Se eu morresse amanhã / Postagem 3 para um Grupo de Amizade

Grupo de amizade / Postagem 3

Sobre ser apresentado ao mundo compartilhado em pequenas doses

Neste terceiro texto, gostaria de instigar o leitor do site-blog Agachamento a conhecer o psicanalista Donald Woods Winnicott, nascido em 1896 e falecido em 1971. Sei de antemão que para alguns, pensar na obra, na teoria e nas práticas de um homem, branco, europeu e nascido na Inglaterra de 1896, ou seja, nascido nos últimos anos do século dezoito, pode ser desinteressante… Mas eu garanto que vale a pena: Winnicott é genial, tem um estilo de escrita leve, que parte da observação de crianças, especialmente os bebês, e as  relações entre mães e bebês (ou “figuras maternas”) e constrói, durante muitos anos de prática e estudo, uma teoria da criatividade.

Por que precisaríamos de uma teoria da criatividade?

Exatamente para termos moeda de troca com nosso empregador, com a coordenadora pedagógica, com o “diretor de eventos”… Para ter como situar, por exemplo, um pensamento sobre ensino de arte que não se obriga a fazer apresentações finais como “objetivo maior” das práticas artísticas. Sim, a leitura de um teórico inglês pode ser um facilitador. Aliás, ele tem um conceito importantíssimo que é o

ambiente facilitador.

E era sobre isso que eu falava na postagem anterior! Algo que os objetivistas gostam de nomear por “o papel do adulto”. Os subjetivistas poderiam responder: é a amorosidade nas relações com os outros, na relação com seu trabalho, na sua relação com a profissão escolhida…

Winnicott não é nem isto nem aquilo: nem racionalista, nem idealista; ele fala de um terceiro modo de funcionar. Ele habita, ele mora no terceiro modo. E sua teoria da criatividade é justamente baseada neste “entre”—que ele nomeia por “terceiro espaço”,  “espaço potencial”, e até mesmo, por vezes, ele diz: “área de consolo”… Ao falar sobre caixas e papelão, na postagem anterior, eu tinha Winnicott, o espaço potencial e suas proposições sobre a criatividade como pano de fundo. Como estrela guia.

Trazer teorias que fazem sentido para nós para o pano de fundo, para a coxia, para os figurinos, para a trilha sonora! Isso dá densidade ao nosso planejamento, ao nosso discurso frente ao outro adulto (professor de outro campo de conhecimento, coordenador pedagógico, diretor, comunidade de pais…), “justifica” o planejamento em arte que vai falar sobre o nada e o vazio, como palavras fundamentais da arte contemporânea. Teorias e palavras das quais nos apropriamos são armas flower power – armas do poder da flor.

Obviamente o mais saudável seria não precisar ficar justificando nada... ah, justificando o Nada, e o Vazio, como temáticas, por exemplo. Mas a vida profissional é complexa e feita de uma trama de relações, e as relações estão carregadas por aquilo que nomeou-se poder. Foucault nos ensinou que o saber é um poder.

Saber mais sobre arte e artistas; saber mais sobre as crianças e os jovens, sem ser pelos livros (mas pelos livros também – só tome cuidado com os livros de receita!); saber mais sobre si mesmo: o que é teatro, artes visuais, dança e música para você? O que você estudou, estuda e quer estudar?

Insisto no verbo “estudar”. A arte como técnica usa o termo “praticar”; a arte como “tirar o menino da rua” usa o termo “apresentar”... Se usarmos o verbo “estudar”, chegamos a uma justificativa possível para segurar a ânsia do empregador e da comunidade de pais por apresentações: as crianças estão estudando. Estão fazendo seus projetos. Estão construindo as casas pra morar... de modo brincante, de modo simbólico, de modo afetivo, de modo imaginativo. E as casas pertencem a elas, não são dos adultos desejosos de visibilidades.

Então podemos também ter argumentos sobre um trabalho invisível. Porque a imaginação humana é invisível (ah, o Corona Vírus também rs). Faço a piadinha para lembrar o leitor do nosso contexto atual mas também para falar sobre a tensão que podemos viver com pessoas que vivem no “ver pra crer”. O trabalho invisível, para eles, não é trabalho, e seria injustificável – nos planejamentos, nas reuniões de professores, nas reuniões de pais...

Fui casada com um pintor que por vezes, como parte de seu trabalho, deitava em uma rede para ouvir música, ou ainda, para devanear: sim, ele estava trabalhando. Quem quiser uma prova disso observe um painel grande, uma pintura labiríntica que fica na Estação Barra Funda – a única obra de todas as obras de arte do metrô de São Paulo que fica na plataforma, junto com a multidão. (Está um pouco sofridinha, mas foi escolha dele, e foi autorizado que fosse assim: uma pintura sem cordinhas, sem caixa de vidro para protegê-la).

meditações labirínticas

o artista Valdir Sarubbi nomeou este painel por Meditações Labirínticas

Nesses tempos do confinamento eu tenho certeza que alguns pais, talvez até mesmo muitos pais e mães, gostariam de ter filhos que soubessem não fazer nada. Pensar. Sonhar acordado. Lembrar. Imaginar.

Na contramão dessa linha tem outra, muito forte, que acha que criança e jovem “não fazendo nada” tem ideia. Tem ideia ruim, deixa o mau chegar. Isso é extremamente arraigado, eu vejo esse tipo de dizer especialmente em pessoas com crenças religiosas: como se o diabo (que mora ao lado) estivesse esperando uma criança e um jovem à toa para possuir...!?

Voltando à noção de mundo compartilhado e ambiente facilitador, elas estão atreladas a uma atitude adulta –

foto de Mariana Goulart

foto de Mariana Goulart

tenho chamado essa atitude de “agachamento” (misturei Winnicott, Paulo Freire, cultura indígena e exercícios rs) e Winnicott tem imagens bonitas para falar dela. Uma das mais interessantes é a “apresentação do mundo em pequenas doses”. Ele pensa ser esse o papel do adulto, do adulto “suficientemente bom” (outra noção winnicottiana). “Suficientemente bom” é a tradução para o português da expressão “good enough”, e com ela Winnicott quis dizer – e diz, literalmente: nem ruim, nem perfeita. Ser um adulto ruim é obviamente ser descuidado, abusador, intruso, violento, arbitrário, etc; ser perfeito é não querer nunca que a criança viva tristezas ou frustrações, que a comida esteja sempre ali, que banho e brinquedo e diversão sejam propiciados sempre, e de modo que a criança não precise se esforçar... isso é péssimo.

Freud nos ensina que educar é impossível: ou seja, querer ser um pai ou uma mãe, uma professora ou um tutor perfeitos, é trazer para a relação uma expectativa na qual o adulto será um tipo de deus onipresente e onisciente. Isso tira da criança a chance de estar só e de ir se virando um pouco, e, aos poucos, poder ter intimidade e capacidade para... devaneios. Sim, é para “ter ideia”.

Uma criança monitorada o tempo todo vai sempre perguntar: “O que é pra fazer?”

No outro polo pode estar um adulto que acredita que a criança precisaria escolher, o tempo todo, e que isso seria uma “gestão democrática”. Para esse perfil recomendo muito a leitura de Hannah Arendt; ela tem um texto clássico que comenta a educação nos Estados Unidos, em um determinado momento histórico onde ser progressista era acreditar numa espécie de autogestão de crianças. Ou uma espécie de República das Crianças... seria uma utopia de alguns educadores. Ela faz uma crítica forte, contundente, a esse modelo, pois em seu ponto de vista a criança precisa sim de graus de tutela. No entanto vimos coisas impressionantes de autogestão, saudável, criativa, interessante nas ocupações das escolas, como relatadas no livro Escolas de Luta – mas aqui estou falando de crianças menores, digamos assim que falo das crianças em seus dez primeiros anos de vida.

Aliás a autonomia vai ser, com certeza, a palavra mais polêmica pós-pandemia.

O que o campo de conhecimento nas artes terá a dizer sobre isso?

Artistas educadores, professores artistas, uni-vos! Para ter discursividade progressista e representatividade em um Novo Mundo, que já está sendo desenhado.

Estão prestando atenção nas propagandas do Itaú, Santander e Bradesco, agora “unidos”??

 

 

25 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 3 para um Grupo de Amizade

  1. Thaíse
    20 de abril de 2020 at 12:01

    Olá. Aqui estou.

    Tive muito gosto de ler esse post, e me senti “contemplada”.

    Eu tenho achado interessante observar o quanto posso ver em seu pensamento, e nas teorias que te dão apoio/sustento/impulso, muitas relações com o que eu vim estudando nos últimos anos, que é a metodologia de pesquisa pós-qualitativa, o pesquisador-docente-criador… Ainda que não sejam os mesmos objetos, e nem as mesmas metodologias/correntes filosóficas, elas se encontram de modo positivo e vibrante em vários aspectos. Vou seguir pensando sobre isso enquanto trabalho aqui no meu livrinho, e volto a comentar.

    Ainda sobre “fazer nada”, tem um livrinho gostoso que se chama “A inutilidade do inútil”. É um livro de “divulgação filosófica”, quase auto ajuda. Vou copiar aqui uma passagem, que na verdade é uma citação do Ionesco, e que acho que está bem relacionada com o que temos vivido como sociedade:

    “Se não se compreende a utilidade do inútil, e a inutilidade do útil, não se compreende a arte; um país que não compreende a arte é um país de escravos ou de robôs, um país de pessoas infelizes, de pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito; onde não há humor, não há riso, há colera e ódio”

    E, como você bem sugere, é na infância que essa percepção maquinal e utilitária da existência tende a ser iniciada, tanto por figuras maternas, quanto por projetos escolares.

    • agachamento
      20 de abril de 2020 at 13:26

      oie
      que bom que te… contemplei! rs, vc também me contempla, vindo conversar
      para “esclarecer” aos nossos amigos, colegas de estudo remoto, e leitores do Agachamento — dei um google e achei o livro, que de fato chama A utilidade do inútil (ce escreveu sem querer “inutilidade” rs) e o autor se chama Abraham Flexner; o livro em português é editado pela Zahar.
      Ah, essa foi mais uma dica para vocês baterem na porta da Coordenação com livros, teorias, planejamentos e mais… nada
      to bem feliz com esse Grupo de Amizade
      bjs
      da Marina
      p.s.: a passagem do livro escolhida pela Thaise…… a cara do Brasil da carreata de domingo, hein?

      • Luciana Cezário
        22 de abril de 2020 at 17:26

        Sim! A cara da extrema direita nesse nosso mundo adoecido….

  2. PRISCILLA VILAS BOAS
    21 de abril de 2020 at 09:23

    Oi Marina! Quantos desafios teremos pós-pandemia… Quantos desafios estamos tendo agora…
    Nesse momento, na escola em que trabalho, a EMIA(Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo), estamos tendo o desafio de elaborar e compartilhar propostas para que as crianças estudem arte em casa. E nossa tentativa é justamente, por meio da utilização do espaço virtual para estabelecer contato com as crianças, incentivar que elas ocupem os espaços de suas casas de uma maneira criativa, brincante e sensível.
    Além disso, nos tempos atuais assim como sempre foi, é sim preciso provar que estudo da arte é algo benéfico, que precisa ser mantido, valorizado, fomentado. Mesmo e, talvez, principalmente, em situações de crise como essa que estamos vivendo.
    Então, esse texto é precioso no sentido de ajudar a nós artistas professores a encararmos os nossos desafios com coragem, perseverança e crença de que o que estamos fazendo é sim algo relevante. Nesses tempos de dificuldades como a que estamos passando, um texto como esse é, além de um convite à reflexão, um apoio emocional importante.

    • agachamento
      21 de abril de 2020 at 11:34

      Oi Priscilla, olá a todos
      “Atividades on line” pensadas num modo espiral! Parece um paradoxo, especialmente quando queremos a tal “presença”, no entanto tenho vivido situações muito bonitas e humanas via Skype. Amanhã de manhã eu vou defender um relatório escrito para ser promovida, no sistema de professores federais; e escolhi “performar”. Estou há dez dias ocupando a sala da minha casa e meu corpo-mente, meu psique-soma, com isso… Performar com três professoras espectadoras do outro lado da tela. Isso também é pesquisa contemporânea…!
      Fico curiosa com como as crianças estão recebendo as aulas, Priscilla! Se puder nos relate algo por aqui.
      Um abraço
      e forte apoio
      da Marina

  3. Mayron Engel
    21 de abril de 2020 at 10:55

    Penso que dos três textos esse é o mais provocativo, ao menos pra mim. A forma como escreve não parece o didatismo comum e nem o autoritarismo intelectual recorrente em nossas carreiras acadêmicas, mas de uma força cotidiano como flores que florescem pela estrada, que ao serem enxergadas, eu diria percebidas, nos trazem para uma realidade, faz nos voltarmos às coisas mesmas, ao início, a beleza.
    Estou aqui me perguntando quais são minhas bases científicas e limpando meus óculos para ver a margem do rio a minha frente.
    Obrigado Marina.

    • agachamento
      21 de abril de 2020 at 11:37

      De nada Mayron. Também quero agradecer seus “agachos”!!
      Fico feliz com sua sensação de provocação — provocação boa, né? Pois seus comentários são provocações devolvidas, recebidas, e vamos ver se dou conta de ir provocando mais e mais, sem feridas, nas próximas postagens. Segunda-feira tem mais!
      bom feriado
      Marina

  4. Luciana Cezário
    22 de abril de 2020 at 17:27

    oi Marina!
    foi a primeira vez que vi vc nomeando o trabalho do Winnicott como uma teoria da criatividade.  Fiquei pensando se ele seria um autor importante para pensarmos essas questões para todas as idades ou para os primeiros dez anos de vida… me conta o que vc acha?! sempre pensei nele como um teórico que vai falar da perspectiva da infância. mas colocando assim, teoria da criatividade, abrem-se as possibilidades né? A UBU (editora) está lançando uma edição para “Bebês e suas mães”, se alguém se interessar…

    Tb acho que nesse post vc contemplou algumas questões que eu trouxe no meu comentário da semana passada, sobre dificuldade, às vezes, de construir discursividade. Gosto do verbo estudar arte.

    E não compreendi, mas fiquei encucada:  “autonomia vai ser, com certeza, a palavra mais polêmica pós-pandemia”…pode falar mais sobre?

    • agachamento
      23 de abril de 2020 at 07:19

      bom dia Lu, bom dia a todos
      bom, eu digo que Winnicott pensou uma teoria da criatividade desde… desde… desde 1994, quando publiquei o livro do Brinquedo-sucata!! rs
      e sobre a autonomia: os pais e adultos cuidadores, depois da pandemia, ficarão “em nóia”: sobre onde estão as crianças, o que estão fazendo, se estão se sujando, se lavaram suas mãos e quantas vezes… o que se está anunciando é um período muito muito longo de cuidados e de prevenção, o que pode ser, para as crianças, sufocante, cerceador, e dificultador das experiências de autonomia: quando se poderá sair de casa? E mais ainda: “quando poderei sair de casa sozinho”?? Do meu ponto de vista a vida das crianças ainda vai sofrer muitas mudanças, pois haverá a ameaça da volta ao confinamento, e a restrições, por quase dois anos — essa a previsão dos infectologistas pelo mundo afora, até se inventar a vacina. Eles estão nos convidando a pensar “um novo normal”, tem visto isso?
      um abraço
      da Marina
      p.s.: o livro mais importante para compreender a teoria da criatividade de Winnicott é O brincar e a realidade, também recentemente re-lançado pela Editora UBU

      • Luciana Cezário
        24 de abril de 2020 at 11:48

        Oi!
        “bom, eu digo que Winnicott pensou uma teoria da criatividade desde… desde… desde 1994”
        HAHAHAHAHA
        Eu entendo o que vc quer dizer, rs, me lembrei de alguém que teria dito: “mas vc não facilita marina”, rsrsrs. tenho ouvido vc falar de Winnicott sim, desde que te conheci e já li Winnicott em seus textos… bem, não sei se comi mosca, se foi seu jeito enigmático de falar, rsrs, mas realmente a ideia “teoria da criatividade”, assim, dito desse jeito, me passou batida!

  5. Charles Valadares
    24 de abril de 2020 at 11:17

    Thaíse, antes de fazer meu comentário sobre o texto da Marina queria te dizer que tô adorando as suas dicas de leitura! rsrs! <3

    • Thaise
      7 de maio de 2020 at 12:35

      Obrigada pelo feedback, Charles! hahahaha
      Que bom poder conversar.
      <3

  6. Charles Valadares
    24 de abril de 2020 at 11:58

    Estou vindo comentar a postagem na sexta, porém tinha lido ela terça-feira.
    Cito isso para comentar o sonho que tive de quarta para quinta, pois sinto que havia “resto diurnos” da leitura que fiz e do que fiquei pensando. Rs!

    Sonhei que eu dava aula de Teatro em uma escola.
    Era Teatro para crianças. Tinha uma sala imensa.
    O “caldo” do encontro era brincar de faz de conta a partir de uma grande narrativa vivido junto às crianças. Em determinado momento uma criança machucou, levou um tombo entre uma corrida e outra. Após o fato os pais foram até a escola e a direção marcou uma conversa comigo. O mais forte do sonho era esta conversa onde eu me recordo mais da sensação do que das palavras ditas. Lembro que havia em mim uma coragem para saber defender meu ponto de vista, os motivos que me levaram a fazer a aula tal como foi. Lembro que minha discursividade foi contagiando a mãe e o pai que me ouviam de tal maneira que começamos a rir juntos. Rs!

    O celular despertou.

    Acordei com aquela sensação de querer continuar no sonho, pois eu tinha mais coisa para falar.

    Já passei por algo parecido na vida vivida. Quando comecei a dar aula de teatro para crianças. Foi em uma Escola particular, localizada em bairro de classe média alta de BH, onde até a grama do quintal das crianças era artificial. Lembro que não me saí confortável da conversa, pois me falta saber argumentar (faltava também alguns anos de maturidade :)

    Bom, dito isso tudo… queria comentar sobre essa virada de chave que vivi nos últimos tempos, que tem a ver com a elaboração do meu discurso e da compreensão do meu saber , aliado à leituras e reflexões vividas.

    Também gosto muito do verbo “estudar” e é o que tem me dado gás para passar por essa pandemia de maneira mais saudável (sem me manter alienado ao que tem acontecido). Por vezes sei que muitos amigos e amigas estão com dificuldade em concentrar para ler ou escrever. Não está sendo fácil! Reflito também sobre outras épocas que a humanidade viveu e que também não foram fáceis (acredito que até mais complexa do que o atual momento – o que não exclui o peso que é isso tudo para nós, os vivos). Essa reflexão tem me ajudado a fincar um pouco mais o pé no chão (sem tirar a cabeça totalmente das nuvens).

    Tenho ficado crítico também ao discurso de que “o mundo está acabando”. Geralmente vem acompanhado de um “então se está acabando não tem muito que fazer, ou o que mudar”. Desde que o mundo é mundo é ele está acabando, assim como nós estamos morrendo.

    Sobre essa morte deixo a Clarice Lispector dizer por mim, um encontro bonito e forte que vivi numa leitura recente do seu livro “A hora da estrela” (obra escrita por Clarice no ano de sua morte, quando já sabia que estava doente):

    “Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim, substituo o ato da morte por um símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca a boca na agonia do prazer que é morte. Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição”.

    • Luciana Cezário
      24 de abril de 2020 at 18:51

      Charles <3

    • agachamento
      24 de abril de 2020 at 20:35

      Viva Clarice!!
      Amei o sonho, Charles… mesmo em pandemia, seu inconsciente te levou de volta à escola! E no final, os pais também riram!!
      Eu não estou na sintonia do mundo acabando… to sintonizando com a expressão “o novo normal”.
      O convívio com vocês, aqui mesmo, nesse grupo de estudos remoto, já é para mim uma ação nessa direção.
      Estar vivo e morrer um pouco, ressuscitar, re-suscitar: pesquisar a coisa mais inusitada, mas que talvez foi o que o Jorge Dubatti chamou de tecnovívio: amorosidade e troca, virtuais.
      agradecendo a todos
      Marina

  7. agachamento
    24 de abril de 2020 at 20:54

    obrigada pelas dicas, Lu!
    seguimos!

  8. Charles Valadares
    24 de abril de 2020 at 22:00

    “A história da eternidade” <3

    Amo esse filme, lu!

    Amo a cena que o tio canta e dança Secos e Molhados!

    E essa cena do mar me inspirou muito…!

    • agachamento
      25 de abril de 2020 at 08:16

      Oi gente
      Apenas dando as referências do filme: A história da eternidade, 2015, filme brasileiro dirigido por Camilo Cavalcante
      Vou ver neste finde
      (para o qual precisamos sim de coisa boa pra ver, ouvir, sentir, praticar… viva o cinema!)
      Marina

    • Luciana Cezário
      27 de abril de 2020 at 15:29

      Nossa, acho que são as duas cenas mais lindas do filme e talvez estejam entre as mais lindas da história do cinema… tem uma outra tb, mas não to querendo dar tanto spoiler, rsrs

      Sim, seguimos!

  9. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    27 de abril de 2020 at 11:12

    Postagem 3 Marina

    Teoria da criatividade

    Sobre a postagem 3…
    Penso que minha felicidade está relacionada a autonomia, sobretudo, no que tange a possibilidade criativa, inventiva e autoral. Eu – gestor de minhas próprias leis. Esse seria uma parte de meu “espaço potencial” (imaginando o que seria isso, pois estou conhecendo Winnicott agora com seus textos) momento em que evoco a relação entre o que é meu e os referenciais que possuo em minha memória corporal.

    A cada momento em minha vida invento de criar novas forma de fomentar meu viver, porque gosto da novidade, daquilo que se apresenta enquanto novo em minha experiência de viver. Agora, em tempos de quarentena cismei de se cozinheiro, então, eu sou um cozinheiro, e todos os dias faço escolhas possíveis para novos sabores, gostos, etc. Acho que a comida feita por uma pessoa transmite muito da identidade e personalidade da mesma, talvez seja isso que tanto minha avó quanto minha mãe chamam de cozinhar com amor. Sinto que me expresso em meu tempero e maneira de fazer um prato e que parte de mim é refletida nesse ato de cozinhar. Estou inventando um novo saber em minha experiência corporal que, até então, estava adormecido.

    Quando crio uma nova coisa em minha vida, seja um texto, uma performance, um novo jeito de pensar algo, uma comida, etc, essa atitude me faz feliz!
    Creio na importância de se ter uma teoria da criatividade, pois, observo muita coisa no mundo inibindo o ato de criar, inibindo felicidades…inibindo…inibindo…inibindo…

    • agachamento
      27 de abril de 2020 at 13:29

      Olá Rodrigo
      Fico muito feliz em poder introduzir Winnicott nas suas leituras e interesses… podemos conversar mais sobre isso, se quiser.
      Um detalhe: o espaço potencial é, necessariamente, relacional; exemplo: cozinhar E comer junto; ter autonomia “criativa, inventiva e autoral” E ser assistido, lido, ouvido… senão corremos o risco de ficar presos a um tipo de estética solitária, auto-referente e “tradicional”, por assim dizer — na qual o espectador, o Outro, é passivo e “usufrui” da obra, mas não dialoga, nem transforma (a obra, o criador, e a si mesmo). A transformação relacional põe a arte em movimento, aproximando-a da vida. Para saber mais sugiro ler o livro Estética Relacional, de Nicolas Bourriaud (selo Martins, 2009). Ele não fala estrito senso sobre a obra do Winnicott, mas usa termos chave do autor e há muitas entrelinhas na direção da psicanálise.
      um abraço
      da Marina
      p.s.: sim……… haja inibição!

      • RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
        4 de maio de 2020 at 12:32

        Já gostei, vou ler sim, pois me faço e me desfaço na relação com os outros…como agora nessa conversa aqui, (alteridades…)

        Obrigado pela dica.

        Outro abraço,

        Rodrigo

        • agachamento
          4 de maio de 2020 at 12:54

          ah a postagem n.6, da próxima segunda-feira, vai conversar diretamente com o livro e com o debate das “estéticas relacionais”
          obrigada por estar aqui
          Marina

  10. Alice Vieira
    2 de maio de 2020 at 23:14

    “Você tem filho?” Essa pergunta veio num momento de insegurança em que eu sentia que meu trabalho com teatro estava sendo questionado pelos chefes. Por não entender o teatro na escola ou por não aprovar meu trabalho dentro daquela estrutura, a chefe questiona a minha habilidade materna. Sinto sinceramente que esse questionamento (que considero uma construção social machista) não tem a ver com a criatividade nas propostas com as crianças, mas com “saber controlar a turma”, manter 40 alunxs bem comportados e produzindo suas pecinhas com data marcada para apresentação. Mas se “mãe”, ao menos, fosse pensada na escola como a mulher que mostra o mundo e ajuda a criá-lo, que dá autonomia, que acolhe, que inaugura experiências imaginativas e ajuda a criança a se sentir importante no mundo? Aí quem sabe o teatro na escola teria mais proximidade com a mãe “suficientemente boa” e talvez o teatro fosse mais bem quisto e eu me sentisse uma professora melhor, mesmo não sendo mãe. Rs Tomara que nesta quarentena com mais liberdade para se propor o “vazio” por exemplo, fora do ambiente limitador de algumas escolas, os filhos estejam criando e imaginando muito.

    • agachamento
      3 de maio de 2020 at 09:20

      Ah, e o pior: é uma espécie de “bullying” entre mulheres, esse papo de “Você tem filho?”…
      No pensamento do Winnicott, não precisamos ser pais para compreender as crianças; ele trabalha com as expressões que, em português, foram traduzidas por “maternagem” e “função materna”: qualquer adulto implicado na educação e cuidado das crianças está experienciando “maternagem”.
      Estou acompanhando matérias na TV aberta sobre os “tipos de maternagem” da quarentena… e vi por enquanto dois polos: pais que organizaram a agenda, ou seja, o dia é todo compartimentadinho com hora disso, hora daquilo; e os pais que “liberaram geral” (vi apenas duas matérias nessa chave) e a sala por exemplo se parecia com uma sala de filminho de detetive quando entram ladrões que remexem tudo… Talvez o caminho que nos ajudasse, como professores de teatro, fosse “nem tanto o céu, nem tanto a terra”: os certinhos em suas agendas provavelmente são aqueles que quererão fazer o teatro de montagem, e eles vão fazer — e serão Peter Pan e Cindy, algo assim; os muito bagunçados também não vão nos ajudar, porque eles vão querer jogos motores, rs, por assim dizer: subir, descer, pular, gritar, rolar no chão… ótimo para o início da aula, o famigerado “aquecimento”, mas depois… depois… putz, num tem depois, pois a aula regular nas escolas dura apenas 50 minutos.
      Então, voltando ao Winnicott, precisamos de uma “terceira via”: um tipo de atitude que é de agenda e também bagunçada; uma suportabilidade boa do caos, mas com desejo definido, com contorno, com possiblidades de ficcionalizar tudo aquilo: criar, narrar, inventar, dialogar, congelar, ir ao chão, onde a criança está, teatralizar, e ser feliz… mesmo se o “tema” da aula for tudo o que (não)vivemos durante a pandemia.
      beijos pra vc Alice
      e obrigada pela presença aqui, e convivência virtual nestas semanas
      Marina
      p.s.: amei sua definição / compreensão da “mãe suficientemente boa”!

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