Se eu morresse amanhã / Postagem 4 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 4

 

Mítica ou científica, a representação de mundo que o homem constrói tem sempre uma grande parte de imaginação. (...)

Contrariamente ao que muito se julga, a pesquisa científica não consiste em observar ou acumular dados experimentais para deles deduzir uma teoria. Para se obter uma observação com algum valor, é preciso te já, à partida, uma certa ideia do que há a observar.

Segundo os termos de Peter Medawar, a investigação científica começa sempre pela invenção de um mundo possível, ou de um fragmento de mundo possível.

Assim começa também o pensamento mítico, mas este último acaba aí.

 François Jacob (citado por Pedro Barbosa)

 

Meu quarto “tema”, mote ou disparador para nossas conversas – que não se esqueçam que vem de uma citação do texto Guerra de maçãs, feita na Postagem 1 e que definia arte -- é aqui a expressão “mundos possíveis”. Passei a usá-la no final da década de 1990, quando encontrei numa livraria o livro Metamorfoses do real / Arte, imaginário e conhecimento estético (Porto: Edições Afrontamento, 1995) – um livro muito bonito, super bem editado, que eu ficava “paquerando” em duas livrarias que eu frequentava, pois foi escrito por um autor português -- Pedro Barbosa -- e custava meio caro... (hoje vi na Estante Virtual, rs). Fiz um esforço para ter o livro; andei com ele durante um semestre: no trabalho, no metrô, em casa... fazendo destaques, escrevendo citações... Na época estava escrevendo meu Trabalho de Conclusão de Curso da graduação em Psicologia. O livro abriu em mim um campo importante para pensar o que é “estetizar o mundo”, “estetizar a vida”, e qual pode ser o lugar da arte na vida humana. Naquele momento, fim da década de 1990, eu queria pensar sobre isso tudo na vida das crianças: experiências artísticas como aberturas de mundos possíveis.

Não um mundo possível como o do planeta Terra sem lixo, por exemplo – vemos isso direto não é? Propostas pedagógicas em nome de um mundo melhor... eu mesma escrevi um livro sobre o uso criativo do “lixo limpo”: o livro O brinquedo-sucata e a criança, escrito por mim antes de graduar em Psicologia.

Ah, o John Cage tem uma gague que é título de dois fragmentos de escrita dele: Como melhorar o mundo (Você só tornará as coisas piores) [isso na década de 1960!][com isso ele quer dizer que querer ajudar, melhorar, intervir, não é o melhor modo] [que acham?]

6551571A noção de “mundo possível” Pedro Barbosa emprestou da semiótica; não é algo metafórico, é de fato uma noção formal – noção de possiblidade, “possíveis estruturais”, “inscritos num sistema construído pela cultura”. No livro, Pedro usa a expressão, que acho muito interessante, rica, instigante: mundos fictivos. Em uma determinada passagem, há um detalhe imenso: Pedro Barbosa coloca, depois da expressão “mundo fictivo” a seguinte palavra, entre parênteses: intermediário. (Isso nos remete ao espaço potencial do Winnicott, certo?)

 

Revisito o livro Metamorfoses do real, para compartilhar com vocês:

 

A arte, analisada sob este prisma, revela-se como uma forma peculiar, mas irrecusável, de indagação do real e de compreensão de nossa relação com a vida. Por outras palavras: um verdadeiro ato de conhecimento a que chamaremos de cognição estética. E o Imaginário, compreendido na sua dimensão simbólica profunda, parece apresentar-se como um modelo de apreensão mitopoética do real. Enfim: uma via cognitiva de captação profunda da nossa relação com a vida. (p.90)

 

Gosto desse caminho, no qual trabalhamos na direção da arte como um tipo de conhecimento, não intelectual ou racionalista estrito senso – mas que, no ponto de vista do autor, não é pura intuição ou sensibilidade. A criação artística

(...) também traz uma certa ordem de inteligibilidade na relação entre o homem e a vida. (p.178)

 

Pedro Barbosa discute a exigência de estatuto de verdade, dizendo:

 

(...) não faz sentido pretender aplicar um “critério de verdade” aos mundos fictivos construídos pelo discurso artístico, já que a noção de verdade só é susceptível de ser aplicada a esse único mundo tido por “real” no interior da infinidade dos mundos “possíveis”. (p.103)

 

Nessa chave o autor pensa que qualquer conotação pejorativa à noção de mundo fictivo (que ele nomeia também mundo imaginário), dada pelo senso comum de julgamento como “fingimento” ou “falsidade”, pode ser retirada do universo fictício; ele afirma que os fundamentos da lógica não deverão ser transpostos para a esfera da arte. E cita Paul Ricoeur: “A linguagem poética e a linguagem científica visam uma realidade mais real do que as aparências”(p.155).

Percebam que conforme releio o livro, e escolho as passagens, esta postagem vai se adensando, abrindo portas e janelas. Quero ampliar horizontes, doar novas significações para o fazer artístico, para o pensamento artístico, para o ensino de arte também – e “demonstrar” para o leitor do Agachamento que o fato de aprofundar o estudo de uma noção ou conceito nos leva a outras meditações labirínticas (lembram do painel do artista na Barra Funda?); e agora temos um vocabulário sofisticado, tomara que potente, para conversar com leigos em arte e mostrar a eles o valor da imaginação humana, a grandeza da capacidade para imaginar...

Você vê?

Nosso autor de referência nesta postagem sobre os mundos possíveis  definiu a cognição artística:

“por uma visão de mundo alternativa, um verdadeiro “saber”, concebido este como uma forma específica de nos colocar experiencialmente no mundo”(p.24).

Mesmo em atividades muito simplinhas (na Educação Infantil por exemplo) o adulto condutor pode, e deve, convidar a criança a “estetizar o mundo” – e isso não se dará por meio de uma imitação comportamental, como são aquelas propostas de musiquinha-com-gesto (Dna Aranha, Um Pintinho Amarelinho).

Vou no You Tube para mostrar aqui um exemplo muito simples e contemporâneo,  que une arte e vida: uma criança muito pequena toca no carro, o alarme dispara... e ela dança, expressivamente:

Criou-se, ali, um formidável mundo possível.

20 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 4 para um Grupo de Amizade

  1. Charles Valadares
    28 de abril de 2020 at 23:41

    Ei, grupo de amizade! rsrs
    Dessa vez não vou conseguir postar no final da semana… queria mais tempo para ler e deixar as palavras passearem pelos meus pensamentos, porém, recebi um presente de aniversário que é passar uns dias com uma pessoa querida em um sítio afastado do centro urbano, numa cidade vizinha de BH. 
    Tenho gostado de ler e esperar um tempo para deixar as palavras ganharem alguns caminhos na minha cabeça. Penso que tem a ver com “o vazio” que já comentamos por aqui. A pressa em responder de fato não é a melhor via…
    Você, Marina, um dia, em uma conversa nossa (não lembro quando) disse sobre “a paciência dos conceitos”. Penso que cabe aqui! Tem a ver com discussões da postagem 4 também, um tipo de aprendizado em camadas e com calma…

    Bom, volto na semana que vem!
    Até, pessoal!

    Ps. amei o vídeoooooo e tudo a performatividade que ele evoca!

    • agachamento
      1 de maio de 2020 at 13:17

      ok Charles = bom descanso!
      sobre “a paciência do conceito”, é uma noção de Hegel sobre a qual Lebrun escreveu um livro enorme……… rs, precisaria estudar mais para comentar aqui com rigor
      por enquanto faço foco nos termos da postagem 1, que estão resultando nessas postagens de desdobramento temático
      feliz dia do trabalhador para todos!
      Marina

  2. Luciana Cezário
    1 de maio de 2020 at 11:55

    Oi Marina, quantas coisas vc trouxe em uma postagem!
    Lembrei-me de Cássio Hissa, para quem a ciência-saber “ocupa terceiras margens e povoa territórios de fronteira”. Lembrei-me da etnografia que constrói narrativas, de certo modo, ficcionais, como disse Geertz. Lembrei-me, sobretudo, de Turner, para quem a performance acontece no modo subjuntivo da cultura – o modo “se” . Acho isso de uma beleza inexprimível! Quando vivo algo nesse modo subjuntivo, como artista ou como professora, eu sinto que o que estou experienciando não cabe na linguagem, não cabe na lógica – está em outro lugar, nesse lugar reside a arte. ou esse lugar é a arte. Talvez só consiga compreender isso, quem experienciou, quem viveu algo assim. Não quero que minha fala seja excludente: estou sendo excludente? O que quero dizer é: tem pessoas que estão demasiadamente presas à lógica – não é culpa delas, somos formados para ser assim, sujeitos racionais dentro de uma perspectiva muito rasa que polariza racional e irracional. Pois bem: Marina diz que chegamos a um vocabulário sofisticado. Eu vejo esse vocabulário! Ele nos dá sustentação, apoio, nos ajuda a imaginar e criar outros mundos, expande nosso mundo! Sim! Mas… não vejo esse vocabulário dar conta do diálogo com leigos… ou dar conta totalmente… justamente porque é sofisticado! no sentido de que é uma construção de construções e eu nem sei se a pessoa totalmente leiga ou presa demais à lógica compreende ou quer compreender esse emaranhado de ideias. estou pensando alto aqui, sem ter muitas conclusões. Sou mais de perguntas do que de respostas. Seria o vocabulário de uma ordem e a experiência artística de outra…? No sentido de que, talvez, só o vocabulário não dê conta do diálogo. Mas ele certamente nos dá respaldo para ocuparmos nosso lugar como professores e artistas e sermos respeitados por isso! A pessoa que vê o vídeo da criança dançando ao som do alarme e vê encantamento, vê beleza, vê a delícia que é dançar… ela já compreendeu! 

    Sobre melhorar o mundo: gosto demais dessa ideia de john cage. E ela vai de encontro com certas ideias de religiões orientais em espaços onde frequentei: às vocês você só tá piorando as coisas, rs. Também me lembrei do filme brasileiro “Quanto vale ou é por quilo” que tem um bordão “Mais valem pobres na mão, do que pobres roubando”, numa crítica explícita ao trabalho de muitas e muitas ongs e a lógica implícita por detrás de muito voluntariado por aí: de uma ajuda que é, na verdade, controle social. Penso que voltamos assim àquela questão inicial da arte para salvar vidas em projetos sociais… Não é uma crítica minha à arte nesses espaços, mas a certas concepções!

    De minha parte, quando era mais nova, eu queria melhorar o mundo, eu queria mudar o mundo… com teatro! E acho isso lindo de lembrar, usei muitas blusas do Che e guardo, com carinho, até hoje, uma blusa, da qual não consegui me desfazer, pela afetividade que guarda: com a pessoa que eu sou, com a pessoa que eu fui. Hoje em dia gosto de me pensar “plena de amor pelo mundo”, pra usar os dizeres de Cássio Hissa, pra falar de uma pesquisa interessada de modo amoroso por esse mundo em que vivemos. Essa é a pessoa que quero ser: uma pessoa que ama o mundo e cuida do seu modo de ser, estar e atuar nesse mundo. Sigo, entre tropeços, alegrias, tristezas, dúvidas, medos, desejos… sigo como é possível! Sigo desenhando, criando, imaginando, tecendo, sonhando, vivendo outros mundos possíveis! Que sorte a vida me deu de poder ser no mundo tendo a arte como morada.

    Deixo um beijo à vocês! Ler essa postagem e escrever aqui me fez bem.

    ps. é muito engraçado esse blog, que exige de nós, artistas, conhecimentos matemáticos nas postagens, rsrsrs. Não me acostumo e todas às vezes sou pega de surpresa e uma certa confusão mental que dura milésimos de segundos talvez, sempre me faz rir.
    Hoje tenho que multiplicar 6 X ??? = 30
    :)

    • agachamento
      1 de maio de 2020 at 13:26

      oi Lu!
      se pensarmos nesse lugar do “entre” como propõe Winnicott, é o lugar do brincar imaginativo — então, mesmo crianças muito pequenas (como o menino do vídeo na postagem) experienciam habitá-lo
      tem a ver com humor e com amor
      sobre uma certa sofisticação, penso que ela é fundamental na profissão: na prática e no cotidiano de quem ensina arte, por exemplo — assim destaco a “sofisticação” como algo positivo, fundamental/fundante — seria o único modo de combater as simplificações que fazem “em nosso nome” do que é arte e do que é o ensino de arte
      por outro lado, é preciso falar sobre nossos assuntos (arte, ensino de arte, arte-e-vida) de maneira simples
      essa postagem sobre “os mundos possíveis” me parece que ficou, talvez, complexa, sofisticada demais, ou hermética, como se só iniciados compreendessem… digo isso porque mesmo o Charles disse que precisava pensar mais para poder conversar
      espero que aos poucos (vou escrever mais quatro textos!) eu consiga comunicar algo sobre aquela primeira citação que definiu “arte” no texto Guerra de maçãs, em uma chave de simpicidade, em termos de palavras, mas de complexidade, em termos de pensamento-e-sentimento: enriquecendo nossa profissão, vou dizer “nossa categoria”, pois hoje é o feriado do Dia do Trabalho, 1 de maio de 2020.
      Marina

      • Luciana Cezário
        5 de maio de 2020 at 12:04

        “em uma chave de simpicidade, em termos de palavras, mas de complexidade, em termos de pensamento-e-sentimento”

        sim, seria esse um desafio…

        Em referência ao dia do trabalho: unimo-nos!

        ps. 7 X __ = 7

  3. Lucas Emanuel
    4 de maio de 2020 at 00:36

    Ei, Marina e grupo de amizade.

    Fiquei refletindo por aqui sobre a postagem.
    Acho que ela constrói sim meditações labirínticas. Ui, quase me perdi aqui. Mas voltei.

    Primeiro, achei muito interessante esse livro do Pedro Barbosa (namorando a compra já).

    Quase não consegui pegar esse metrô-conversa, novamente. Mas fiquei instigado e queria dialogar com vocês. É que me parece que o texto foi se metamorfoseando até outras estações, outros tempos: entre livrarias, Marina formando em psicologia, “lixo limpo” antes da graduação, estetização do mundo, até chegar à criança e o alarme do carro!

    Nisso tudo há memória: imagens em ação, vindas de outros tempos-espaços. Construções simbólicas que dizem de uma trajetória de vida. Me aproximando do estudo dos símbolos, vejo como necessitamos o tempo inteiro da ficcionalização, da imaginação, da criação arquetípica, da instauração de outros mundos, entre o real e o ficcional. O que faz, felizmente, com que tenhamos a arte enquanto um lugar, em nós.

    Nesse metrô-conversa-postagem vejo muita performatividade, desde o movimento do texto em si, quanto na criança que dança com as variações sonoras. Um estado de presença que instaura a possibilidade do brincar – ou seria de ser o que se é?

    Tenho tido o desafio de dar 20 horas-aula semanais online, por isso eu perdi o metrô (ou o bonde) na postagem passada. Nessas dores e delícias, tenho procurado dialogar com as crianças-alunos, cada vez mais conectados à nuvem tecnológica. Estou procurando não lutar contra o impulso, que surge até em mim, de ficar enfurnado no celular e no notebook. Para isso tenho refletido como, a partir da tecnologia, posso propor a possibilidade de um pensamento imaginativo (ou um mundo possível). E que difícil, porque é preciso dialogar com um Mundo, antes mesmo do que pensamos sobre o Possível.

    Entre livro didático (obrigatório) e minha poética própria, estou investindo em algumas propostas: criei um podcast chamado Nas ondas da Arte, com entrevistas, assuntos sobre arte. Videoaulas dialogando conteúdos pré-estabelecidos com séries, jogos digitais, youtubers, Tik Tok… Criando até playlist no Spotify para promover reflexões sobre o conteúdo de músicas engajadas… Sigo agora na proposta de uma rádio-novela via podcast, com uma das turmas! Enfim, se a BNCC já nos propunha a criação de um novo âmbito, que seriam as Artes Integradas, “agora é que são elas”. Claro, que penso na questão do “possível”, e lembro de tantas outras realidades onde isso não é possível: celular, notebook, internet…

    Ui, me perdi de vez aqui! Ou me achei. Estou sentindo isso todos os dias.
    Talvez o metrô já passou e eu fiquei imaginando coisas…
    Obrigado por esse espaço!
    Até a próxima.

    • agachamento
      4 de maio de 2020 at 08:13

      Olá Lucas, bom dia a todos
      Se alguém perdeu o metrô foi a própria Marina……..!
      Quero dizer com isso que a postagem resgatava o “século passado” rs, o mundo do livro em papel, um tempo de leitura e escrita muito diverso do atual, etc
      Penso até que algumas pessoas “desistiram daqui” porque, mesmo num site-blog, por vezes a postagem “disparadora”, por assim dizer, não está no “trem deles” (tentando juntar a imagem do metrô com a mineiridade)
      também é interessante pensar na riqueza da imagem do trem: horários, assentos, estações, sirene, pontes e desvios… Passagem.
      Dito isso, todas as coisas que você criou, seriam o verdadeiro livro didático!! Vivo, autoral, em processo — são ideias muito boas, e fica nítido que você está habitando o mundo da escola, o mundo da virtualidade, o mundo do cotidiano do aluno criança ou jovem, o mundo do jovem pesquisador mestrando… E as intersecções entre os mundos são “a possibilidade mais possível”.
      Fico feliz por você, vejo muita saúde no seu depoimento, e ta bem difícil encontrar pessoas mantendo sua saúde: a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranquilo
      um abraço e boa semana, na medida do possível, e para todos nós
      Marina

    • Luciana Cezário
      5 de maio de 2020 at 12:09

      que delícia ler sua postagem Lucas!
      quanta vitalidade!
      Evoé!

      ps. __ + 9 = 12

  4. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    4 de maio de 2020 at 12:49

    “Todos os homens que andam nas ruas são homens narrativas, é por isso que conseguem parar em pé.” (Philippe Lejeune)

    E com essa frase começo meu comentário sobre essa postagem, e junto com uma narrativa um universo ficcional recheado de ideias de um mundo, um mundo possível que criamos a partir de nossas experimentações. Agora ficar em pé em cima dos pés, rsrsrsrs, me parece difícil as vezes, mas super possível…

    Meu modo mundo possível é antes de tudo a relação com o meu corpo, pura sinestesia de um espaço relacional “Entre” interno e externo. Trocas que acontecem a cada segundo (e milésimos de segundos imperceptíveis) possibilitadas, sobretudo, pela permeabilidade e porosidade da PELE nosso maior órgão em extensão e dimensão. Lembrando aqui agora do cineasta Pedro Almodóvar – “A pele que habito”.

    E no meu caso em específico, essas trocas com o mundo com o ambiente se dão muitas vezes através de um estado de performatização, uma forma ou maneira de estar no mundo e coabitar o espaço em que vivo: hibridização entre vida e arte. Posso dizer que essa é a maneira como me entendo no mundo e como ele faz sentido para mim. Minha vida é permeada por um um fazer inventivo, onde as coisas de repente podem se transformar em danças, poesias, imagens, e por aí vai… Isso faz parte das minhas verdades ou daquilo que constituo enquanto verdade.

    Faculdade da imaginação…o fantástico mundo de Rodrigos Anteros…

    Assim vou construindo as minhas meditações labirínticas em um modo, mundo possível…de viver tentando ficar em cima dos pés, mas sempre em oscilação, uma condição que considero maravilhosa, inclusive.

    • agachamento
      4 de maio de 2020 at 12:57

      oi Rodrigo
      oi Rodrigos Anteros
      já fizeram “assembleia” hoje?
      brinco muito com essa ideia, de que todos somos múltiplos, e que precisamos fazer por vezes assebleias, negociando… se hoje ficaremos em pé ou não… se posso ficar deitado… se me lembro de como se engatinha rs rs e assim por diante
      posições, atitudes, decisões, retraimentos
      e convívio
      é disso que somos feitos
      bjs e boa semana
      Marina

      • RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
        14 de maio de 2020 at 19:00

        Acho que hoje estamos fazendo assembleia aqui, rsrsrs

        Um abraço, do Rodrigo

        Abraços, dos Rodrigos

  5. Thaise
    7 de maio de 2020 at 14:34

    Olá, Grupo De Amizade.
    Olá, Marina.
    Voltei =)

    Eu estou me sentindo como “contaminada” por esse post (e os comentários que o seguem, que compõem a minha experiência de leitura hoje). “Contaminada” porque as manifestações que ele apresenta/é estão me afetando em um lugar de corpo e que não é desse racional que a Lu (olha a intimidade) apontou como crítico em algumas condições.

    Essa sensação me fez refletir sobre como mesmo um “vocabulário sofisticado” não é necessariamente um vocabulário unicamente lógico-racional. Há alguns conceitos, inclusive (“mundo possível” é um deles) que eu preciso sentir para entender. E, se levarmos isso no limite, junto com o que propõe o texto, para nascer um conceito é preciso que nasça um mundo.

    >>>> Eu imagino que essa distinção entre sentir e entender seja mais didática e discursiva do que factual, porque suponho que haja sempre sentir no entender e entender no sentir. Talvez seja uma questão de doses, de dosificação <<<<

    Então, talvez o campo que estamos pensando por aqui possa ser entendido como um campo do saber que têm altas doses de sentir implicadas no processo da compreensão. Que aceita o sentir, que acolhe o sentir, que contempla o sentir no pensar.

    [Minha sensação nesse exato momento é que estou apenas dizendo novamente o que a Marina e os nossos Amigos do grupo já disseram. Mas vou continuar, porque é um exercício de compreensão pra mim. Bem, disse o Whitehead que a filosofia ocidental são só notas de rodapé da obra do Platão, então sou só mais uma, gracias]

    Seguindo: isso tudo aí indica para o que a Marina falou no post, do projeto social de intencionalidades externas à arte, que resulta na transmissão de uma forma, operando com o saber – mesmo o que parece próprio à arte – como se ele fosse meramente cognitivo (portanto, já mapeado).

    De fato, é uma arte-de-projeto-social (projeto social entendido aqui como a sua abordagem "endurecida") que oferece pouco ou nenhum contributo propriamente artístico para o sujeito envolvido, já aquilo com que ele lida são "emulações" da arte, são as suas formas exteriores. A arte educadora Maria Acaso chama isso de "manualidades", mas talvez seja esquisito usar esse termo aqui nesse contexto (em que exercitamos e almejamos "espacialidades", "teatralidades", "musicalidades" e "corporeidades"). As formas exteriores da arte parecem não carregar a potência de mundos possíveis que a arte integral carregaria.

    Logo, podemos mesmo concluir que o projeto social endurecido faz um puta desserviço pra todo lado – pra arte, pra educação, pro social. De boas intenções, bem, já sabemos…

    Porém, uma dificuldade se impõe: como sabemos o que são só "formas externas da arte" ou "arte integral"?

    Será que isso repousa numa espécie de disposição do sujeito propositor? Na "qualidade de disposição" dele?

    Se for assim, então talvez essa disposição, no caso do propositor que lida com crianças, seja uma disposição para propor sem apegar-se às expectativas de resposta, permanecendo aberto para acolher o que o protagonismo da criança.

    Tá, mas… Marina, eu pergunto: como fica a arte como lugar em tudo isso?
    A arte como lugar é o terceiro espaço (um dos?)
    A guerra de maçãs é o terremoto da arte como lugar? O vulcão?

    Acho que é isso.
    Grata por acolherem a minha bagunça
    (bagunça de brinquedos já dados).

    • agachamento
      8 de maio de 2020 at 20:45

      sim sim sim bora brincá!
      to meio sintonizando no prazer de comer as maçãs (rs, respondendo-sem-responder sobre o terremoto e o vulcão) (mas que bom que vc lembrou que a postagem 1 é um trecho do texto Guerra de maçãs, desdobrando-se nas outras postagens)
      porque para pensar na proposta espiral, precisamos sim de PESQUISA DE LINGUAGEM! mas tomando “linguagem” como modos de dizer
      dizer poético, não instrutivo; dizer poético, mas não necessariamente erudito — embora obviamente a vertente erudita é um dos mundos possíveis —
      dizer poético, porque criativo, transformador, em movimento: mas isso não precisa ser genial! precisa apenas SER
      SER e ESTAR no mundo, entremundos, todos os Raimundos
      um grau de simplicidade
      silêncio significativo…
      nosso grupo remoto tá massa, gente
      agradeço demais quem ta vindo
      Marina

    • Luciana Cezário
      11 de maio de 2020 at 11:19

      OI Thaise!
      tem algo que vc escreveu que achei de uma beleza…!:

      “Há alguns conceitos, inclusive (“mundo possível” é um deles) que eu preciso sentir para entender. E, se levarmos isso no limite, junto com o que propõe o texto, para nascer um conceito é preciso que nasça um mundo”.

      Marina, fiquei pensando se talvez resida aqui a ideia de algo que é compreensivo em contraposição ao que é explicativo… as teorias compreensivas seriam as que precisam ser sentidas?

      Pergunto isso com muitas ressalvas porque, né, já falamos que há uma falsa dicotomia entre pensar e sentir… mas pensando que: a) somos ensinados a pensar pensar pensar e abafar o sentir; b) Boal já dizia que sofremos de atrofia estética, sendo esteta “aquele que sente”… existe, em nossa sociedade uma polarização que é vivida por nós de algum modo…

      não sei se consegui me explicar!

      Abçs! Lu (já somos íntimas, rsrs)

      7 – ___ = 3

      • agachamento
        11 de maio de 2020 at 14:41

        Lu
        Sim, a compreensão, que se resumiria de modo rude por responder à pergunta “Como?”, nos levaria a uma atitude que procura ver-sentir-olhar-pensar o mundo e o outro em sua lógica, racional-e-afetiva
        Aprendi com alguns estudiosos da fenomenologia que mais vale trabalhar com “noções” do que com “conceitos”… do ponto de vista deles, a palavra “noção” é menos fechada e mais maleável, porosa para o novo, o inusitado, o ainda não pensado…
        Por isso mesmo em um outro comentário meu eu disse “sim” para a “pesquisa de linguagem”= mas querendo tomar por linguagem as palavras e suas possibilidades e impossibilidades, expressivas, comunicativas
        Arte como âmbito já propõe o habitar e estar-com
        Proponho aos poucos irmos nos des-ocupando da maneira tradicional de pensar, até, talvez, não necessitarmos mais ir trabalhando por oposições
        [entre um sistema e outro, por exemplo]
        bjs e boa semana para todos
        Marina
        p.s.: Lu, observe um detalhe — como vc terminou seu texto/postagem/comentário: conectada com a explicação…

  6. Mayron Engel
    8 de maio de 2020 at 12:33

    Pensar o mundo com palavras sempre será uma tarefa difícil, pois cada ser carrega em si um mundo, o seu modo de ver o mundo. Dentro dessa concepção me lembro de algumas referências, fora do mundo acadêmico, mas que conversam com o tema, ontem escutando um disco de rap de Brasília (Rataria Popular Brasileira) colocam as rádios e academia no mesmo lugar, no sentido de controlar a criatividade, eu diria manipular, as rádios controlam o que toca ou não, partindo do princípio de quem paga não por uma avaliação de qualidade, a academia como dizem em um verso “escola de plágios”, controlando as citações, formatos de pesquisas, com o principio de quem você segue ao invés do que você pensa.
    Nunca será uma questão simples está da validação do saber e não é a minha intenção aprofundar nessa questão. Voltando aos mundos possíveis…
    Ouço rap desde muito pequeno, nas ruas do meu bairro e hoje nas corridas matinais, uma percepção que tive logo quando entrei na adolescência é que eles sempre se utilizavam das vivencias para fazerem suas rimas, um saber existencial tão forte pra mim que na época não entendia como alguns dos meus amigos cantavam as rimas como se fossem suas, mas hoje entendo, temos essa capacidade de invadir possíveis mundos criados.
    Que se crie cada vez mais mundos possíveis. Ainda mais valendo desse mundo que estamos vivendo agora, com vírus para todo lado, no ar, na política, nos alimentos, na convivência, causando uma devastação nas possíveis manifestações saudáveis. Término com uma música do Renato Russo:
    “Se o mundo é mesmo
    Parecido com o que vejo
    Prefiro acreditar
    No mundo do meu jeito
    E você estava esperando voar
    Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?

    • agachamento
      8 de maio de 2020 at 20:31

      Oi Mayron, olá a todos
      Sim… tem o nosso mundo, a nossa leitura de mundo….. mas tem o “mundo circundante”, o “mundo compartilhado”!
      A arte assim não é visão particular de mundos possíveis — a arte é entremundos, intramundos, extramundos… intercâmbio, conversa, discussão…
      Nera?
      Acho muito importante frisar isso, para sair de um dizer do tipo “cada um, cada um”, que gera individualismo e ilhas.
      Abraços
      agradecendo sempre sua presença
      Marina

  7. Alice Vieira
    11 de maio de 2020 at 16:24

    Eiee!!!
    Sinto a arte como uma espécie de lugar, mas não moro lá o tempo todo. Olhando de fora para dentro deste outro lugar, me estranho e penso que menti, ou melhor, ficcionalizei. Quando estou lá, habito, percebo que o que estou criando é o que tenho de mais verdadeiro em mim. Me assusto ao mesmo tempo que me conheço. “Isso sou eu?” Às vezes nego a minha criatura, às vezes penso que a surpresa vem do novo, de uma descoberta sobre mim. Só sinto isso através da arte.
    Acho louco quando as pessoas se identificam com as minhas ficções ou com coisas muito abstratas que imaginei. Me faz pensar que este “lugar” existe… Que eu inaugurei um pequeno mundo partindo das minhas experiências. Um lugar dentro de outro lugar onde o público topa habitar comigo. Aí fico pensando nos que acreditam que a arte partindo de nós fica ensimesmada… Será? Criar poeticamente também me faz ter uma maior noção de como estou participando/sentindo os acontecimentos e o outro na vida. Mas me comunico melhor através da materialização do que imagino, através do “dizer poético”.
    Quando estou criando, sempre me sinto uma criança brincando, a grande diferença é que hoje fico tentando analisar este “saber”, também por causa da profissão de artista. Mas basta a experiência de imaginar… Né?

    • agachamento
      11 de maio de 2020 at 17:18

      oi Alice!
      ah ficou um pouco confuso ce dizer “a arte partindo de nós fica ensimesmada” = querendo dizer, pelo que eu entendi, a arte a partir de “si mesmo” é isso?
      a palavra “ensimesmada” acho que pode ser cavocada, para entendermos… “eu mesmado”, mais do mesmo, algo umbilical e autoreferente… isso é mesmo chato, do meu gosto e ponto de vista… mas a arte como depoimento é outra chave!
      mesmo porque, por vezes, um teatro de montagem, com textos clássicos, produção e tudo o mais, também pode em / si / mesmar!
      agora, se basta o imaginar… resta um problema humano, demasiadamente humano: como eu pago as contas?
      rs
      dilemas da radicalidade de propostas de arte-e-vida!
      bjs
      e obrigada por vir aqui
      Marina

  8. Alice Vieira
    11 de maio de 2020 at 18:03

    Sim. Quis dizer “a arte a partir de “si mesmo”.

    Obrigada!!! Agora eu tô entendo melhor…. Concordo com cê!

    Um abraço grande, Marina!

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