Te digo o que vai pegar

Vai pegar em 2020, de 2020 em diante

Em 2020 vou ter um afastamento das funções de docente na UFMG para meu segundo pos-doutoramento, com supervisão de Carminda Mendes André (UNESP) e cujo mote é a escrita de um novo livro. Título provisório: Perspectiva artístico-existencial / Espirais entre arte e infância, fenomenologia e psicanálise.

Não será um trabalho “de gabinete”; vou propor três ações que podem ser um Projeto de extensão por um período, e, no contato com os participantes das três propostas, irei processualmente escrevendo. São as ações, brevemente resumidas:

Perspectiva artístico-existencial no ensino de arte e na pesquisa

Em um programa intensivo de dez encontros seguidos, vamos discutir dez textos centrais no meu caminho de pesquisa, no entanto na direção das “poéticas próprias” dos participantes – mais do que uma adesão irrefletida à perspectiva artístico-existencial, a proposta é que cada um projete sua autonomia como professor artista pesquisador, ou professor performer.

Supervisão de práticas de ensino de arte na Perspectiva artístico-existencial: implicações da abordagem espiral com o professor artista pesquisador

Oito encontros para discutir “estudos de caso” apresentados pelos participantes que estejam praticando a docência no campo de conhecimento das artes, com especial destaque para o ensino do teatro, de modo a fazer ver modos de ação e pensamento na abordagem espiral, sob a perspectiva artístico-existencial.

Grupo de amizade acadêmica: rodas de conversa sobre pesquisa em arte e a Perspectiva artístico-existencial

Neste grupo vou propor, também por oito encontros, um espaço compartilhado para a conversa sobre pesquisa em artes, com especial destaque para o ensino e a pesquisa que se pautem na perspectiva artístico-existencial, tal qual discutida e explicitada nos outros dois braços do projeto.

Durante as ações, vamos discutir dez a doze textos de minha autoria, de modo que o livro se torne uma espécie de roteiro criativo para convidar o leitor, ao mesmo tempo que ler o livro, às leituras dos artigos; os textos estão no mundo. Assim como a escrita que mantenho,  aqui no site-blog Agachamento, em fluxo contínuo desde janeiro de 2011, quero escrever (e publicar rs) um livro com um tipo de texto simples e sério ao mesmo tempo... mas não acadêmico estrito senso. Gostaria muito que estudantes nas graduações – Bacharelados e Licenciaturas nas artes, pelo Brasil afora – pudessem ter acesso ao livro, e que sua leitura fosse prazerosa e desafiadora.

Projeto criar um tipo de resposta ao livro didático, no qual tudo está relativamente dado, organizado e roteirizado.

Como fazer seus próprios roteiros criativos e sequências didáticas abertas? Tenho nomeado este outro jeito de trabalhar o ensino de arte como “abordagem espiral”. Agora, alguns anos depois da ideia inicial, que me proporcionou dois prêmios, vejo que trabalhar, com transparência, uma visão de mundo, uma “perspectiva” para compreender a criança e o jovem em seus mundos de vida, é a maneira mais interessante e bonita de começar a fazer diferente.

proposta encarnada no corpo_materiais_ relaçõesO que proponho modificar?

É meu ponto de vista que a atitude adulta frente à criança e o jovem que precisam des-contornar... tenho gostado de usar as palavras “contorno” e “descontorno” pois vemos ainda milhares, senão milhões de educadores propondo, como “atividade de artes”, colorir dentro do contorno. Eu estava numa banca de conclusão de curso e a aluna, graduanda na Escola de Belas Artes, chorou lembrando, em depoimento, de como era “um fracasso” em colorir certinho, no contorno...! Colorir dentro do contorno não é arte, é tarefa/exercício de psicomotricidade – ok, podemos validar como algo relacionado à percepção da figura no papel e ao uso comedido (motricidade fina) do lápis de cor, mas não é ação relacionada a arte.

atitude de agachamentoProvavelmente por ter nascido na década de 1960, sido adolescente da metade da década de 1970 em diante, e por ter dado de cara com o teatro desde 1978, encontrando referências das bordas entre arte e vida, que cometi a “audácia do bofe” de, muito lentamente, criar a perspectiva artístico-existencial. Mas, ei você!?, não é algo para ser adotado! É algo para ser notado, como fonte que matará a sede de poder ser o que se é.

Ser o que se é!

Que raios é isso na era dos games, selfies, haters, instas???

Penso que só você leitor poderia saber o que se é – mas nunca como competição em um game, nem como foto registrando “Seu Momento”, nem polarizado entre gostei e não gostei, nem a imagem pela beleza da imagem...

A perspectiva artístico-existencial tem sim alguns princípios, e talvez difíceis de praticar na contemporaneidade.

O primeiro: o silêncio.

O segundo: a observação atenta, de si, do outro, do mundo.

O terceiro: a busca pelo ponto de vista da criança e do jovem.

O quarto: focar nas relações, encontro, convívio.

outra corporalidadePor isso ainda acho que vai pegar, no melhor sentido, o caminho do ensino de arte – na chave existencial, que sintoniza na criação de poéticas próprias, da felicidade e da possibilidade expressiva da infelicidade (cantada, dançada, performada, gritada, chorada) – como ato performativo de resistência... Resistir ao aplicativo, ao livro didático roteirizado, às vias curtas e técnicas e práticas. E vai pegar como dois e dois são cinco, e por muitas décadas.

Quinto princípio: praticar a via longa.

Sexto: perceber, a cada dia, como a arte é um lugar – visitar, alugar, morar, construir, habitar... demolir e erguer de novo.

Sétimo:  rir muito (mas sem ironia) daquele que diz que sabe para que serve a [aula de] arte, e ensina a serventia.

Esses sete princípios seriam um modo de ir, em câmera lenta, agachando-se, na direção do chão. De onde vem o baião.

Cave um buraco até o Japão.

Pesquise onde é o Jalapão.

Comece seus hai-kais mesmo que com rimas pobres, e, aos poucos, sem estresse, desapegue da rima... E volte ao primeiro princípio, sempre.

*

capa livro silêncio

Silêncio é o nome do livro, recém-traduzido para o português pela Editora Cobogó, de autoria de John Cage. Dê um jeito de ter o seu, se quiser encontrar o fluxo disso tudo também em livros.

 

 

 

[As três fotos desta postagem foram tiradas por Lúcio Honorato em setembro de 2019, no evento UFMG Jovem, do qual fizemos parte: eu, Raysner de Paula, Charles Valadares e Raiane Oliveira]

 

 

 

 

 

8 comments for “Te digo o que vai pegar

  1. Belister Rocha Paulino
    24 de janeiro de 2020 at 13:06

    Olá Marina!
    Muito gratificante começar 2020 conhecendo o Blog Agachamento!!!!
    Quantas palavras para inspirar meu próprio caminho de ser e estar nesse mundo!!!!
    Sobre suas ações no pós-doutorado… o grupo de professores que participarão dos encontros está restrito aos docentes da rede de ensino de Minas Gerais? Gostaria, de alguma forma, de fazer parte dessas ações e de acompanhar o desenrolar da sua pesquisa. Estou começando meu doutorado em Cênicas na Universidade de Brasília e buscando inspirações para a investigação sobre dança , educação e formação continuada. Essa tarde marca o encontro com seu jeito de pensar, sentir, escrever e ser professora/artista e pesquisadora. Mais inspiração que isso? Parabéns pela trajetória, que ainda tem muito a contribuir!!!!

    • agachamento
      24 de janeiro de 2020 at 13:13

      Olá! As ações em 2020 acontecerão em São Paulo, na UNESP (Instituto de Artes, Barra Funda) e serão abertas a todos os interessados.
      Fiquei feliz com sua mensagem! Bons agachamentos! rs
      Marina

      • Thâmile
        29 de janeiro de 2020 at 13:36

        Marina, querida! Como faço pra participar?

        • agachamento
          30 de janeiro de 2020 at 11:03

          Olá Thâmile
          Para participar fique atenta aqui mesmo no Agachamento e aos projetos de extensão da Unesp para o segundo semestre… vc está em SP?
          um abraço
          Marina

  2. Patrícia
    29 de janeiro de 2020 at 00:47

    oi Marina!
    Sou uma professora e acho que essa função é tão ampla que até eu me perco dos significados da minha prática. Uma delas está na busca por um sentido das minhas aulas de artes. Eu poderia tb, quem sabe, pedindo assim… com jeitinho, ter acesso e ler os textos que irá trabalhar nos encontros?

    • agachamento
      30 de janeiro de 2020 at 11:04

      Oi Patrícia
      Como vai?
      Nem precisaria de pedir “com jeitinho”, uma vez que os textos-base estão na internet! Veja a seção artigos aqui do Agachamento (barra do menu superior)
      O que vai acontecer certamente é que vou relatar as coisas que irão acontecendo por aqui, e vc terá acesso, lendo minhas postagens.
      Um abraço
      agradecendo seu interesse e interação, sempre
      Marina

  3. Luciana Cezário
    10 de fevereiro de 2020 at 19:38

    Quero ir pra SP <3
    sinto muito amor nessa postagem.

    • agachamento
      10 de fevereiro de 2020 at 21:13

      Que bom! A amorosidade é mesmo o que nos resta — nossa “flower power”, poder de flor
      bjs

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