Se eu morresse amanhã / Postagem 1 para um Grupo de Amizade

Grupo de Amizade / Postagem 1

 Conversas com os leitores do Agachamento sobre como definir “arte”

 

A partir de hoje, 6 de abril de 2020, farei postagens semanais, e temáticas; todas as segundas-feiras vou procurar discutir com vocês um trecho de um texto escrito por mim: um parágrafo, uma citação, noção ou conceito…

Assim, estou propondo que as pessoas entrem no site-blog, leiam a postagem e conversem comigo: postem seus comentários, questionamentos, dúvidas, asserções…

Que acham?

O primeiro trecho é a definição de arte que se encontra no texto Guerra de maçãs / A escola como paisagem performativa. Na época da publicação, em 2017, cheguei a fazer uma postagem sobre a escrita desse texto, que passei dois anos escrevendo. Penso ser meu texto mais denso e propositivo; ele busca interpretar uma guerra de maçãs entre crianças, comentar o ocorrido por meio de um olhar de contramão: na contramão do senso comum, na contramão do “Olha como os meninos estão!”, e também, na contramão de que seria preciso “tirar o menino da rua”:

 

(…) arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e coabitarmos o mundo compartilhado. Arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações. Arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua, e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento. 

[O trecho está na página 67]

 

Digitado aqui o texto fica com oito linhas.

As oito linhas trazem sete noções (!).

São elas: território e habitação; espaço corpo próprio; mundo compartilhado; possibilidade relacional; espacializar imaginações; mundos possíveis; e intensa experiência da rua.

Minha proposta nas postagens de segundas-feiras é, inicialmente, discutir on line as oito linhas e as sete noções. Contando com esta, serão oito postagens seguidas, oito semanas vividas.

Como e por que?

Como: por meio de uma espécie de escavação, arqueologia dos meus estudos desde antes da graduação em Psicologia, quando publiquei em 1994 meu primeiro livro, O brinquedo-sucata e a criança

Porque: estou iniciando minha segunda pesquisa de pós-doutorado, em plena pandemia (!). Escrever para vocês pode ser um modo de manter a calma, o foco, e a crença na volta dos tempos presenciais.

E se não voltarem, estive em troca, até o fim. Troca com quem visita o site-blog, troca com quem ensina arte, troca com quem quer saber mais sobre praticar o agachamento como poiésis.

Para participar, é entrar, ler e escrever: ler o texto Guerra de maçãs, escrever o que pensa e compreende sobre ele, a partir dele; perguntar o que não compreendeu… um tipo de roda de conversa debaixo da macieira. Rs mesmo quem não tem computador Apple. (Clicando em “deixe uma resposta”, digitando e enviando).

Metodologia work-in-process / trabalho em processo; modo de funcionamento “aparece aí”.

Que sentido faz definir arte?

O sentido maior está em questionar práticas empobrecedoras. São as palavras que eu nego naquele parágrafo que escolhi comentar: associar projetos sociais e o ensino de arte, é quase sempre simplista, ingênuo, e mesmo tarefeiro (ou seja, é preciso maior atenção à criação por parte das crianças e jovens, não a direção e gosto dos adultos condutores); fazer arte para ser apresentada em eventos, mostrando que os adultos cuidaram das crianças e dos jovens de modo ordenado e dirigido, costuma ser um modo benevolente com “os menores” (ou seja, revela que tem um adulto por trás criando, trabalhando, mas… ele foi capaz de ouvir as crianças e jovens? Será que elas queriam estar ali?); querer trabalhar disciplina e técnicas artísticas com crianças… quase que invariavelmente acontece por meio de adestramento: rotina, repetição, obediência, reforçamento positivo ao final = palmas! Esses modos de encarar arte, e o ensino de arte, são empobrecedores diante da potencialidade vital que crianças e jovens apresentam. E também empobrecem as possibilidades por não proporem verdadeiro protagonismo: o foco permaneceria na imitação (mesmo que bem feita…).

Propor protagonismo é contar com os desejos, as possiblidades, os repertórios anteriores das crianças e dos jovens.

Arte não é algo que “ajuda”… Arte é uma das habilidades imaginativas dos humanos. Não “serve para”— já é.

O que eu considero como “práticas enriquecedoras” de fazer arte, ensinar arte?

O ponto de vista defendido aqui é que enriquecedor será uma proposta de trabalho lenta, gradual, sutil, de protagonismo das crianças e dos jovens. Isso “casa” com os atuais estudos das culturas infâncias e juventudes – a vertente mais arejada para pensar: quem são as crianças e jovens com quem trabalhamos?

Proponho especialmente, procurarmos o fluxo, a liberdade de experimentar, perceber, com cuidado, quatro modos de existência: as corporalidades; as musicalidades; as espacialidades; as teatralidades. Existir cotidianamente nesses lugares, com liberdade para ir e vir (ah, mesmo em confinamento!); estar nesses lugares, com prazer e inteireza (mas podemos habitar também, expressivamente, o desprazer e a fragmentação).

Então, considero arte como um lugar. Cheguei a isso, a essa espécie de síntese, ao longo de muitos anos. Arte como um lugar para habitar. Uma morada. Por vezes aconchegante, por outras, tal como aquelas casas dos filmes de terror… ou as casas de nossos confinamentos… ui!

Falarei mais sobre isso – arte como um lugar – no texto da segunda-feira próxima.

E é também sobre isso o livro que começo a escrever, entre agora e o final de 2020: um livro sobre não precisarmos nos prender ou nos fixar na definição de arte como linguagem. E que diferença fará. Que diferença fará?

“Aguarde os próximos episódios” e… “Habla comigo!”

MRACO - UFMG Jovem 2019 - Lúcio Honorato (49)

foto de Lúcio Honorato, 2019

 

p.s.: Se eu morresse amanhã, eu estaria plena, por ter feito este texto, divulgando aqui, em um site-blog aberto e transparente, um [outro] jeito de olhar para a arte da criança e do jovem, hoje.

23 comments for “Se eu morresse amanhã / Postagem 1 para um Grupo de Amizade

  1. Charles Valadares
    7 de abril de 2020 at 14:19

    [Para ler o mundo]

    Que bonito foi retomar seu texto, Marina.
    Ontem, enquanto, mais uma vez, nosso presidente lançava falsas bombas na guerra que tem travado contra a humanidade, decidi me desconectar da rede e mergulhar em outras leituras possíveis de guerra. Peguei seu texto e saboreei como alguém que devora uma maçã em câmera lenta.

    “Leitura de mundo” é uma das noções que atravessa a obra do educador e filósofo Paulo Freire. É quase que inevitável para mim te ler sem criar alguma conexão com ele, já que enxergo em seu discurso e prática diálogos freirianos. Não existe apenas uma leitura de mundo possível. A leitura é polissêmica. Penso que seu texto traz forte conexão com essa noção de sabedoria: saber o olhar para as situações, contextos e pessoas de forma porosa e generosa. Acrescentaria para sua “definição” que arte é também é um modo de ler a vida e suas múltiplas faces. As sete noções que apontou no fragmento são atravessadas por essa multiplicidade.

    Por vezes também reflito (e me aflijo) acerca da conexão entre arte e rua, talvez por ser arte-educador em uma política pública que atende pessoas em situação de rua. Lá ainda tateio modos de contrapor a ideia de “arte para alegrar” ou para tornar a vida um pouco mais leve, mas há momentos que me entrego diante caos e do horror que vejo, diante de uma estrutura que é maior, pautada em números e não nas pessoas.

    Queria te ler mais ao falar sobre “intensa experiência da rua”. Como a arte pode estar ali em diálogo com a vida? Na rua drogar-se e anestesiar-se faz parte do estado de sobrevivência daqueles e daquelas que lá estão. Talvez nos falte repertório para saber lidar com essa situação tal como ela é …

    Enxergo pistas para a pergunta que fiz quando penso na “arte como depoimento de si”, como você menciona.

    • agachamento
      10 de abril de 2020 at 09:32

      Oi Charles! Depois de ler seu texto algumas vezes pensei: não seria me ver ou me ler falando mais sobre a “intensa experiência da rua”– seria você mesmo andar pelas ruas em outra conexão, na busca do ponto de vista do Outro, ou de quem está casualmente na rua, de quem trabalha na rua, de quem mora na rua… de quem precisa de outro alguém para ser levado na rua, para conhecer a rua (crianças, idosos, animais..). A intensidade da experiência está na experiência mesma: porque a intensidade pode ser fraca, moderada, forte, perigosa, entediante, leve, interessante, neutra, anestesiada, passiva, e por aí vai..
      ..pergunta: como isso conversa com o teatro, com a arte, com a fenomenologia da infância?
      (esse um dos enigmas para fazer ver, e fazer circular, a abordagem espiral e a compreensão da arte como um lugar)
      beijos e bom feriado
      da Marina

      • Charles Valadares
        12 de abril de 2020 at 21:13

        sim… seria entender a rua como um lugar de passagem, vida, experiências diversas, acontecimentos inusitados, espaço de liberdade ( e até privação de), lugar público e, algumas vezes privado… seu comentário expandiu pra mim a noção “intensa experiência da rua”.
        obrigado por me ler.
        sigo reflexivo e interessado.
        beijos!

  2. Mayron Engel
    7 de abril de 2020 at 19:12

    Se eu morresse amanhã todo caminho percorrido pelo meu ser no mundo desapareceria, junto com minha matéria física? Todo meu movimento em direção à transcendência seria esquecido em sete dias? Minha essência encarnada continuaria dali em diante ou tudo será só esquecimento? Gostaria de ter perguntado isso para Maurice Merleau-Ponty.
    Penso que o primado da Percepção diria que não poderia se ater àquilo que não pode perceber, pois com a experiência da morte nada resta vivo para contar, além das memórias. Sempre penso que a palavra é uma fuga da morte, ou ao menos uma tentativa de enganá-la. Quando conheci o teatro em 2000, percebi que falar com a voz de outrem é ganhar de goleada da morte, porque assim posso viver inúmeras vidas.
    Um tanto brega essa expressão, mas é real: se vestir de outra vida por uma, duas temporadas é viver mais, porque um bom ator não coloca sua vida de lado, vive junto com a personagem, convive de perto com tantas outras pessoas/artistas. Merleau-Ponty (1908-1961) afirma que “ser consciência, ou antes, ser uma experiência, é comunicar interiormente com o mundo, com o corpo e com os outros, ser com eles em lugar de estar ao lado deles” (MERLEAU-PONTY, 1994, p.142).
    Na mesma linha de raciocínio tento não fazer arte, em determinado momento estou na arte, me coloca à disposição no espaço, dividindo meu tempo com meu grupo. Além das palavras, buscar as dimensões que elas alcançam, me perco para me encontrar em um outro lugar, outro momento, outro eu.
    Perceber que arte não precisa de função, na mesma medida que não precisamos fazer arte, pois esse imperativo “de fazer” carrega algo de utilitário, individualista e “estar na arte” me provoca uma sensação de pertencimento e possibilidades. A arte como território pessoal, intransferível, mas de possível acesso.
    Obrigado Marina seus textos são sempre instigadores e (des)orientadores.

    MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: M Fontes, 1994.

    • agachamento
      10 de abril de 2020 at 09:27

      Sim, também sinto e vejo e penso assim: que “fazer teatro” implica, ao menos para o leigo em teatro, em uma utilidade e também uma visibilidade específica, a famigerada “apresentação final”… Será que um dia conseguiríamos ter “espaços de viver teatro”, ou de “estar na arte”, como você diz??
      Em um momento tão duro como o que estamos passando, é bom sonhar… com um outro lugar, que pode até mesmo ser dentro da escola e da sala de aula, mas que seja vivido/habitado com liberdade, com verdade e presença… tal qual a arrumação da brincadeira de faz de conta, quando temos liberdade, tempo e espaço.
      Obrigada pela contribuição Mayron! Segunda-feira vou postar outro texto, dando continuidade ao debate e a esse pensamento-sentimento.
      Marina

      • Mayron Engel
        14 de abril de 2020 at 11:05

        Obrigado.

    • Luciana Cezário
      12 de abril de 2020 at 21:01

      que bonita essa ideia de que fazer teatro é enganar um pouco a morte: viver muitas vidas!

      • Mayron Engel
        14 de abril de 2020 at 11:06

        Obrigado!!!

  3. Pamella Villanova
    9 de abril de 2020 at 18:34

    Marina, te enviei um email no contato aqui do site, não encontrei outro meio de contactá-la, é um convite, por favor quando puder dê uma checada,
    obrigada por tudo isso aqui!
    abração

    • agachamento
      10 de abril de 2020 at 09:21

      Olá Pamella, acabo de responder sua mensagem. Obrigada pelo interesse e convite! Marina

    • Thaíse
      16 de abril de 2020 at 14:05

      Que legal ver a Pamella por aqui! <3

  4. Alice Vieira
    11 de abril de 2020 at 16:01

    Marina, lendo seu texto me lembrei de certo dia no jardim da infância. Durante o recreio colhi algumas flores e, voltando para sala de aula, entreguei-as para as outras crianças. Ao entregar a última flor para a professora, perguntei: Agora eu posso ir embora para casa? Obviamente ela disse que não e eu chorei. Como se aquelas flores simbolizassem o lado de fora, passaporte direto para liberdade de ser eu mesma, de me mover, de criar o que não tinha do lado dentro da escola onde tudo já estava inventado, sem flores, sem terra, sem água, sem vento. Por tempos me senti culpada por muitas vezes ter olhado pela janela da sala de aula como se lá fora fizesse o último sol. Mas o sol poderia estar dentro, poderia ter vivido o espaço e o tempo, ter criado relações e aprendido a brincar com as maças. Agora sei, através do conhecimento, como uma espécie de consolo que o teatro (outro tipo de escola) me deu, que o motivo de minha insatisfação foi um sistema de ensino infértil de performatividades.

    Hoje, como professora de teatro, me sinto quase que um pássaro recém liberto, aprendendo a inventar um mundo novo para os alunos e também para mim. É um esforço não voltar para a gaiola depois de tanto tempo dentro. É uma esperança! É algo pelo o que lutar! Assim como acontecem com os discentes, os problemas enfrentados nas minhas experiências como docente na escola formal ainda quase sempre tem relação com privação de liberdade, sendo responsável direta por causar desordem aos olhos de quem poderia me “condenar” por não estar dando o que eles consideram ser teatro, enquanto, na visão “deles”, os alunos só deveriam estar com todas as falas e ações das apresentações bem decoradas. E me dói não ver uma criança criando mundos porque elas precisam naturalmente disso. Não basta a escola reconhecer que a arte é importante. Ela precisa entender a amplitude dos fenômenos artísticos, a importância de brincar e a abrangência do que é arte. Mas como?

    • agachamento
      11 de abril de 2020 at 17:45

      Alice
      Que história bonita, ao mesmo tempo melancólica… pelo fato da professora ser incapaz de conversar: seja sobre seu gesto de entregar flores, seja sobre seu desejo de ir pra casa. A solução para nossos problemas “espirais”(rs) está também na capacidade para conversar. Precisamos conversar pacienciosamente com todos aqueles que tem uma ideia estereotipada sobre teatro e ensino de arte, e dizer que estudamos e nos formamos para isso, e nisso — na condução de aulas para não atores. E que há linhas: linhas de ação, linhas de pensamento; e que há um pensamento arejado que não se baseia em apresentaçõeszinhas… que se baseia em expressividade e felicidade. Fazer teatro para ser feliz! Especialmente na infância e na adolescência. E ser feliz no teatro é também falar das coisas tristes e temerárias. Nera?

      • Alice Vieira
        12 de abril de 2020 at 11:24

        Sim. Ser feliz! Obrigada pela conversa!

  5. Luciana Cezário
    12 de abril de 2020 at 20:55

    oi,
    uma hipótese é de que as maçãs estavam envenenadas. não pela madrasta de branca de neve, mas, quem sabe… agrotóxicos? ou outras toxicidades da vida contemporânea dentro e fora da escola? e fiquei pensando: quem quer comer maçã de sobremesa? Eu não quero, obrigada. outra hipótese é de que, as maçãs, não obstante a fome do mundo, não obstante os gastos com merenda, estavam insossas, áridas como o ambiente escolar é, por vezes. fossem gostosas, seriam comidas, disputadas. ah, as sementes sim, e o meio que sobra da maçã poderiam ser lançadas em guerra… fossem as maçãs saborosas, suculentas, talvez, houvesse, ainda, guerra. talvez não. lembrei-me de rubem alves que fala sobre o saber do sabor, o sabor do saber. 

    o texto, no início me incomoda um pouco, parece pouco conhecedor da realidade dura de uma escola pública brasileira. pouco a pouco me conquista. é propositivo! no âmbito do onírico: “pensar diferente implica sonhar”, tal como nos disse galeano ao conceituar a utopia.

    queria muito ter lido sobre a experiência de voluntariado junto às crianças e jovens daquela escola…

    Lembrei-me, por diversas vezes, da realidade de trabalho em escolas estaduais por onde passei: nessas experiências como professora, fui entrando em um estado de exaustão física e emocional, agravada pela autocrítica de não conseguir ser tão performativa como eu queria. Essa disponibilidade de professora performer exige mais do que uma boa formação e abertura da pessoa: se o território é o do sonho, penso que não basta trocar a moldura, é preciso queimar o quadro com o fogo da transformação, replantar as cinzas (com sementes de maçã?); é preciso destruir a parede e não mais erguê-la. para além da formação de professores: há questões estruturais na instituição escolar. há uma sociedade profundamente marcada pelas desigualdades.

    diante desse cenário e do que não é possível mudar – ou não depende somente de mim para mudar – acho que a saída mais lúcida, saudável, amorosa é essa apontada por você: “habitar o campo de trabalho e ser feliz nesse lugar”. Essa construção é feita pela via loooonga :)

    Obrigada marina!

    ps1. por fim, depois de muito pensar: “o que eu teria feito se fosse uma professora presente na guerra de maçãs?”, acho que, paradoxalmente, o não-saber o que fazer, naquele momento, foi lúcido. diante de um cenário assim tão complexo, às vezes a gente não sabe. e diante do não saber, talvez deva existir mesmo um vazio que observa, contempla, testemunha.

    ps2. Lembrei-me de um livro, acho que vc vai gostar (acho que tenho em pdf se quiser): https://pt.slideshare.net/KoguenGouveia/freire-cuidado-escola

    ps3. caso não conheça, deixo dois presentes:
    https://www.youtube.com/watch?v=ueb4MBLi2Rw
    https://www.youtube.com/watch?v=mgcGEJGS3S4

    • agachamento
      12 de abril de 2020 at 21:15

      Que bom a sua presença Luciana!
      Amei os dois presentes = não conhecia
      Tenho algo em comum com o João Paiva……..: de-va-gar, Es-co-la… Penso que a possibilidade da lentidão, no nosso campo do conhecimento (ah, a famigerada “câmera lenta”, slow motion, o que quer que seja), é um dom, um tipo de solução, mesmo que temporária: uma solução para ser tomada, bebida, degustada… como o biscoito de Alice, para ficarmos grandes e depois bem pequenos, para descobrirmos outros corpos no nosso corpo, outras vidas, outros mundos possíveis — ressureição de páscoa
      Agradeço a todos que estiveram por aqui, e especialmente por registrar seus comentários — amanhã cedo vou postar o segundo convite, para seguirmos conversando!?
      Viva o Grupo de Amizade!
      Marina

    • agachamento
      12 de abril de 2020 at 21:21

      ah, tem esse registro / reflexão curtinha sobre a experiência de voluntariado: http://agachamento.com/?p=260

  6. Lucas Emanuel
    13 de abril de 2020 at 00:32

    Marina, que importante foi reencontrar com seu texto “Guerra de Maças”.
    Como professor de Arte, para crianças e adolescentes, em plena quarentena, estou imerso em uma nova espacialidade, demarcada por videoaulas, chats e plataformas digitais. Realidade das escolas particulares, com o objetivo de dar sequência aos cronogramas de ensino (na medida do possível). Desta forma, reli seu texto abismado com a docência nessa nova espacialidade: na “nuvem”.

    Acredito que, assim como os movimentos protagonizados pelos estudantes em 2016, citado em seu texto, iremos vivenciar grandes reverberações na educação formal, como consequência dessa pandemia e quarentena. Quem sabe teremos salas de aulas mais próximas às novas tecnologias… Mas estamos, nós professores, preparados para esse diálogo?

    Bem, aceitei o convite feito no início do artigo e construí, ao reler seu texto, um pomar com muitas macieiras, mas, elas foram imaginadas num cenário-online. Acabei me inspirando no jogo Minecraft, febre para muitas crianças. Nele, o jogador cria cenários virtuais, plataformas que vão sendo construídas e destruídas ao longo do jogo. Muitas árvores, montanhas e casas no campo são compostas com quadrados e formas geométricas. Cheio de teatralidade, não é?

    Cito este jogo, procurando me aproximar desta referência contemporânea, para a cultura das infâncias. Sinto que há nesses tempos-espaços virtuais interessantes questões para pensarmos, enquanto artistas e educadores.

    Espero como um adulto condutor, não ficar sem reação frente aos embates contra as estruturas. Por fim, também acredito muito nesse vínculo de arte e vida. E creio que esses âmbitos são a antiestrutura necessária para não morrermos, mesmo que nos jogos digitais.

    Um abraço, Lucas E.

    • agachamento
      13 de abril de 2020 at 09:02

      Oi Lucas
      Logo em seguida de ler seu comentário, postei um segundo texto… que “tematiza” caixas de papelão rs — quero que saiba que isso não foi uma “teimosia” da minha parte — e que estou acompanhando a saga de vários artistas-professores tendo que criar atividades on line para os alunos, assim, da noite pro dia. Sei também que a minha condição hoje, como professora de uma universidade federal, facilita pensar outro tempo e outro espaço, mas que não quero que seja / esteja em outra ponta, em outra conexão, seja antiguinha ou “apenas” filosófica. Eu acredito que o desafio deste momento específico está em pensar antiestruturas a partir do que temos, de um menu de possibilidades: a casa da criança e do jovem, que se vê confinado, por exemplo (seria sua cultura cotidiana) versus a cultura adulta que cria para crianças e jovens (jogos, games, canções, brinquedos, livros, o que seja). Assim pensei por aqui: que tal propor uma fotonovela digital? Fazer fotos / criar contextos e situações / criar os diálogos / montar digitalmente e enviar para os colegas de sala e professor. Penso isso porque é muito importante mantermos a autoralidade, a expressividade, e um ritmo desacelerado: pois o que vejo, nos tempos digitais e de confinamento, é muita ansiedade no ar! (além do vírus)
      Que acha? Faz sentido, dá liga com o que você está vivendo? Ah, na verdade é só um exemplo, para seguirmos conversando…
      bjs e ótima semana
      da Marina

  7. Thaíse
    16 de abril de 2020 at 15:17

    Olá, querida Marina.
    Chego um pouco tarde no texto da semana passada – mas, creio, ainda em tempo.

    Sobre a posição a partir da qual ora falo (escrevo): não pude reler o texto das maçãs, ainda. Optei por vir comentar o post com o que tenho dele na memória, a partir da leitura que você me fez do que ele começava a ser, em 2014 (acho), em sua antiga casa. Escolhi começar mesmo assim porque, caso contrário, com as excessivas demandas que estou encarando, este comentário não sairia.

    Fiquei muito alegre de encontrar esse primeiro post, pois o tema do debate – vou chamá-lo aqui de “relações possíveis entre artes, políticas e convivialidades” (minha leitura) – me interessa demais. Mais que interessar, ele me inquieta e, muitas vezes, angustia.

    Ainda que, enquanto artista e pesquisadora de práticas de pesquisa-docência-criação, minha tendência seja concordar com a percepção de que a arte “não poderá ser sinônimo de projeto social”, vejo constantemente essa percepção contrastar com as urgências de manutenção da vida por parte dos meus estudantes no curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Tocantins – massivamente, pessoas em situação socioeconômica muito vulnerável, que deixam de ir à aula por não poder pagar o transporte coletivo ou por não terem mais comida para comer no dia. São, também, em sua maioria, jovens, adultos e idosos que vivenciaram uma escola básica insuficiente, sucateada e que, além de antiquada no que tange ao seu modo de funcionamento [às culturas e formas escolares], também incapaz de executar bem mesmo aquilo a que supostamente se proporia. Essas pessoas precisam, ao se formar, conseguir ganhar algum dinheiro, algo que as possibilite, tipo, não passar fome. E, esperamos, isso deve acontecer por meio do ensino de teatro.

    Essa experiência, aliada à vivência de uma sala de aula desprovida dos recursos que eu entendo como suficientes para o que eu considero uma boa aula, veio impactando a minha forma de entender as possíveis funções, possibilidades e limites da experiência com/na/da arte nesse contexto, e no contexto derivado dele que seria a futura sala de aula desses futuros professores.

    Passei então a refletir sobre o que estou entendendo como USOS TÁTICOS da arte, ou dos elementos da arte, em contextos como o meu. “Usar taticamente” seria tomar uma dessas situações que entendemos como não ideal (ou desfavorável, ou mesmo impeditiva-da-arte) e emular as suas formas visíveis -mas não todas – visando a conquistar aquilo que julgamos mais pertinente (práticas enriquecedoras, não redutoras).

    É certo que a arte pode não encontrar sua maior potência funcionando como “ajuda”. Porém, o fato é que as pessoas precisam de ajuda, precisam muito e precisam urgentemente. E, algumas vezes, a única arte possível para grande número de pessoas será essa, a que chega como “ajuda”, ou como função.

    Eu não me sinto honesta em abandonar o que acredito como verdadeiro potencial da arte (o lento, gradual, sutil; o deambulante “rumo” ao que ainda não existe) para apagar os infinitos incêndios do mundo. Buscando o equilíbrio disso é que venho pensando sobre a questão do USO TÁTICO.

    Assim, tenho entendido o projeto de assistência social, socieducativo, a pecinha no final do ano e a utilidade do curso de teatro (“para falar melhor”, “para se relacionar melhor”) como as portas de entrada que existem para a relação da maioria das pessoas com a arte. Nesse contexto, nosso desafio estaria em promover a mediação-fluxo-torção entre uma coisa e outra. Eu posso entrar na porta do projeto social e seguir o corredor do assistencialismo fácil, das fórmulas, dos padrões. Ou eu posso lutar para entrar por essa porta e cavar um túnel, usando fórmulas e padrões como pás, escavadeiras.

    Estarei sendo ingênua?
    Excessivamente otimista?

    Escrevendo aqui, pra/com você, me ocorreu que isso pode ter algo a ver com a mãe suficientemente boa. Não sei se tem, me diga você que entende do tema =)

    Vou dar dois exemplos que vêm me ajudando na construção dessa reflexão:

    1) Em certo curso de Licenciatura de Teatro, em alguma universidade por aí, existe uma professora de metodologia do ensino de teatro que é bastante adepta do discurso “teatro não serve para nada”. Enfim, acredito que ela estaria de pleno acordo com as suas colocações aqui no post. Contudo, ouvi dizer que, após passarem por essas componentes curriculares, os estudantes, quando solicitados a pensar sobre a elaboração de uma sequência didática para a composição de um plano de curso – coisa que eles necessariamente terão de fazer nas escolas – não têm absolutamente nenhuma condição de responder a isso. A minha colega que me contou isso disse, ainda, que eles diziam “não sei justificar porque coloquei esse jogo depois desse, afinal, o teatro não serve pra nada”. Bem, isso não me parece razoável. Tenho a impressão de que só podemos revolucionar se conhecemos bem as armas do inimigo, ou só podemos desterritorializar-nos se há um território sob nossos pés. Seria preciso, portanto, aliar o “teatro não serve pra nada” como valor, e os objetivos de aprendizagem, sequência didática e plano de curso como ferramentas táticas, vistas sob olhar crítico.

    2) Essa aconteceu comigo: dois semestres dando aulas de metodologia do ensino de teatro na Pedagogia. No questionário diagnóstico do começo das aulas, descubro que só um ou dois alunos, em quarenta, já foram ao teatro. A oferta de peças de teatro na cidade era escassa, e as aulas aconteciam às segundas-feiras. O que fiz: passei a utilizar projeções de filmagens de peças, e desenvolvi um método de mediação disso, nesse contexto. Eu acho que filmagens de peças são ideais para quem nunca viu teatro? Óbvio que não. Mas era isso que eu tinha e, me aliando taticamente a esse recurso, eu acredito que pude aproximar ao menos um pouco os estudantes da experiência do teatro – mas, é claro, isso repousa não apenas no quê eu fiz, mas em como (e nos detalhes do quê). Isso, porém, só pode ser feito porque eu 1) tinha uma perspectiva outra, à qual me orientar – valores, entendimentos da potência do teatro; 2) conhecia as ferramentas; 3) tinha o entendimento crítico delas e 4) não tive pudor de lançar mão delas, usá-las, explorá-las e reinventá-las.

    Tentanto agora alguma síntese: ainda que compreendamos que as práticas educativas em arte não devam ter como princípio suas supostas funções (da arte, ou da educação), talvez as supostas funções possam operar como ferramentas rumo à construção de condições mínimas para práticas que promovam a arte como habilidade imaginativa, propondo-a como um lugar para habitar.

    Bem, eu tomei a liberdade de escrever com honestidade, tentando ser amorosa mas não deixando de assumir uma posição que pode ser contraditória. Sei que posso fazer isso porque nós confiamos uma na outra. Essa possibilidade é algo que valorizo muito, e que, ao meu ver, faz tanto a boa pesquisa, como as grandes amizades. É o que quero deixar registrado, para caso eu viesse a morrer amanhã. =) Ainda assim, caso tenha soado mal, por favor, não deixe de me dizer. Você importa. <3

    • agachamento
      17 de abril de 2020 at 09:08

      Oi Thaise
      Você também importa… para mim, no mundo.
      Você está certísisma. Penso que tem dois pólos, dois campos para começar a debater: um deles é a Universidade, e nós mesmas — docentes, artistas pesquisadoras — e o lugar do conhecimento em arte nas Universidades; o outro pólo: a vida mesma, a imensidão do Brasil, a diversidade brasileira, e especialmente, as dificuldades de muitos (em termos de alimentação, escola, formação, (im)possibilidade de escolhas, etc). Assim estamos fazendo algo com jovens e com adultos que querem se formar “professores de teatro”; no entanto, suas experiências anteriores em “aulas” (nem falo sobre aulas de arte, falo sobre relações aluno-professor, sobre material didático, sobre “disciplinas”) e em “teatro” são por vezes tão demarcadas, tão arraigadas, tão por vezes traumáticas, quando não inexistentes (em relação ao teatro, como você diz) que nosso planejamento antiestrutural, nossos parangolés, nossos cadernos de campo, nossa vontade de rasgar a quarta parede, rs, como temáticas de aula e de provocações para esses jovens e adultos podem não fazer o menor sentido.
      Então, por isso mesmo estou fazendo essas oito postagens “abertas a comentários de convidados” — e de todos que quiserem por aqui debater, conversar.
      Porque meu segundo pós-doutorado é a escrita de um livro, sobre “a perspectiva artístico-existencial”(rs) — em uma maneira de escrever mais próxima do blog e do linguajar cotidiano; quero fazer um livro não-acadêmico que vai falar sobre meus textos acadêmicos, mas quero falar com “todo mundo” que quiser trabalhar arte e ensino de arte com liberdade, de forma autoral, e sendo feliz.
      Ah, então reside aqui minha divergência, do dizer “arte não serve para nada”! Porque desde que cheguei na UFMG, em 2012, e mesmo antes, eu já procurava dizer: “o teatro serve para ser feliz”. Mesmo se estamos tristes, acabados, arrasados, confinados, desempregados, ameaçados: o campo ficcional propicia novos mundos, outras realidades, e também o exercício “do pior da gente”, mas no personagem, na fala poética, no crime encenado (não cometido), na canção teatral (“Joga bosta na Geni, joga merda na Geni…”!?).
      Então tem sim serventia.
      Mas não é aquela que estou associando [talvez sim, com muita agressividade ou ironia] ao “projeto social” — mas não ao participante do projeto social, e sim, ao organizador e idealizador do projeto social.
      A serventia é humanizante, poética, nos termos do Paulo Freire, é de belezura / feiura, é de afetividade e de protagonismo: não é de assistencialismo nem de alienação.
      Mas podemos, pela arte, falar de alienação.
      Viva!
      beijos com carinho e amizade
      da Marina

      • Thaíse
        17 de abril de 2020 at 15:24

        Pois sim. Estamos de acordo, portanto.
        Não que precisássemos, hehehe.

        No mais, eu acredito que o meu comentário, como creio que você sugere no seu, se dedica a pensar o jovem e o adulto, deixando de pensar propriamente na infância, que é o “ambiente” em que sua proposta está inscrita. Creio que seja preciso não perder de vista que a dureza das portas de entrada que encontramos em estudantes do ensino superior foi construída, dentre outros inúmeros fatores (sociais, políticos, culturais, físicos, intersubjetivos), nas “aulas” da infância.

        Me lembrei do quão importante foi ter lido um determinado trecho do livro “Jogar, representar”, do Ryngaert, logo que ele foi lançado. Eu fiz Bacharelado, não tinha leitura em Pedagogia do Teatro. Daí, em certa parte do livro, ele fala sobre o sujeito que vem pra aula querendo acertar, querendo dar conta do jogo. Ele já sabe o que fazer, sabe que tem umas caras que ele faz que funcionam, certas gagues, uns olhares, e então fica só naquilo, repetindo aquilo e “fazendo certo”, “fazendo bem”.

        Entendo que esse trecho fala sobre a necessidade de aceitarmos a vulnerabilidade na aula de teatro, e de estarmos dispostos a correr riscos – dentre os quais, destaca-se o de errar. Então, acho que esses dois elementos estão envolvidos na sua reflexão (vulnerabilidade e erro).

        A aula de teatro que tem foco exclusivo na peça final e o projeto social que tem interesse pleno em ajudar-por-meio-do-teatro, sem estarem fazendo o que chamei de “uso tático” dessas formas, são processos que parecem não dar o espaço devido à instauração dessa aceitação da vulnerabilidade, ou do exercício do estar vulnerável, bem como do errar. Com isso, a inventividade é bloqueada, e a aula de teatro não acontece como prática experimental da existência.

        Bem, acho que é isso. Coisinhas que fui pensando junto com seu comentário.
        Estou aqui!

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