Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 3)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 3: APRESENTO UMA BREVE DESCRIÇÃO DA ATITUDE DE AGACHAMENTO QUE A ABORDAGEM ESPIRAL PROPÕE

E como trabalhar na chave da Abordagem espiral?

A resposta me parece ser, ao mesmo tempo, simples e complexa. Para trabalhar nessa chave, precisamos nos dispor a uma escuta aguçada para criar proposições que potencializem os processos criativos das crianças e se afinem com seus interesses. Para tanto, precisamos estar presentes no tempo e espaço do encontro com as crianças, de modo atento aos seus dizeres e às condições do entorno como um todo. A isso Marina chama de “agachamento”.

No ano de 2018, em uma aula com um grupo de crianças de 9 e 10 anos que tem a presença de quatro professores em sala, chovia muito. A chuva era contínua e o som que as gotas grossas provocavam ao cair, era muito alto. De repente, pareceu noite. Eu e os demais professores da turma, já havíamos programado aquela aula e certamente o assunto não se aproximava de questões relacionadas à agua e muito menos à chuva. Porém, reconhecemos que não seria possível ignorar aquele fenômeno e então o convidamos para participar do encontro. Apagamos a luz branca e forte e iluminamos a sala com um refletor de luz amarela pouco intensa. Reproduzimos uma música do grupo Cordel do Fogo Encantado que narra uma experiência com a chuva e chama-se “Preta” e esta, em composição com o som que invadia a sala, tornou-se parte da trilha sonora da experiência. A proposta era clara: Seríamos a chuva! Seríamos as gotas de água e choveríamos juntos pela sala em intensidades distintas. Todos nós, adultos professores e crianças, ocupamos os espaços da sala com movimentos que iam para o chão, na direção que a chuva cai. Evaporamos depois, devagar, até chegar às nuvens… e caímos novamente algumas vezes. Formamos também gotas bem grossas compostas por vários corpos juntos. Experimentamos quedas em velocidades diferentes.

Essa experiência inicial deixou nossos corpos atentos, sensíveis e com uma qualidade de movimento leve e líquida. A partir daí nos deixamos levar pelo som da chuva e da música. Os comandos já não eram dados pela fala dos professores, mas sim, por seus movimentos, gestos e olhares atentos, compartilhados com as crianças. Os corpos-chuva interagiam entre si e com o espaço e já não caíam mais apenas em direção ao chão: saltavam, giravam, respingavam em todas as direções, faziam trajetórias no espaço de maneira lenta e rápida¸ revelando gestos e olhares inteiros e intensos, cheios de vida e simbologias diversas. Assim, chovendo juntos, nos conectamos uns aos outros, com o som da chuva sendo um canal de relação entre nós. No pensamento de Marina, esse tipo de procedimento pode ser chamado de “roteiro de improviso”.

Quando a música já havia tocado pelos menos umas cinco vezes seguidas em looping, nós, os adultos professores, começamos a nos movimentar para transformar a proposta, quando fomos surpreendidos por Natália que, percebendo nossa movimentação, nos perguntou: “O que vocês vão fazer?”. Respondemos algo que demonstrava que transformaríamos a proposta; e ela logo nos alertou: “Não está na hora!”. Respondemos algo como: “Mas a música já tocou umas cinco vezes!”. Natália: “Não tem problema. Estamos adorando a música. Olhem para a sala, olhem como as pessoas estão concentradas e felizes!”

Naquele instante, Natália ampliou os olhares dos professores adultos. De fato, ela tinha razão. Todas as crianças estavam envolvidas de tal modo que aquele espaço estava preenchido de sentimento, de expressividade, de formas simbólicas individuais e coletivas, de respeito mútuo, de acolhimento, de vida pulsante. Percebemos então que, mesmo nos desafiando a permanecer com os sentidos abertos durante todo tempo, em algumas situações agimos a partir de preconcepções (impregnadas ao longo do tempo) e que, por vezes, nos auxiliam na organização, senso de responsabilidade e estruturação das pesquisas com as crianças, mas, por outras, podem limitar situações potentes. Que bom que Natália nos alertou, que nós a escutamos, para fortalecer e alargar ainda mais aquele espaço-tempo de descobertas e compartilhamento de formas de ser e viver no mundo.

A música então tocou muitas vezes mais, até que percebemos que as crianças foram se deitando no chão, pouco a pouco, sem que o comando viesse dos professores, e sim, das suas próprias vontades: de recolherem-se e descansar. Naquele dia, a chuva modificou nossos planos e uma criança acalmou nossa ansiedade, aguçando nossa percepção adulta para o espaço, o tempo e às expressividades e interesses de outras crianças.

Assim, penso que umas das maneiras de nos aproximarmos da Abordagem espiral é mantermos uma atitude agachada – abertura e disposição para nos relacionarmos de forma densa conosco, com os outros e com o espaço-tempo que ocupamos; como diz Marina, a partir da fenomenologia: eu-com-o-outro-no-mundo. Esse modo de pensar, ser e estar no mundo certamente influencia nossos modos de propor processos criativos artísticos com crianças, nos espaços de educação formais e informais, bem como influencia nossos modos de viver nossos cotidianos e nossas relações com as pessoas, com os espaços e tempos que compartilhamos. Saravá!

2 - Imagem Ifim da postagem a convite

 

todas as fotos das três partes da postagem escrita por Priscilla Vilas Boas fazem parte do filme curta-metragem Vai virar prazer na profissão (com pitadas de luto) a ser lançado muito em breve — criação e execução em parceria com Priscilla Vilas Boas e Luiz Eduardo Cotrim.

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