Se eu morresse amanhã / Postagem 7 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 7

 

Nesta sétima – e antepenúltima postagem (uma hora vai acabar!) – do nosso grupo de estudos remoto, me organizei para escrever sobre

a intensa experiência da rua.

 contagemCertamente não sou a pessoa mais indicada para discutir “a rua” em termos teóricos, pois parece ser esse um tema dos mais interessantes e profundos da sociologia do cotidiano, algo pertinente aos estudos das sociedades e das relações de suas culturas com as cidades, e, portanto, com as ruas.

Mas saberei falar a partir dos meus estudos sobre a fenomenologia da criança: usarei as lentes das corporalidades – as relações criança-corpo – com / no mundo compartilhado.

Começo lembrando a experiência de mãe. Meu filho tinha quatro anos e fazia coleção de álbum de figurinhas. Ele foi “autorizado” (sim, penso nesses termos) a ir sozinho na banca de jornal comprar figurinhas. Para isso precisava: andar sozinho no elevador (morávamos no sexto andar); sair pela portaria (o Porteiro era absolutamente contra! Desacreditava! rs); andar meio quarteirão, sem atravessar a rua, para chegar na banca de jornal; saber pedir as figurinhas; dar o dinheiro; pegar as figurinhas e o troco; voltar para o prédio (sem distrair, sem querer atravessar a rua, coisas do gênero — criancices); entrar pela portaria; dirigir-se ao elevador; apertar o botão do sexto andar; e “estar de volta em casa”.

Pensem nisso: quantas ações e responsabilidades! E riscos também, para uma pessoa de quatro anos de vida.

Imaginem isso: como não foi simplesmente maravilhosa a experiência para o menino de quatro anos. Um tipo de autonomia, que perto dos dez anos de idade significou andar de fato sozinho (atravessar ruas, saber os caminhos) e perto de onze ou doze anos, andar sozinho de ônibus. Isso tudo na grande cidade de São Paulo, século XX.

Agora pensem no momento atual, nas quarentenas, nas máscaras, nos espirros, nas gotículas, nas secreções, na ameaça invisível do Corona Vírus.

Com que idade será que as crianças vão andar sozinhas… por meio quarteirão?

Obviamente a realidade descrita (final da década de 1980, primeira metade da década de 1990) fala de um menino de classe média, que frequentava a escola por meio período, cujos pais podiam ficar, quase sempre, no outro meio período com ele… No nosso país, e em muitos outros, crianças da mesma idade já podem ter a responsabilidade de olhar irmãos menores, e crianças de dez ou onze anos já foram na rua sozinhos muitas muitas muitas vezes – quando não vivem na rua.

Isso posto, quero falar sobre a atração que “a rua”, “as pessoas livres”, “o movimento de ir e vir”, “os Outros”, os carros, ônibus, pipoqueiros, gatos e cachorros, a chuva e a enxurrada, os perigos da noite, a imensidão do céu, oferecem. A temática é urbana e diz respeito a ser cidadão.

Há quem pense que só aos 18 anos se poderia deixar um filho sair com autonomia nas ruas, e decidir que hora volta, se volta. A temática se torna então de direito. Os Direitos da Criança e do Adolescente… (O ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, faz trinta anos em 2020… ninguém está falando sobre isso; em maio, pessoas continuam celebrando a “semana mundial do brincar”).

Não poder ir na rua sozinho possui o par complementar querer muito ir na rua sozinho!

(Quase o que está acontecendo globalmente, com pessoas de todas as idades, durante a pandemia, não acham?)

E sobre permanecer na rua?

O modelo de vida para crianças e jovens casa-e-escola, para ser bem sucedido, depende de tantas variáveis!

imagesQuero focar em uma das variáveis: o adulto suficientemente bom, nos termos do pensamento e ação de Winnicott. Para ele, o adulto cuidador suficientemente bom, apresenta à criança o mundo em pequenas doses. Não é nem superproteger nem escancarar o “mundo lá fora”.

Mas muitos nascem escancarados, não é mesmo?

Penso novamente na citação do texto Guerra de maçãs da Postagem 1, porque lá comento como a rua também nos convida a um tipo de anestesia, por assim dizer. Álcool (droga lícita) e outras drogas ilícitas são convites a um modo de ser e estar – que é próprio do humano. Pensar nesses termos é pensar “existencialmente”. Em situações limites recorremos a soluções-limite. Limítrofes. Entre a vida e a morte. Anestesiar-se. Ficar morto vivo. Drogar-se.

seringa

Não deixamos uma criança muito pequena sair sozinha pois ela pode ser atropelada, ao atravessar a rua, com seu corpo espaço próprio de menos de um metro de altura (sim, precisamos levar em conta o campo de visão da criança pequena). Ela também pode ser maltratada e roubada. E assim por diante.

Duas meninas adolescentes, aqui em Minas, cuidavam de um irmão pequeno (um ano e meio, dois anos) e estavam vendo TV. Ele brincava no quintal. Achou um buraco na cerca e saiu andando. Dias depois foi encontrado em um lago, afogado.

A morte espreita a saída à rua – mas somos convidados, seduzidos, temos esse desejo!, o par complementar da vida é a morte, ou o que sabemos e não sabemos sobre ela.

Agora pensem na imensa inversão da pandemia: a casa não é mais o lugar de segurança, especialmente se você é filho ou filha de enfermeiros, médicas, assistentes de enfermagem, profissionais da limpeza (especialmente os de hospitais e postos de saúde), lixeiros, varredoras, coveiros, cobradores, motoristas de ônibus…

O “mal” da rua invadiu a casa “boa”.

E todos nos higienizamos.

Pensem sobre crianças entre dois e três anos que estão experienciando tudo isso. Imaginem que vai durar um ano. Proporcionalmente elas passarão um terço ou um quarto de suas vidas até agora na situação pandêmica, na qual a higiene se tornou o maior valor.

Pense na gente, os professores de artes, propondo, em 2021 ou 2022, o uso da argila. O aprendizado do barro, da modelagem. Pensem também sobre nós, das artes do corpo, pedindo para que os alunos tirem os sapatos e coletem, descalços, pedras e gravetos “lá de fora”. Pensem também na flauta-doce, na saliva que é gasta para aprender a tocá-la… E mais outra: “Gente, vamos dar as mãos para fazer uma roda”…

Por um tempo grande a Educação Infantil combateu o que se chama “visão higienista”: seria ir pra creche limpinho, e voltar de lá tão limpinho quanto. E de preferência gordinho.

Nesse aspecto vai haver um retrocesso muito grande, o tal “novo normal”, para quem batalhou a favor do “direito a sujar-se” (ah, até os publicitários do marketing do sabão OMO trabalharam a favor dessa ideia, lembram?) (Inventaram até um Prêmio OMO para escolas que tivessem trabalhos exemplares com “o brincar”…) (Putz)

Sujar-se é preparar-se para “o mundo lá fora”.

É deixar de ser nenezinho…

E agora José?

Quais serão as novas significações da rua lá fora?

Penso então que nós, profissionais do campo das Artes, teremos um enorme trabalho artivista pela frente.

Rua não é morte, rua é a vida mesma, que inclui risco de morte (mas vejam as crianças que descobrem como subir na janela……. se debruçaram… estavam em suas casas…).

Arte é um trabalho humano, existencial:

entre nascimento, vida e morte, criamos.

Ah, e imagine se Greta Thunberg não pudesse, aos quinze anos, fazer greve escolar nas sextas-feiras e ficar, naqueles dias, protestando na rua… (É disso que se trata também) (Detalhe bonito: a mãe de Greta é cantora de ópera e o pai, ator)

12 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 7 para um Grupo de Amizade

  1. Charles Valadares
    22 de maio de 2020 at 12:48

    Ei grupo de estudo!
    Sumi por uma semana, mas voltei! Rs!

    Essa antepenúltima postagem me traz vários movimentos. Fez meu pensamento ir e vir, entre as memórias de infância, a vida atual e referências do cinema .
    Vou tentar juntar tudo em um texto só. Rs!
    Em minha dissertação de mestrado ( sob orientação da mediadora do nosso grupo de amizade, rs), onde traço reflexões sobre um trabalho autoral em teatro que tem como pano de fundo reverberações de algumas infâncias ( a que eu vivi e algumas que convivi – link para quem tiver curiosidade : http://hdl.handle.net/1843/EBAP-BBLQMA) , compartilho com o leitor inúmeras imagens da minha meninice. Uma das mais significativas para mim até hoje é minha ida à escola aos cinco anos de idade, percorrendo mais de 1 km sozinho. Quem me conhece pessoalmente sabe que sou um adulto baixinho (1,65)…imagina aos 5 anos, então. Rs.

    Foi a partir da reflexão vivida ao longo do mestrado que compreendi a riqueza e beleza de ter sido uma criança com tal liberdade, enxergando reflexões dessa experiência em minha autonomia criativa e na vida adulta (deixei a casa dos meus pais para morar em Belo Horizonte aos 18 anos e me virei muito bem!).
    Um detalhe: era uma cidade pequena, com menos de 15 mil habitantes e isso foi vivido na década de 90.
    Não quero aqui ficar vivendo de uma nostalgia!
    E ao pensar qual a minha “bandeira” enquanto artista e educador que tem um afeto especial pela infância, penso que poder criar experiências de autonomia criativa, imaginadas e vividas num espaço de uma aula ou durante uma fruição artística, é um caminho que desejo trilhar para burlar essa contemporaneidade asséptica, controladora , higiênica e paranoica.
    Ando muito aflito com o impacto da pandemia! Até pq a noção de infância que eu defendo/gosto/cultivo, (que chamo carinhosamente de “infância de pés descalços” para evocar uma simplicidade sem perder a inventividade) temporariamente parece não ser possível de ser vivida. Será evitada e até criticada.
    Sobre a referência fílmica que queria citar…Há pouco tempo vi um filme chamado “ Cafarnaum”, da diretora libanesa Nadine Labaki. Fiquei alguns dias digerindo a obra. Para não dar spoiler diria que é um filme que traz a “adultização” de uma criança, devido ao contexto de extrema pobreza e exploração orquestrada pela desigualdade social e abuso do poder autoritário movido pelos pais do menino. De certo modo, dentro de muitas aspas, há no garoto que protagoniza a narrativa um grau de autonomia não saudável (existiria isso?), pois o que leva o pequeno Zain ( nome do personagem e do ator) a pequenos gestos de genialidade (paradoxal isso!) é uma realidade dura, injusta e abusiva. Refleti ao ver o filme sobre a poder exercido pelo adulto em relação a criança… e sigo reflexivo acerca disso.
    Tenho visto falar sobre o aumento do índice de violência contra mulheres nos tempos de pandemia e penso também nas condições vividas por muitas crianças que estão mais “trancadas” dentro de casa e também vulneráveis a isso tudo… isso tudo também me aflige.
    Não sei bem como terminar meu comentário… mas ainda penso que precisamos, enquanto artistas, ter isso tudo como ponto de partida para pensar, criar, ressignificar, tematizar e por aí vai…

    • agachamento
      22 de maio de 2020 at 15:30

      Oi Charles! Olá a todos!
      bom… penso que o modo de “terminar” seu comentário é o mesmo de “começar” ou re-começar a fazer arte… como é fazer cinema retratando situações-limite de vidas de crianças…
      e também:
      até mesmo a escola mais precária vai ter criança sentindo nostalgia de ali estar, me parece! para se sentir menos presa, talvez, e menos dependente dos mesmos adultos, quando abusivos
      enfim, como pesquisadores precisamos estar muito atentos e sensibilizados ao que virá
      e já está aí
      bjs
      bom final de semana pra todos
      Marina

  2. Francisco Souza
    24 de maio de 2020 at 22:05

    Consegui chegar por aqui.

    Saudações a todes.

    Infância e rua é bem forte para mim. Até os 10 anos eu tinha um pavor de andar sozinho, minha mãe ia me buscar na escola que ficava a três quadras de casa, mas tinha uma avenida bem movimentada, mas eu tinha medo mesmo era de apanhar na rua.
    A rua nas periferias tem desses perigos, as vezes um garoto não vai com a sua cara…

    Enfim, aos 12 anos ganhei uma espécie de emancipação. Eu já tinha conhecido a rua por meio de amigos da escola. Ahhhhh adorei a rua
    Tiramos o RG e recebi uma cópia das chaves do portão e de casa. Meooo Deusss.

    E aí que virei um “rueiro”. O dia inteiros, as vezes esquecia até de comer pra ficar mais tempo na rua. E continuo adorando a rua, mas não estou sofrendo com o confinamento.

    Como professor vejo esse desejo e ânsia pela rua, tanto nas crianças como nos jovens. Já que leciono nos Ensinos Médios e nas Séries iniciais do Fundamental.
    Aqui pelo menos no bairro onde moro a molecada está na rua. Jogando bola, paquerando as meninas, e hoje empinando pipa e já subindo nos telhados alheios.

    Para muitos desses jovens a rua é mais segura e acolhedora do que a casa. Alguns alunos relatam que ficar em casa além de entediante muitas vezes é perigoso por causa dos pais. Discussões, violências, falta de espaço e privacidade são alguns motivos narrados por uns poucos 5 estudantes que de repente veem em mim um lugar de confissão, e até de cobrança por atividades para que tenham motivo de ir ao vizinho para fazer lição.

    Mudando o lado do vinil…

    Tive experiências marcantes com teatro e a rua. Durante três anos na cidade de Marília, interior de São Paulo. Uma trupe chamada de “Capim de Bode” circulava pela cidade, por vezes representando a instituição SESI, já que eramos alunos e alunas no Núcleo de Artes cênicas, e por vezes independente à convite da universidade, Ong’s, trabalhos de propaganda para comércios locais, ou por vontade de contar histórias e se divertir.
    Como quando fomos algumas vezes na feira noturna no centro da cidade.

    O contato com as pessoas e os lugares me fascinava. As pessoas participavam com a gente, certa vez quase levei uma surra de um grupo de 10 meninos que revoltados pelo que meu personagem fez na história, atenderam o pedido da personagem de pegar e capar o safado bandido.

    A rua é fascinante e imprevisível. E ela continua fascinante e mais imprevisível em relação ao perigo, agora de sermos contaminados pelo vírus. E mesmo assim, a rua está repleta de pessoas buscando alguma coisa, ou simplesmente não querendo o que está em suas casas.

    Escrevi muito…
    Desculpem se fugi do assunto, se eu reler vou desistir de enviar srsrs
    Pode servir de alguma forma.

    Abraços e beijos
    Chico

    • agachamento
      25 de maio de 2020 at 08:29

      Olá Francisco! Estava na rua?? rs
      Que bom que chegou, fique à vontade…
      Não senti que “fugiu do assunto” — pelo contrário, foi direto ao ponto: a sua experiência com pessoas e lugares
      Outra coisa: não precisa “servir”– seja servido pelos textos e discussão
      E mesmo depois da próxima segunda, na qual postarei um texto “conclusivo” ou de fechamento da série Se eu morresse amanhã, as postagens continuarão on line, e portanto (e isso vai ser instigante e bonito, me parece) o grupo de estudos remoto continuará
      um abraço saudoso
      da Marina

  3. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    25 de maio de 2020 at 19:52

    Lendo essa postagem me vem a memória agora a minha primeira experiência de ir sozinho para escola no Ensino Fundamental. Na 5ª série comecei a estudar no “centro da cidade” no Colégio Imaco e meu pai me acompanhou no ônibus nas primeiras aulas até a escola, mas aquilo era apenas uma preparação para que eu começasse a ir sozinho. Lembro a sensação de autonomia e liberdade que aquele ato de meus pais me proporcionou e também do medo e da insegurança que senti que como bem diz o personagem Riobaldo em Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”.

    Ganhar a rua, a possibilidade de transitar, caminhar e desbravar territorialidades. A rua como uma psicogeografia na construção de poéticas contemporâneas de “ocupação”. Ir… para rua é um evento, um acontecimento: condensação e constelação de muitas narrativas múltiplas em tempo real. Sim, grande desafio está posto com a pandemia para todos nós: artistas e não artistas. Quais subjetividades a partir da possibilidade de uma deriva urbana estão e serão construídas a partir da pandemia? Daqui de dentro do apartamento muitos mundos imaginários se colocam para mim sobre o que pode está acontecendo lá fora nesse momento e o que virá pós confinamento. Me sinto refém dos noticiários e da impossibilidade de viver a experiência no contato direto com a rua por mim mesmo.

    Semana passada, assim como Charles, refleti muito aqui sobre as condições que se encontram as mulheres com os altos índices de violência sofridos e ao pensar nisso, claro, não consigo não pensar nas crianças. Onde é mais seguro: na rua? em casa?

    Como não lembrar e citar aqui também o caso de João Pedro? O garoto de 14 anos do Rio de Janeiro que foi assassinado no dia 18 de maio “arbitrariamente” na operação policial em São Gonçalo, em sua casa foram encontradas mais de 70 marcas de tiros. O que é a rua? o que é a casa para um jovem da periferia? E agora com a pandemia, quais riscos se aceleram para esses jovens?

    Neste momento, lembro e deixo aqui a seguinte indicação do filme documentário de Maria Augusto Ramos – “Juízo”: https://youtu.be/UymNRVuilnA que revela narrativas de um universo completamente distópico e sem esperança. O que estamos fazendo com nossas crianças e jovens pretas do Brasil? Desde o 14 de maio de 1988, a situação caminhou muito pouco, e o racismo estrutural avança em passos bem largos, sobretudo com esse governo genocida.

    NEGRO | Invisibilidade | Histórias e Memórias | Apagadas | SOTERRADAS

    Confesso semana passada foi uma semana bem difícil aqui para mim: refletindo sobre a condição ou melhor a não condição do negro e do indígena com essa pandemia, em total insalubridade, sobretudo, em relação ao desserviço promovido pelo governo federal. Ao genocídio que está acontecendo aos povos originários do Brasil minha sincera utopia nas palavras de Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.”

    • agachamento
      25 de maio de 2020 at 21:29

      Olá Rodrigo, boa noite a todos
      Fiquei aqui imaginando vc na quinta série…!
      Sobre negros e indígenas, e ainda, crianças negras e indígenas, bem como meninas e meninos em situação de risco, de abuso, submetidos à violência e condição de pobreza, lembro a todos aqui no Agachamento que em 2020 o Estatuto da Criança e do Adolescente faz trinta anos — e pouco se ouve falar sobre esse aniversário. Algumas mídias insistiram demais na discussão sobre rebaixar a idade de maioridade penal — ao menos agora, estão menos insistentes (embora haja uma lista grande de “crenças populares” sobre infância e tendência ao crime… aquele tipo de dizer “Pau que nasce torto, morre torto”…).
      Lembrando da postagem 1 na qual eu usei a citação de meu texto com as palavras “arte não é projeto social”, certamente na postagem final, dia 1 de junho, vou “me retratar”, ou procurar aprofundar o que quis dizer com isso… Arte não salva!! Mas pode ser curativo, se lembrarmos que na origem da palavra “cura” está o significado de “cuidado”. Expressar-se: dançar, cantar, fazer pequenas poesias, teatro com bonecos, criar contos e roteiros, filmar e fotografar! Sem um adulto dizendo como fazer, e muito menos o que fazer — um adulto cuidadoso por ali, caso necessário, criando condições materiais e de atmosferas, para que a arte seja, direi novamente, um lugar para habitar. Visitar. Alugar. Ocupar. Mudar. Transformar. Penso esse tipo de “definição” como algo para todas as idades, mas nos primeiros dez anos de vida, faria tanta tanta tanta diferença… ao invés de ser doutrinado a “pintar no contorno” e a “decorar falas para a montagem do Peter Pan”. (sim, aquele que não queria crescer) (crescer é ganhar autonomia, liberdade, protagonismo nos mundos de vida). Cresçamos!

  4. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    26 de maio de 2020 at 12:01

    Sim Marina pouco está sendo falado desse aniversário do ECA, mas não me surpreende mediante aos interesses políticos que se colocam de forma cada vez pior. Estes provocam cada vez mais “distopias” e, sobretudo, apagamento e silenciamento do setor cultural.
    Semana retrasada tive reuniões online com minhas turmas no Cefart e percebi jovens muito apáticos e desanimados com todo o processo que está acontecendo, sobretudo, em uma escola que tem como objetivo a formação de artistas. Como não lembrar da entrevista escalafobética de Regina Duarte para CNN?
    Como sonhar trabalhar com arte em um contexto brasileiro que além do vírus biológico, temos que lidar com o vírus político?
    É um cenário muito desanimador e que está influenciando diretamente os jovens principalmente aqueles que sonham ser artistas.
    Dudude sempre fala em suas aulas sobre a importância de não perdermos nossas utopias. E percebo o quão significativo isso se faz agora e da importância da arte ser, sobretudo, agora esse convite para habitar, vivenciar, visitar, ocupar e etc.

    ps: sim cresçamos! habitemos! transformemos!

  5. Alice Vieira
    18 de junho de 2020 at 19:02

    Esta postagem me motivou a ligar para minha mãe e perguntar: Vocês não tinham medo que eu ficasse tanto tempo na rua quando eu era criança? Apesar de ter sido motivo de superação, desafio, diversão, medo e aprendizado, sempre quando penso nessa liberdade, fico confusa. Fui muito além dos quarteirões aceitáveis para uma criança daquela idade, o que me parece improvável para as crianças próximas de mim hoje em BH. Tenho a sensação que eu vivia numa linha tênue entre liberdade e negligência. Temo ao dizer isso porque essa é apenas a compreensão da mulher que sou hoje. É o meu ponto de vista baseado nos acontecimentos e nas minhas conexões de mundo durante esse tempo até aqui e não dos adultos da época. Mas a criança que fui era feliz! Isso é um bom sinal!

    Perguntei também para minha irmã para ver se eu já tinha transformado toda a memória(a memória é tão criação artística) da rua em imaginação e ela confirmou que éramos bastante livres e que na periferia onde ela trabalha ainda é assim. Já a resposta da minha mãe foi: “Tinha medo nenhum. Naquela época não era perigoso como agora”. É engraçado porque não gosto de frases do tipo: “na minha época era diferente”, mas talvez fosse diferente sim. Ou esse pensamento é mais fácil do que tentar entender os adultos da época… rsrs Talvez, realmente havia algo que fazia os adultos da minha casa acreditarem nessa falta de perigo. O que não se deu através de uma apresentação gradual da rua, como se dissessem: “eu já confio em você”, quem sabe, o sentimento de segurança tenha vindo das relações de amizade entre as pessoas do bairro, das ruas sempre cheias de crianças e mães. Ao mesmo tempo, sinto que havia uma falta de conexão entre os adultos e as crianças. Era como se houvesse uma espécie de comunidade à parte entre a meninada, com regras diferentes de socialização, o que só se dava através da rua. Chamávamos uns aos outros no portão para brincar, sujar, conversar, brigar, aprender a nos defender. Tudo sem que os pais soubessem ou intervissem mesmo sabendo. Eram relações nossas. Quem contava tudo à mãe, chorava à toa, ou não soubesse dar uma boa resposta, era visto como “café com leite”, frágil… O engraçado é que não me sinto mais preparada, por isso (ainda não sei dar boas respostas, por exemplo). rsrsrss Eu tenho lembranças de ocasiões que senti necessidade de ser amparada por adultos e não fui.

    Quando penso em rua, sempre penso na relação com o outro, no encontro. Agora com a pandemia o meu corpo na rua é veículo de contágio e eu tenho que cuidar dele pensando no outro (ir ou não para o shopping?). Agora meu corpo é regra da OMS também.
    Hoje, rua para mim é quase sempre lugar de passagem, um transitar atento aos barulhos, as visões e as pessoas. Às vezes, tenho receio de virar espectadora demais e viver a rua somente através dos olhos de artista. Rua é espaço, tempo, saudade, angústia e alegria! Quando tudo isso acabar vou vivenciar as dores e as delícias da rua com o corpo todo, juro.

    Acho que a rua dá à criança a autoestima de pensar que ela é capaz de viver no mundo grande, não só o mundo doméstico. No imaginário da criança Rua é “lugar de fazer coisas importantes”. Lembro que numa certa idade durante a infância, quando andava de ônibus com algum adulto, eu gostava de sentar em outro banco do ônibus, me separava deles só para imaginar que todos estavam achando que eu estava ali sozinha, que eu já sabia pegar ônibus sozinha. A rua da infância foi onde eu realmente habitei, mesmo que pareça que tudo foi em uma outra era e que agora aquela rua “não tem mais nada de mim”, mas eu tenho muito dela. Às vezes, passo lá só pra tentar olhar para a criança que fui, voltando da escola a pé(de van deve ser outro aprendizado), catando uma folhinha, uma frutinha, brincando, parando brevemente numa sorveteria…

    Deixo aqui um carinho. É uma música de migração, mas acho que serve pra todo mundo que tenha uma rua pra chamar de sua, talvez seja um sentimento parecido.

    https://www.youtube.com/watch?v=13389UquLZ0

    • agachamento
      19 de junho de 2020 at 08:45

      oi Alice, olá a todos!
      que bonita a sua postagem, casadinha com Gal Costa no final……. bonita e melancólica, casadinha com a quarentena — Gal às três da madrugada.
      Com meu filho crescido, a partir de um tipo de conversa que agora temos quando ele me visita em BH, percebo que talvez sempre houve, há e haverá esse “gap” entre crianças e adultos. “Gap” é traduzido por “intervalo”, rs, mas é mais que isso — acho que a palavra tem tudo a ver com o “entre”, com o espaço potencial pensado pelo Winnicott, e também, com a voz da Gal Costa!!
      Seria um descompasso entre o que um pensa, sente e acha e o outro, com seus pensamentos, sentimentos e opiniões — especialmente quando se é criança, pois, repito novamente: a criança não se sente criança.
      Criança então é um nome ou uma palavra que adultos criaram para pessoas com pouca idade, ou com “pouca quilometragem rodada” rs, e de fato mesmo o bebê em seu corpo encarnado tem de fato tantos quilômetros rodados de multiplicação celular, vida intrauterina, parto!, mamadas, fome, sonhos, colinho e banhos, beliscão do irmão, e angústia às três da madrugada………
      Enfim, tenho a sensação que para as mães, quando os filhos perguntam coisas assim como as que você foi ver com sua mãe, de fato está tão longe agora e você cresceu e está bem, apesar de tudo, então, é bem diferente pro filho, que habita o mesmo corpo, cuja infância só ele viveu.
      Sua postagem e Gal Gosta também me fizeram, ao menos por uns vinte minutos, bonita e melancólica
      E amorosa: foi muito importante sua presença no grupo remoto, Alice, e depois da quarentena nós vamos juntas pra rua, mesmo que apenas para “bater perna” e ser feliz
      Marina

  6. Luciana Cezário
    22 de junho de 2020 at 20:27

    Querida Marina, querido grupo de estudo,
    sinto muito pelas ausências desde essa postagem.
    A vida por aqui ficou tumultuada, os dias cheios
    nesse meio tempo também perdi alguém da minha família e não consegui conversar com vcs aqui, com o cuidado que eu queria.

    que delícia encontrar Alice aqui! sim, faço eco às palavras de marina: “Alice, e depois da quarentena nós vamos juntas pra rua, mesmo que apenas para “bater perna” e ser feliz”

    quantas lembranças essa postagem evocou! tb brinquei muito na rua, ficava até tarde da noite… algo que ainda acontece no bairro onde cresci, mas em menor proporção. Tenho uma lembrança, já da adolescência de andar de ônibus com minha irmã mais velha e ter que me sentar ao lado de um desconhecido e ficar tão tão constrangida que eu não conseguia me mexer, rs. Também aos 15 anos me lembro de aprender a ir pra aulas de teatro sozinha no centro da cidade e, um dia, avoada que sou, talvez com tantas coisas que chamam o olhar, passei direto por onde deveria virar e quando dei por mim, não sabia onde estava! Fiquei desesperada! detalhe: eu estava na afonso pena e tinha que virar a rua da bahia, rsrsrs. Crescer é delicioso! é sim, ganhar autonomia, conhecer melhor as ruas mas, sobretudo, conhecer melhor quem a gente é. Hoje em dia se a gente não sabe ir em algum lugar tem google maps… como esses aplicativos também definem de certo modo experiências e relações… não perguntamos tanto à desconhecidos “quantas horas são” ou “onde fica a rua tal”.

    A primeira vez que saí na rua de máscara, agora na quarentena, tive vontade de chorar. e chorei. era só uma emoção de me sentir frágil. não! de sentir que somos frágeis, era uma sensação coletiva, não era individual… a vida que construímos, a vida é muito frágil. Sim. E tudo bem. É assim que é.

    Também outro dia descendo a rua, uma moradora de rua comia algo em um potinho pegando com as mãos. ela me olhou e se desculpou: “quem tem fome, come com o que tem”. Eu é que devia lhe pedir desculpas… vivo em uma sociedade onde a senhora tem que passar por isso… e que sentido tem dar uma máscara pra ela? não tem sentido nenhum, entende? (…) Tb pensei no menino João Pedro que pouco antes de morrer havia mandado msg pra mãe, preocupada com o tiroteio: “Estou dentro de casa. Calma”. (…)

    Sobre as novas significações da rua… o outro lado da moeda é que talvez a gente renasça disso tudo com muito desejo de viver a experiência da rua coletivamente, de compartilhar tempos-espaços juntos. como valorizar algo que parecia antes tão banal…

    • agachamento
      23 de junho de 2020 at 08:12

      Oi Luciana, olá a todos
      Lu, que pena que perdeu alguém… sinto muito.
      Como pensar “na rua” depois de três meses de confinamento é potente! E também nostálgico, melancólico…
      … junto com seu otimismo de renascimento, eu também quero muito pensar que, com rua ou sem rua, os adultos serão capazes de cuidar das crianças, ressuscitando o poder da brincadeira, convívio, ar livre……… AR LIVRE! Vai ter?
      bjs e saudade já de nosso debate em tecnovívio
      mas aguardando nossas Presenças, ainda, sempre
      Marina

      • Luciana Cezário
        25 de junho de 2020 at 18:33

        Sim: ar livre e presença! que falta faz!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


1 + cinco =