Sobre servir e ser servido

Num sábado ensolarado, dia 16 de julho, estive presente, como voluntária, em um lugar que serve sopa para uma Comunidade, na região do Carandiru.

Lá, lembrei de muitas coisas da minha biografia, sobre servir e ser servido, sobre gostar ou não de sopas, sobre aprender a cozinhar… mas a conexão mais marcante é a relação entre servir sopa – uma sopa rica, maravilhosa, cuidadosamente elaborada – para pessoas muito simples e a noção de antiestrutura e de communitas, como na antropologia estudada por Victor Turner: está neste tipo de gesto a possibilidade de um outro mundo. Principalmente porque a sopa maravilhosa não custava dinheiro e podia ser levada para casa, por qualquer pessoa, também.

Em uma Escola pública onde fui voluntária serve-se almoço para as crianças, pois ficam por ali em período integral. O contraste entre o fazer, o servir, o usufruir a comida nestes dois lugares da cidade de São Paulo, é inimaginável.

A sopa da Comunidade: densa, com macarrão, cheirosa, interessante, convidativa.

A comida da Escola: azeda (segundo o dizer das próprias crianças!), esquisita, monótona – feita de arroz, feijão e “outra coisa”: carne moída, almôndegas, nuggets que dão ânsia em algumas crianças…

A situação na Comunidade: as pessoas se sentem servidas, é um ato de doação, e agradecem; as crianças, ficam alegres e ‘se comportam’, por assim dizer.

A situação na Escola: professoras no final de seu período servem em um prato de plástico a comida com gosto azedo, quase toda advinda de embalagens enlatadas. As crianças se dispersam rapidamente, perdem o foco, não há prazer em comer.

No contexto da Comunidade, servir a sopa é um ato religioso e de comiseração dos que tem mais para com os que tem menos. Há um importante significado de redenção no gesto da caridade, especialmente ao servir crianças, comida boa e gratuita.

No contexto da Escola, fica a sensação de que tanto os adultos que cozinham quanto os adultos que servem preferiam estar em outro lugar. Não há positividade no ato de servir, e o ato de comer, para as crianças, está dado como rotineiro, e até mesmo vivido como um momento difícil do dia. Alguns trazem bolachas, bisnaguinhas com manteiga, suco ou banana, para enriquecer suas refeições “obrigatórias”. E os professores, de modo geral, não consideram ser “função de professor” servir comida para os alunos.

Na Comunidade, se algo tem sentido de obrigação é no sentido religioso da palavra, revelado no gesto das mulheres da cozinha.

Configuram-se assim dois mundos ao redor do ato de alimentar-se: um sagrado, outro profano; um do cuidado, da pertença, do importar-se; outro do gesto rotineiro, ‘neutro’, definido por uma temporalidade de turnos.

Qual deles você habita?

Série "Humilhados e ofendidos"

Acorda João, acorda Ermano: hoje é dia de sopa

1 comment for “Sobre servir e ser servido

  1. Maria Rita
    15 de novembro de 2011 at 18:14

    Alegria de servir o outro, de trabalhar pelo outro ainda está longe dos nossos costumes. Ainda temos enraizados em nós o egoismo de satisfazer nossas vontades e vaidades…É muito difícil estarmos trabalhando onde gostaríamos, onde sonhamos estar, mas se conseguimos ver alegria em ajudar aquele que está à nossa volta,consequentemente nos sentimos felizes também, não é? Caramba, eu estou sonhando com um mundo possível?

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