Se eu morresse amanhã / Postagem 2 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 2

 

Precisamos [falar sobre] não fazer nada

 

Não estamos comprometidos com isto ou aquilo. Como dizem os hindus: Neti Neti [Nem isso Nem aquilo]. Estamos comprometidos com o Nothing-in-between [nada no meio ou entre nada] – saibamos ou não. (Meu coração continua batendo sem que eu levante um dedo, esteja eu evitando o trânsito ou enchendo a pança. E o suor?)

 John Cage no livro De segunda a um ano (Rio de Janeiro: Cobogó, 2013)

 

Então aqui estou eu, no meu site-blog – antes, no meu computador escrevendo o segundo texto que eu gostaria que fosse “provocador” para cerca de vinte e duas pessoas que convidei para pensar junto comigo, junto com todos os leitores que passarão por aqui. Comecei escrevendo na quarta-feira, mas o pensar-junto iniciou-se na segunda-feira anterior, pela manhã. No final de semana eu pensei-separado, fiz um texto que procurou discutir algumas linhas que definiram arte em um artigo que publiquei em 2017.

Aos poucos vou percebendo um elo, que penso ser um tipo de busca por saúde: que a escrita de oito postagens seguidas pode ser o modo de traduzir uma disposição nesse tempo do Corona Vírus; compreender o que está acontecendo?, fugir da pandemia e adentrar o campo da Pedagogia do Teatro... à distância!?

Precisamos ficar isolados.

Daí, convido vinte e duas pessoas para estar/entrar comigo-no-meu-isolamento...

Pronto: começou algo, propus relação, em seguida tenho certa fome e desejo de “arte relacional”.

O ponto é: só será relacional se de fato alguém vier.

Meu primo, criança, teve uma festa de aniversário na qual “não foi ninguém”... eu era pequena também, e ouvia falar disso, e me confundia: eu não estava lá? Nem ele mesmo? Seus pais e o gato e suas irmãs??

O tema desta segunda postagem – confesso – é o vazio e o nada.

Super-contemporâneo.

Como você partiria do vazio para fazer um [não]planejamento para suas aulas de arte?

(Ah, e como seu coordenador reagiria a isso?)

Em teatro, a proposta precisaria de um bom espaço vazio. Mas quase nunca temos esta condição material (uma sala ampla, arejada, limpa, “chão bom” para os corpos entrarem e habitarem..!). Então eu não viro as costas e vou embora – mesmo porque ainda tenho que pagar minhas contas – eu crio outro vazio, eu proponho outra espacialidade:

imagem captada no site elo7

imagem captada no site elo7

Colecione caixas de sapato vazias. Diga a todos que precisa de caixas, vá a uma sapataria... Passe um tempo dedicado a isso (em teatro, chama-se pré-produção).

Em seguida leve as caixas: uma para cada criança ou jovem.

Sua proposta vai se iniciar por meio de “uma caixa de sapato vazia”.

Tem ar dentro.

Tem um não-sapato...

O que tem fora?

Como você ocuparia o “entre”? Visite a tampa da sua caixa de papelão...

Abra.

Feche.

Deixe entreaberta.

Ah... agora, hoje-em-dia, todos sabemos que os vírus são invisíveis:

Limpe sua caixa. Depois a suje com o lápis de cera. Sujar o papelão com lápis de cera é fazer um desenho sem formas. Você conseguiria?

(Estão percebendo como estou procurando conectar os campos filosófico, poético, contemporâneo, com o cotidiano de crianças e jovens e com a realidade possível em uma escola, e um professor de arte, e caixas coletadas na sapataria?)

A caixa de sapato vazia é o elo com o mundo compartilhado, com pensadores, com artistas. O vazio, o não-sapato, é a proposta de liberdade de criar – o que você pensa, planeja, pretende criar dentro dela?

Posso colocar uma música para ouvirem... sem letra, só sonoridade... ou então eu ponho pra tocar: é sempre bom lembrar / que um copo vazio / está cheio de ar...

Compreendem que nessa propositiva não estou chamando a faixa etária? Que qualquer pessoa entre um ano, um ano e meio de idade a cem anos pode receber uma caixa de sapatos vazia e fazer algo com ela? Ou ainda, melhor do que “fazer algo”... habitá-la imaginativamente!

“Fazer algo com ela”... não dirigido, não direcionado para, que não vem da cabeça do adulto, ou da “releitura” de algum artista pós-moderno que fez uma instalação com caixas de leite longa vida... Como e por que os adultos pressupõem que as crianças são páginas em branco, em termos de arte? Consideram que não possuem repertório anterior, que nada sabem, que precisam ser enciclopedizadas?

Se a arte é um lugar, a ocupação da caixa de papel vazia é a proposta -- simples assim.

Mas é preciso fazer isso – trabalhar, veicular – como adulto, com crença e tesão! Crença na capacidade imaginativa das crianças e jovens, e tesão em ter coletado as caixas, em estar propondo algo que virá deles...

Prepare, então, um entorno: música, velas, projeto de luz; massinha ou argila; papéis já cortadinhos e cola branca... possibilidades: “um entorno”. Você não dirá como usar, nem o que é pra fazer. Você estará presente [estar-com] oferecendo coisas do mundo.

Não dizer o que é pra fazer; ser; ter, em sua corporalidade, crença e tesão: crença na criança e sua criação, tesão na preparação do entorno; e assim o nada será vivido, completado, preenchido por outras pessoalidades, que não você. Vira tudo. Entre tudo e nada tem as ideias, a troca, o inusitado. A surpresa. Um tipo de alegria da criação (mesmo que com minha caixa eu faça um caixão para minha vó, que morreu de Covid 19).

Assim, aquilo que eu estou chamando, em meus escritos, de âmbito – âmbito artístico-existencial – não é a caixa de papelão nem a música que vou por pra tocar. Os âmbitos estão nas ideias trocadas, exercidas, corporeificadas, materializadas, entre eu e você, entre o artista professor e seus alunos. A isso a geografia cultural chamou de “espacializar imaginações”!(Leiam Doreen Massey). Eu tenho gosto por chamar de climas e atmosferas. Winnicott  por sua vez chama de “terceiro espaço”. Os japoneses chamam de espacialidade [MA].

EMIA-2006 corpo encarnado

acontecia em aulas na EMIA (2006)

Mais ou menos por isso tudo, e por esse nada, que quero muito que essas oito postagens, que somarão dois meses, tenham maior interação com seus comentários... entendem? Pra que a coisa ande, que a coisa mude, que a coisa circule. A coisa seria definida por parar de se fixar na definição “arte como linguagem” e tentar outra via... Caminhar pelo caminho menos percorrido... Caminho sem livro didático pronto, sem lista de material cara, experimentando um modo de andar que não se obriga a coreografia nem usa figurino...

Tudo é caixa de papelão vazia, cheia das ideias dos meninos e meninas.

Você arriscaria?

28 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 2 para um Grupo de Amizade

  1. Rodrigo Antero
    13 de abril de 2020 at 21:47

    Chegando atrasado, mas como marinheiro de primeira viagem só agora compreendi que seria por aqui no blog em conversa com Adélia.

    Hoje li algo em um artigo intitulado: “Quando as imagens tocam o real” de Georges Didi-Huberman que me remeteu agora esse trecho sobre a definição de arte.
    O trecho que está na página 208 desse artigo, diz assim:

    É o que fazia Goethe dizer: “A Arte é o meio mais seguro tanto de alienar-se do mundo como de penetrar nele”. É o que fazia Baudelaire dizer que a imaginação é essa faculdade “que primeiro percebe (…) as relações íntimas e secretas das coisas, as correspondências e as analogias, [de maneira] que um sábio sem imaginação é apenas um falso sábio, ou pelo menos um sábio incompleto”.

    Achei isso tão significativo, pois a arte para mim tem esse caráter muito pessoal de como eu me coloco no mundo, modo, possível… Sobretudo, porque a maneira que compreendo a arte em mim se dá através e pelo meu corpo. Esse corpo que percebo enquanto casa, uma morada do meu ser. Esse corpo é como um canal de trocas com o ambiente entre o meu ser de dentro e o meu ser de fora. Uma casa onde habita o meu eu…

    A infância tem uma importância fundamental para o meu eu, nesse meu estar no mundo e por vários momentos atuais me sinto criança, pois a imaginação e a inventividade são as formas e estratégias que muitas vezes encontro para me comunicar e me relacionar.

    Gosto da solitude… e nem sempre me sinto triste quando estou só. Muito pelo contrário, me faz bem essa possibilidade de ficar comigo mesmo. Quando eu era criança brincava muito sozinho, e muitas vezes isso era uma escolha consciente. Pois, muitas vezes quando vinham um coleguinha brincar comigo eu pedia minha mãe para inventar desculpas para eu poder brincar sozinho. Eu preferia criar meus: “como se fosse…” sozinho e não tinha problemas com isto. Digo isso, porque acredito que a infância me constituiu enquanto sujeito, ela é uma parte nevrálgica da minha história, e de como me enxergo enquanto homem negro e homossexual hoje.

    E mesmo tendo tão pouca ligação com esse universo da arte, eu já fazia arte… Inconscientemente ela a arte já estava em mim… e no meu modo mundo possível de viver. Para mim arte e vida se esbarram constantemente…

    – A arte não salva e ela não é necessária para todes. Sinto muito, mas tenho de dizer isso! Em uma determinada situação da graduação disse isso e tive muitos (as) colegas revoltados (as) comigo.

    Enfim, não consigo pensar a arte como algo universal. Então, provavelmente, muitas crianças não vão gostar de arte, muitos adolescentes, adultos e idosos também não gostam e nem vão gostar, e por mim tudo bem. Sem problemas com isso, tudo é ok! A arte enquanto instituição adestradora de ideias para mim escorrega pela contra mão de sua própria essência.
    O importante para mim é compreender o desejo e a significância de algo na própria vida, existência. Enquanto artista e professor de arte me sinto como um provocador, tento me colocar em uma situação de escuta e a partir de minha sensibilidade provocar um acontecimento, uma experiência. Se posso chamar isso de arte, também: não sei… porém são tentativas incomensuráveis… tentativas de diálogos perceptíveis…

    • agachamento
      13 de abril de 2020 at 22:57

      Olá Rodrigo
      Não ta atrasado não… chegou na hora, em boa hora
      Concordo que a arte não é “um universal”… mas a vida é, e quando aproximamos arte-e-vida, de um modo simples mas imbricado, então paradoxalmente arte é para todos… não é?
      E as caixas de papelão?? Te dizem algo?
      abraços e boa noite
      Marina

  2. Thaíse
    16 de abril de 2020 at 16:07

    O post é uma caixa de papelão vazia.
    Eu me proponh, agora, a vestir a tampa que ele tem.

    Aqui embaixo, me assalta a lembrança de um tal vazio-pleno, conhecido num texto que li quando estava no mestrado, sobre uma obra que eu nunca tinha visto: (não por acaso,) as práticas relacionais de Lygia Clark.

    Eu saía de Campinas, às cinco da tarde, a caminho de São Paulo. Estava num ônibus da Viação Cometa, os modelos antigos, com poltronas de couro vermelho e estilosas janelinhas que podiam ser abertas. Na estrada, a quantidade de carros se multiplicava, diminuindo progressivamente a nossa possibilidade de avanço no espaço, e foi assim que saquei da bolsa o texto, como muleta para suportar a dolorosa duração que viria. Da ansiedade para atingir meu ponto de destino, transitei para uma imersão emocionada no escrito, que preenchia de sentido esse entre-momento, meio não-lugar, que é a viagem de ônibus (engarrafada).

    Acho que, naquele quandonde, vivi um insght.

    Por conta do vazio-pleno de Lygia Clark, fui em busca de práticas de meditação. Comecei a meditar em um grupo zen-budista, totalmente ao acaso. O ritual de meditação praticado nesse grupo contemplava algumas preces iniciais, rápidas; 45 minutos de meditação sentada, de frente para a parede; 10 minutos de meditação caminhando – sendo que o caminhar é bem específico, coreografado; e mais alguns minutos de meditação sentada, seguida de preces breves de finalização.

    Repetindo essa dinâmica por inúmeras vezes, resistindo e insistindo na busca do tal vazio-pleno, acabei por ver totalmente modificada a minha relação com a disciplina. Percebi que minha vida desregrada, ansiosa, dormindo tarde e acordando muito tarde, não me promovia mais liberdade, mas ao contrário: eu era refém de uma série de instintos e emoções que eu sequer sabia nomear. Por outro lado, sentar por x tempo, andar por y, sentar por mais um pouquinho, sempre isso – ali, eu me sentia livre.

    Durante a primeira infância, pelo que pude saber até hoje, uma criança vive o tempo e o espaço de forma não-estruturada, não formalizada, e como continuuns de si. Antes de encontrar a meditação, parece-me que eu estava vivendo de modo um pouco parecido com uma criança. Isso me gerava sofrimento. A auto-imposição de restrições me foi muito benéfica.

    Conforme as crianças vão amadurecendo, natureza e cultura se articulam para que ela possa distinguir-se do mundo, e progressivamente a vida em sociedade impõe a ela uma série de restrições que formatam seu pensar, sentir e agir. Esse processo tem resultados tanto benéficos – como a inserção na linguagem, que é uma condição de sobrevivência no contexto em que estamos inseridos – como maléficas – dentre as quais eu destacaria a fixação na linguagem, uma espécie de neurose do perceber. A tendência praticada em nossa cultura vai no rumo da fixidez das formas, da excessiva racionalização, da valorização da cultura em detrimento da natureza.

    Para as duas situações, caixas de sapatos vazias podem ser boas opções. A caixa de sapatos vazia, assim como a rotina da meditação, não é um uniforme rígido; ela não é a norma, mas sim é o contorno que possibilita o vazio-pleno. A caixa de sapatos vazia não é o absoluto oposto da disciplina rígida, porque certamente não é o desintegrar-se, mesclando-se ao todo (céus: seria a caixa de sapatos o corpo-sem-órgãos?), mas também não é o contenedor dos sapatos – dos tão-formados e previsíveis sapatos. Ela é a margem – que, embora não seja a água corrente, faz parte do rio.

    A exposição das obras de Lygia Clark co-curada pela psicanalista Suely Rolnik teve como subtítulo “Nós somos o molde. A você cabe o sopro.” A caixa de sapatos vazia é o que de “molde” pode-se ter numa aula de artes. O sopro é a experiência da aula, mesma – tudo aquilo que acontece sob o provisório teto da tampa da caixa.

    • agachamento
      17 de abril de 2020 at 08:47

      Oi Thaise
      Que bom ouvir de você, ler seu texto, afinar…também desafinar, engordar, regurgitar, rs, ir digerindo tudo que podemos “comer” sobre arte e vida, mas entre nós especialmente, o ensino do teatro… e o ensinar a ensinar.
      Sempre gosto de lembrar que foi você que me introduziu a Allan Kaprow! Em um livro dele ele fala sobre “The education of the Un-Artist”, que numa tradução literal ficaria “A educação do não-artista”… Um dos textos foi publicado em 1971, o outro em 1972.
      Disse isso porque um dos meus dilemas, na docência especialmente na graduação (da Licenciatura em Teatro da UFMG) é perceber que, nascida em 1961, vivida infância na década de 1960 e juventude entre 1970-80, minhas referências mais enraizadas e queridas podem ser “datadas” para os alunos, em seus repertórios, em seus pontos de vista; o dilema está em como veicular “o espírito” daqueles anos — ventos de liberdade, descoberta, rebeldia “com causa” rs……. Então, quando decidi falar na segunda postagem do Grupo de Amizade sobre o vazio, e trazer a caixa de papelão na sua concretude e simbologia, foi um jeito de conversar com todo mundo, um jeito de desfocar os artistas educadores da quarentena e das atividades que estão tendo que criar e “dar conta”, para ensinar arte on line [caso contrário podem perder seus empregos…!]. Qual a margem da aula on-line? Mas agora, especialmente, onde está a liberdade de criar em quarentena, na quarentena, através da quarentena, emoldurados e de certo modo presos a nossas realidades “de dentro de casa”? Eu sei que facilitaria para os leitores e frequentadores do Agachamento se eu tematizasse de fato “atividades on line”– mas um dia um amigo me disse: “Marina, você não facilita.”. Era uma [dura] crítica, mas guardei pra mim essa frase. Não quero mesmo facilitar, mas não significa que quero dificultar; eu quero descoberta, invenção, eu quero “poéticas próprias”– pessoas encontrando Lygia Clark, Suely Rolnik, Allan Kaprow, Ella Fitzgerald, Bispo do Rosário!… e trazendo essas referências, essas leituras e vivências, ampliando, da leitura e do usufruto de artistas [os Outros] para seus modos de ser e fazer, modos de ser professor e ensinar arte. Ah, e sem “excessiva racionalização”, mas com mente-e-corpo abertos, cérebro-e-coração, fluxos, mesmo que atrás da máscara de pano agora obrigatória.
      Sou grata pela sua amizade e existência
      Marina

      • Thaíse
        17 de abril de 2020 at 15:50

        Aff, QUERO COMENTAR MUITAS COISAAAAAS.

        Mas, sobre o un-artist, vou dizer de algo que é uma espécie de tarefa que eu penso que deveria ter encampado, mas larguei de mão (por motivos de “vida”):

        embora primeira tradução no Brasil do The education of the Un-Artist tenha apresentado a tradução “não-artista”, a tradução da segunda parte, feita pelo Ricardo Basbaum, propôs An-Artista. Eu já havia compreendido que não-artista não seria uma boa escolha, porque há, no texto de Kaprow, uma outra “senha” – das quatro “senhas” que ele categoriza para se entrar no mundo da arte – que é o non-artist. Refleti muito tempo sobre isso, pensando se não seria, de fato, un-artista uma melhor escolha (por conta de questões do idioma), até que escrevi pro Basbaum e ele me respondeu (acho que com certa preguiça da minha juventude): então, leia an-artista em voz alta E OUÇA COMO SOA. Anartista. Anarquista.

        Assim como o ideal anarquista, a arte do an-artista, e da aula de artes que, penso, é aquela pela qual advogamos, será desprovida de Estado, desprovida de estruturas hierárquicas prévias que afastam o sujeito da coisa-mesma – seja ela a vivência em sociedade, ou a experiẽncia do testemunhar ou fazer arte. Ainda que, para o senso comum, o anarquismo soe como bagunça e black blocks, quem se aventura a olhar um pouco mais de perto pode ver que suas práticas são fundadas em muita presença-plena, muito fluxo, escuta-ativa, vivência da situação-mesma – sem subterfúgios que promovam doses de autoridade. Os usos táticos do status quo e a ação direta, por eles “inventada”, são emergências radicais frente à necessidade sentida de libertação das amarras impostas pelo Estado.

        Na arte, parece-me que o “Estado” é a linguagem. A linguagem como régua anterior para modelar as relações. Como anartistas, nos cabe implodir a linguagem, desde dentro – como bem disse o Kaprow.

        Sem mais para desenvolver, rs.
        Vou ali, trabalhar nas minhas aulas online.

        • agachamento
          18 de abril de 2020 at 08:15

          Thaise
          Que bom que podemos conversar sobre tudo isso nesse momento………!
          Eu penso que o cara não tava com preguiça da sua juventude, rs, ele foi meio “Haroldo de Campos”, fazendo uma tradução sonora, por assim dizer…
          Eu uso bastante a expressão “não-ator”. Eu gosto dela para conversar com os alunos da Licenciatura, no sentido de que eles estariam se formando para dar “aulas de teatro para não-atores”. Tem sido importante demarcar isso, de modo que eles não sejam muito técnicos em seus planejamentos (o exemplo clássico, para mim, é querer fazer “aquecimento vocal” versus “aquecimento corporal”, e a aula dura tipo 50 minutos… até todo mundo chegar junto para aquecer, corre-se o risco de ter terminado a aula).
          O ensino de arte como “um lugar para habitar” eu acredito que tem suas técnicas — são as técnicas da vida, como gostam de dizer os antropólogos.
          Não quero falar por enigmas, porque parece hermético ou inalcançável, mas tem sim um enigma: o adulto que queira trabalhar nessa sintonia precisa agachar-se e trabalhar do mesmo modo que um pai ou uma mãe pacienciosos ensinam a amarrar sapato ou limpar o bumbum rs — ah, agora se ensina a lavar as mãos! Onde tudo isso vai dar?
          agradecendo demais sua companhia
          Marina

  3. Charles Valadares
    17 de abril de 2020 at 16:03

    Não estou professor.

    Reflito sobre isso.

    Pensei em propor uma “prática imaginada”, acerca de uma aula de teatro para sonhar possíveis futuros, mas nada ainda me veio, só o vazio.

    Reflito também sobre qual caminho tomar para dialogar com sua postagem.
    O que ela me afeta? Como me afeta? O que eu poderia dizer, perguntar ou como eu poderia contribuir para que o “grupo de amizade” continue sendo assim, livre e sem obrigações?

    Preciso responder se me sinto vazio sobre o que dizer?

    Reli o texto duas vezes.

    Meditei sobre o vazio.

    O vazio da minha casa: um apartamento de 5 cômodos, habitado por uma pessoa.
    Habitado também por alguns poucos móveis, comida, espaços do próprio vazio, alguns livros que aos poucos se tornam muitos.

    É, talvez não esteja tão vazio assim: “é sempre bom lembrar”

    Penso mais um pouco.

    Na primeira leitura ao encontrar a palavra “vazio” e “nada” me veio Manoel de Barros. Quase que como uma obviedade me veio sua obra “ Livro sobre nada”, e como ele mesmo diz em outro livro: “ Se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades”. E ele tem. Na abertura do “Livro sobre nada” Manoel cita outro livro, uma coletânea de cartas de Flaubert, escritas entre o XIX XX. Recorro ao Google para saber um pouco mais sobre o livro e o escritor.
    Em seguida leio outros poemas do Manoel.

    Encontro a palavra “Abandono” diversas vezes, me parece que ela também tem algo de “vazio”. Fotografo um poema que gosto muito chamado “ Ruína” (tem ele declamado por Bethânia no youtube) e mando para uma pessoa querida via whatsapp: a comunicação mais usada no momento para “cuidar” do excesso de vazio durante a quarentena.

    Leio os outros comentários na postagem… Procuro pela obra da Lygia Clark, citada pela Thaíse. Escuto duas músicas Ella Fitzgerald ( dica da Marina!).
    Procuro pelo texto do Allan Kaprow em português no santo Google. Encontro um pdf e salvo em uma pasta de texto que ainda quero ler.

    De novo ouço música, agora e Gilberto Gil, “Copo vazio”.

    Enquanto escuto, folheio o livro “Vazio”, de Catarina Sobral , feito para todas as idades. Um livro sem palavras, de ilustrações lindas que conversam sobre o vazio. Comprei mês passado e na correria ainda não havia tirado um tempo para abri-lo.

    Faço uma terceira leitura da postagem e penso.

    É isso! o vazio é um pouco isso. Aquilo que nos move.

    O movimento diante do vazio.

    Isso também me lembra Paulo Freire, rs!

    A falta me fez buscar por “preenchimento”.

    A busca não tem fim (enquanto o ar encher meu vazio de dentro).

    Eis o vazio criativo!Gerou movimento! Saí do lugar e ocupei outros.

    Penso que compreendi mais um pouquinho a arte enquanto lugar, o vazio como espaço concreto e simbólico. A busca enquanto criação.

    Sigo inacabado (que bom!) e ainda vazio (vivo).

    • agachamento
      18 de abril de 2020 at 08:02

      Oi Charles!
      Me chamou a atenção, no fluxo do seu texto, quando a palavra “abandono” salta aos olhos… Provavelmente ela bate na porta da gente porque estamos vivendo confinados, com A Pandemia lá fora… Mas em arte e educação, junto a crianças e jovens, penso que precisamos cuidar para que vazio e nada não sejam lidos como “abandono”. Explico: como se o professor estivesse “esvaziado”, triste, desmotivado — como um adulto que sai, que me deixa, que não está podendo cuidar de mim.
      Então, de volta ao vazio, à caixa de papelão vazia: propus o cuidado do entorno, lembra?
      O “entorno” será o “mundo compartilhado”. Vou falar disso na Postagem 3. Você mesmo trouxe isso, pela busca do “preenchimento” — acho que é o que estamos fazendo aqui, nesses comentários compartilhados!
      Te deixo aqui um abraço cheio
      Marina

  4. Luciana Cezário
    19 de abril de 2020 at 13:49

    oi!
    oi charles, ou marina, oi thaíse, oi rodrigo,
    oi
    (…)
    meta pós quarentena: encontro presencial com essas 22 pessoas!
    aprendo a cada comentário.gostaria de fazer o exercício de conversar com a postagem de Marina, mas gostaria também de conversar com todes vcs. não que eu vá conseguir, mas indico aqui uma abertura e tentativa.

    Marina pergunta: Como você partiria do vazio para fazer um não planejamento para suas aulas de arte? Respondo com uma experiência que já vivi como professora, não como modo de ser autorreferente, mas de me desnudar, na beleza que encontrei em um exercício, mas também no que sinto como uma fragilidade minha de fazer um “arremate” da experiência: eu dava aula em uma escola estadual em um contexto muito difícil pq a escola era muito desorganizada, não havia diálogo entre professores e direção, não havia trabalho pedagógico… uma turma de jovens com cerca de 13 anos não queria fazer NADA nas aulas! Eu me desdobrava a cada dia, tentava criar outras propostas, tentava ouvi-los, mas não conseguia achar o caminho. um dia, expus minha angústia a eles, mais ou menos assim: “gente, eu não sei o que fazer. eu já tentei várias coisas. o que nós podemos fazer nas aulas de teatro? o que vcs sugerem?”. Eles responderam: futebol. rsrsrs. eu me lembrei da gaymada, do grupo que joga uma queimada performaticamente, contei a eles sobre isso. comecei a pensar que talvez eu encontrasse uma possibilidade. Ainda assim, perguntei se conseguiam pensar em outras coisas. uma resposta foi voley. rsrs. Mas diante de minha pergunta: “o que vcs querem fazer?” Henrique respondeu: “nada”. eu anotei todas as sugestões. olhei bem praqueles meninos e meninas e decidi: vamos começar pela sugestão do henrique? vcs topam? eles toparam! combinei: fazer nada implica não conversar, não mexer no celular e não ouvir música, ok? ok! Toparam! vamos fazer nada pelo tempo que quisermos. Combinei de ligar o cronômetro do celular pra vermos quanto tempo duraria nosso nada (e isso acabou virando um jogo, penso). qualquer um de nós poderia encerrar a experiência quando quisesse, bastava FAZER ALGUMA COISA. e ficamos 13 gloriosos minutos em silêncio. nos olhando. fazendo nada. um aluno que era muito calado e muito nervoso disse ao final que fazer nada era bom: acalma o corpo. Acho essa vivência importante na minha história de professora e depois ela se desdobrou em algo mais, com outra turma, em outra escola (conto depois). Por outro lado, minha fragilidade: sinto que me falta certa discursividade para falar dessa experiência à luz das práticas contemporâneas.

    Compartilho da noção de arte que vc apresenta: como âmbito artístico existencial. Sei que se trata de uma noção compreensiva, não explicativa. Mas vc poderia falar mais sobre isso em uma futura postagem ou texto? No artigo “infância é corpo encarnado” vc fala um pouco sobre isso, em diálogo com Dolto, sobre “isso que me dá a condição de ser”.

    Diante da pergunta “como seu coordenador reagiria?”, lembrei-me de uma pessoa que trabalha comigo e que, depois de eu mostrar o livro de Eleonora Fabião e suas ações me perguntou: “mas qual a finalidade?”.
    (…)

    Por fim, ao contrário da turma do meu relato acima, vejo, muitas vezes, alunas e alunos irem pra aula de teatro buscando espetacularidade, uma aula de teatro com montagem de peças bem ao modo filmes de adolescentes hollywoodianos.

    ah, Henrique pouco depois daquela aula foi expulso da escola por estar com um canivete na mochila (a prática de expulsão é ilegal e o que as escolas fazem é transferir os alunos, mas eles muitas vezes não se matriculam em outras escolas ou encontram dificuldades para fazer a matrícula). eu o via quase todos os dias na escola. ele pulava o muro ou entrava pelo portão mesmo, quando possível. ele era um menino que, no me entender, estava no fio da navalha e a escola era talvez uma das únicas possibilidade real de manutenção da vida (não por sucesso escolar, nem por salvamento, mas pq era onde dava pra criar laço com a vida, talvez… talvez…).

    Deixo um abraço!

    • agachamento
      19 de abril de 2020 at 20:10

      Ah… 13 minutos de silêncio!
      Quando eu era criança, tinha a brincadeira da “Vaca Amarela”: “Vaca amarela / fez na panela / quem falar / come tudo dela! Um dois três” e começava assim a “lei do silêncio”. Depois quando eu era maior a gente dizia: “Vaca acarela / cagou na panela…” (e não “fez” rs). Isso era divertido, isso era um passa-tempo…
      Sempre lembrando dos tipos de silêncio — tem silêncio que mata! Tem silêncio cheio de significação… Tem silêncio que é esvaziamento do barulho, da energia, de algo que aconteceu… Tem silêncio de lugar deserto, tem silêncio fabricado em câmaras de som. E assim por diante.
      Bjs Luciana, que bom que estamos por aqui e “ativas”!
      Marina

    • agachamento
      19 de abril de 2020 at 20:17

      Oi Luciana, olá a todos
      Ah sobre saber mais sobre o que são os âmbitos artístico-existenciais, sugiro ir na ferramenta de busca do Agachamento… já escrevi bastante sobre; e tem um texto importante, que é o que fala sobre o currículo em artes e as antiestruturas: Fazer surgir antiestruturas: abordagem em espiral para pensar um currículo em arte
      Amanhã cedo farei a postagem do terceiro texto, e com certeza, no final de tudo, a noção de arte como um lugar, arte como âmbito, estará um pouco mais próxima da gente, de todos que estiverem por aqui e com interesse por isso tudo.
      bjs da Marina

  5. Luciana Cezário
    19 de abril de 2020 at 14:03

    Charles, lendo vc falar sobre o vazio, me lembrei da psicanálise, da ideia de falta e desejo, como algo que nos move no mundo. Desejo nunca satisfeito.

    Thaíse, também tenho buscado na prática de meditação o silêncio. e tb descobri que “disciplina é liberdade” (já dizia Legião Urbana, rsrs), ao contrário de tudo que aprendemos sobre isso na vida!

    ah, marina, a postagem também me pega em outro lugar: como artista, tenho pensado muito sobre processos de criação, sobre a ideia de treinamento para atores/performers (nesse caso, para mim mesma)… sinto que preciso re-estabelecer uma rotina de “treinamento” (nem sei se essa seria a palavra”), mas não consegui, ainda identificar que caminho seguir, porque parece ser preciso acessar algo novo, sobre o qual tenho pistas, mas não sei bem o que é.

  6. RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
    19 de abril de 2020 at 16:12

    Tudo pode acontecer, inclusive o nada…
    (Acho que essa frase é de alguém, esse alguém sabe quem..)

    Para que alguma coisa relevante ocorra, é preciso criar um espaço vazio. O espaço vazio permite que surja um fenômeno novo, porque tudo o que diz respeito ao conteúdo, significado, expressão, linguagem e música só pode existir se a experiência for nova e original. Mas nenhuma experiência nova e original é possível se não houver um espaço puro, virgem, pronto para recebê-la. (BROOK, Peter. A porta aberta: reflexões sobre a interpretação e o teatro. Tradução Antônio Mercado – 4ªed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, pg.04, 20005)

    Será que é mesmo possível criar um espaço vazio?

    O que seria uma experiência no vácuo?

    Perguntei ao meu namorado o que seria o vazio para ele e a primeira palavra que ele disse foi ausência. Mas, ao mesmo tempo ele respondeu não é a ausência, propriamente. Então, ele disse:
    – Na matemática o vazio não significa o nada, pois ele é parte do conjunto.
    Por exemplo, o espaço de possibilidades (aqui denominado como S) é composto por todas as possibilidades de S, inclusive sua ausência. Trazendo para um contexto artístico imagine que para compor uma música (aqui nosso espaço S) necessariamente precisamos considerar o silêncio.

    Quando penso sobre ausência, consequentemente penso sobre a presença, pois para que a ausência se estabeleça é importante que algo tenha existido antes para que se perceba, então, a ausência deste algo.

    Lembro-me de uma diretora que tive em uma cia de dança que fiz parte no passado, ao nos provocar reflexões em ensaios de coreografiascontemporâneas, sempre nos solicitava para buscar o vazio preenchido. Para mim ressoava como o vazio onde se encontrava meu ser. O vazio preenchido, talvez seja um lugar onde evoco minha essência e nesse sentido, crio uma espécie de movimento essencial, autêntico. Ou seja, um movimento justo, na medida do possível, sem gasto desnecessário de energia, sem sobra. Esse vazio preenchido está relacionado para mim com a economia do gesto, daquilo que é realmente necessário e dessa maneira imprimir em meus movimentos parte do meu ser, do meu eu. Essa busca de acordo com ela deveria se dar tanto para os trabalhos autorais quanto para os trabalhos de interpretação, pois, segundo ela, o movimento sempre é carregado de nossa identidade e o bailarino/a deveria buscar essa verdade do movimento.

    Estamos sempre tão cheios de informações e os espaços e ambientes são tão auto- referentes, que é difícil pensar e refletir o vazio. Em tudo há algo que deriva de algo, ou que se refere ou pelo menos se relaciona com algo. Tudo tem memória impregnada…rastros… Talvez isso, seja a maneira como fomos acostumados a pensar e a vivenciar o mundo, buscando relacionar várias ideias e construir caixinhas de um determinado saber. E nesse sentido, o vazio /nada, não encontra momentum de manifestação. Sobretudo, na atualidade onde temos celulares como extensões de nossos corpos, isso se torna algo cada vez mais difícil.

    A imaginação e a inventividade são um meio de fazer revelar o vazio as vezes para mim…

    Em muitas aulas que fiz no campo das Artes Cênicas, se iniciaram com professores (as) pedindo-nos para zerar, encontrar o vazio. E percebo, que em minha atividade docente também lanço mão dessa estratégia em muitas aulas, como forma de o/a estudante se conectar consigo mesmo/a buscando um estado de sensibilização do corpo para a prática que se seguirá. Acredito que esse estado zero, possibilite a criação de algo novo para nós, algo ainda não experimentado pelo corpo. Mas, também é uma forma de conexão com as memórias e aquilo que de alguma maneira já se imprimiu no corpo.

    Já fiz muitas aulas em que fui sem algo planejado e também já dei muitas aulas com estruturas completamente planejadas, mas que no momento de encontro com os/as estudantes desapeguei de tudo e construí do zero junto com as pessoas no momento. O ato de se esvaziar de nossos excessos para mim se apresenta como uma potência no que se refere a alteridade. A busca pelos não julgamentos em relação ao outro e a si mesmo na compreensão da arte enquanto experiência relacional. Escuta. Encontro. Em meu fazer artístico é muito importante uma busca por uma atitude relacional com os/as outros/as sejam públicos ou estudantes. Desse modo, a construção do fazer artístico é dependente dos outros saberes que estão junto comigo. Por isso, tento me esvaziar para não simplesmente imprimir minhas ideias no ambiente, mas para atentar em como as outras experiências e espaço me afetam e como é possível dialogar comas outras percepções.

    Não sei…vazio…

    Não chego há lugar nenhum com minhas divagações sobre o vazio…

    Enfim apenas reflexões que me fazem pensar… mas, sem conclusões…

    • agachamento
      19 de abril de 2020 at 20:21

      Oi Rodrigo, olá a todos
      Não chegar a lugar nenhum parece ser também um caminho da arte contemporânea… não chegar: caminhar! Não andar: congelar. Não pensar: ser.
      Penso que os polos “tudo” e “nada”, bem como “cheio”e “vazio”, precisam ser vistos como grandes janelas de pesquisa — clique nas palavras e dezenas, centenas e milhares de possibilidades se abrem.
      Esvaziar-se, na nossa tribo, me parece ser um sinônimo para presença. Você também sente-e-pensa assim?
      Um abraço
      entre domingo e segunda!
      da Marina

      • RODRIGO AUGUSTO DE SOUZA ANTERO
        20 de abril de 2020 at 19:15

        Sim.
        Algumas pessoas que convivem comigo me estranham porque quando posso, busco maneiras de me “esvaziar”, dentre elas: ficar no escuro em atividades (como por exemplo, tomar banho, dançar, caminhar pela casa, etc.) ou mesmo sem atividades apenas habitando um espaço escuro, desligar o celular por algumas horas, me auto-tocar-massagear, exercícios de respiração, ficar apenas olhando o céu ou o teto branco do quarto deitado entre outras. Enfim, cuidados comigo que me me conectam a mim mesmo, que me distanciam do excesso de informações me deixam mais presentes.

        A presença para mim é muita coisa, dentre elas um estado de sobrevivência…ser/estar…uma maneira de se escutar e de escutar o entorno, o ambiente.

        Um abraço,

        Rodrigo

        • agachamento
          20 de abril de 2020 at 19:57

          Rodrigo
          ta interessante nossa conversa pois estamos, mesmo “isolados” na quarentena, nos conhecendo
          agradeço sua presença
          Marina

  7. Lucas Emanuel
    19 de abril de 2020 at 22:19

    E o vazio no eu-com-o-outro-no-mundo?

    Olá, Marina e grupo de amizade.
    Li a segunda postagem ainda no início da semana, mas fiquei matutando por aqui, até hoje. As caixas citadas me remeteram inicialmente ao texto de Rubem Alves, em que ele, dialogando com Santo Agostinho, procura discorrer sobre o ser humano, com a noção de que o corpo carrega duas caixas. Uma caixa em cada mão. De um lado a caixa das utilidades (caixa das ferramentas) e do outro, a caixa da fruição (caixa dos brinquedos). Vez ou outra me reconecto com esse pensamento, principalmente em momentos em que esses dois campos estão tensionados. Por hora, parece que carregamos caixas ainda mais pesadas que nossos próprios corpos. Haja leveza! Voltando ao Rubem, o escritor constrói a noção de que a vida não se justifica pela utilidade e sim pela alegria e prazer. Impossível não me lembrar da sua fala, Marina: o importante é ser feliz.
    Primeiro vazio:

    .
    Depois me lembrei de uma criação em que participei em 2017, que se chamava “Música para Apartamentos Vazios”. Dirigi duas atrizes que habitavam um apê vazio, com dezenas de caixas de papelão vazias, trabalho fruto de uma ocupação no ccufmg (queria que fosse em anexo, mas segue vazio). As caixas iam se desmanchando, desdobrando, empilhando, como um grande jogo de lego. Mas como as múltiplas narrativas vinham do campo da memória, sempre faltava ou excedia uma pecinha do quebra-cabeça.
    Menor, porém segundo vazio:

    .
    Interessante é pensar que quanto mais queremos estabelecer esse espaço de convívio com o vazio, mais ocupamos seu entorno, com objetos, lembranças, coisas, palavras, caixas – talvez seja apego…
    Relembro, das minhas indagações (como é possível?) em relação aos seus roteiros de improviso – convites à atos performativos, brechas para o novo, a ser instaurado na relação professor-alunos. Um vazio que se suaviza por meio da relação. Sinto que o convite aos roteiros de improviso mais as proposições em relação ao vazio, se tornam aqui uma forma-conteúdo. Penso, como instaurar, ocupar e jogar com o vazio de diferentes materialidades: folha em branco, quadrado de fita crepe no chão, os azulejos do chão, as linhas do azulejo, o próprio corpo… talvez a resposta esteja novamente na relação.

    Por hora, me parece que o vazio mora é nos hífens: euvaziocomvazioovaziooutrovazionovaziomundo.
    Quase imperceptível, porém, terceiro vazio: .

    • agachamento
      20 de abril de 2020 at 08:14

      Oi Lucas! Olá a todos!!
      Achei bem interessante a significação dada aos hífens… rs
      euvaziocomvazio
      eu-vazia-com-o-vazio
      encho!
      qualquer coisa assim: vamos nos pondo na situação, no texto/contexto, nos envolvemos, pensamos-sentimos, e pronto: talvez como é quando se gosta de álbum de colorir. Ser humano e estar vivo é colorir os contornos… Quando nos entristecemos nos esvaziamos. No entanto, assim como o copo vazio está cheio de ar, os contornos sem cor continuam ali. Contorno nenhum é, para Winnicott, uma etapa do bebê — ele chama a “não-integração”; depois com o passar do tempo, dos cuidados físicos, dos dias seguidos, do peito ou mamadeira, de ser pego no colo e de ser colocado para dormir, ir tomar banho e depois ser vestido, começa a surgir “um contorno”. Então, de início, somos cósmicos.
      Folha de papel em branco, então, não fomos nem seremos!
      Talvez apenas nas meditações orientais se consiga algo próximo disso —
      bjs e ótima segunda-feira
      Marina
      p.s.: depois da não-integração surgem experiências de integração, até o bebê ter um “eu”; quando a experiência de integração é ameaçada, surge a sensação de desintegração (palavra do Winnicott para a angústia, medo do colapso, sensação de aniquilamento): mas só há esse estado porque experienciamos os outros. Acho bonito pensar como coisas profundas já estão acontecendo no corpo, na formação de uma “psique-soma” (palavras do Winnicott para corpo-e-mente) em idade tão tenra. Cuidemos dos bebês!

    • Luciana Cezário
      22 de abril de 2020 at 16:57

      Achei delicioso ler os [três] vazios.

  8. Alice Vieira
    20 de abril de 2020 at 08:43

    Ei, Marina!
    Neste momento, estou pensando na casa como uma grande “caixa de papelão”. Minha mãe, quando estava muito entediada, mudava os móveis de lugar. Nós tínhamos que pensar como tudo iria passar pelas portas dos cômodos e imaginar onde os móveis ficariam melhor. Depois sentávamos no sofá com uma pequena felicidade, como se a casa fosse nova. “Casa Inabitada” foi escrita numa época parecida com esta. Eu estava em casa, com tédio suficiente para olhar demoradamente para as paredes, pisar muitas vezes no mesmo chão, tocar, sentir os objetos, os cômodos até ressignificar, humanizar… O texto começou pelos limites da casa, pelas paredes. As primeiras frases foram: “o tijolo é o feto eterno da parede. A parede é a deusa dos ventres”. Aí me deu vontade de martelar a parede para fazer o parto dos tijolos e para eu mesma poder sair. O que claramente só poderia ser feito através da arte(rs), em cena ou em caixas de papelão. Com isso, em época de quarentena, com as crianças em casa, penso em quantas “habitações imaginativas” que os adultos poderiam propor para elas apenas com objetos domésticos. Nestes dias de isolamento, tenho refletido no que vai ser de nós artistas daqui pra frente. Mas tudo indica que o teatro não vai acabar, ele vai continuar dentro das casas até poder sair para as ruas novamente, junto com a gente. Né?

    • agachamento
      20 de abril de 2020 at 10:24

      Oi Alice! Olá a todos
      Ah, gostei desse: “tudo indica”…
      Sim, tudo indica que a vida continua.
      Chegou a ver que no Japão as pessoas dos vôos internacionais “ganham” uma cama de papelão para esperar?
      Isso não é teatro??
      Obviamente que para os passageiros envolvidos não é teatro nem piada, mas o que quero dizer é que as pessoas continuam imaginativas e criando soluções. Um casal confinado com duas filhas decidiu “se casar de novo” — porque as filhas diziam que não estavam no casamento… A mãe ainda cabia no vestido de noiva (achei admirável! estava casada fazia 11 anos) e o pai colocou terno e gravata, e eles casaram na sala: as meninas usaram quatro cadeirinhas de plástico, sentaram-se em duas, e colocaram suas bonecas nas outras duas.
      Quando que um casal parental iria “fazer teatro”/ “brincar de faz de conta” assim, e com suas filhas??
      Talvez o teatro tenha que ser, mais uma vez, reinventado.
      As previsões de abertura de teatros e casas de show na Itália foram marcadas para… dezembro!
      Entendem?
      Bjs e ótima semana, na ambientação possível — que seja “suficientemente boa”
      Marina

      • Alice Vieira
        21 de abril de 2020 at 13:08

        Sensacional!!!

        Ótima semana!

    • Luciana Cezário
      22 de abril de 2020 at 17:00

      “o tijolo é o feto eterno da parede. A parede é a deusa dos ventres”

      que lindo, alice! ouvi vc dizer isso tantas vezes e hoje quando li fez um sentido que nunca tinha feito antes, rsrsrs

      • Alice Vieira
        22 de abril de 2020 at 18:01

        Saudade, Lu!

  9. Mayron Engel
    20 de abril de 2020 at 16:26

    Pensar no vazio, partir do vazio, me remete à criação, à gênese. Quando retomamos o pensamento cristão da criação sabemos que deus partiu do nada que era escuridão e com o poder do verbo fez-se a luz. Depois disso me parece que tudo já vem cheio de reminiscência, pressupostos.
    No budismo, temos um termo chamado vacuidade que trata do vazio de significado das coisas, já que nós que imputamos significados às mesmas.
    Fazendo uma miscelânea pasteurizada das mitologias, nós somos o “significado” das coisas, então não rotular, não induzir o processo artístico é possibilitar novas significações. Partindo do vazio de pressupostos abrimos espaço para criação de novos significados, mesmo que se chegue em lugares comuns. O fato de o aluno ter descoberto o caminho, faz dele algo novo, original para o descobridor.

    • agachamento
      20 de abril de 2020 at 19:54

      sim, Mayron: fechô (rs)
      sem nunca esquecer de procurar o sentido daquela criação para os outros: o aluno criador, o grupo, a escola, a comunidade de pais — penso ser esse o caminho avesso do que critiquei na primeira postagem: arte como técnica, com “função” e “resultado”; arte como processo, cuja serventia o criador que irá nomear.
      um abraço
      da Marina

  10. Belister Rocha Paulino
    8 de julho de 2020 at 14:41

    Assim, meio de penetra, sem fazer parte dos vinte poucos escolhidos, vou me deixando atravessar pelas postagens desse blog, que conheci no final do ano passado por sugestão da professora Luciana Hartmann (Departamento de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Unb).
    Como doutoranda, insisto numa investigação cuja existência/resistência é um desafio para o entendimento da relação do corpo com o espaço e com o movimento, agora refletido nesse espaço do isolamento e do confinamento imposto pela pandemia.
    Evitei, ao máximo, não ler as outras postagens antes de escrever a minha, o que não foi possível, pois logo de cara me vi lendo as contribuições do Charles Valadares. O vazio que ele menciona com as músicas e leituras me ajudaram a refletir essa proposta/desafio de mergulhar no vazio que a professora Marina nos lança.
    Uma vez participei de um curso, que num dos encontros nos pediram para completar a frase: Me jogar no vazio é… E a minha resposta foi de pensar o vazio relacionado ao seu oposto. A imagem que tive do vazio foi a do universo todo ao meu redor; das infinitas possibilidades de descobertas; erros e acertos constantes na tarefa de existir.
    Nessa tarefa, quem não aí já não se sentiu vazio? A caixa vazia me fez pensar no vazio existencial, que desde criança alimentamos nas diversas camadas de experiências vividas. Gonçalo Tavares, no seu livro Atlas do Corpo e da imaginação reflete o vazio evocando escritores e poetas, como Henri Michux. Para Michux, nascemos com um buraco no peito, incompletos. A falta está presente em nossos corpos como um dos nossos sentidos. Desde a infância, achamos que a idade adulta vai completar esses vazio e quando enfim nos tornamos adultos, vemos que a falta ainda está lá. E aí, vamos nos equilibrando nas experiências contínuas, que de certa forma, nos fazem esquecer um pouco a falta e o vazio que temos. O continuar a mover-se impede a queda nesse vazio; seria algo como nos distrair com o fato de estarmos vivo e em constante movimento, para não prestar atenção ao que nos falta. É necessário vencer a sensação de falta, agindo, conclui com o pensamento de Kafka.
    A caixa vazia me remete às infinitas possibilidades do fazer pedagógico em arte; uma ação pensada nessa espacialidade aberta à imaginação e às respostas do outro. Me remete também aos outros vazios que podem ser explorados nessa reflexão da página em branco. Uma página vazia seria outra possibilidade de diálogo e proposições artísticas, seja com o movimento/dança que investigo, seja com as escritas, desenhos e criações imaginadas nas relações e trocas de experiência.

    • agachamento
      8 de julho de 2020 at 15:52

      Belister
      Te peço para não pensar em “os escolhidos” rs… Mencionar as vinte e duas pessoas convidadas era apenas uma maneira de dar o pontapé inicial para o jogo, para a brincadeira, que é “livre e criativa”, então, não precisa ter time, nem ser do time…!
      Fico feliz com sua presença e contribuição tão intensa, viva, verdadeira
      seja bem-vinda!
      Marina

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