Se eu morresse amanhã / Postagem 6 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 6

Arte relacional… com ou sem pandemia

 Como já comentado em outras postagens, registrado em textos, dito em conversas, etc., no ano de 2011 criei um texto para inscrever em um concurso de ensaios: o Concurso Mário Pedrosa, da Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco. Um ano depois da publicação do texto A criança é performer, eu tive a oportunidade, preparando aquele ensaio (que venceu o concurso!) de organizar minhas ideias, e depurar em palavras, sobre o que seria a abordagem espiral para o ensino de arte.

Havia um tema proposto para os textos do concurso: o ensino e a arte contemporânea.

Ao longo dos anos anteriores, já tinha percebido como publicar era importante: para fazer um pensamento circular – razão mais importante ainda do que “fazer pontos no currículo”... Joe Kincheloe disse em um de seus livros que seus alunos mais interessantes da graduação não estavam passando nos exames para a pós-graduação porque eram considerados muito “bagunçados”, “heterodoxos” e “sem metodologia”. Kincheloe afirma que passou a escrever sobre metodologia e publicar, de modo que seus alunos passaram a ter como justificar, de modo acadêmico (citando fontes!) suas “bagunças” criativas: assim Joe Kincheloe desenvolveu o que ele nomeou por metodologia da bricolagem. Pensei algo parecido (“Vou aliviar meus alunos do intelectualismo vigente”...) e fui, ao longo das minhas práticas de formação com adultos sobre o ensino de arte, introduzindo a noção de “abordagem espiral”. Meu ensaio ficou com o título

 

Fenomenologia de Merleau-Ponty e as relações entre educação, arte e vida na pequena infância: rumo a uma Abordagem Espiral no ensino de arte

 

Daquele momento em diante (2011) trouxe para minhas referências bibliográficas Nicolas Bourriaud. Eu queria poder, na construção da lógica do texto, “delinear um currículo na chave relacional” – embora Bourriaud não fosse autor do campo da educação estrito senso (ele é curador e crítico de arte francês), eu via grande potência em seu pensamento:

 

“A possibilidade de uma arte relacional (uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado) atesta uma inversão radical dos objetivos estéticos, culturais e políticos postulados pela arte moderna”. (Bourriaud, 2009, p.19-20)

 

Meu texto propunha, ou posso dizer esboçava, ou rabiscava, um paralelo com a propositiva de Bourriaud para pensar a arte contemporânea com a minha trajetória como professora de arte e de teatro na Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA-SP) por muitos anos. Minha reflexão no texto do ensaio se pautou na experiência, na EMIA, com crianças entre cinco e seis anos. Também a partir do doutorado tive a oportunidade de estudar a leitura fenomenológica da criança pequena (de zero a cinco anos, por assim dizer) a partir dos Cursos na Sorbonne, obra que registra cursos de Merleau-Ponty sobre pedagogia e psicologia da criança (que maravilha! Rs, um filósofo, não um pedagogo nem um psicólogo... pensando a infância), o que fez a diferença na escrita do texto premiado.

Também no ensaio eu resgatei as palavras “criatividade” e “espontaneidade”, de modo a provocar no leitor uma crítica ao intelectualismo dos currículos com seus passos, habilidades e competências, bem como discuti a noção de “livre expressão”, noção que, mais ou menos da década de 1990 em diante, ficou muito mal vista, pelos criteriosos pensadores de currículo, que intelectualizaram demais as experiências do fazer e do aprender arte – traçando rotas “científicas”, mensuráveis, visíveis e palpáveis, para planejar, executar e avaliar aulas de arte.

passo zero meu instaE o brincar?

E a possiblidade de fazer “outra coisa”, do ponto de vista da criança mesma, diante da proposta fechada, bem planejada e rigorosa (que seja!) do adulto proponente diante dela?

Enfim, no ensaio também correlacionei Bourriaud e Winnicott, pois Bourriaud usa o termo “espaço potencial” em determinado momento do livro Estética Relacional (sem fazer referência a Winnicott, mas fica dado que o autor é leitor da psicanálise).

Também levei para o tear do texto premiado a metodologia work-in-process / trabalho em processo, muito própria da poesia e literatura, e de um momento das artes visuais, das instalações, das performances e dos happenings – e muito “naturalizada” em práticas contemporâneas das artes da cena e do hibridismo nas artes.

Lá eu escrevi assim:

 

Proponho compreendermos por Abordagem Espiral uma proposta contemporânea que se inicia com a revisita às décadas de 1960 e 1970, de modo a demarcar, para incorporar a nossas práticas educacionais e artísticas, o começo de um processo que é nomeado o fim da fronteira entre-artes e a metodologia processual do work in process – algo que unirá forma-conteúdo, ao misturar e bagunçar os campos entre a dança e o teatro, as artes visuais e a performance, cenários repletos de teatralidades e propositivas cênicas dentro de instalações; são propostas neste campo o teatro fora do teatro, a possibilidade da dança em qualquer corpo, música concebida como paisagem sonora, significações para o silencio e o vazio, enfim, um fértil campo híbrido que, se bem explorado, levará a experiências estéticas das mais significativas, contextualizadas contemporaneamente.

 

Para que isso aconteça precisamos descentrar a arte dos produtos artísticos como mercadoria! E suportar projetos poético-caóticos! Sair da forma linear, dos currículos que pensam a criança em faixas etárias e desenham propostas “do simples ao complexo”! Cultivar a não-dicotomia entre processo e produto: forma-e-conteúdo, arte-e-vida!

Foi nessa chave que li a Estética Relacional de Nicolas Bourriaud.

Hoje, passada uma década, percebo que seu pensamento foi simplificado e mastigado tal qual a noção de “a experiência” de Jorge Larossa, pelo Brasil afora... todo mundo citando o mesmo texto para “justificar” [quase sempre de modo simplista e sem paixão] sua “metodologia”... (Percebem isso também?)

Uma possível corrente crítica a Nicolas Bourriaud vem de uma inglesa, hoje radicada nos Estados Unidos: Claire Bishop, que considera a visão de Bourriaud, apolítica. Ela vai tematizar “projetos relacionais” e a noção de antagonismo. Vale a pena correr atrás desse debate, e especialmente saber trabalhar com crítica e antagonismos.

 Enfim: da minha parte,

se tiver de escolher,

eu fico com Paulo Freire e...

Eu fico com a (pureza da) resposta das crianças / (...)

É bonita / é bonita e é bonita

(Também esgarçada de tanto uso, uma bonita canção de Gonzaguinha – Saravá!)

Ah, a canção tem um trecho bem menos lembrado:

Ninguém quer a morte / só saúde e sorte.

 

14 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 6 para um Grupo de Amizade

  1. Luciana Cezário
    12 de maio de 2020 at 17:19

    Não acompanhei as críticas à Bourriaud, vou correr atrás do bonde! Mas acho a palavra RELACIONAL fundamental pra pensar a arte na contemporaneidade. Ressoa aqui a ideia de Oiticica: o artista como propositor. Sinto que, nessa chave, a arte fica, de certo modo, “invisível”: cadê a arte que tava aqui? Se não tem produto, onde é que eu vejo a arte? É preciso mudar os verbos: eu não vejo. Eu sinto? vivo? experiencio? Habito!

    Talvez por esse invisível, essa arte que acontece no entre, nas relações, que não tem, necessariamente, produto, é que sentimos necessidade de um vocabulário simples-e-sofisticado. Sinto que na outra chave, o produto baliza, legitima. Na nossa chave, sentimo-nos, por vezes, confrontados… pela expectativa do outro a partir de uma determinada noção de arte (como uma antiga coordenadora que tive, que falava às vezes que o sonho dela era ver as crianças fazendo alice no país das maravilhas ou os saltimbancos; e me olhava meio de soslaio, de um jeito bem mineiro, rs. Nesse mesmo projeto uma outra coordenadora entrou na sala e mandou uma criança se sentar direito. uma criança que estava deitada no chão, participando ativamente de minha proposta). Então, penso que tal qual Kincheloe, sua busca para enriquecer referências, vocabulários, modos de dizer sobre o que fazemos é muito bem-vinda! E sinto que o mestrado me ajudou a desenvolver certa discursividade sobre meu trabalho. à isso sou grata!

    Queria voltar a essa questão da arte que não é tão visível ou palpável como um produto. Já ouvi relatos de colegas (e já senti o mesmo) que, ao desenvolver, por exemplo, jogos teatrais, se perguntaram: mas qual a diferença entre o que estou fazendo e um jogo que poderia ser feito na aula de educação física? Ou como trabalhamos nas fronteiras (viva a liminaridade!), algumas vezes já me preocupei se o que eu estava propondo estava mesmo situado no campo da arte… outro dia fui chamada em uma ação, para “fazer algumas dinâmicas”… entendem onde quero chegar? às vezes fico me perguntando… “quando é arte”. sei que essa questão esbarra na velha e talvez gasta questão “o que é arte”. sei que não há resposta definitiva. Dubatti se propõe a responder o que é teatro. E nos apresenta respostas muito interessantes. Já Eleonora Fabião nos disse: “o que queremos que teatro seja?” Há tanta tanta beleza nessa pergunta performativa, vocês não acham?

    Ah, que interessante vc falar dessa noção de arte como expressão, tão criticada no modo hegemônico!

    Por fim, uma curiosidade que talvez lhes interesse, querido grupo de amizade: o termo protagonismo juvenil foi muito usado pela sociologia da juventude mas já há alguns anos, passadas algumas críticas e reflexões ele não é usado mais. Pra quem se interessar pelo assunto, tem uma tese defendida na área de sociologia na USP, cujo título é: “O discurso do protagonismo juvenil”, de Regina Magalhães de Souza (pra ser sincera, não me lembro mais porque pensei em compartilhar isso, mas acho que é uma boa referência pra quem se interessar…).

    Ahhhh… antes que me esqueça: De minha parte, também estou com Freire!! :)

    ____ x _____ = 25

    • agachamento
      13 de maio de 2020 at 09:52

      Oi Lu, olá a todos
      Bom, eu vou “ter que” (rs) recorrer à expressão “poéticas próprias”… e ao bordão “ser o que se é”
      Penso que toda a estruturação da área de artes como campo do conhecimento foi super importante, mas historicamente, cerceou demais os projetos autorais de professores artistas… como se “um artista” não soubesse como ser “educador”: daí as normas, os currículos, as avaliações e planejamentos…
      Por isso é tão importante desenvolvermos “uma discursividade própria”, com seriedade e leveza, pois saberemos “justificar” nossas escolhas éticas, estéticas e políticas
      Viva Paulo Freire!
      Marina

  2. Thaise Nardim
    14 de maio de 2020 at 18:56

    Oiê!
    Lendo o texto, me despertei para fazer um apontamento bem próximo ao que fez a Luciana: da imaterialidade e/ou invisibilidade dessa arte que acontece aí, no entre matérias, humanos e etcéteras.

    Assim como a Lu (*íntima*), eu me questiono: que qualidades das artes compõem essas relações? Seria “apenas” uma certa afetividade? Será que há ritmos, pulsos e suas variações – tratamentos “estéticos” de qualidades de relações? Ou será que pensar assim seria querer encontrar uma sintaxe em algo que escapa a isso?

    Eu já não me lembro bem do que a Bishop argumentava contra a elaboração da noção de arte relacional mas, se não estou enganada, a despolitização alegada se daria por meio de uma descontextualização das relações, ocasionada pela instalação dessas práticas na forma museu/galeria.

    Já ouvi dizer que estaríamos esperando demais do Borriaud, afinal, ele escrevera aquele texto como parte do catálogo de uma exposição sob sua curadoria – realizada dentro de uma galeria. Mas, ainda que a crítica possa ser pouco aplicável ao Estética Relacional, acho que ela nos ajuda a pensar sobre algo importante, que é o papel dos espaços ou lugares na prática dessas relações estetizadas.

    Uma galeria, ainda que descaracterizada (sem “cubos brancos”, sem textos de parede) impõe a sua aura institucional sobre as relações que ali se dão. E eu acho que isso importa para nossa conversa porque também a escola me parece ter esse efeito. Por mais que descaracterizemos sua forma histórica – desmontando a relação de frontalidade, promovendo grupos, indo trabalhar no pátio – tem ali alguns resquícios da forma escolar que vão permanecer.

    Então, me parece, o desafio para professores que têm o desejo de aderir e praticar um currículo espiralado estaria em descobrir como atuar apesar da forma escolar; e isso tanto no sentido que já abordei, para o qual Marina também aponta, da institucionalidade, dos gestores, dos pais, das notas, quanto no sentido dessa influência que o espaço escolar, operando como lugar (espaço atravessado e habitado por uma cultura) pode ter sobre as “qualidades estéticas” da relação.

    • agachamento
      15 de maio de 2020 at 08:24

      Oi Thaise, bom dia a todos!
      Então… em seu último parágrafo, vemos: “como atuar apesar da forma escolar” (institucionalidade, gestores, pais, notas) — se estamos dedicadas, eu e você, a formar professores de teatro, convido a repensar o apesar. Como atuar na forma / e na fôrma (pra distinguir o que quero dizer) escolar? Me parece que inicialmente precisamos revalorizar a escola, como fizeram os estudantes de luta nas ocupações; revalorizar a escola, de modo que ensinar arte na escola seja luminoso e liminar………! E com isso eu também penso em algo muito concreto, material: revalorizar a carreira do professor, salários e possibilidades de crescer como adulto, chegando a uma velhice digna. Isso ta bem longe de acontecer no Brasil, mas precisamos continuar a pensar assim, e fazer micropolítica nessa direção. Então eu sugiro: “o desafio para os professores que têm desejo de aderir e praticar o currículo espiralado” é ir, a cada dia, para a guerra, usando cravos como armas, como fizeram os portugueses para derrubar a ditadura de Salazar; conviver com os outros no espaço escolar, procurando aliados entre funcionários, pais, e gestores; buscar “qualidades estéticas” no macarrão da cantina, nos recados que as meninas deixaram na porta do banheiro, numa dancinha que viu entre os pequenos esperando o transporte escolar… e especialmente, celebrar a vida humana, que é a vida imaginativa e transformadora.
      bjs a todos
      amo nosso estudo remoto
      Marina
      p.s.: sim, a meu ver fica meio implícito no debate sobre arte relacional que Bishop pensa que Bourriaud é “apenas um curador inteligente” rs rs

      • Thaise Nardim
        15 de maio de 2020 at 14:42

        Hmmm, não sei se compreendi bem a sua sugestão, mas creio que, de fato, não me expressei bem. Vou tentar refazer a reflexão, junto com seu apontamento.

        Eu sou amplamente favorável à “ocupação” da escola por nossa parte, como já expressei em comentários anteriores. Inclusive lançando mão de “táticas” que nos possibilitem permanecer (em alegria) dentro dela.

        Ao mesmo tempo, me parece que nós, ou os egressos dos nossos cursos, estando situados na escola e tendo à disposição essas armas que os possibilitem permanecer ali, também devem assumir o compromisso ético de reformá-la ou de reconstruí-la.

        Quando eu usei “forma escolar” no meu comentário, eu tinha a intenção de me referir àquilo da escola que é duro, que é rígido, que não compõe-com e que, por isso, não nos interessa. De certo modo, acho que esse modo de entender a ideia de “forma” é uma influência de uns carinhas que eu leio aí, que polarizam “força” e “forma”. No pensamento deles, com a vida andando, as forças vão formando, e as formas vão “forçando” – em permanente “entre”. Porém, se algo deixa de estar no “entre” e fica só sendo forma, daí é como estivesse já constando apenas como imposição. Um fedorento cadáver praticado, ainda não reconhecido como tal. Nesse sentido, um currículo baseado em taxonomia de objetivos de aprendizagem com progressão linear de processos cognitivos, dos “inferiores” aos “superiores”, seria uma “forma escolar”. Por outro lado, algo como a potência de reunião de crianças ou jovens mediadas por um adulto disposto a permiti-las protagonizar seria uma “força escolar”.

        Porém, compreendo que, fora do contexto dessa filosofia (talvez mesmo dentro dela, não estou certa), a expressão “forma escolar” possa conter também as formas de que gostamos, que achamos bacanas e que não devem ser perdidas.

        Tendo isso em vista, eu recolocaria a última proposição do meu comentário anterior assim, eu acho:

        “Então, me parece, o desafio para professores que têm o desejo de aderir e praticar um currículo espiralado estaria em descobrir como atuar apesar daquelas formas escolares cadavérico-fedorentas – desviando delas quando isso for o que é justo, mas também convidando-as a dançar quando isso for o necessário para prosseguir sustentando a relação com a instituição (aproveite suas máscaras respiratórias!). E, em fazendo isso, oferecer especial atenção aos jogos possíveis com as influências alegres que o espaço escolar, operando como lugar (espaço atravessado e habitado por uma cultura) têm sobre as relações com as quais compomos aula/arte.”

        Escrevi em Thaisês.
        Não sei se isso está profundo ou só empolado mesmo, hehehehehehe.

        Será que fica melhor? Será que deixa de dar a entender que eu acho a escola totalmente ruim e desejo seu fim, e passa dar a entender que eu acredito que a escola deve ser infiltrada, tendo suas durezas contornadas por dentro ou usada (tipo brinquedo sucata?), para potencializar suas maciezas?

        O que vocês acham?

        Marina, isso faz sentido pensado com a proposta da Abordagem Espiral?

        • agachamento
          15 de maio de 2020 at 17:57

          oie!
          kkkk talvez esteja acontecendo aqui um… tipo conflito de gerações! no melhor sentido do termo
          Acho que o que ta me incomodando — a palavra “apesar”, e ela ali permaneceu — tem a ver com um filtro, com um tipo específico de pensamento crítico, algo ligado a pensar “instituições” como algo formatado, por vezes mofado, enfim, leituras foucaultianas do que é “escola”?
          Eu gostaria de chegar ao que os fenomenólogos vão chamar de “redução”: colocar entre parênteses visões prévias do que é uma instituição escolar, e perceber o lugar desse espaço chamado escola na vida das crianças brasileiras… ta bem forte agora, durante a pandemia, as não-aulas, as não-idas à escola, as não-rotinas escolares, e o não-convívio com os pares.
          Sem idealizar nem julgar: observar as escolas e procurar o que são, para as crianças e jovens; para os professores; para os funcionários; para os gestores; para os pais; para a comunidade ao redor; para a prefeitura; para o governo estadual; para o governo federal……! E aí sim teremos um grande mapa do que pode ser, do que é, e do que foi. E lutar.
          Partir de algo mais calmo, e cuidadoso — não chamemos os cadáveres e as caveiras de antemão!
          (mas sei que pode estar soando como um “dizer de pessoa mais velha”
          e no entanto gosto disso, desse dizer, de uma hipótese linguajeira)
          A abordagem espiral teria todo esse caminho anterior, cuidadoso, observacional:
          é jogo, é jogo de regras, é jogo político;
          tem o brincar é um pano de fundo, mas para iniciar, precisamos ser levados a sério:
          então
          jogo o jogo!
          e aos poucos tento exercer antiestruturas
          em nome da felicidade que o fazer artístico proporciona, para todas as idades.
          bjs
          da Marina
          p.s.: ixi, eu também num gosto do termo “operar”…

          • Thaise Nardim
            15 de maio de 2020 at 20:18

            Pedindo esclarecimento: o cuidado prévio da abordagem espiral poderia encontrar, então, alguma fresta para vida em, pensando num único exemplo, avaliações compostas por testes feitos em máquinas e corrigidos por robôs?

            Dependeria de qual teste, qual máquina, qual robô, qual estudante – é isso?

            (Não é uma tentativa de “ter razão”, é mesmo uma pergunta sincera pra ver se eu estou entendendo)

          • agachamento
            15 de maio de 2020 at 20:27

            Oi Thaise, olá a todos
            num entendi……..
            Estava me referindo a um “procedimento filosófico” da fenomenologia = não é neutralidade, é busca por compreensão
            Eu penso que a gente não encontra a fresta: ela já está lá
            precisa de tempo, convívio, vínculo
            e uma atitude compartilhada sobre o lugar da arte:
            abrir a porta, entrar, ocupar
            guerra com flores é di boa
            bjs
            da Marina

  3. PRISCILLA VILAS BOAS
    16 de maio de 2020 at 10:00

    Oi Marina! Oi pessoal!

    Acho que o que eu vou dizer aqui é bem mais simples e talvez pareça (ou seja mesmo) rs bem ingênuo.
    Como artista da dança e professora de crianças eu realmente me apeguei aos três textos citados como seu fossem bálsamos que teriam resolvido todas as minhas dificuldades em elaborar reflexão e discurso sobre o algo que acontecia nas aulas, que eu não conseguia explicar.
    Quando eu tentava falar sobre os acontecimentos das aulas e as potências que eu sentia e enxergava ali, percebia que o que eu dizia se aproximava do que as crianças dizem quando a gente pergunta o que acharam de alguma proposta. Em muitas ocasiões, elas respondem “legal”, não é mesmo? Rs. A minha fala era: Lindo, como isso é lindo! Rs.
    É mesmo isso, é lindo. Mas eu já não era uma criança e não podia ficar “com a pureza da resposta delas” (rs), pois, pela crença de que aquelas experiências pudessem ser legitimadas como algo relevante para a aprendizagem e para as vidas das crianças, para as nossas vidas e para o mundo, eu precisava estudar conseguir falar sobre “isso” de uma maneira que fosse, no mínimo, segura e contundente.
    Eu trabalhava com a Marina na EMIA e dizia “eu quero saber falar sobre isso!!” O “isso” virou até uma piada nossa para nomear tudo aquilo que não se consegue dizer. Rs. Eu sentia, como muitos de nós, que, para muitos olhares, aquilo parecia uma bagunça, mas não uma experiência de aprendizagem artística potente e possibilitadora do reconhecimento de si mesmo e de muitas possíveis formas de se relacionar com o outro de maneira sensível e poética. E isso não valia só para as crianças. Eu me descobria/descubro a cada encontro e via/vejo os espaços se ampliarem em significado continuamente a partir da busca constante por poéticas próprias na relação com os outros e com o mundo. Quando proponho, vivo e sinto isso eu acho que a vida vale a pena!
    Tudo isso para dizer que eu acho que não é à toa que o pensamento sobre a “Estética Relacional”, o texto do Larossa e, especialmente (Corações pulando!!! rs) a “abordagem espiral” foram muito e muito utilizados porque, ao termos contato com eles, sentimos que “ufa”… alguém conseguiu dizer tudo que eu queria dizer e não consigo colocar em palavras, mas vejo, sinto e procuro fazer todos os dias da minha vida e durante os encontros com as crianças, que agora, são, no máximo, on line… Mas, isso é ainda um outro assunto, né? Como provocar uma relação próxima, acolhedora e potente com as crianças em encontros não presenciais e com todo esse cenário de tristeza e angústia que estamos vivendo?
    Bem, seguimos pensando, burilando, conversando sobre isso nos alimentando. Obrigada Marina, Thaíse e Luciana pela conversa e vocês.
    Eu tenho acompanhado tudo, mas não consigo participar sempre por conta desses tantos afazeres e desafios que o momento atual tem nos colocado. E além de tudo tem que cozinhar e limpar a casa toda hora!!! Rs.
    Um beijo a vocês!

    • agachamento
      16 de maio de 2020 at 11:26

      Bom dia Priscilla, olá a todos
      Que bom que veio!
      Sobre “três textos”, eu penso que é sempre bom tê-los!!! É o que chamam naqueles romances antigos de “livro de cabeceira” (ah, agora as pessoas acho que tem seus celulares e tablets na cabeceira…rs) — mas sim, ficar com eles, permanecer neles, apegar-se a eles por muito muito muito tempo eu penso ser como o urso de pelúcia, que a criança ama e não quer soltar (a mãe quer lavar!): no entanto as crianças, em geral, acabam amadurecendo e desapegando do “brinquedo predileto”, que o Winnicott chama de “objeto transicional” (algo que une o “de dentro” e o “de fora da criança, e usualmente significa a mãe…).
      O que seria amadurecer intelectualmente? É ir multiplicando (ah, Lu!, achei uma utilidade para aquelas continhas: 3 x 3 = 9) e de repente já ter nove textos de referência; outra coisa, o Larossa escreveu tantas coisas boas!!! Então eu acredito que precisamos ler, e escrever (especialmente Diários de bordo) em fluxo contínuo… É igual falar língua estrangeira, cozinhar, e amar: tem que praticar.
      E assim como o corpo se transforma, de engatinhar se começa a andar, as experiências intelectuais se transformam, individual e coletivamente.
      Aqui também, no grupo do de estudos remoto, vejo muita coisa acontecendo; cada participante poderia ao final ter um material autoral e super rico, unindo suas próprias postagens e citando os comentários dos outros, de modo a concretizar “sua própria síntese”: escrita de sua “poética própria”. E não seria lindo se o Agachamento tivesse uma verbinha e isso virasse uma publicação??
      Escrever também é um work in process / trabalho em processo, e precisamos trazer afetividade e pessoalidade para esse campo, e torná-lo um prazer. Um tipo de conquista também.
      Bom finde pra todos!
      Segunda-feira vou publicar a postagem sobre “a rica experiência da rua” — que estou preparando, em estado de pandemia…
      bjs da Marina

  4. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    18 de maio de 2020 at 21:07

    Novamente por aqui: – Gratidão pela “experiência” de poder fazer parte dessas discussões, o quão elas me tocam, me afetam, e me modificam na minha relação “com-o-outro-no-mundo” aqui de dentro deste apartamento no edifício Maleta. Que por sinal é um prédio construído, em 1957, com muitas ressonâncias históricas, no contexto, da cidade de Belo Horizonte (hoje faz dois meses que não saio daqui).

    Agradeço a Marina que está nos possibilitando essa “experiência relacional” aqui no campo virtual, mas através do aparato da escrita, uma ação importantíssima de retaguarda nos dias atuais. Infelizmente ainda não consegui comprar o livro “Estética Relacional” de Bourriaud, mas estou me organizando para também ler esse “livro de cabeceira”. Passei a semana passada relendo desde a primeira postagem do blog e todos os comentários para fazer um exercício aqui solicitado pela Marina, que agora é minha orientadora no Mestrado, de tentar compor uma escrita a partir de meus comentários aqui no blog. Essa leitura me fez perceber quão rico está sendo esse espaço de trocas e compartilhamento de pensamentos e saberes, um verdadeiro: “work in process”.

    Li em algumas postagens aqui no blog que Marina não facilita para ninguém, rsrsrs, e já estou percebendo isso e, confesso adorando, pois estou ativo aqui com minha “cachola” fervilhando em ideias e reflexões. Neste “espaço relacional”, onde a partir destas postagens tenho entrado em contato com um pouquinho do universo de cada uma/um de vocês, e neste sentido, estou também “conhecendo e aprendendo” com vocês e compartilhando um pouquinho do meu saber. Que maravilha tudo isso, sobretudo, agora neste contexto de quarentena, que não deixa de ser também bastante perturbador. Lendo e acompanhando aqui agora a conversa anterior de Thaise com Marina, pensei: que espectro gigante de saberes, questões, dúvidas, incertezas, concordâncias, etc, estão entre as duas, entre nós. Pergunto o que move a comunicação? O que move o entrar em contato, em relação com?

    Essa postagem me fez lembrar aqui de uma entrevista que li no livro – Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido feita por Pierre Cabane. Na época em que li, lembro que foi sensacional entrar minimamente em contato com o universo de Duchamp, este alguém tão distante de mim cronologicamente, culturalmente, socialmente, etc. Considerando que toda narrativa é construída a partir de graus menores ou maiores de ficcionalização, lembro-me que foi um máximo poder ler essa entrevista por todos os apreços revolucionários que Duchamp representava para mim naquele primeiro contato.

    Sobre textos como o de Larrosa e tantas metodologias compartilhadas desenfreadamente de forma “viral” que muitas vezes tem pouca apropriação, e são repetições mecânicas que fazemos sem uma atenção autêntica me lembrei de um trecho da entrevista no livro. Este trecho está aqui na parte de trás da capa do livro, onde Pierre Cabane pergunta para Duchamp:

    Pierre Cabane pergunta: – Você visita museus?
    Duchamp responde: – Quase nunca. Não vou ao Louvre há vinte anos. Não me interessa mais por causa desta dúvida que tenho a respeito do valor desses julgamentos que decidiram que todos aqueles quadros deveriam ser expostos no Louvre no lugar de colocar outros que jamais foram considerados e que poderiam estar lá…
    Pierre Cabane pergunta: A atitude do artista conta mais, para você, do que a obra de arte?
    Duchamp responde: – Sim. O indivíduo como tal, como cabeça, se você quiser, me interessa mais do que o que ele faz, porque notei que a maior parte dos artistas não faz mais do que se repetir… eles pensam que devem à sociedade o quadro mensal, ou anual.

    E nesse final da entrevista, observo, uma crítica feroz de Duchamp, no início do século XX, desse descentramento da arte enquanto “mercadoria”. Ou seja, estamos já algum tempo, questionando essas fórmulas e receitas pré-concebidas por dicotomias que se fazem muito presente no ideário comum. Reflito e concordo que no espaço escolar é fundamental buscar por mais relações nos espaços do con(viver), na busca por abordagens mais espirais, relacionais, significativas. Pois, acredito que desta forma podemos construir diálogos e percepções,“não para melhorar o mundo”, mas para construir micropolíticas.

    Confesso que como Thaise também me faço, por vezes, essa pergunta: Quando é arte? Me interessa, de fato, saber isso? E, aí, percebo, Duchamp batendo à minha porta, novamente. Retaguarda enquanto performance!

    ps: tbém estou com Paulo Freire!

    • agachamento
      19 de maio de 2020 at 09:39

      Oi Rodrigo, bom dia a todos
      Ah, amei o fato de que Duchamp não ia ao Louvre faziam 20 anos!!… Dá o que pensar!…
      “Quem” é artista, “onde” estão, “o que” é arte? O “como”, igual nos jogos teatrais de Viola Spolin, é “livre”: a gente que cria. Precisamos encontrar como fazer arte com crianças e jovens, em um clima e atmosfera sim de micropolítica, mas de muita significatividade para todos. Cuidar muito para que nossas “ações performativas” não sejam obras individuais e de difícil compreensão / apreensão.
      beijos e abraços
      da Marina

  5. Alice Vieira
    25 de maio de 2020 at 13:52

    A coisa mais importante que o curso de teatro me deu foi considerar a minha existência nesse mundo e isso se tornou a minha micropolítica. Se eu conseguir proporcionar aos alunos o protagonismo, já me sentirei feliz. Sei que você trata de outra forma de currículo, mas estou lembrando desse poema:

    Escrevendo um currículo

    (Wislawa Szymborska)

    O que é preciso?
    É preciso fazer um requerimento
    e ao requerimento anexar um currículo.

    O currículo tem que ser curto
    mesmo que a vida seja longa.

    Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
    Trocam-se as paisagens pelos endereços
    e a memória vacilante pelas datas imóveis.

    De todos os amores basta o casamento,
    e dos filhos só os nascidos.

    Melhor quem te conhece do que o teu conhecido.
    Viagens só se for para fora.
    Associações a quê, mas sem por quê.
    Distinções sem a razão.

    Escreva como se nunca falasse consigo
    e se mantivesse à distância.
    Passe ao largo de cães, gatos e pássaros,
    de trastes empoeirados, amigos e sonhos.

    Antes o preço que o valor
    e o título que o conteúdo.
    Antes o número do sapato que aonde vai,
    esse por quem você se passa.

    Acrescente uma foto com a orelha de fora.
    O que conta é o seu formato, não o que se ouve.
    O que se ouve?
    O matraquear das máquinas picotando o papel.

    E eu também estou com Gonzaguinha… acreditando “naquele que sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira”

    Abraços!!

    • agachamento
      25 de maio de 2020 at 14:02

      Ei Alice
      Trato “de outra forma o currículo” mas também “dessa mesma forma” = poética, irônica e sensível, tudo junto misturado
      Obrigada por existir!
      Marina

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