Sobre a palavra estimação

Implico muito com a substituição da expressão “animal de estimação” por pet. Não sei bem quando foi que isso aconteceu… certamente tem a ver com a explosão das lojas chamadas Pet Shop, e a “globalização”!, e as redes sociais… Enfim, nesse assunto, eu sou conservadora: gosto de dizer “animal de estimação”. E acho que sei argumentar porque.

É algo que conversa com a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Trata-se da escolha de um objeto do cotidiano que “representa” a relação com a mãe, ou com as figuras maternas (adultos cuidadores), e a relação com a casa, com familiaridade, com um tipo de sensação de presença – mesmo na ausência. Como pessoa de teatro posso ousar dizer que o objeto escolhido não representa o conforto e a segurança… ele é. E o psicanalista diz em seus livros que a “mãe comum” sabe disso (ou seja, não precisa estudar teoria para confortar uma criança) e por isso respeita, cuida, não retira bruscamente para lavar, não o substitui de modo fútil ou corriqueiro… Estamos falando sobre o famigerado ursinho de pelúcia, ou o cobertor, ou a fralda, enfim, paninhos e brinquedos molinhos; mas Winnicott observa que há outros apegos, inclusive a pedaços de madeira, peças soltas de um brinquedo, coisas “duras” também. A isso – o apego a uma coisa do mundo, na tenra infância – ele nomeou fenômeno transicional. Ele transita: entre a mãe e o bebê, entre o que a psicanálise gosta de chamar “mundo interno” e as coisas e pessoas do mundo compartilhado por todos, entre sensações e concretudes. Ele simboliza. Ele ganha significações dadas pela mãe também – que percebe que se deixar o paninho por perto a criança vai usá-lo; o uso do objeto também é um conceito na psicanálise, e o uso criativo do objeto é a saúde psíquica dos humanos, seja a idade que for.

Isso posto podemos falar sobre o uso das ideias teóricas de Winnicott pela indústria cultural: ele mesmo, ainda vivo, citou o cobertor do Linus, nas tirinhas e gibis Peanuts. As ideias teóricas sobre o ato criativo, no caso do Winnicott, vieram de seus pacientes: da observação viva e atenta, do convívio, da comiseração… Seu último livro apresenta a seguinte dedicatória:

A meus pacientes, que pagaram para me ensinar.

O fenômeno transicional hoje, ao menos na nossa língua, entre estudiosos brasileiros, já se chama transicionalidade; e os objetos escolhidos, os objetos transicionais. Winnicott em seus escritos diz que a própria criança abdica do objeto, quando cresce e ganha novos interesses, quando matura.

Quem não estuda psicanálise diz muitas vezes que o objeto que a criança escolheu é de estimação.

Cheguei no ponto: sobre dizer “animal de estimação” – e não “pet”.

Pelo menos comigo faz muito mais sentido… e consigo ver o urso de pelúcia, o cobertor, a fralda, o toco de madeira, etc e sua transicionalidade potencializados nos humanos que escolhem ter animais de estimação. Fazendo o paralelo: animais de apego; animais que transitam: entre nosso “dentro” e nosso “fora”, ou seja, nossa pessoalidade e o mundo compartilhado; penso especialmente no animal que vive por muitos anos, a tal ponto que ele é testemunha de nosso percurso, de nossa vida, de nossos percalços, escolhas, dificuldades, mudanças, e tudo o mais que acontece, no passar de uma década ou duas.

No dia 1 de julho o gato Jerry Lewis morreu em um apartamento da cidade de São Paulo.

Hoje eu moro em Belo Horizonte. Convivi por dez anos com o gato Jerry. Depois, passei no concurso da UFMG e ele ficou em São Paulo com meu filho. Éramos um núcleo familiar de três: eu, meu filho, o gato Jerry; eu migrei; o Jonas e o Jerry foram morar em um apartamento menor que o nosso anterior, e em um outro bairro também. Eles passaram a ser um núcleo familiar de dois. Um tempo depois o gato Jerry tem, como felino, um enorme desafio: ir morar com outros dois gatos, que eram da namorada do Jonas – e assim eles se tornaram um núcleo familiar de dois adultos jovens e três gatos. Deu cinco.

Agora quatro, na ausência do Jerry.

O grau de tristeza que nos toma quando um animal de estimação – não um pet – morre, depois de dezessete anos de vida em comum, só é compreendido por pares: pessoas que também tem ou tiveram animais de estimação – não pets – e perceberam, de modo encarnado (não teórico) o grau de transicionalidade que existe entre humanos e animais. Caso contrário somos julgados e parecemos crianças choronas e despolitizadas, algo como: “Por que se dedicar a um bicho desse modo? E as crianças miseráveis, por que não ajuda-las?” e assim por diante.

Não foi o humano que se dedicou ao bicho.

Foi o bicho que se dedicou ao humano.

O gato Jerry Lewis talvez percebeu que seu dono/companheiro/ser humano que ele testemunhava, ao fazer 34 anos, podia abrir mão do fenômeno transicional que ele representava: abrir mão do papel que o gato tinha em nossas vidas, chegado em primeiro lugar para animar outro gato, que estava ficando sedentário e desinteressado: pegamos o gato Jerry para viver, ou re-viver o gato Tom.

Dito assim parece talvez um daqueles filmes edificantes que mostram um cão e um menino. Mas os filmes fazem tanto sucesso e a gente chora tanto durante sua exibição justamente porque sabemos do que se trata. Chorar no cinema é fazer catarse – outro conceito da teoria do teatro, também emprestado pela psicanálise.

Esta postagem hoje quer ser catártica também: adeus, gato Jerry. Você foi um elo fundamental entre o Jonas e eu, entre o Tom e os humanos, entre racionalidade humana e instinto felino.

Que morte bonita que você nos reservou.

jerry lewis

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