Papelão ou tecnologia?

No último fim de semana (dias 15 e 16 de junho) assisti a dois trabalhos teatrais voltados para crianças: João de Barros, solo de Charles Valadares, e #Mergulho, um espetáculo para crianças pequenas, que faz uso de tecnologia para narrar uma história, apresentada por Sandra Coelho e Leandro Maman. O primeiro estava em cartaz por um único dia, no Espaço do Conhecimento da UFMG, e era gratuito; o segundo ficou em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, grande sucesso de público, com ingressos esgotados, semana a semana, com facilidade.

O contraste entre os dois trabalhos: um baseado fortemente no uso de materiais não-estruturados (aquilo a que nomeio o “brinquedo-sucata”) e outro com forte apelo plástico e visual, pelo uso de tecnologia em cena.

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#Mergulho

Outra diferença que aponto é o fato do trabalho em cartaz no CCBB-BH anunciar, de antemão, ser uma experiência própria para crianças pequenas: “teatro para crianças de 1 a 6 anos”. O leitor frequente das postagens do Agachamento sabe o que penso sobre o “teatro para bebês”… mas fui lá conferir. Dessa vez, me surpreendi, no bom sentido. E posso também revelar que talvez meu julgamento fosse parcial, ou não-isento, em relação ao João de Barros — Charles foi meu orientando de mestrado, e pesquisou justamente este trabalho… Mas penso que são estéticas incomparáveis.

Os trabalhos são incomparáveis porque um remete a uma espécie de infância atemporal, poderíamos até dizer “ancestral” – enquanto que o outro situa a infância de hoje, de uma faixa de espectadores: aqueles que tem acesso ao uso das tecnologias. Deveriam ser todas as crianças… mas sabemos que não é o caso, ao menos no Brasil. Do mesmo modo que os espectadores do #Mergulho pagavam, se maiores de 2 anos de idade, 15 reais o ingresso (30 reais o adulto, somando 45 reais na dupla adulto-criança).

#Mergulho aposta, então, em um palco materializado tal qual um grande tablet; para isso, o chão é constituído por um lugar: espacialidade tecnológica de projeção. Antes de começar, o ator pede aos pais que as crianças não adentrem o dispositivo. Espectadores crianças com um adulto acompanhante entravam antes, e quando o resto dos adultos entra, a organização cênica ao redor do palco-tablet já está dada – procedimento feito de modo muito cuidadoso, devo dizer.

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João de Barros

Em João de Barros também se constrói, diante do espectador, o dispositivo cênico: uma lona que o ator abre, passo a passo, já narrando/anunciando uma viagem ou navegação – cuja “tecnologia” será a imaginação de cada um, acordada pela corporalidade e pela discursividade do ator, e pela invenção incrível da trilha/paisagem sonora.

As noções de infância de cada trabalho vão ficando claras, ao longo das suas encenações. #Mergulho pressupõe uma mente aberta e plástica mas que requer calma e simplicidade, bem como delimitação e contorno dados por adultos; João de Barros é mais barulhento, com sua trilha de marés e entrechos de sonoridades recheadas de mistério e ação. A trilha neste trabalho é essencial para que as imaginações possam aderir à narrativa do ator. Em #Mergulho, mais que a sonoridade o foco é a visualidade, bem como “a magia” de fazer aparecer as projeções, encarnada numa luva amarela usada pelo ator.

A simplicidade que #Mergulho traz está na narrativa: o ator é engolido por uma baleia, a atriz deve salvá-lo, com ajuda dos espectadores (que devem permanecer ao redor do dispositivo-tablet – apenas a uma criança é permitida a entrada, pisar naquele chão, em um determinado momento). Já João de Barros chama as crianças para encenar uma espécie de epílogo, e o dispositivo-lona é “profanado” pelo uso brincante dos corpos de não-atores de todas as idades…

Também o desenho do “para quem” é aquele teatro difere nos dois trabalhos; #Mergulho, ao menos nesta temporada num centro cultural gerido por um banco, cobra ingresso e revela espectadores sofisticados e que compreendem (mesmo na mais tenra idade!) a linguagem do tablet e dos jogos eletrônicos criados por adultos para crianças pequenas; João de Barros, por sua vez, ao remeter aos quintais, fala com todos que tiveram infâncias de brincadeiras de pés descalços. Ou seja, pode não falar com aqueles que não se despem facilmente (e que são vestidos bem limpinhos por suas babás rs) nem brincam com “lixo limpo” (rolinhos de papel higiênico, tampinhas de garrafa, potinhos de iogurte…).

No final, #Mergulho traz mais uma sofisticação: cada pessoa, pequena ou grande, ganha um álbum de colorir, muito bonitinho e bem editado.

No final de João de Barros, pessoas pequenas e grandes fazem teatro por meio da condução do ator: brincam junto, espacializam e corporificam suas imaginações – e levam, como lembrancinha, a memória do trabalho mesmo.

No final de minha postagem, repenso meus pre-conceitos sobre o teatro para bebês, por meio do respeito e da delicadeza que o casal de atores de #Mergulho revelaram. Mas pergunto, tal qual um enigma ou desafio ao leitor: papelão ou tecnologia?

 

 

3 comments for “Papelão ou tecnologia?

  1. Lucas Emanuel
    21 de junho de 2019 at 14:41

    Sábado de tecnologia, domingo de papelão.

    Sempre um prazer visitar este espaço e ter por perto suas reflexões!
    Obrigado, Marina.

    • agachamento
      21 de junho de 2019 at 17:33

      Oi Lucas!
      Fico feliz com suas visitas, e sou eu quem agradeço! Inclusive por optar por papelão E tecnologia rs.
      Bjs da Marina

  2. Charles Valadares
    22 de junho de 2019 at 13:50

    Surpresa boa enxergar, mais uma vez, meu trabalho a partir de suas lentes, Marina.
    Não foi possível ver o #Mergulho, mas consegui imaginá-lo lendo seus escritos. Minha afinidade com seus pensamentos não é de hoje, como você sabe. Sobre a pergunta que lança ao leitor e leitora… imagino que o compromisso ético com a criança pode ser uma das chaves. Penso muito acerca das bandeiras que desejo levantar enquanto professor de teatro e artista nesse nosso tempo. Meu trabalho cênico é um ponto de vista, é minha discursividade materializada, de certo modo. Que o papelão e a tecnologia sejam vias possíveis da relação da(s) criança(s) com o mundo e não sinônimo de desigualdade ou privilégio.

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