Morreu o músico Marcus Félix

Ontem, dia 13 de abril de 2019, morreu o músico Marcus Félix.

Na década de 1990 senti um amor profundo por ele. Um homem bonito e muito carismático, um autêntico pisciano, chegava nos lugares e, rapidamente, tinham três ou quatro mulheres ao redor dele. Mas agia com naturalidade, acostumado talvez desde pequeno a essas abordagens… Era um homem carinhoso e capaz de ser gentil em todos os primeiros contatos. Um dia eu disse a ele:

Fulana já te adora (com uma ponta de ciúmes, é claro)

Ao que ele respondeu, não sem ironia:

Dois palitos para me odiar…

Amor e ódio eram emoções, sentimentos e atitudes bastante presentes na sua vida. Sua capacidade como músico talvez encarnasse sua amorosidade. O uso de drogas, os aspectos de raiva e ódio. Tudo junto misturado.

Era carinhoso, criativo, interessado pelas coisas do mundo mas ao mesmo tempo extremamente angustiado, e ao longo dos anos, foi se tornando infeliz — Infelix, não-Félix, não mais o gato de outrora; sua sombra foi tomando conta da rotina e dos hábitos, precisou ser afastado do trabalho… e quando eu perguntava a alguns colegas da escola, ninguém sabia me dizer como ele andava… (Para as pessoas mais jovens que leem esse texto, lembro que existe no mundo dos desenhos animados “de antigamente” um personagem que é o Gato Félix).

Marcus Félix era muito forte, um touro pisciano, morreu ou deixou-se matar sete vezes, pois era um gato. Até os gatos morrem. Até os touros piscianos fraquejam.

Também para os mais jovens vou dizer: se virem amigos queridos caindo de bêbados na mesa do bar, procurem estar próximos, ao invés de se afastar…

Na década de 1990 tínhamos por hábito beber juntos, muitos dos professores da escola, nas quintas-feiras, depois das reuniões. Um dia Marcus Félix caiu da cadeira. Quase todos riram. A situação com amigos de copo fica então “natural”: ele é assim, a gente pensa.

Eu já estudava Psicologia quando me apaixonei fortemente por ele.

E nada podia fazer.

Um dia ele apenas cochichou no meu ouvido: Estou muito doente, Ma. Em seguida seguiu a conversa macia, como se não tivesse me confessado, ao pé do ouvido, a consciência de sua própria sombra.

Quando alguém assim morre, sempre pensamos como poderia ter sido diferente.

O que, a seguir, vamos fazer sobre isso?

Assumir o inferno do outro como “escolha” é um modo mesquinho de não fazer nada. Por outro lado o inferno do outro nos ameaça e se nos aproximarmos demais, os diabos e o fogo e o cheiro de mercúrio entrarão por todos os nossos buracos.

Amigos da década de 1990 não achavam que tinham a missão de “salvar vidas”. Especialmente ao redor da mesa do bar.

Amigos de artistas, eles mesmos artistas também, tinham certa suportabilidade ao sofrimento encarnado no uso excessivo do álcool. Todos do grupo bebiam junto. Quase ninguém tinha religião. Quase todo mundo tinha comiseração com a miséria humana que crescia a cada semana, mês e ano.

O que poderíamos ter feito?

Espero que todos que leiam essa postagem pensem comigo, junto: ninguém larga a mão de ninguém, hoje a proposta é andar junto, criar redes, um tipo de solidariedade e cumplicidade… mas percebo isso mais no mundo “das Redes” do que no mundo dos copos. Aliás em junho fará sete anos que moro em Belo Horizonte, e por aqui o fantasma do alcoolismo assombra a todos – todas as classes sociais, todos os sexos, todas as idades. Me assusto especialmente com o alcoolismo feminino, quase sempre visto pelas amigas de copo como… empoderamento!

O que eu posso fazer?

No ano passado fiz meu registro no Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais. Pensei que seria importante retomar a profissão e um tipo de possibilidade de intervir, em doses pequenas, no cotidiano das crianças e jovens mineiras. Criei um grupo de pessoas para intervir comigo. Intervenções artísticas como convívio e roda de conversa… Sem algemas, sem tornozeleira eletrônica. Por enquanto estamos estudando, para afinar nosso pensamento.

Quero muito fazer o que não fiz, quero muito não sentir mais que nada fiz, quero também pessoas sãs ao meu redor que façam algo por mim, se me virem na beira do abismo.

Agora meu amigo gato saiu do inferno, está fazendo amizade com Irene na porta do céu.

Direi a ele então: fique bem, veja lá com São Pedro onde estão os violões, cuide de suas mãos e pés, cabeça e coração. (Só agora pude dizer isso. Me perdoa?)

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11 comments for “Morreu o músico Marcus Félix

  1. Raysner de Paula
    14 de abril de 2019 at 18:35

    Marina,

    meu abraço carinhoso.

    Estou/estamos aqui.

    Coragem.

  2. Rosa Maria Comporte
    14 de abril de 2019 at 19:16

    Triste, muito triste…Há menos de um mês ele nos encontrou no metrô. Abriu os braços sorrindo e nos deu um abraço feliz. Abraço.

  3. Alice
    15 de abril de 2019 at 23:29

    Segurando sua mão! Conte sempre comigo!

  4. Patrícia
    16 de abril de 2019 at 00:15

    Sou sua admiradora e já falei isso aqui, ali e acolá. Você escreve e fala de coisas que sinto… Mas não consigo – assim – expressar. Perdi minha avó no final do ano de 2018. No primeiro dia de dezembro. Ela na sua velhice e nos desafios de se saber perene, foi mais sábia, mais amorosa e mais doente. Não acredito em paz na doença. Mas na liberdade… na liberdade, sim. Forte abraço!

    • agachamento
      16 de abril de 2019 at 08:39

      Patrícia
      Sinto muito pela morte de sua avó. E agradeço suas palavras
      Marina

  5. 20 de abril de 2019 at 21:31

    Oi Marina. Sim nosso amigo se foi. Deixou muito carinho espalhado no rosto e nas palavras de muita gente. Eu e seu aluno Fábio Perez tiramos o sebo dos violões dele que estavam quardados há anos e tocamos em sua homenagem. Teremos a missa no dia 25. Vamos? Pensei muito em vc também. Conversamos muitas vezes com o Félix. Me ligou também duas semanas antes. Acho que estava se despedindo. Ah. Seu livro é lindo. Agachemos para conversar com nossos amigos. 1990. Bjs

    • agachamento
      20 de abril de 2019 at 23:14

      Oi Julio
      Que bom ouvir de você…
      1990 pra vc também rs, e para todos
      Não poderei estar presente na missa, ficou complicado sair daqui pois vou me afastar para dois eventos em maio…
      … mas estarei presente de outra maneira, por meio da memória de todos nós, com ele
      bjs da Marina

  6. Liséte Espindola
    22 de abril de 2019 at 10:55

    Marina querida, não a conheci.Sou Lisete Espindola e fui companheira do Marcus. Li e reli atentamente seu texto sobre o Marcus Felix .
    Embora num primeiro momento, acredite em ” homenagens”, registro aqui, meu descontentamento pela forma com que voce se referiu à ele.
    Certas narrativas devem se reservar..Será que à cada um da ” TURMA DE 90″, inclusive voce ao morrerem , irá descreve-los um a um falando das suas fragilidades humanas, com tanta força e exatidão aos quatro ventos?
    Achei um desrespeito e mau gosto à memoria do Marcus.

    Falo porque eu, a Marcia Abraão , onde ele tbm morava, em Peruibe, NUNCA DESCUIDAMOS DELE, NUNCA!!!!
    Ele faleceu em Santos, comigo.
    Eu o levei à todos os tratamentos, todos os médicos, me coloquei à frente nas tratativas com a Emia, desde 2012, quando o psiquiatra atestando ” Depressão profunda” o afastou do trabalho.

    Na Emia, pude contar com o carinho inestimável da Marina,secretaria maravilhosa, amiga, Marcia Andrade, Evandro , Ricardo e do atual Diretor.

    Os amigos que o rodearam sempre, visitando-o, acolhendo-o, cito: Marcia Madaloni e Dermival , seu esposo, Glauco , Julinho, Rosana Massuela e seu ex- esposo, e outros, todos sempre com uma boa palavra para o Marcus e de braços estendidos, o acolheram ate o fim.

    A ideia de que ao se afastar da Escola, ficou abandonado o ” Gato Felix” , não procede.

    MARINA , todos, eu digo TODOS os cuidados foram dispensados ao Marcus , incansavelmente , diariamente!!!!!

    Creio que Deus que é bondade e amor incomparável, recebeu o Marcus, com sua música , divina música, seu violão, sua inteligência impar , sua vivacidade,
    sua linda voz , sorriso largo com seu “lindo beijo “.
    Marcus Felix, nosso amor para voce, resistirá ao Tempo e ao depois……
    Lisete Espíndola

    • agachamento
      22 de abril de 2019 at 11:17

      Oi Lisete
      Com certeza sua leitura é a mais exata, e sinto muito se idealizei ou imaginei algo que não ocorreu… Isso é próprio de quem está distante. Eu não era mais da Emia desde 2008 e moro em Belo Horizonte desde 2012.
      Admiro muito sua capacidade para estar junto dele, e agradeço.
      Para mim não foi possível conviver com todos os aspectos de vida e de morte que ele encarnava.
      Um abraço
      Marina
      p.s.: eu editei o texto, se puder me diga o que pensa dessa versão

  7. Gisele Ramos
    22 de abril de 2019 at 17:19

    Quando cheguei na emia em 94 fui recebida pelos braços e sons do Félix e juntos tocamos seu arranjo de “noite dos mascarados ” para violão e viola no espetáculo do João Caetano! Quanta saudade… hoje os “dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim Quem é você? ” quem somos nós? O que estamos fazendo?
    Marina vc traz uma reflexão tocante nos tempos atuais! Saudades do Félix de você de nós! Obrigada! Giselle

    • agachamento
      22 de abril de 2019 at 18:45

      oi Gisele
      que bom que “se agachou” por aqui… rs
      eu também tenho saudade de “nós”
      1990 sem máscaras nera?
      bjs da Marina

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