 1980 Ilo Krugli já tinha, em seus mais diferentes projetos, uma vertente ou um braço social, sempre. Lembro dele, já idoso, ironizando a expressão “contrapartida social”… uma vez que ele sempre trabalhou com comunidades do entorno e com escolas públicas durante décadas, muito antes de uma espécie de modinha e obrigação… Talvez por isso eu seja irônica em relação a esse tema; mas quero tentar ser diferente, mais plural pelo menos. Especialmente porque muitos alunos meus, estudando graduação em teatro na Universidade Federal de Minas Gerais, podem ter tido contato, ao longo da infância e adolescência, com as artes em projetos sociais, e isso os levou para a universidade e para o interesse profissional.

O que tenho como reserva aos projetos sociais, especialmente os voltados para a infância e que lidam com arte, é a maneira adulta de conduzir – relacionada também à maneira, também adulta, de patrocinar. Um projeto patrocinado “quer” visibilidade; visibilidade nos projetos sociais com crianças e jovens, invariavelmente, implica nas apresentações públicas: peças, coreografias, orquestras, coros… “produtos finais” de processos por vezes sofridos, quando as aulas de arte e a convivência se torna “ensaio”. Sei que muitos consideram os ensaios uma prática necessária, um desdobramento “natural” da técnica. Questiono fortemente o ensino “técnico” na primeira e segunda infâncias (dez primeiros anos de vida).

Nos dez primeiros anos de vida, meu ponto de vista é que arte é vida. Arte é grito, cambalhota, bolo de lama, dedoches, bola de todos os tipos, jogos corporais, sempre. Arte é usufruto de nosso corpo próprio; expressividade, maneira de ser e estar, de dizer a que viemos, e para onde queremos ir – sonho, desejo, suor e lágrimas. Arte reside na brincadeira de faz de conta, em um espaço imaginativo construído, nas relações com os adultos, com as outras crianças, com o tempo, o espaço, a língua mãe, o corpo, no mundo compartilhado. Percebo nessa lista todos os temas tratados no “grupo de estudos remoto”: a rua, o Outro, as incompossibilidades, a existência de uma estética relacional, o papel do adulto nisso tudo, o protagonismo possível da criança. Ah tem também o vazio e o nada.

Para que arte seja a vida mesma e não ensaio (seja ensaiar para a vida – muitos acham que infância serve para ensaiar a juventude que serve para ensaiar a adultice que serve para… – seja ensaiar para a “apresentação final” do projeto social ou das aulas de artes) será necessário suportar práticas poético-caóticas. Será necessário ver beleza em um jogo que uma criança pequena possa fazer com um fiozinho de lã… movimentos, gesto, imaginação, pouca visibilidade e muito empenho em explorar um pedaço de lã do cachecol que a vó está tricotando…

Percebi, ao longo desses dois meses de postagens semanais, que o agachamento, como atitude, é uma poiésis.

Uma poética do brincar (nome de um livro meu, rs) com o outro e com o mundo, de maneira intensa, aberta, despretensiosa… Talvez o que eu ironize nos projetos sociais que lidam com arte seja sua pretensão grandiosa: “tirar o menino da rua”.

Vai ser inevitável eu terminar com uma utopia: a volta dos meninos e meninas para a rua.

Utopia grande nas cidades brasileiras, e agora mais ainda, pelo momento vivido das quarentenas: ficar em casa para não adoecer.

Mas sabemos que muitas casas são e estão, já eram e permanecem, adoecidas.

A utopia reside de fato em uma sociedade adulta mais pronta para receber as crianças no mundo…! Um adulto “mais pronto” seria um adulto capaz de muita generosidade com os bebês e com as crianças na pequena infância, cinco primeiros anos de vida tão cruciais no nosso esforço para ser. Ser antes de ter. Ser no mundo com liberdade de explorar, engatinhar, andar, correr! Sempre com a possibilidade de uma mão, grande, calorosa, para me acolher quando o joelho ralar.

Parece simples, mas não é. Estamos tão conectados em “ter”, o que implica em trabalhar trabalhar trabalhar, comprar guardar acumular, que a generosidade com o vazio e o nada de um pedacinho de lã parece absurdo. Inútil. Sujo. Perigoso?

Por tudo que tenho visto em minha pesquisa de assistir TV aberta, algumas famílias estão sim conseguindo reconectar na infância brincante, enquanto estão confinadas em casa. Mas muitas mães estão simplesmente enlouquecidas por terem que estar em casa E fora dela remotamente em seu “home office” E limpar lavar cozinhar E cuidar também da saúde geral de todos (sexualidade, convívio, alimento, lazer nem pensar fora de casa, etc). Vi que o prefeito de São Paulo preocupou-se com a saúde das mulheres na volta ao [novo] normal. No entanto ele é um homem e político e prefeito da capital do trabalho brasileiro…! (Parece de fato uma preocupação retórica e “bonita” de se ter).

Preocupo com a saúde da infância brasileira. A saúde ampliada, que diz respeito a creche e escola com adultos interessados pelos temas do brincar e do criar; a saúde do campo de conhecimento das artes que implica não em imitação e extroversão, muito menos em programas de mini-funkeiros ou de competições entre mini-chefes de cozinha…! Implica, a meu ver, em bastante introversão e expressividade juntas, de modo a existir interioridade. Quase tudo parece externo na infância contemporânea: filmada – flagrada – fotografada – exposta – explicitada a cada passo e gesto pela câmera do celular… Talvez estar em casa possa [sim sei que são termos ideais] interiorizar a todos – e que no convívio consigo mesmo e na suportabilidade de si, possamos ser melhores adultos, nos responsabilizando pelas crianças e seus imensos potenciais afetivos e criativos, intelectivos também.

Como professora universitária quero formar adultos artivistas que acreditem no fiozinho, no bolo de lama, no grito de alegria, na cambalhota, e no abraço que não estamos podendo receber por agora.

foto dudu tresca

Aqui terminam as nove postagens, mas que continuarão on line, disponíveis para qualquer pessoa interessada, e estarei cuidando de responder invariavelmente a todos os comentários que qualquer leitor postar.

 

 

Obrigada a todos que já estiveram por aqui e me confortaram nesse tempo sem abraço, por agora.

3 comments for “Se eu morresse amanhã / Última postagem para um Grupo de Amizade

  1. Andréa Fraga
    12 de junho de 2020 at 20:14

    Marina querida,

    cheguei atrasada! Li de enxurrada quase todas as postagens e os comentários, muito bom acompanhar ideias em diálogo, noções em profundidade e marinices. É um alívio encontrar ressonâncias. Aqui enclausurada entre conceitos que me confundem ao estudar pro doutorado vou fazendo conexões que talvez sejam incompossíveis… experiências de criação com as crianças no mundo compartilhado e o que pode ou não ser dito, o que se vincula a que linha de pensamento, o que reverbera na minha própria corporalidade entre sentir e fazer sentido. Seu vocabulário sofisticadamente simples, arte como lugar, é confortante e instigante ao mesmo tempo. Estou cursando uma disciplina na Antropologia, “Semânticas da criação”, que tem como proposta ampliar a noção de criação para além da estética eurocêntrica vasculhando várias outras esferas da vida e até mesmo o que não é humano. Pra mim muito se conecta à ideia dos âmbitos artísticos existenciais, porém nada se liga diretamente rs. Ou seja, confusão que caminha na tentativa de pensar de outras formas. Quanto a esse momento de tecnovívio, tem sido um desafio grande dar sentido ao nosso trabalho na EMIA, substancialmente processual e relacional. Depois de semanas postando propostas “no vácuo”, foi nos primeiros encontros virtuais com as crianças que fomos descobrindo como lidar com este outro lugar de encontro, na simplicidade de brincar com a própria câmera descobrimos outros jeitos de ser grande ou bem pequeno, de ser um personagem dedo, de ficar de ponta cabeça estando em pé, de se ver no branco dos olhos, de inventar filtros pra lente pintando um durex com canetinha. Ali muitas tem mais domínio das ferramentas do que nós adultos. Acolher as crianças na alegria de nos ver, mostrando seus bichos e brinquedos ou na vergonha de se mostrar na tela tem sido um novo prazer… Então, nesse “onde” nos encontramos e nesse “quando” estamos vivendo fica claro que fazer arte serve pra ser feliz!

    • agachamento
      13 de junho de 2020 at 08:23

      Oi Andréa, bom dia — bom dia a todos novamente!
      Nunca é tarde, rs, especialmente na rotina da pandemia… então fico feliz por vc ter vindo.
      Tinha mesmo muita esperança nas descobertas que os professores e professoras da EMIA fariam com a necessidade de trabalhar com as crianças à distância. Penso ser um momento de sofrimento, sim, mas também fértil em novas ideias e mundos possíveis!
      Se puder envie por aqui o link para os leitores do Agachamento verem as propostas.
      Um beijo e saudades
      da Marina

      • Andréa Fraga
        13 de junho de 2020 at 20:33

        Oi Marina e todes,

        aqui o link da formação da Secretaria de Cultura com as propostas também do PIA e do Vocacional. As propostas da EMIA estão divididas por turmas em tentativas de dar continuidade a processos já iniciados com as crianças.

        http://supervisaodeformacao.prefeitura.sp.gov.br/

        Bjs e saudades também
        Andréa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


seis − = 4