Teatro como expressividade, sempre

Na outra semana aconteceu a aula final da disciplina “Teorias do ensino do teatro”. Meu empenho com esse curso é marcado pela aula que preparei e apresentei no concurso para entrar na UFMG; tenho carinho e responsabilidade por estes conteúdos (ou por essas noções, como diria Gilberto Icle).

Neste semestre, haviam 22 inscritos e apenas um desistiu. Para a Licenciatura em Teatro daqui, vinte e um alunos é bastante gente.

Meu hábito tem sido organizar três unidades, que giram em torno do teatro dramático tradicional e seu ensino / teatro épico e seu ensino / processos do teatro pós-dramático e seu ensino. Foi assim que organizei a aula de cinquenta minutos, na época do concurso; foi assim que pensei as quinze semanas do curso, com aulas de duas horas e meia.

Neste ano de 2019, pensei algo novo, que foi associar a unidade a um modo de ser e estar do professor: teatro dramático e o professor personagem / teatro épico e o professor narrador / teatro pós-dramático e o professor performer.

Trata-se de um curso teórico-prático, cuja prática não é “fazer teatro” mas sim planejar aulas – pensa-las, sem literalmente ensiná-las. Residiu nessa minha escolha — da não “aplicação” dos planos de aula — uma das críticas dos estudantes.

Sobre aulas expositivas

Foram as críticas por parte dos alunos me fizeram refletir e escrever esta postagem… Outra delas: o cansaço que aulas tradicionais e teóricas causam nos alunos de hoje; isso foi até mesmo associado ao que Paulo Freire nomeou “educação bancária” – o que obviamente mexeu demais comigo.

Paulo Freire falou algo sobre aulas teóricas – encontrei uma discussão interessante citada no Dicionário Paulo Freire, no verbete “aula”:

Mas é importante dizer (…) que ao criticar a educação “bancária”, temos que reconhecer que nem todos os tipos de aulas expositivas podem ser considerados educação “bancária”. Você pode ser muito crítico fazendo preleções. A questão, para mim, é como fazer com que os alunos não durmam, porque eles nos ouvem como se estivéssemos cantando para eles! A questão não é se as preleções são “bancárias” ou não, ou se não se deve fazer preleções. (…) O educador libertador iluminará a realidade mesmo com aulas expositivas. A questão é o conteúdo e o dinamismo da aula, a abordagem do objeto a ser conhecido. Elas re-orientam os estudantes para a sociedade de forma crítica? Estimulam o pensamento crítico ou não? (Paulo Freire e Ira Shor, 1986, p.31)

Sobre branquitude, contradições e lacunas / abismo geracional

Aos poucos percebi, na discursividade de alguns dos estudantes, que estamos em um momento potente e delicado ao mesmo tempo. A delicadeza reside na necessidade de abertura para conversa, compartilhamento na direção de novas atitudes, novos agachamentos, diante das questões emergentes: na Universidade e fora dela. Maneiras de ser e estar no mundo do século passado, no qual nasci e vivi por 39 anos, precisam ser revistas. Fui sincera admitindo minhas contradições.

Quero muito conseguir de fato fazer foco no ensino do teatro como algo relacional, na direção da expressividade das crianças e dos jovens com os quais os alunos formados em Licenciatura em Teatro vão trabalhar. Para tal, para não cair em contradição, preciso fazer foco na juventude e adultície deles – não na minha… Ou ainda, em termos ideais, podemos habitar a zona da lacuna geracional, no sentido de troca de experiências. Espero sinceramente atingir isso ao longo dos próximos anos.

Sobre o curso

Não vou ensinar esta disciplina em 2020. Se for retoma-la em 2021, pensei em um novo desenho, que tente unir teoria de prática de modo orgânico. Ficaria assim:

O teatro dramático, temas autobiográficos e seu ensino / O teatro épico, temas autobiográficos e seu ensino / O teatro pós-dramático, temas autobiográficos e seu ensino. Pensei assim pois planejar aulas pelo viés biográfico poderá contemplar o “dizer de si”; alguns alunos também se queixaram de que minha atitude em aula, por vezes, foi de não ouvi-los. Quem sabe a partir de um novo desenho para uma antiga disciplina (com uma “velha professora” rs) faça sentido para todas as partes envolvidas.

Faltou reafirmar que teatro é expressividade, e discutir expressividade

sim, eu tenho um lado dinossauro

sim, eu tenho um lado dinossauro

Acabei lamentando não ter destacado, naquela roda de conversa final, que, do meu ponto de vista, o teatro com não atores, é expressividade – não um saber técnico, nem tampouco aulas semanais de preparo para uma profissão; no entanto, é sim importante que as crianças e jovens percebam o que é a carreira profissional em artes e teatro.

O teatro como expressividade é feito pela oferta, pelo professor adulto condutor, de jogos, brincadeiras e propostas de “dizer algo a alguém”. Como e o que dizer, o aluno será convidado a investigar, cuidar, compreender a potência do teatro. Expressividade e protagonismo são palavras-chave do ensino do teatro no século atual. A Universidade seria a espacialidade para essa mudança: do espetáculo final ao ato performativo, que seja um dizer de si, com o outro, no mundo.

2 comments for “Teatro como expressividade, sempre

  1. Raysner de Paula
    24 de novembro de 2019 at 22:09

    Marina, vivi agora algo curioso lendo seu texto. Uma ida ao ano de 2012/2013. Um reencontro com aquela Marina de lá que nos inspirava, nos remexia, nos provocava e, sobretudo, falava com amor e respeito sobre a nossa profissão/ensino do teatro. Sinto que a Marina de lá ficaria muito orgulhosa com essa de hoje que não se embruteceu com os anos corridos dentro da sala de aula na velha senhora. Assim como o Raysner de 2019 que segue cheio de orgulho e inspirado nesse seu movimento de agacho constante.

    • agachamento
      24 de novembro de 2019 at 22:22

      benção meu filho!
      :)

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