Aperitivos fenomenológicos

Sobre a docência na pós-graduação em Artes

foto de Lúcio Honorato

foto de Lúcio Honorato

Ontem terminou minha disciplina na pós-graduação da Escola de Belas Artes da UFMG. Foram dez semanas de três horas-aula a cada semana; foi a sexta versão do curso “Poéticas próprias, performances narrativas e atos (auto)biográficos”. Por quatro semestres ainda tinha subtítulo – “recortes etnográficos para pensar uma metodologia de pesquisa em Artes”. Esse nome gigante não cabia no formulário (rs rs) e então simplifiquei… e simplificarei mais ainda: provavelmente não darei mais essa disciplina, ao menos por um tempo. Tudo indica que irei passar alguns meses no Canadá, e, ao voltar, farei outra disciplina, compartilhando a pesquisa de campo de lá.

Quando começa, tenho dúvidas, me sinto um pouco mal, fico achando que estou enganada ofertando uma espécie de “fast food da fenomenologia”… Quando termina, fico contente, percebo avanços, bem como valorizo as trinta horas vividas em sala de aula, e repenso a possibilidade de, sim, ofertar aperitivos fenomenológicos!

Os aperitivos precisam ser apetitosos, atraentes, e convidativos – convite a uma atitude generosa de não julgamento, de compreensão dos fenômenos, das pessoas, das relações humanas enfim. Metodologia: vou alimentando os alunos e eles vão usufruindo dessas pitadas de generosidade, amorosidade fora da lógica da religiosidade ou comiseração ou assistência social…

Como fazer isso?

Por meio de um caminho que chamo, já na primeira aula, de simples, sério e viável. Inventei essa combinação de palavras para receber os alunos nas suas medidas, anunciando que não vou exigir leituras em três línguas, nem monografias finais exaustivas, nem retóricas de veludo azul… Contrapontos ao que eu mesma vivi e senti pelo mundo acadêmico afora, durante meus anos e anos de formação.

Na medida em que me dispus a ser professora universitária, inicialmente em universidades privadas em São Paulo e agora na UFMG, disse a mim mesma que ia procurar fazer diferente: fazer diferente na direção da dialogia, da não arrogância ou hierarquia de saberes, e em nome de um saber local – pessoal, brasileiro, mas capaz de universalidade, pela possibilidade de sermos o que somos.

Simples assim.

Parece ingênuo, mas tem feito muito sentido.

Também tem sido gratificante. Me sinto em geral leve e criativa, e vou propondo aos alunos a descrição como modo de conhecimento das coisas do mundo – os fenômenos. Mas como costumam dizer todos os antropólogos culturais, a partir de Clifford Geertz: não a “mera” descrição, mas a descrição densa. E quem quiser avançar, procurar pela descrição tensa (como escreveu John Dawsey em um artigo seu). Junto com a descoberta desse tipo de texto descritivo (sim, é texto!) trago aos alunos e alunas uma visão de ser humano: a visão fenomenológica, do ser-no-mundo, que apresento pela Flor da vida – síntese imagética que criei em meu doutorado, e que está discutida no livro Merleau-Ponty & a Educação.

Munidos de flores e da díade gesto-e-palavra, deixando as teorias entre parênteses, distanciando-se dos saberes que pensam que já possuem, os alunos são convidados tanto a descrever o que tem sido o curso, em dois Diários de Bordo, bem como fazer, como trabalho final, um Mapa de pesquisa.

O Mapa de pesquisa responde ao que muitos veem chamando de “cartografia”; alunos jovens gostam disso, tanto quanto gostam de “rizomas”, sem no entanto materializar essas possibilidades: sem espacializar suas imaginações, diria Doreen Massey. Dizem e aderem aos termos pois sabem de sua potência inovadora, mas no entanto, em geral, não percebem muito como chegar lá… dizem que não precisam chegar… rasgam os capítulos, escolhem dizer “pistas”… criticam as árvores e os conhecimentos hegemônicos desses bosques e florestas… Mas por vezes parecem perdidos tal como Chapeuzinhos Vermelhos nos mesmos bosques e florestas, quando insistem no que não querem fazer.

O trabalho fenomenológico será justamente procurar o que se quer fazer, unindo rigor e vigor; descrevendo suas escolhas, tempos, espaços, corpos, outros não-eu, no caldo do mundo, por meio do entretecimento possível de prática-teórica na oralidade e na textualidade da língua-mãe.

Tenho visto nas dez semanas de curso, nas seis oportunidades que o ofereci, transformações interessantes, quedas, tiradas de máscara, desequilíbrios, bagagens sendo desfeitas, malas se abrindo… embora um ou outro aluno permaneça impermeável a tudo isso. O que é obviamente um direito.

Para aqueles que vão experimentando os aperitivos, as coisas passam a ser palatáveis, a língua que se permite dizer o que se é, e os corpos por vezes choram, muitas vezes riem, junto, na possibilidade de sermos artistas que se reúnem uma vez por semana para pensar a arte e a pesquisa acadêmica em arte.

Como e por que isso seria um peso ou um fardo?

Percebo que quando pensar arte e sua própria pesquisa em arte é um fardo o aluno mesmo encontra-se numa caixa de vidro, ou até mesmo de cristal, na qual ele foi posto provavelmente depois do Ensino Médio, por seus professores das graduações pelo Brasil afora. Poucos se colocaram por conta própria na caixa dura e transparente… mas há casos assim também. Com base em meus estudos da obra de Winnicott, alunos mesmo jovens chegam por vezes no mestrado carregados do que o psicanalista nomeia por falso self. Uma espécie de máscara social na qual uma significação para a adultice e para o sucesso profissional são fixas, e cheias de certezas.

No entanto minha percepção é de que as dez semanas proporcionadas pelo curso lidam com o que o mesmo Winnicott chamou de verdadeiro self. Posso ver pelas pessoalidades o quanto estão dispostos a estarem ali – mesmo no momento atual, ou talvez, ainda mais no momento atual, no qual tanto o professor quanto o aluno das universidades federais encontram-se numa perversa berlinda, muitos alunos sem bolsa, e uma desvalorização sem precedentes dos nossos lugares no mundo.

foto de Lúcio Honorato

foto de Lúcio Honorato

Por isso tudo fico feliz com ter vivido, em seis anos seguidos, essas experiências de docência na pós-graduação não como obrigação, mas antes, como um compromisso do meu caminho existencial, de uma empiria radical vivida profissionalmente até a escolha de estar onde estou, aceitando meu dom e minha sina, a dor e a delícia de começar a envelhecer. Já morro um pouco para que tudo isso renasça nos alunos que estiveram na espacialidade da meia-lua na qual servi aperitivos…

1 comment for “Aperitivos fenomenológicos

  1. Luciana Cezário
    6 de novembro de 2019 at 18:24

    ah Marina!
    saudade!

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