Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 2)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 2: DIGO COMO VEJO A “ABORDAGEM ESPIRAL” PARA O ENSINO DE ARTE

Gosto muito do texto Fazer surgir antiestruturas: abordagem espiral para pensar um currículo em Arte no qual Marina inicia seus dizeres e reflexões em diálogo com o que a pesquisadora Ana Mae Barbosa apresenta como Abordagem triangular para o ensino de arte.

Esse texto nos diz que, se na Abordagem triangular, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são definidos como linguagens artísticas, na Abordagem espiral as artes são pensadas como âmbitos artístico-existenciais e nomeadas por espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades. Se a Abordagem triangular, grosso modo, estabelece-se a partir da tríade contextualização histórica, experimentação e apreciação, na Abordagem espiral a experiência artística está centrada nas crianças mesmas e na dedicação dos professores em potencializar a exploração de seus próprios modos de ser e estar no mundo, a partir do contato com as espacialidades, corporalidades, musicalidades e teatralidades próprias, dos outros e do espaço que ocupam no mundo. Na Abordagem espiral, o termo âmbito no lugar de linguagem procura incluir nos processos de ensino da arte, a experiência estética vivida por todas as pessoas em suas vidas cotidianas, acolhendo seus modos de ser, mover e conviver no mundo. Âmbito significa lugar. Para Marina, o termo linguagem sugeriria a necessidade de aprender pressupostos específicos das áreas artísticas (que seriam do domínio adulto e provavelmente técnico) — e pensar assim pode distanciar as pessoas de reconhecer as ações performativas presentes em suas próprias vidas, bem como atrela a experiência artística aos experts.

No modo espiral de viver processos criativos em arte, as referências são também importantes, mas são apresentadas à medida em que dialogam com os caminhos de pesquisa, apontados por todos. Assim, a Abordagem espiral propõe uma forma íntima de promover experiências de aprendizagem artística: processual e estreitamente conectada com os modos de ser e interesses dos sujeitos envolvidos, adultos e crianças, juntos.

Minha intenção aqui não é fazer contraposição a Ana Mae Barbosa, por quem tenho admiração devido a sua contribuição para a valorização do pensamento sobre educação em arte no país. Sua pesquisa e obra estimularam o reconhecimento da Arte como área de conhecimento humano e são um relevante eixo norteador para o aprimoramento das políticas públicas relacionadas à experiência artística de crianças e jovens.

expressividade das costasAssim, esse meu texto-depoimento/ declaração de amor à abordagem espiral (rs), não tem o intuito de invalidar outros modos de ver e de ensinar arte, mas, antes, sublinha uma maneira conectada estreitamente com meu modo de ser, habitar e ver o mundo.

No meu ponto de vista, na Abordagem espiral não há saberes previamente estabelecidos a serem ensinados e sim, a busca das relações de maneira intensa: dos sujeitos consigo mesmos, com os outros, com o espaço no mundo; com as referências que lhes são apresentadas e com o modo como desenvolvem pensamento-e-sentimento sobre sua própria construção de saberes, de maneira individual e coletiva. Os professores, que são artistas e pesquisadores atentos aos dizeres das crianças lançam mão das referências artísticas, filosóficas, históricas e geográficas que poderão enriquecer muito a experiência de aprendizagem e a qualidade do diálogo estabelecido.

Penso que essa maneira de ver a experiência artística e seu (des) ensino liberta professores e crianças de padrões estabelecidos pelos currículos obrigatórios, alarga os contornos, expande as possibilidades de interação das crianças consigo mesmas, com seus saberes, com os saberes de seus professores, delas mesmas com outras crianças, com o espaço e com o mundo em que vivem – e ainda, disponibiliza mais espaço para que professores e estudantes investiguem formas de expressão ancoradas em seus interesses e modos de ser e estar no mundo.

Fim da parte 2

 

2 comments for “Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 2)

  1. Charles Valadares
    16 de março de 2019 at 11:33

    ei, Priscilla

    que legal (re) ler a Abordagem espiral a partir de sua ótica.
    fiquei com a sensação de compreender outras camadas…
    iniciei, tem pouco tempo, aulas de teatro com adolescentes de uma região periférica de BH, dentro de uma escola que está experimentando o ensino médio integral (fruto da reforma).
    ando cheio de (potentes) conflitos e desejoso que as experiências e saberes veiculados pela prática possam dialogar com o cotidiano dos estudantes e enriquecer suas noções de mundo e de arte.
    a abordagem espiral me parece uma trilha que preciso revisitar!

    obrigado!

  2. Priscilla Vilas Boas
    21 de março de 2019 at 07:14

    Oi Charles!

    Que bom saber que o texto que escrevi contribuiu para a sua reflexão e ação como educador! Assim vamos criando redes de apoio e troca.
    Abraços

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